Abril de 2017

Eu sei, eu sei, foi mal. Está bem tarde para escrever sobre abril de 2017. É que abril foi um mês agitado. Começou o ano letivo 2017 na UNESPAR, e eu assumi várias disciplinas. Estou com um conjunto de matérias e turmas que eu não tinha desde 2014. Então, mais trabalho para preparar tudo (sem falar que a definição de quais matérias cada um assumiria foi muito tarde, por causa de um entrave jurídico no Teste Seletivo que impediu a contratação de um professor substituto). Além disso, tem as orientações de IC e de mestrado, o Grupo de Pesquisa

Lançamento do livro

Uma das coisas que agitou abril foi a organização dos eventos de lançamento do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno, que eu organizei e saiu pela Editora CRV.

Estamos fazendo eventos acadêmicos, onde vários autores participam de uma mesa para conversar sobre seus capítulos. O primeiro foi na FAP (UNESPAR – Campus de Curitiba II), no dia 11 de abril. E o segundo foi no Programa de Pós-Graduação em História da UFPR, no dia 17. Contei sobre ambos neste post:

Lançamento do livro Música, cultura e sociedade

Tem outros eventos programados (e um até já aconteceu na EMBAP, Campus de Curitiba I) – mas isso é assunto para maio.

Capa do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno

O importante é que o livro foi resultado de pesquisas que estão somando um esforço reflexivo, e que faz parte do processo para criarmos um mestrado em música na UNESPAR. Já participamos duas vezes do processo de avaliação da CAPES, e ainda não fomos aprovados. Continuamos insistindo.

Tenho exemplares do livro para vender (já vendemos quase metade da cota que pegamos na editora) – quem quiser pode procurar comigo. O livro está à venda na Livraria da Travessa. Também é possível encomendar pelo site da editora.

Posts no blog

Pelos mesmos motivos do atraso com este post, não saiu muita coisa aqui no blog em abril. A lista vem a seguir, e inclui um post já linkado acima:

Já estão no ar meus Planos de Ensino 2017

Lançamento do livro Música, cultura e sociedade

Eduardo Jardim: Eu sou trezentos – Mário de Andrade, vida e obra

Veja também os posts sobre os meses anteriores:

Março de 2017

Fevereiro de 2017

Janeiro de 2017

Minhas aulas na UNESPAR

Abril foi o mês da retomada. Começamos o calendário 2017, e pretendemos fechar este ano alinhando o calendário acadêmico com o calendário solar. Devido a problemas com o vestibular, greves docentes e ocupação estudantil, passamos os últimos anos às voltas com calendários irregulares. Agora acho que podemos terminar o ano no prazo e começar 2018 na época propícia.

Este ano não escrevi posts novos aqui no blog sobre minhas disciplinas. Mas tem posts dos anos anteriores que estou usando nas aulas. Além disso tem links para alguns slides que ando mostrando para os alunos. As disciplinas que eu trabalho são História da Música I, II, III e IV no curso de Bacharelado em Música Popular e História da Música e História da Música Brasileira no curso de Licenciatura em Música.

A seguir os links referentes aos assuntos das aulas de abril:

Slides de uma aula sobre a República Musical

Slides de uma aula sobre Beethoven

Slides de uma aula sobre Música de teclado no séc. XVII

Post A música grega antiga aqui no blog

Post Sobre a notação da música grega antiga aqui no blog

Post de uma aula sobre A invenção do fonograma aqui no blog

Post de uma aula sobre Música nos primeiros séculos de colonização na América Portuguesa aqui no blog

Post Os cânticos dos cristãos nos primeiros séculos aqui no blog

Vamos ver se nos próximos meses consigo voltar a escrever posts no blog sobre os assuntos das aulas. Os linkados acima são posts que escrevi em 2013, 2014 ou no ano passado.

Livros, filmes e etc.

No Netflix, acho que as últimas coisas são: eu e a Maris estamos assistindo The Crown, ótima série britânica sobre os dilemas da jovem rainha Elizabeth na década de 1950; continuo assistindo The flash com as crianças, e estamos gostando bastante; estou assistindo o excelente documentário Five came back sobre o envolvimento de cinco cineastas norte-americanos no esforço de guerra – todos eles foram a locais de combate como documentaristas durante a 2ª Guerra Mundial.

Nos livros, entre o monte de coisa que começo a ler e vai ficando pendurado, estou me divertindo com Inferno, de Dan Brown, que meu vizinho me emprestou. Acho que o enredo tem umas coisas meio forçadas, mas sobretudo estou gostando muito das “visitas guiadas” que o autor proporciona. Tem muita coisa legal sobre a Divina comédia de Dante, várias obras de arte e uma verdadeira imersão cultural em Florença, Veneza e Istambul. Além de muita informação histórica dada de forma divertida.

Nesta coisa de fazer história em obras de ficção, não chega nem perto da capacidade de Umberto Eco. Mas Dan Brown não está muito longe de outros autores que gosto muito com estilo parecido: Frederick Forsith e Mario Puzzo.

