A temporada 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Osvaldo Ferreira em foto de Lucilia Guimarães

A foto está no Flickr da Fundação Cultural de Curitiba.

Osvaldo Ferreira assumiu a orquestra em 2011, a convite do novo governo do estado. Já comentei a programação de 2011, que avaliei bastante positiva. Em linhas gerais, era uma ano para começar as coisas do zero. A orquestra vinha de uma situação grotesca de abandono por parte do governo do estado, que se resumia na falta de programação (as coisas eram definidas em cima da hora) e na absoluta falta de protagonismo.

Isso mudou bastante desde 2011. A nova administração estadual tomou a decisão de solucionar ao menos a parte mais visível do descaso que vitimava nossa orquestra nos anos recentes. Convidou um bom regente titular e a orquestra ganhou uma programação anual. Coisa obrigatória, mas que a OSP não tinha desde sei lá quando (se é que já teve). Isso não era estranho no Brasil, pelo fato de que outras orquestras não estavam em situação melhor.

Tornou-se uma vergonha à medida em que o país começou a ter orquestras decentes com programação estável: a OSESP e a Filarmônica de Minas Gerais são os casos mais conhecidos. O nível de mediocridade está subindo no Brasil, e isso é bom, porque todo mundo precisa se mexer.

A programação de 2011 foi muito boa, especialmente se levarmos em conta que teve de ser definida às pressas por um novo governo e um novo maestro titular. Deste modo, podemos dizer que 2012 é o primeiro ano que a orquestra teve uma programação organizada com calma e antecedência, ou seja, podemos cobrar um pouco mais.

Antes de dar a programação completa, alguns comentários gerais:

Osvaldo Ferreira já provou seu valor à frente da orquestra da cidade. Não é tarefa nada fácil ser regente contratado numa orquestra que tem muitos músicos como funcionários estáveis. As carreiras públicas no Brasil são estúpidas em questões de estímulo ao desempenho, e a estabilidade soa quase como a única vantagem para o trabalhador. Nestas condições, é difícil os músicos adotarem uma postura mais “empreendedora” e fica complicado ousar muito no repertório. Mas o maestro vem conseguindo equilibrar muito bem esta dinâmica. Dos concertos que assisti até agora, só tive alguma ressalva ao Concerto de Schumann – além de eu não ter gostado da peça, dava perceber algo como uma falta de entrosamento em algum ponto da relação maestro-orquestra-solista. No mais, Ferreira vem manuseando a batuta com brilhantismo. Merece também um comentário à parte o imbroglio com o Coro Sinfônico para a Segunda de Mahler, mas isso é assunto para um texto a parte, que deverá sair em breve. Em todo o caso, posso dizer aqui que Ferreira faz o que pode, e não se deve exigir dele que resolva os problemas que são da administração pública e do meio musical da cidade. Veja os concertos que já receberam minha crítica com o maestro no comando:

A estréia de Osvaldo Ferreira com a Sinfônica do Paraná: Guarnieri, Tchaikovsky, Beethoven

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: Dottori, Schumann e Tchaikovisky

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: a Sinfonia nº 2 de Mahler

Sobre a programação deste ano, percebo uma evolução de qualidade em relação a 2011. Os compositores locais estão representados devidamente, apesar de ainda faltarem estréias: teremos obras de Rogério Krieger, Flíblio Ferreira de Souza, Harry Crowl, Maurício Dottori. A música de compositores brasileiros está menos representada do que ano passado, mas Festa das Igrejas, de Mignone quase compensa o problema. Sobrou um espacinho para Henrique Oswald, Nepomuceno, Guerra Peixe, Edino Krieger e João Guilherme Ripper. Em 2012 temos menos coisas do manjado repertório germânico do século XIX, e mais obras instigantes do século XX, com coisas de Poulenc, Britten, Shostakovich, Debussy, Bartok, Prokofiev, Lutoslawski, Penderecki, etc.

Se tivesse que definir qual a principal atração do ano eu entraria em sérias dificuldades. E isso é muito bom. Ter várias coisas simplesmente fabulosas para deixar um crítico em dúvida de qual será a melhor novidade é realmente algo inusitado na vida cultural curitibana. Em primeiro lugar, tendo a considerar a Sagração da primavera com balé como a principal coisa da temporada, e de todas as temporadas já havidas na cidade. Mas olhando com mais atenção, fico pensando se é menos fantástico ter Penderecki em pessoa regendo seu Concerto para viola no encerramento da temporada. Ou talvez seja ainda mais importante saber que não tem nenhum concerto na temporada que eu não tenha ficado com muita vontade de ver – o que é uma coisa que poucas orquestras de qualquer lugar conseguem fazer nos nossos dias. Basta lembrar que as orquestras estão em geral perdendo a concorrência para a música gravada ouvida no conforto dos lares, num fenômeno de público que vem sendo chamado de “não frequëntador culturalmente consciente”.

