O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

Ontem começou oficialmente a 31ª Oficina de Música de Curitiba, com direito a discurso do prefeito e, é claro, um concerto de abertura.

Concerto de Abertura da 31ªOficina de Música de Curitiba. Foto Alice Rodrigues

(Foto de Alice Rodrigues, no Flickr da FCC – clique que amplia)

Nas solenidades estiveram presentes este batalhão de autoridades aí da foto: o prefeito Gustavo Fruet (PDT), sua vice Miriam Gonçalves (PT), o presidente atual da FCC – Marcos Cordioli, e a anterior – Roberta Storeli, além da vereadora Julieta Reis e uma secretária de estado que não me lembro o nome representando o governador Beto Richa (PSDB), que não se dignou a aparecer.

De todo o blá-blá-blá que sempre constitui estes discursos, destaco o fato de esta ser a primeira transição entre grupos políticos mais ou menos rivais na prefeitura de Curitiba, desde que Requião entregou o cargo a Jaime Lerner em janeiro de 1989. E eles demonstraram que a transição foi tranquila – obviamente a programação estava toda pronta da gestão anterior, e cabia ao novo prefeito autorizar ou não a realização do evento. Ele não seria burro de cancelar, mas sua presença e seu discurso mostram que o prestígio que ele conferiu ao evento vai além da mera maquiagem/marketagem. Ele lembrou que a primeira Oficina, realizada 30 anos atrás (janeiro de 1983), ocorreu também durante o período de troca de comando na prefeitura, mas naquela ocasião era o pai do atual prefeito, Maurício Fruet, do PMDB, que assumia o cargo entregue por Jaime Lerner. Ambos prefeitos biônicos, mas Fruet representava a abertura democrática, indicado por um governador de oposição (mas nem tanto) eleito pelo voto popular (por coincidência, pai do atual governador do estado – deja vu?)

Depois da falação, veio o concerto.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que não faz muito sentido colocar a Camerata Antiqua de Curitiba (eita nome besta!) no grande auditório do Teatro Guaíra. É um conjunto para tocar na sua própria casa – a Capela Santa Maria.

Em segundo lugar, eu sei que já é tradição fazer isso na Oficina de Música de Curitiba mas bem que a nova gestão podia mudar esses maus hábitos, o concerto de abertura foi como sempre uma salada musical de muito mau gosto.

Começou com um concerto para trompa de Mozart, seguido de um Rondó do mesmo compositor. Serviu para mostrar quanta coisa dá para fazer com uma trompa sem válvulas, instrumento habilmente manejado por Bosjan Lipovsek (Eslovênia), que será professor do instrumento na Oficina. Lipovsek acumulou também a função de reger a orquestra, mas era uma obra que, na verdade, não precisa mesmo de regente.

Concerto de Abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba.Foto : Luiz Cequinel

(foto de Luiz Cequinel no Flickr da FCC – clique que amplia)

Dando um salto temporal gigantesco, o programa passou para o Concerto nº 4 de Radamés Gnatalli para violão. Uma obra excelente para um concerto desses, pois é curta, empolgante, e muito bem orquestrada. Valeu a noite assistir a execução perfeita de um dos melhores violonistas do mundo. Fabio Zanon tocou e regeu, uma obra difícil no instrumento, e que exigia sim, algumas entradas e alguma coordenação dos músicos. Zanon mostrou suas habilidades como regente, coisa que ele tem de sobra, mas pelo que me consta não costuma exercer. Quem conhece o trabalho dele sabe que suas condições de estar no pódio são quase tão boas quanto a de ser o solista. Zanon também deu um show de sonoridade, pois seu violão não precisou de amplificação num auditório tão grande. Isso foi possível, é claro, porque Gnatalli foi sempre um exímio orquestrador, e nisso a obra dele provavelmente é a mais equilibrada no repertório concertante para violão. Fabio Zanon também será o professor do instrumento na Oficina.

Concerto de Abertura da 31ªOficina de Música de Curitiba. Foto Alice Rodrigues

(Foto de Alice Rodrigues no Flickr da FCC – clique que amplia)

Depois disso, um novo salto estilístico e uma volta a Haendel, desta feita com o coro da Camerata, para executar alguns dos Hinos de coroação que o compositor alemão escreveu para a subida ao trono de Jorge II em 1727, e quem vem sendo usados em todas as coroações britânicas desde então.

Na verdade, este salto estilístico para o concerto de Gnatalli foi decorrente de uma mudança na programação. Em conversas com gente da orquestra, tinha ouvido que Zanon iria solar o Concerto de Mauro Giulliani. Na verdade, a mudança salvou a noite, pois tivéssemos ficado só no Mozart e no Haendel o concerto seria uma desgraça.

Sim, porque trazer um regente de tão alto nível como o argentino radicado na Europa Juan Quintana e lhe dar um coro com preparação vocal de Pedro Gória é mesmo uma piada de muito mau gosto. Essa é uma ótima maneira de Curitiba ser motivo de piada mundo afora, já não bastasse termos um conjunto oficial cujo nome remete à música antiga, mas cujos músicos não manejam instrumentos de época e cujo coro teve sempre preparação vocal de uma especialista em ópera oitocentista (Neyde Thomas) substituída agora por um arremedo seu.

Concerto de Abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba.Foto : Luiz Cequinel

(Foto de Luiz Cequinel no Flickr da FCC – clique que amplia)

A gente viu claramente o trabalho de Quintana ao menos na pronúncia do coro, ensaiada com uma meticulosidade exemplar. O regente será o professor de Coro Barroco na Oficina, e ensinará os alunos a não cantar música barroca como o coro da Camerata.