Fui convidado a escrever um capítulo sobre música na tradição calvinista em um livro que está em preparação. Organizado pelo meu colega Joêzer Mendonça, discutirá música na tradição protestante por ocasião dos 500 anos da Reforma. Por causa deste texto comprei algumas coisas muito boas pra ler, entre elas o que acho que é a melhor edição em português das Institutas de Calvino. A tradução de Caros Eduardo de Oliveira publicada pela editora da UNESP. O título é A instituição da religião cristã. Tem também vários livros interessantes do prof. Alister McGrath sobre a tradição calvinista traduzidos e publicados no Brasil. E estou mergulhando no acervo do Theological Commons do Princeton Theological Seminar para encontrar muita fonte documental interessante.

Tomara que eu não tenha esquecido nada importante, por que escrevi isso correndo…

 

Eduardo Jardim: Eu sou trezentos – Mário de Andrade, vida e obra

um dos principais estudiosos do pensamento de Mário de Andrade lançou um livro importante. Aproveitando a memória dos 70 anos da morte do escritor, o livro saiu no fim de 2015. Trata-se do livro de Eduardo Jardim, Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra.

Antes de analisar a obra, podemos dizer que ao sair ela já garantiu um espaço importantíssimo na cena editorial. Simplesmente não havia uma biografia de Mário de Andrade disponível como primeira leitura para quem quer estudar o pensador modernista.

Capa do livro de Eduardo Jardim

Estudos sobre Mário de Andrade

Certamente já havia um bom livro introdutório, publicado poucos anos atrás pelo selo Claro Enigma. De olho em Mário de Andrade: uma descoberta intelectual e sentimental do Brasil, de André Botelho, não é uma biografia. Trata-se de uma introdução ao pensamento de Mário de Andrade, focado principalmente no aspecto da interpretação que o escritor modernista fez da cultura brasileira.

Havia, também, claro, outras biografias, todas já antigas e esgotadas. Uma escrita por Oneyda Alvarenga (Mário de Andrade, um pouco, 1974). Outra por Paulo Duarte (Mário de Andrade por ele mesmo, 1971). Ambas surgidas a partir da amizade pessoal e convivência com o escritor. Há ainda a escrita por Telê Porto Ancona Lopes (Mário de Andrade: ramais e caminho, 1972) a partir da documentação do próprio escritor depositada no IEB-USP. Este trabalho foi a base de uma vasta série de estudos que essa professora coordenaria sobre a obra do autor nos anos seguintes.

Além disso, muitas teses, dissertações, artigos, capítulos de livros, estudos monográficos sobre um ou outro aspecto da obra do escritor. Muitos trabalhos importantíssimos. Mas persistia a mesma dificuldade: um estudante não entraria numa livraria ou biblioteca e sairia com um estudo geral do autor e sua obra que servisse como ponto de partida.

Eduardo Jardim

O livro de Eduardo Jardim chegou então como uma grata novidade. Antes mesmo de abrir o livro já era possível saudá-lo. Era uma lacuna importante no mercado editorial. Não dava pra continuar assim, sem um trabalho sério sobre um dos nossos mais importantes pensadores.

O nome de Eduardo Jardim também empresta seriedade à obra. Ele já havia publicado pelo menos dois livros nos quais Mário de Andrade recebia importantes estudos. O primeiro, saiu na década de 1970, na mesma leva dos comentados há pouco. Era um estudo sobre a noção de cultura brasileira no modernismo, e apresentava Mário de Andrade como um importante líder de escola. Sua noção de brasilidade concorreria com as do verde-amarelismo e do movimento antropofágico, capitaneados pelos colegas Menotti del Picchia e Oswald de Andrade. Trata-se do livro A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica, resultado da tese de doutorado do autor, publicada com o nome de Eduardo Jardim de Moraes.

Mais recente foi o livro Mário de Andrade: a morte do poeta, publicado em 2005, já com o nome de Eduardo Jardim. Este livro analisou o período de Mário de Andrade no Rio de Janeiro. Um período que Moacir Werneck de Castro também já tinha analisado a partir de sua convivência com o escritor, no livro Mário de Andrade: exílio no Rio, de 1988.

Ou seja, poucas pessoas no Brasil estavam habilitadas a escrever uma biografia de Mário de Andrade. Eduardo Jardim foi o único que se apresentou para a tarefa. Só por isso já merece todos os elogios.

A obra de Mário de Andrade

Talvez se possa dizer que o forte de Eduardo Jardim e de sua biografia de Mário de Andrade é o conhecimento da obra do escritor. A obra literária, publicada (porque Mário de Andrade teve muitos outros tipos de obra, como o próprio título da biografia ressalta). Romance, poesia, conto. E também correspondência. Acho que isso é a principal documentação usada por Eduardo Jardim. Tem também, claro, um profundo estudo da bibliografia existente (aqueles trabalhos antigos que mencionei antes e mais um monte de trabalho especializado recente).

Por toda parte do livro é central na discussão a produção do autor. Suas obras literárias são lidas como obras literárias, como testemunho de memória pessoal, como síntese do tempo, como posicionamento nos embates. Acho que é muito bem feito isso no livro do Eduardo Jardim, e não pode, mesmo, ser diferente. Em Mário de Andrade não se separa a obra literária da vida do escritor e de sua ação no mundo – coisas que ele sempre misturou com intenção e intensidade.