Melhor do que tudo isso é pensar que o caminho que a orquestra vem trilhando abre possibilidades de grandes resultados no médio prazo. Isso porque em 2012 definitivamente o pessoal que administra a orquestra decidiu que deixá-la presa no Teatro Guaíra tocando para um público de sinfonias clássicas que não vai mais a concertos não é a melhor política cultural. Em 2012 a orquestra está fazendo grandes gestos de aproximação com o público e com a comunidade, o que só aumenta sua relevância para a cena cultural. Em janeiro a orquestra fez um concerto na Oficina de Música, tendo como público alguns dos principais estudantes de música do país. Durante o ano sai de Curitiba para concertos em União da Vitória, Maringá, Apucarana, Londrina e Araucária. Há ainda a louvável iniciativa de realizar concertos em igrejas, com um repertório mais de clássicos amenos – ou seja, uma oportunidade de fisgar o ouvinte não habituado a ir ao Teatro Guaíra e pouco interessado em repertório de ponta. São 4 concertos na temporada, dedicados principalmente ao repertório do século XIX. E o melhor de tudo são os 5 concertos dedicados ao público infantil, dos quais 3 já foram realizados (veja matéria de Rafael Costa na Gazeta do Povo sobre o primeiro). Estes são os únicos concertos que você tem que comprar ingresso com antecedência e chegar bem cedo ao Teatro senão não pega vaga de estacionamento na rua nem assento na platéia. Desnecessário dizer a importância que isso tem num país que praticamente não oferece nenhum tipo de programação cultural para crianças, que são educadas pela televisão aberta (!!!)

As únicas coisas que me dão um certo medo são a participação da orquestra na virada cultural, talvez num palco totalmente inadequado, e a participação no Curitiba Jazz Meeting tocando com Jean Luc Ponty – temerário tanto do ponto de vista do jazz como do ponto de vista da música sinfônica.

A programação está toda aqui no sítio do Teatro Guaíra, por ordem de data. Mas eu vou transcrever aqui separando por tipo de programação, o que talvez facilite entender a coisa.

Concertos para crianças (e adultos):

18 de março – obra principal: Carnaval dos animais de Saint-Säens

15 de abril – obra principal: Pedro e o lobo de Prokofiev

20 de maio – contos fantásticos: Sheherazade de Rimski-Korsakov, Branca de neve de Tchaikovski e Baba-Yaga de Mussorgski

26 de agostoRomeu e Julieta em versões de Tchaikovski e Prokofiev

23 de setembroAs aventuras do príncipe Achmed (filme alemão de animação de sombras, de 1926: criação de Lotte Reiniger e música de Wolfgang Zeller)

Os concertos para crianças tem a animação do palhaço Sarrafo.

Sinfônica itinerante:

24 de março, União da Vitória – Guerra Peixe, Museu da Inconfidência; J. S. Bach, Concerto para violino e oboé BWV 1060; Bartok, Danças Romenas; Bizet, Suite da ópera Carmen. Regência de Márcio Steuernagel. Solistas Rafael Ferronato (violino) e Fernando Thá (oboé).

13 de julho, Maringá

14 de julho, Apucarana

16 de julho, Londrina

Nos três concertos o mesmo programa: Sibelius, Concerto para violino; Beethoven, Quinta Sinfonia. Regência de Victor Hugo Toro. Solista Nicolas Koeckert.

16 de setembro, AraucáriaPedro e o lobo de Prokofiev (concerto para crianças e adultos)

Concertos nas igrejas (todos em Curitiba):

4 de abril, Primeira Igreja Batista – Mahler, Segunda Sinfonia. Regência de Osvaldo Ferreira.

19 de abril, Igreja de Santo Agostinho – Nepomuceno, Suíte Antiga; Beethoven, Romanza op. 50; Mendehlsson, Quinta Sinfonia. Regência de Norton Morozowicz. Solista Bettina Jucksh (violino).

29 de junho, igreja não informada – Haydn, Concerto para violoncelo em Dó menor; Schubert, Quinta Sinfonia. Regência de Daniel Bortolossi. Solista Maria Alice Brandão.

14 de setembro, Comunidade Luterana do Redentor – Ravel, Le tombeau de Couperin; Mozart, Sinfonia concertante K 297; Henrique Oswald, Sinfonia op. 27. Regência de Julien Benichou. Solistas Paulo Barreto (oboé), André Ehrlich (clarinete), Jamil Bark (fagote) e Edivaldo Chiquini (trompa).

Programação principal (Teatro Guaíra):

11 de janeiro (Oficina de Música) – Beethoven, Abertura Egmont; Poulenc, Concerto para 2 pianos; Beethoven, Sinfonia nº 7. Regência de Osvaldo Ferreira. Solistas Olga Kiun e Piotr Banasik.