Em linhas gerais, o concerto manteve o padrão Oficina de Música de Curitiba: o evento prioriza os cursos, sempre muito bons e com ótimos professores, e a sua programação de concertos é uma improvisação esdrúxula com o que dá para fazer misturando os professores renomados com os grupos daqui, sem preparação suficiente e em espaços inadequados. Some-se a isso, a necessidade de os alunos se apresentarem também diversas vezes, e teremos uma programação bastante diversificada ao longo do mês, mas também bastante “avacalhada”. Coisa muito divertida para quem vem passar o mês em alojamentos ou pousadas baratas, tendo aulas o dia inteiro, assistindo os concertos à noite e saindo para festar depois.

Mas 30 anos de Oficina já são tempo suficiente para o Festival amadurecer e profissionalizar sua programação de concertos. Se o novo prefeito começar a trabalhar imediatamente, ainda dá para salvar a programação de 2014, ano em que o Brasil estará sob holofotes internacionais. Para isso, a Oficina precisaria ter uma direção artística que pensasse a programação de concertos de maneira integrada, como já se faz muito melhor em Festivais como o de Campos do Jordão, e como já tentou fazer o maestro Osvaldo Colarusso nos breves tempos em que dirigiu o festival de Londrina.

Só para dar um exemplo: o concerto de abertura, no Guairão, deveria ser feito pela Orquestra Sinfônica do Paraná, e poderia ser o concerto mais importante de sua temporada, com um programa realmente de peso. Em vez disso, a Camerata foi convocada para esta salada apresentada. E a OSP vai fazer um concerto completamente apagado, no meio da programação.

Restam alguns outros programas interessantes para se assistir, naquilo que vai depender dos professores e/ou grupos que vem ministrar cursos. Já dei minhas opiniões sobre a programação para o Rafael Costa, repórter da Gazeta do Povo que fez, como sempre vem fazendo, uma ótima reportagem sobre a programação de concertos da Oficina. Vejam lá.

Reforço o que já disse para a reportagem: o grande programa desta Oficina serão os dois concertos do quarteto português Lopes Graça. O primeiro hoje às 19:00 horas no Paiol, e o outro na segunda-feira às 20:30, na Capela Santa Maria.

Sem tempo para assistir tudo, porque, afinal, estou de férias com crianças, selecionei ainda mais algumas coisas que considerei essenciais na programação, e que me propus a assistir (depois virão as críticas aqui). A Sonata para dois pianos e percussão de Bártok, no dia 17, o concerto com obras de Bach “suingado” com a cravista Beth Fadel dia 18, mas que infelizmente é no mesmo horário do Willy Gonzáles trio, que eu devo assistir. Esse já é parte da programação de Música Popular da Oficina, e terá mais uma apresentação dia 19.

Também boto fé no Michelangelo 4tet, que se apresenta dia 20, e tem muito mais coisa, mas comento depois sobre a parte de Música Popular, que, como de costume, vem fazendo uma programação de espetáculos bem mais interessante que a de Música Erudita. A programação de Música Antiga também está muito boa, concentrada em Bach, mas é para um público mais especializado.

Fica dado o recado. Se a administração Gustavo Fruet quer mesmo recolocar Curitiba no caminho de uma cidade de vanguarda no Brasil, precisa começar repensando de forma articulada toda a programação cultural mantida pela prefeitura. A Oficina de Música inclusive.

6 thoughts on “O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

  1. Vicente Ribeiro

    Grande André,
    Faço votos para que, no meio dessa correria de férias com as crianças, você consiga arranjar um tempinho pra conferir o show Camerata Brasil, dia 28, às 19h, no Paiol. Eu e Suzie ficaríamos muito felizes com sua presença. Abraço!

     
  2. fabio

    André, antes de postar comentários falando sobre o trabalho de músicos como Pedro Gória, você deveria se informar melhor de quem realmente preparou o coro para a apresentação. Esta se chama Helma Haller, e ela que prepara o coro para entregá-la ao maestro, portanto se o que você assistiu não te agradou, é porque o trabalho dela não foi bom o suficiente. E seja mais especifico quando falar oo que é uma piada, fale tecnicamente, porque esse tipo de crítica é somente destrutiva. A maestrina não conseguiu em 7 anos afinar o coro, então o que pode o Pedro Gória em 1 ano fazer. Procure se informar, como faria um bom jornalista, antes de postar informações erradas.
    A classe artística agrade.

     
  3. Ricardo

    Nossa Andre, voce deve odiar a Camerata Antiqua de Curitiba para dizer que o nome e besta. Cuidado, ta pegando mal essa sua aversao. Ta ficando muito pessoal. mas concordo queno nome e besta mesmo, prefiro a OSP, faca uma campanha para acabar com o nome e se possivel com a Camerata, talvez os musicos que la trabalham a 40 anos resolvem ser todos didaticos como voce. Vai faltar vaga na universidade.

     
  4. André Egg

    Ricardo, não se trata de odiar. O nome não diz o que é a proposta do grupo. Só isso. E não quero acabar com a Camerata não. Quero que ela fique cada vez melhor, com uma programação mais profissional. Mas se for para ter um grupo especializado em música antiga, terá que ser outro.

     
  5. André Egg

    Fabio, o coro afina bem sim senhor. E os concertos que a Helma Haller preparou estiveram entre os melhores que eu já vi do coro. A Camerata é motivo de piada por ter um nome que sugere ser um grupo especializado em música antiga, mas canta muito pesado. Curitiba é motivo de piada por pensar que é um polo muito importante de música erudita, e não é não.