Achei especialmente boas no livro as partes em que Eduardo Jardim lê momentos autobiográficos em poesias, contos e romances de Mário de Andrade. Muito instigante.

A vida do escritor

Mas acho que o principal foco desta biografia é a vida pessoal de Mário de Andrade. Sua origem familiar, sua formação escolar e intelectual. (Mas sobre formação intelectual continua sendo mais profundo o estudo de Telê Ancona Lopes). Seu relacionamento com familiares e amigos, principalmente na juventude e no início do movimento modernista. Mas também um enfoque muito detalhado da vida de Mário de Andrade durante sua estadia no Rio de Janeiro.

Aqui eu fiquei sentindo falta de uma documentação mais variada resultante de mais pesquisa em arquivo. Pedir demais, claro. Não acho que foi a pretensão de Eduardo Jardim fazer esse trabalho de historiador ou de jornalista-biógrafo. Ele deixou espaço para mais biografias que venham completar algumas coisas. Embora já seja razoavelmente detalhado o conhecimento da vida de Mário de Andrade que estava espalhado por outras publicações, e acho que o autor fez uma boa síntese. Talvez sem chegar a contribuições originais, mas é uma visão honesta da vida do escritor.

Pro meu gosto, um certo excesso de profundidade em questões sentimentais ou íntimas, como o relacionamento com a mãe, ou amor de Anita Malfatti, não correspondido. É um pouco constrangedor a gente ver detalhes assim da vida sentimental de um sujeito, mas paciência. Acho que não se faz biografia sem isso.

Ação intelectual e política

O ponto fraco do livro ficou mesmo a parte sobre a ação intelectual e política de Mário de Andrade. Aparece no trabalho uma razoável visão da ação do escritor no início do movimento modernista. Bom foco em seu período no Departamento de Cultura. Alguma coisa sobre seu trabalho no Ministério da Educação no tempo de Rio de Janeiro.

Mesmo nesses momentos chave o foco foi mais a maneira pessoal dele se engajar no trabalho, seus dilemas existenciais. Quase como se Eduardo Jardim fosse, como os outros biógrafos de Mário de Andrade, um amigo pessoal escrevendo sob o peso da convivência com o escritor. Sem conseguir se livrar de seu magnetismo pessoal. O distanciamento histórico poderia ter servido melhor ao biógrafo.

Para ter avançado nisso precisaria, sim, muito trabalho de arquivo. Tem muita coisa pra fazer quanto a isso. Ainda vamos levar alguns anos pra poder escrever coisa mais profunda que dê conta do Mário de Andrade homem de ação, burocrata, intelectual público.

Biografar sem monumentalizar, um desafio

Sobretudo, ainda não está sistematizada a produção de Mário de Andrade em periódicos (jornais, revistas, revistas especializadas) e isso faz muita falta. Acho que tem coisa pra se estudar também em documentos de arquivo que não sejam o arquivo pessoal do escritor. Lembrar que é sempre um risco trabalhar um personagem histórico somente a partir de seu arquivo pessoal. Esses arquivos são montados normalmente sob uma ótica monumentalizadora. Ou seja, restam perguntas que todo historiador tem que fazer diante de um arquivo tão completo quanto o que Mário de Andrade deixou de si. Quanto trabalho e recursos esse sujeito gastou para guardar e preservar tudo isso? Com que intenção? Como apreendê-lo sem tornar-se refém das leituras que ele procurou direcionar ao construir o próprio arquivo?

Essa é uma dificuldade para trabalhar com Mário de Andrade. Fica somada a uma camada de interpretação histórica muito favorável que foi sendo construída por amigos pessoais, alunos. E mesmo pelos desconhecidos que tiveram sempre o orgulho de se dizer influenciados por ele (segundo minha experiência de pesquisa, normalmente com bastante exagero).

Importância da obra

Numa avaliação geral: obra indispensável. Todo mundo vai ter que ler isso. Mas ainda dá pra fazer mais biografias. Sobretudo enfocar com mais cuidado a atuação institucional e a relação de Mário de Andrade com as artes visuais e a música. Por exemplo, porque são coisas que que não podem ficar diminuídas em comparação com sua relação com literatura. Senão continuará sendo uma visão muito limitada desse intelectual que fez questão de enfatizar que era “trezentos”.

Ainda tem umas centenas de Mário a serem investigadas por aí. O Eduardo Jardim não terminou tudo não. Mas pavimentou um ótimo caminho, nos abriu novas curiosidades.

Lançamento do livro Música, cultura e sociedade

Esta semana fizemos o primeiro evento de lançamento do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno, do qual sou organizador.

Lançamento na FAP

Eu já dei a notícia do livro aqui no blog quando ele foi publicado, em dezembro. Mas até agora não tínhamos feito evento de lançamento, porque o calendário na UNESPAR esteve tumultuado por greve de professores e ocupação estudantil. Agora que entramos o ano letivo de 2017, aproveitamos para fazer um evento no Auditório com a presença de alguns autores.

As explicações sobre este lançamento estavam na página do Grupo de Pesquisa.

