A abertura da Oficina de Música 2014

No último domingo o Guairão sediou a cerimônia de abertura da 32ª Oficina de Música de Curitiba. Primeiro aconteceu a cerimônia com as autoridades, depois o concerto da Camerata Antiqua de Curitiba.

Na parte das autoridades, algumas coisas muito interessantes mostram que a coisa pode estar no caminho certo, enquanto outras coisas mostram que muito ainda precisa mudar. Em primeiro lugar, Gustavo Fruet deu novas mostras de como é um prefeito integrado à vida da cidade, sem frescuras, como devem ser os grandes políticos. Eu estava na porta do Guaíra quando ele chegou – sozinho (ou com um assessor, não sei) e a pé. Ao contrário do Governador Beto Richa que ano passado foi assistir a um concerto no mesmo teatro, mas tinha 3 ou 4 carros oficiais de inúmeros seguranças empaletozados. Naquela ocasião cheguei a imaginar quando viria a liteira.

Gustavo Fruet chegou como pessoa normal, sem parafernálias. Cumprimentou conhecidos e subiu. Seu discurso oficial, durante a cerimônia, acertou no ponto, ao demonstrar a importância do evento para a cidade, a busca de uma integração entre a Oficina e políticas um pouco mais amplas. Isso conjugado ao respeito pela história do evento, personificado nas homenagens a Ingrid Serafim e Paulo Bosísio, idealizadores, fundadores e por muitos anos diretores do evento.

Por outro lado, a homenagem, se é boa ao lembrar e dar crédito a quem tem todos os méritos pela existência do evento e por sua realização durante tantos anos, por outro lado expõe os limites a que a Oficina vem se submetendo, fazendo a política cultural esbarrar num bairrismo indesejável. Se Ingrid Serafim e Paulo Bosísio ficaram muitos anos à frente da Oficina, isso nos faz lembrar um certo bairrismo que transformou a Oficina num evento muito com a cara de poucas pessoas. Sempre os mesmos professores, sempre os mesmos concertos, sempre o mesmo formato. E tudo muito na boa vontade de gente que se desdobrou para organizar um evento com a cara e a coragem, mas com poucos apoios e pouca verba.

Está mais que na hora de superar isso. Curitiba é uma cidade grande, tem um orçamento grande, pode assumir um protagonismo muito maior se quiser. Querer isso seria fundamental para repensar muita coisa da Oficina. Afinal, os mesmos vícios que fizeram a Oficina ficar muito com a cara de Ingrid Serafim e Paulo Bosísio nos anos 1980 e 1990 (um pouco de Roberto Gnattali na música popular) agora estão se conformando demais ao jeitão da Janete Andrade, do Sérgio Albach e do Glauco Solter. A Oficina tem que ser da cidade, não de um punhado de gestores culturais. É preciso ampliar o escopo do evento como política pública, questão estratégica de uma política que articule música, cultura, educação, turismo e inovação. Estamos longe disso. E se o discurso do prefeito pareceu apontar para a vontade de tomar uma direção assim, é preciso ir além do discurso e coordenar melhor as possíveis questões envolvidas – principalmente as verbas e a coordenação dos diversos aspectos das políticas públicas que podem estar envolvidos.

Eu falei em algumas caras que são sempre as mesmas e vão estagnando algumas coisas na Oficina de Música. A menos a parte de Música Antiga vem se dinamizando, com a chegada de Rodolfo Richter que já fez a direção musical desta parte desde o ano passado. É um músico de grande competência, não há dúvida. Filho da cidade com trânsito internacional em altíssimo nível. Trazer mais gente como ele podia ser um ótimo exemplo.

Mas mesmo aí podemos encontrar um problema: o concerto de abertura, muito bem dirigido, muito bem ensaiado e muito bem tocado, dentro dos limites que o conjunto da Camerata Antiqua de Curitiba possibilita, partiu de uma concepção limitadora do que é um evento como a Oficina de Música. Foram três cantatas de Bach, e uma obra encomendada para a comemoração do aniversário de 40 anos do conjunto que talvez seja o mais célebre da cidade.

Recapitulando: ano passado o concerto de abertura foi com a Camerata Antiqua de Curitiba e teve Handel, Mozart e Gnatalli (minha crítica está aqui). Este ano tivemos 3 obras de Bach e uma peça encomendada. Tá, foi muito melhor agora com o conjunto regido por um especialista em música barroca. O resultado apareceu de maneira clara. Até o coro mostrou estar muito melhor orientado do ponto de vista da técnica vocal. Numa das peças percebemos que optou-se por intercalar cantores de naipes diferentes, ao invés de agrupar cada voz em uma parte do estrado. Tudo deu resultado muito melhor, e o principal problema do coro que era o de ser uma soma de solistas, e não um conjunto vocal coeso, esteve bem melhor encaminhado desta vez.

Mas na hora de pensar a programação acho que é preciso um pouco mais de ousadia. Precisaria pensar em fazer um concerto de abertura que pudesse receber o interesse de jornais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Nova York, Londres, Berlim, Paris. E por aí afora. Que significado tem para o mundo a Camerata fazendo cantatas de Bach e estreando uma peça do Ronaldo Miranda composta sob encomenda?

Nada contra as obras, foram todas de grande beleza, e a foto que ilustra este post foi escolhida para representar o que foi na minha opinião o momento mais sublime do concerto – um conjunto reduzido realizando uma bela execução da BWV84. Do ponto de vista da qualidade da execução musical, talvez tenha sido um dos momentos mais felizes da Camerata. Exceto pelo fato, me desculpem repetir o que já escrevi ano passado, de que o Guairão não serve para este tipo de música. Se os caras que organizam não sabem a diferença que faz o tipo de auditório para o tipo de música então estamos perdidos.