11 de março – Britten, Concerto nº 1 para violino; Shostakovich, Sinfonia nº1. Regência de Osvaldo Ferreira. Solista Magdalena Filipczak.

10 de abril – Mahler, Segunda Sinfonia. Regência de Osvaldo Ferreira. Solistas Masami Ganev (soprano) e Adriana Clis (mezzo). [minha crítica deste concerto]

29 de março – Mendelssohn, A gruta de Fingal; Prokofiev, Primeira Sinfonia; Schumann, Terceira Sinfonia. Regência de Hans Peter Franck.

30 de maio – Rogério Krieger, Motus Sinfonicus; Joaquin Rodrigo, Concierto de Aranjuez; Debussy, La mer. Regência de Osvaldo Ferreira. Solista Fábio Zanon (violão). [minha crítica deste concerto]

21 a 24 de junho – Stravinski, Sagração da Primavera. Balé Teatro Guaíra. Coreografia de Olga Roriz. Regência de Osvaldo Ferreira.

29 de julho – Debussy, Prelúdio à tarde de um fauno; Mendelssohn, Concerto para violino e cordas em Ré menor; Ravel, Mamãe ganso. Regência de Silvio Viegas. Solistas Sérgio Monteiro (piano) e Gabriela Queiroz (violino).

5 de agosto – Lutoslawski, Pequena Suite; Wieniawski, Concerto para violino nº 2; Karlowicz, Canções Eternas op. 10; Wojiech Kilar,  “Krzesany” . Regência de Antoni Wit. Solista Aleksandra Kuls.

19 de agosto – Brahms, Concerto duplo; Mignone, Festa das Igrejas; Respighi, Impressões brasileiras. Regência de Francesco La Vecchia. Solistas Luis Gustavo Surgik (violino) e Ana Helena Surgik (violoncelo).

2 de setembro – Bartok, Concerto para violino nº 2; Sibelius, Segunda Sinfonia. Regência deOsvaldo Ferreira. Solista Priscila Vargas.

28 de setembro (Teatro da Reitoria) – Flíblio Souza, Terra Incognita; Harry Crowl, Concerto para violino nº 2; Maurício Dottori, A rosa trismegista, aberta ao mundo; Kodaly, Danças de Galanta. Regência de Márcio Steuernagel. Solista Egidius Streiff.

7 de outubroCuritiba Jazz Meeting, com Jean Luc Ponty e regência de Osvaldo Ferreira.

21 de outubro – Edino Krieger, Passacaglia para um Novo Milenio; Prokofiev, Concerto para piano nº 3; Shostakovitch, Quinta Sinfonia. Regência de John Neschling. Solista Ching-Yun Hu.

28 de outubro – Mahler, Lieder “Eines Fahrenden Gesellen” ; Rachmaninov, Segunda Sinfonia. Regência de John Neschling. Solista Romina Boscolo (mezzo).

18 de novembro – Vassily Brandt, Konzertstück n°1; Oscar Böhme, Tarantella; Rachmaninov, Danças Sinfônicas op. 45. Regência de Osvaldo Ferreira. Solista Reinhold Friedrich (trompete).

25 de novembro – João Guilherme Ripper, Psalmos; Gershwin, Rhapsody in Blue; Tchaikovsky, Quarta Sinfonia. Regência de Ricardo Castro. Solista Ricardo Castro (piano).

2 de dezembro – Debussy, La Damoiselle Élue; Stravinsky, Pássaro de Fogo. Regência de Osvaldo Ferreira. Com o Collegium Cantorum Coro Feminino, sob regência de Helma Haller. Solistas Marília Vargas (soprano) e Ariadne Oliveira (mezzo).

7 a 9 de dezembro – Stravinski, Sagração da Primavera. Balé Teatro Guaíra. Coreografia de Olga Roriz. Regência de Osvaldo Ferreira.

14 de dezembro – Marcio Steuernagel, estreia de uma obra (ainda sendo escrita?); Penderecki, Concerto para viola; Dvorák, Oitava Sinfonia. Regência de Krzisztof Penderecki. Solista Alexandre Razera.

P.S. A programação, os maestros convidados, os solistas, o alcance social – tudo está ótimo na temporada. Agora que tal o Teatro Guaíra e a Orquestra providenciarem um site decente? Que tal vender ingresso pela internet? E assinaturas?

P.S.2 Continua faltando programar óperas. Uma ausência absurda na vida cultural da cidade.

P.S.3 A qualidade da programação da Sinfônica evidencia ainda mais os problemas de direção artística que acometem a Camerata Antiqua de Curitiba. Compare-se a programação da OSP com a da Camerata para 2012.

Leia também:

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

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