Pela foto abaixo, com alguns dos autores presentes, você pode ver que ao menos nós nos divertimos (em participar do livro e em fazer o lançamento):

Autores em lançamento na FAP (foto de Maris de Souza Egg)

Presentes na foto, da esquerda para a direita: prof. Allan Oliveira (UNESPAR – Campus de Curitiba II), prof. Danilo Ramos (DEARTES-UFPR), prof. André Egg (UNESPAR – Campus de Curitiba II) e prof. Joêzer Mendonça (PUC-PR). Ausente na foto, mas que também esteve no evento: profª. Ana Paula Peters (UNESPAR – Campus de Curitiba I), que precisou sair antes do fim.

Lançamento no PPGHIS-UFPR

Mas quem perdeu o primeiro evento não precisa se desesperar. Teremos mais oportunidades.

Aliás, já na próxima segunda-feira. Dia 17 de abril, às 19:00 horas, na Sala Carlos Antunes (6º andar, Depto. de História, Ed. D. Pedro I). Ali faremos também uma mesa com participação de autores. O evento é organizado pela Linha de Pesquisa Arte, Memória e Narrativa do PPGHIS, nossa famosa AMENA.

Agradeço aos colegas Vinícius Honesko pela organização, Rosane Kaminski pelo apoio e Artur Freitas pela elaboração do material de divulgação.

Abaixo, o convite:

Convite para o lançamento do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno (Arte de Artur Freitas)

 

Já estão no ar meus Planos de Ensino 2017

Esta semana, a partir de 03 de abril, iniciamos o ano letivo 2017 no Campus de Curitiba II da UNESPAR, onde sou professor. Porque começamos tão tarde? Porque estivemos até fins de março com a finalização do calendário acadêmico 2016, perturbado em seu normal desenvolvimento pelas greves de 2015 e 2016 e pela ocupação estudantil no campus. Agora coloco aqui os Planos de Ensino 2017, conforme apresentei e discuti com os alunos na primeira semana de aulas.

Planos de Ensino 2017 (cabeçalho dos documentos, conforme a PROGRAD/UNESPAR)

Minhas disciplinas

Neste ano voltei à carga plena em sala de aula. Depois de vários anos ocupando cargos administrativos como Coordenador do Curso de Bacharelado em Música Popular e como Diretor do Centro de Música e Musicoterapia, agora volto a ser somente professor e pesquisador.

Com isso, menos tempo em reuniões e preenchendo documentos, mais tempo em sala, e preparando aulas e corrigindo trabalhos.

Assumi, então, duas disciplinas no curso de Licenciatura em Música: História da Música e História da Música Brasileira. E mais os 4 anos de História da Música do Bacharelado em Música Popular.

Planos de Ensino 2017

Os planos de ensino estão disponíveis on-line, e podem ser sempre consultados na aba “Material de aula”, aqui nesta página (veja o menu horizontal, na parte superior). Além de ter colocado os links ali, segue abaixo a lista:

História da Música (1º ano de Licenciatura em Música)

História da Música Brasileira (2º ano de Licenciatura em Música)

História da Música I (1º ano de Bacharelado em Música Popular)

História da Música II (2º ano de Bacharelado em Música Popular)

História da Música III (3º ano de Bacharelado em Música Popular)

História da Música IV (4º ano de Bacharelado em Música Popular)

Outros materiais de aula

Eu devo disponibilizar aqui na forma de posts do blog, ou informações na referida aba “Material de aula”, outros links e textos relativos às disciplinas.

Ainda estou engatinhando neste processo, mas acredito que uma complementação entre aulas presenciais e materiais ou atividades on-line são muito positivas para o aprendizado e o desenvolvimento acadêmico.

Então, aos alunos, mãos à obra!

Março de 2017

Como já venho fazendo desde o início do ano, resolvi concentrar aqui algumas informações e links sobre o que aconteceu em março de 2017.

Escrevi

Ao contrário de janeiro e fevereiro, em março escrevi quase nada no blog.

Foi difícil organizar o tempo, agora que as atividades de todos da família entraram a pleno vapor. E foi o mês de finalizar as avaliações do ano letivo de 2016, além dos TCC, mas isso é assunto para outro item.

O único texto que publiquei foi a crítica do concerto do Luciano Lima. Foi pouco texto, mas pelo menos foi um texto bem importante.

O concerto de Luciano Lima

Atividades acadêmicas como professor

Como disse acima, em março encerramos o ano letivo de 2016. Ou seja, foi o mês de fazermos avaliações do 4º bimestre, exames finais, fechamento de notas e preenchimento de livros-classe. Além da distribuição de disciplinas para 2017 e o respectivo planejamento.

Mas o destaque mesmo foi para as defesas dos TCC do curso de Bacharelado em Música Popular. Eu fui coordenador de TCC em 2016, então acompanhei bem de perto o processo. Alguns alunos não conseguiram terminar os trabalhos e deixaram para 2017. Mas tivemos 4 heróicos que fizeram bons trabalhos. As bancas aconteceram dia 06 de março, e as informações estão neste edital.

O trabalho do Ricardo Salmazo, orientado por Alan Rafael de Medeiros, foi uma pesquisa sobre a trajetória do sambista Chocolate e seu grupo carnavalesco “Ideais do ritmo”.