Mas se for para investir na música antiga poderia ter sido pensada alguma coisa mais ousada em termos de repertório. Intercalar uma cantata de Bach com outras coisas menos conhecidas que chamassem à atenção pela novidade. Ainda tem obra de compositor brasileiro antigo esperando estreia moderna, por exemplo.

Se fosse para investir no potencial do conjunto para estrear obras encomendadas, seria necessário pensar em coisas que dessem a dimensão da importância que Curitiba pretende assumir. E o Ronaldo Miranda não deveria ser o horizonte para isso. É um ótimo compositor, sua música é muito bela. Mas sua linguagem é conservadora, e ele não está entre os mais importantes compositores vivos, nem do Brasil, muito menos do mundo. Na verdade, em Curitiba mesmo a gente acharia pelo menos uns cinco compositores mais significativos para se encomendar obra (basta olhar o pessoal que anda fazendo a Bienal Música Hoje para entender o que eu estou falando).

Ou talvez o negócio seja esse mesmo. Porque a mesmice musical que o concerto de abertura assumiu desbragadamente é bem a cara dessa curitiba “leite quente”, bairrista, conservadora, chata, focada no próprio umbigo. De minha parte preferia planejar políticas que superassem esse estigma. E se a gente ver bem, a vida musical da cidade já faz tempo que assumiu uma dinâmica que não permite mais ficar nisso. Falta o poder público enxergar isso de maneira estratégica e a gente pensar uma Oficina que seja mais a cara que podemos dar para as políticas culturais numa cidade pioneira e relevante.

Uma coisa pelo menos aponta na direção correta, corretíssima: o prefeito anunciou que o encerramento será com Garibaldis e Sacis na Boca Maldita. Parece que foi uma jogada que partiu da própria prefeitura e/ou da FCC. Se foi, talvez o prefeito tenha mais noção do que seja o protagonismo cultural que precisamos do que os próprios organizadores da Oficina.

9 thoughts on “A abertura da Oficina de Música 2014

  1. Pádua Fernandes

    Prezado André Egg,
    ótimo texto, com sua aguçada visão crítica. Porém, porque já ouvi várias das peças deste compositor (tive até de cantar uma delas), e ainda me aterroriza a lembrança da ópera Dom Casmurro, da qual nenhum músico teria ciúmes, eu discordaria da segunda frase deste trecho:
    “Ronaldo Miranda não deveria ser o horizonte para isso. É um ótimo compositor, sua música é muito bela. Mas sua linguagem é conservadora, e ele não está entre os mais importantes compositores vivos, nem do Brasil, muito menos do mundo.”
    No tocante às outras, estou completamente de acordo.
    E Harry Crowl, que é bem mais interessante, continua em Curitiba?
    Abraços,
    Pádua

     
    1. André Egg

      Oi Pádua, obrigado pelo comentário.
      Não sei se entendi bem, mas você discorda de eu considerar o Ronaldo Miranda um ótimo compositor?
      O Harry Crowl é provavelmente o melhor compositor ativo em Curitiba. Continua aqui, trabalhando bastante. Tem peças dele estreadas em outros concertos da Oficina. Tem peças dele estreadas em vários concertos ao longo do ano. Mas pelo que me consta a Camerata nunca tocou nada dele, muito menos encomendou obra. E ele seria o compositor de maior projeção radicado aqui na cidade, embora pudéssemos citar vários outros igualmente importantes e talvez melhores que o Ronaldo Miranda. Por exemplo Maurício Dottori, Márcio Steuernagel, Felipe Ribeiro, para ficar apenas nos que tiveram obras fantásticas incluídas nas bienais realizadas em 2011 e 2013.

       
  2. Pádua Fernandes

    Olá, é isso mesmo: acho que o Brasil tem nomes bem mais interessantes do que o acadêmico (no mau sentido) Ronaldo Miranda. E Dom Casmurro não é uma obra feliz…
    Abraços, Pádua

     
  3. Pingback: O concerto de encerramento da 32ª Oficina de MúsicaAndré Egg

  4. Aslan

    Prezado André,

    A Camerata já apresentou sim, coisas do Harry Crowl e do Márcio Steuernagel, (deste último, bem recentemente, pelo que sei). Informe-se antes de escrever as coisas no intuito de apenas criticar o grupo, como é de seu costume.

    Saudações,

    Aslan

     
  5. Aslan

    Trecho extraído da Webpage do próprio compositor, Harry Crowl:

    “A Cantata, “Turris Ebúrnea” (1999/2000), para solistas, coro e orquestra de câmera, foi composta especialmente para os 25 anos da Camerata Antiqua de Curitiba. Esta obra, baseada em textos de vários poetas paranaenses, foi apresentada em duas ocasiões pela Camerata em 2000. ”

    Ou seja… SIM, o grupo já apresentou coisas deste compositor.

    Saudações.

     
  6. Aslan

    Você não irá publicar meus comentários, prezado André? Ué, o que teme? Só porque estou bem informado e você não? Que feio.

    Abçs.

     
    1. André Egg

      Desculpa aí – foi apenas a demora em acessar o painel de administração da página. Por definição, a maquinaria espera que eu libere o primeiro comentário de um novo comentador. Depois disso, fica sempre liberado.

      Aslan, veja que a Turris Ebúrnea que você menciona foi coisa de 15 anos atrás. Eu não apenas critico o grupo, destaco o que eu vejo de positivo e falo do que acho que deveria ser diferente. De qualquer forma, é apenas a minha opinião, existem outras.