Lucas Bonaldo produziu composições para guitarra elétrica sobre exercícios rítmicos de Eduardo Gramani, sob orientação de Aglaê Frigeri.

Vinícius Luisi Moraes realizou a criação de uma performance, orientado pelo prof. Diego Baffi. A obra foi chamada Correntio e eu tive o prazer de assistir à primeira apresentação ano passado.

Meu orientando Thiago Stahlschmidt Barroso pesquisou semelhanças e influências de uma canção de Robert Johnson em canções dos Beatles.

Para mim foi uma mudança e tanto, pois na distribuição de disciplinas voltei a assumir todas as Histórias da Música (I, II, III e IV) do Bacharelado em Música Popular. Além de ficar com História da Música e História da Música Brasileira na Licenciatura em Música.

Depois de sair do cargo de Diretor de Centro em julho de 2016, agora será o momento de voltar às minhas disciplinas e à carga horária cheia em sala de aula e na pesquisa. Vou precisar “desintoxicar” dos cargos administrativos.

notícias da unespar

Foi em março também que vimos à posse do Reitor e do Vice-Reitor da UNESPAR, para o mandato até 2021. O Reitor empossado foi o professor Carlos Aleixo, e o vice Sydnei Kempa. Eu já tinha escrito aqui nesta página uma defesa da candidatura deles na época da eleição:

Porque votar em Carlos Aleixo e Sydnei Kempa para a reitoria da UNESPAR

Na solenidade de posse, realizada em uma sala do Palácio Iguaçu, bonitos discursos. Ambos os professores ressaltaram as dificuldades em gerir uma universidade que está começando, e em situação muito precária por falta de investimentos. Mas, acharam espaço para destilar sua empolgação com a educação, fazer tributos a momentos marcantes de suas vidas na academia e demonstrar a garra de contribuir para a construção de uma universidade e de um futuro melhores.

Sydnei Kempa ainda achou espaço para ler o texto da canção Morro velho, de Milton Nascimento. Veja se não é de se ter esperança, uma universidade dessa, em que Vice Reitor cita Milton Nascimento em discurso de posse. Só pode ser coisa boa.

Livros, filmes, etc.

Meu destaque no mês é para a série das Crônicas de Arthur de Bernard Cornwell, que comecei a ler porque achei no Kindle Unlimited. Narrativa cativante, e um ótimo equilíbrio entre ficção e história. O autor imagina a saga de Arthur quase sem as interpolações posteriores que foram enriquecendo a história e tornando-a mais inverossímil. O Arthur de Bernard Cornwell é uma história da Britânia após o fim do Império Romano, num combate entre os antigos habitantes destas terras e os invasores saxões, bem como uma disputa entre a antiga religião dos druidas e o crescimento do cristianismo. O autor consegue retratar um panorama histórico fidedigno misturando com ótima narrativa de ficção.

Entre os filmes, consegui assistir Silêncio de Scorcese. Como tudo deste diretor, uma obra muito marcante. Vou levar tempo digerindo. E estou preparando um texto sobre o filme, a ver se consigo terminar e publicar aqui no blog. Basicamente, uma história intrigante sobre a perseguição ao cristianismo no Japão do século XVII, a partir do trabalho de jesuítas portugueses.

Também me caiu na mão, comprado em um bazar, o ótimo Beatriz, raro livro de contos de Cristóvão Tezza. Pra mim, o romancista confirmou que tem ótima mão para histórias de fôlego curto. É uma delícia seu “Prólogo”, explicando muito da relação entre o escritor, sua obra e a literatura, tema que também perpassa as histórias do livro.

Outra descoberta interessante é o blog do Edward Schmitz. Ele é meu amigo, e eu sabia da página dele há algum tempo, mas não tinha prestado atenção. Agora fui olhar, e vi que ele tem bons vídeos para ajudar na organização pessoal e administração do tempo e da carreira. Coisas que eu andei comentando aqui no post sobre o mês de janeiro.

A página dele é esta:

edwardschmitz.com

E o conteúdo é basicamente o mesmo que ele publica em seu canal no youtube.

 

 

 

O concerto de Luciano Lima

No dia 16 de março de 2017, quinta-feira, aconteceu no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, o concerto de Luciano Lima. Foram tocadas, ao violão, obras de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Claudio Santoro, Osvaldo Lacerda, além de composições do próprio Luciano Lima.

Foto do concerto de Luciano Lima no SESC Paço da Liberdade (por André Egg)

Com exceção de uma peça de Radamés Gnattali e das duas obras de Luciano Lima, apresentadas em primeira audição, todas as demais foram transcritas para violão pelo músico. Foram repertório produzido originalmente para piano. Algumas destas obras já foram publicadas por Luciano Lima, como a série de peças do Guia Prático de Villa-Lobos, cujas transcrições foram publicadas pela Academia Brasileira de Música (veja aqui), e as peças de Claudio Santoro, em transcrições publicadas pela Editora Savart (veja aqui).

O programa

Luciano Lima intercalou 12 canções do Guia Prático de Villa-Lobos, parte das 87 que ele transcreveu na edição da Academia Brasileira de Música. Organizando-as em grupos de 4 peças, normalmente elas são curtas, dividiu em três grupos distribuídos entre as demais obras. Radamés Gnattali também foi outro compositor com presença marcante, servindo para abrir o concerto e fornecendo as três peças tocadas ao final.

Gnattali tem sido um objeto das pesquisas de Luciano Lima há longo tempo. Foi sobre os concertos para violão e orquestra deste compositor que ele fez seu doutorado pela Université de Montréal. Também a obra para violão solo de Radamés foi objeto de sua última publicação: um livro com a revisão da obra do compositor e mais alguns “brindes”, como contei aqui no blog do Grupo de Pesquisa.

As obras, na sequência em que foram tocadas, foram as seguintes:

Radamés Gnattali – Batuque

Villa-Lobos – Chora menina, chora; A cobra e a rolinha; Nesta rua; O bastão, ou mia gato

Ernesto Nazareth – Fidalga e Nenê

Villa-Lobos – Constante; Carneirinho, carneirão; A pombinha voou; Senhora Dona Sancha

Luciano Lima – Choro e cantiga nº 9 e Choro e cantiga nº 7

Camargo Guarnieri – Ficarás sozinha

Lorenzo Fernandez – Na beira do rio

Claudio Santoro – Peças infantis nº 5

Osvaldo Lacerda – Cinco variações sobre Escravos de Jó

Claudio Santoro – Preludio nº 1 e Preludio nº 2

Villa-Lobos – Sambalelê; O gato; Você diz que sabe tudo; Fui no Itororó

Radamés Gnattali – Caminho da saudade, Canhoto e Choro da Brasiliana nº 13

Quase todas as obras do concerto obedeceram a uma temática de relação com cantigas infantis, uma coisa que todos os compositores modernistas brasileiros se empenharam com esmero. Luciano Lima esclareceu que toda a busca dessa temática de canções foi decorrente da experiência da paternidade, e dedicou o concerto a sua filha Tarsila, que estava presente.

Ampliando o repertório do instrumento

De todas as obras do concerto, apenas 3 foram escritas originalmente para violão: as duas de Luciano Lima e a peça de Radamés que encerrou o programa. Todas as demais foram peças que Luciano Lima adquiriu para o repertório do violão em transcrições belíssimas. Um grande trabalho de pesquisa que poucos violonistas estão fazendo no mundo.

Vale lembrar que o violão é um instrumento com muitas possibilidades como solistas. Não tem tantos recursos harmônicos e tantas possibilidade polifônicas quanto o piano, desvantagem que seria compensada pela gama de timbres e nuances sonoras que o instrumento fornece, bem como sua versatilidade em muitos espaços, devido ao menor tamanho. O grande problema do violão como solista é o repertório.

Não é que o instrumento não tem um repertório significativo. Se isso ocorresse, não tinha tanto violonista bom trabalhando nesse mundão. Acontece que o repertório do violão tem muita coisa aproveitada do período barroco e do renascimento (adaptando do repertório de alaúde, guitarras e outros instrumentos antigos), mas uma limitação maior de 1750 pra frente (quando o piano construiu todo seu repertório clássico). O violão tem sido objeto de muita produção idiomática (gente que conhece o instrumento e escreve pra ele coisas que funcionam bem nos dedos), mas tem pouco dos compositores que trabalharam na fronteira das linguagens composicionais, por ser um instrumento difícil para não violonistas.

O problema não existiria se muitos violonistas fossem capazes de fazer transcrições com a excelência que o Luciano Lima demonstra. As peças recebem uma nova escrita, às vezes mudando de tonalidade, mas mantêm a fluência musical. Ver Luciano Lima tocando estas obras é quase se perguntar como ele consegue tocar aquilo tudo como se fosse tão fácil.

Garanto que não é. Mas ele, como violonista, tem uma notável habilidade em dar brilho a uma gama harmônica e polifônica que não é natural do repertório violonístico.

Ademais, quase todas as obras do programa foram estreias. Uma informação que não constava no papel que recebemos, talvez porque não fossem estreias no sentido estrito. São obras já tocadas, algumas muitas vezes. Mas foram estreias as versões para violão.

Assim, com exceção do Choro da Brasiliana e possivelmente de Nenê (Nazareth) – todas as outras peças nasceram pro mundo esse dia, nos dedos e no violão de Luciano Lima.

Comentários sobre as obras

Difícil fazer qualquer comentário das obras, por que todas são sensacionais. Escreverei sobre as que mais me marcaram. Isso pode não ter sido mérito das obras em si, mas apenas alguma afinidade maior. Ou pode dizer sobre os limites da minha audição concentrada.

De Ernesto Nazareth foram escolhidas duas peças menos conhecidas, mas nem por isso menos bonitas. Um baita compositor, injustamente pouco valorizado no repertório de concerto (embora essa afirmação, sobre compositor brasileiro, sempre tenda ao pleonasmo).

As duas obras de Luciano Lima foram a prova de por que ele transcreve tão bem. Se é capaz de compor obras como essa, o que não pode fazer transcrevendo. Ambas exploram o instrumento de forma magistral, negociam com o repertório de canções infantis sem concessões a “facilidades” de textura ou harmonia. E dialogam, também, estilisticamente com os compositores que elas homenageiam a quem foram dedicadas: Sergio Assad e Egberto Gismonti (dois monstros do repertório híbrido jazz/brasileiro/clássico)

Os dois Preludios do Santoro são peças pequenas e não muito pretensiosas. Mas esse compositor é especialmente muito bom nas coisas que fez sem pretensão. Quando ele foi folclorista, por dever político, na década de 1950, compôs algumas de suas melhores obras. E essas miniaturas são sempre melhores que aquelas coisas mais grandiloquentes que vieram ao mundo tocadas por orquestras e coros soviéticos. Aliás, as composições de Santoro em parceria com Vinícius de Moraes foram um vislumbre do que a MPB faria nos anos seguintes.

Luciano Lima tem uma execução do Preludio nº 1 de Santoro em seu canal do youtube. O vídeo aparecerá abaixo, ao final desta postagem.

No geral, não há como achar defeito em obras de Villa-Lobos, Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Santoro ou Radamés Gnattali. Mesmo Osvaldo Lacerda aqui não fica devendo nada aos colegas. Só o que podemos dizer é que estes compositores merecem pedestal mais alto. Merecem ser mais ouvidos, mais tocados mais estudados.

Que bom que Luciano Lima trouxe eles pro público do concerto, e trouxe pros violonistas. Estes agora vão poder fazer essa música e aprender ainda mais com ela. Com isso ele fez uma coisa muito boa – pro Brasil, pro violão, pra música.

Fevereiro de 2017

Mês passado eu comecei a postar uns resumos mensais das coisas que tô escrevendo, lendo, assistindo. Tentando dar sequência, seguem as informações sobre fevereiro de 2017.

Escrevi

Material de uma aula sobre canção engajada (aqui no blog)

Vídeo da minha palestra (aqui no blog, sobre uma palestra minha no pré-concerto da Camerata, com obras de Penalva e Henrique Morozowicz)

Janeiro sem Oficina de Música (aqui no blog)

Luciano Lima: Radamés Gnattali e o violão de concerto (no blog do Grupo de Pesquisa)

Além desses textos que publiquei em fevereiro, sigo recomendando o texto que escrevi em janeiro no Medium, e que acho um dos meus textos recentes mais importantes:

Que tipo de evangélico eu sou

Outros fevereiros

Em anos passados, publiquei textos interessantes nos meses de fevereiro, que acho que ainda valem a leitura:

Arte e política no Brasil: modernidades (o livro e seu processo editorial) (em 2015, aqui no blog, auto jabá sobre o livro do qual fui um dos organizadores)

Sobre a notação da música grega antiga (em 2014, aqui no blog, assunto de aulas de História da Música)

A renúncia de Ratzinger: prenúncio de abertura? (em 2013, aqui no blog, texto que escrevi antes de sabermos que o próximo papa seria Francisco, e quais as reviravoltas incríveis ele traria com sua ascensão ao cargo)

E mais interessante de tudo: foi há 5 anos, em fevereiro de 2012, que iniciei este blog com endereço próprio. Continuar escrevendo aqui, e pagando o serviço de hospedagem (o ótimo serviço da Via Hospedagem, diga-se) é prova da minha teimosia. O primeiro texto publicado neste endereço foi:

Meu próprio blog

Atividades acadêmicas

Em 1º de fevereiro retomamos as aulas no meu Campus de Curitiba II da UNESPAR, antiga FAP. Estamos finalizando o ano de 2016, em decorrência de greve docente, ocupação estudantil e impossibilidade de reposição em janeiro por múltiplos fatores relativos a uma universidade multi campi.

Por isso, um dos textos linkados acima foi sobre assuntos das aulas de História da Música Brasileira.

Além das aulas que ministro na UNESPAR, tivemos a definição das Bancas de TCC do curso de Bacharelado em Música Popular, do qual sou o coordenador. O edital está aqui – são poucos os heróis que foram até o fim, mas os trabalhos são interessantes.

Participei também de duas bancas fora da UNESPAR. São trabalhos que acho que vão ganhar seu lugar ao sol nas bibliografias obrigatórias da música brasileira. Bons orientadores, pesquisa aprofundada em fontes primárias, boa discussão bibliográfica e referenciais teóricos precisos.

A Suíte popular brasileira na trajetória de Villa-Lobos: arte, povo e uma suíte à brasileira. Dissertação de mestrado de Lurian José Lima, defendida no PPGMUS-UFPR, sob orientação de Edwin Pitre-Vásquez.

O movimento Música Nova e suas ressonâncias na música popular brasileira. Tese de doutorado de Eduardo Kolody Bay, defendida no Departamento de História da UNB, sob orientação de Elonora Zicari de Brito.

Assim que estiverem publicados os trabalhos, coloco link aqui no blog.

Livros, filmes, etc

Com a volta das aulas, sobrou pouco tempo para a leitura este mês. É claro, gastei a maior parte do tempo lendo com prazer os dois trabalhos dos quais fiz parte da banca.

Mesmo não tendo terminado os livros que estava lendo em janeiro, eu me atrevi a começar novos. Andei lendo uns pedaços de O século das revoluções, de Christopher Hill e de A noção de crítica de arte no romantismo alemão, de Walter Benjamin. O primeiro é um balanço do século XVII pelo historiador britânico. A ideia geral é que as transformações que a Inglaterra viveu neste período deixaram marcas profundas no mundo moderno (ou pelo menos nas partes do mundo que se modernizaram um pouco, mas isso é outro caso). O outro é a primeira publicação em português de um trabalho inicial de Walter Benjamin, onde, segundo a explicação de Marcio Seligmann-Silva (o tradutor da obra) as ideias do pensador alemão já se desenhavam como seriam depois desenvolvidas em outras obras consideradas mais importantes.

Espero trazer mais novidades em março.

De filmes e séries, a novidade é que comecei a assistir Flash com meus filhos. E estamos gostando bastante. Assistimos também, com uns amigos, o Ben-Hur de Timur Bekmambetov. O filme é fraco, senti como se estivesse vendo aquelas novelas da Record (ainda mais que assistimos dublado).

Eu tinha ainda a promessa de trazer aqui uns links de textos que leio na imprensa ou em blogs, mas tô achando que vai ser inviável. A ideia era fazer listas semanais, mas acho que não vou ser organizado suficiente para isso. A recomendação segue sendo: sigam minha conta no twitter, porque sempre que leio alguma coisa boa dou o link lá.

Janeiro sem Oficina de Música

Sem Oficina de Música, este janeiro foi o pior de Curitiba nos últimos 36 anos. Praticamente toda minha vida desde que me entendo por gente. Em 1982 começou a primeira Oficina de Música, no Solar do Barão. Até 2016, quando foi realizada a última edição, foram 36 edições com cursos de férias com professores e alunos nacionais e internacionais de alto nível, além de uma notável programação de concertos que pode ser usufruída pelos alunos e pela população da cidade em geral.

Neste ano de 2017, está estabelecida a nova moda Temer , Tump, Teresa May, Dória e outros – cujos objetivos políticos parecem ser arrasar todas as conquistas da civilização nas áreas de cultura e direitos humanos. Não podia ser diferente em Curitiba, talvez a mais conservadora das capitais conservadoras deste país conservador. Somos tão conservadores que agora nosso lema é o retrocesso. Temos um prefeito que compete em imbecilidade com os políticos acima citados. E vai bem na competição.

Sua principal medida até agora foi cancelar a Oficina de Música que teria acontecido em janeiro. Desmarcar todas as passagens de professores contratados. Devolver todo o dinheiro das inscrições dos alunos de toda parte do Brasil e de outros países. Cancelar toda a programação de concertos e liberar a agenda dos teatros. Esvaziar ainda mais uma cidade que já é vazia em janeiro. Afinal, quem precisa de civilização? Temos Greca, e o amamos…

Outros janeiros

Para uma pequena ideia sobre a importância da Oficina e a dinâmica de sua programação, veja os posts que escrevi em anos passados com comentários sobre a programação e sobre alguns concertos:

31ª Oficina de Música (2013)

O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

Um balanço da 31ª Oficina de Música

32ª Oficina de Música (2014)

A abertura da Oficina de Música 2014

O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

 

Vídeo da minha palestra

Nos últimos anos os concertos da Camerata Antiqua de Curitiba tem sido precedidos de palestras explicativas. Em 2016 começou um formato em que as palestras pré-concerto passaram a ser gravadas e apresentadas em vídeo. Eu fui um dos palestrantes. Procurei o vídeo no canal da Fundação Cultural de Curitiba, mas todos tinham sido retirados do ar. Provavelmente por causa do período eleitoral, eu não achava o vídeo da minha palestra. Ontem uma amiga me mostrou que o vídeo está, sim, online. No canal do ICAC, onde estão todos os demais vídeos.

O programa do concerto

O concerto foi com obras de José Penalva, Henrique Morozowicz, Ronaldo Miranda e Eduardo Frigatti. Era parte da programação do Festival Penalva, que vem sendo realizado anualmente com concertos, cursos e palestras, em homenagem ao compositor que adotou a cidade e tanto marcou a vida cultural de Curitiba.

Informações completas sobre o concerto e o programa estão aqui, no site do ICAC. Sobre José Penalva e Henrique Morozowicz eu escrevi posts aqui no blog, com o material que usei para preparar minha palestra.

José Penalva (1924-2002)

Henrique Morozowicz (1934-2008)

Sobre Ronaldo Miranda não há muito pra dizer, exceto que é um compositor de músicas bonitinhas para ganhar prêmios e ser programado para deixar gente feliz. Na palestra eu falo alguma coisa mais politicamente correta sobre ele.

A execução das obras foi de uma grande felicidade. O concerto mostrou o tamanho do trabalho que a regente Mara Campos vem fazendo com a Camerata. Especialmente o coro sempre teve dificuldade em preparar obras não concebidas tonalmente. Mara Campos revelou sua capacidade de ensaiadora e conseguiu empolgar os cantores. Foi um feito especialmente notável na difícil obra de Penalva.

Eduardo Frigatti

Sobre Eduardo Frigatti, infelizmente não estava na programação. Sua obra Campina de vidro foi incluída de última hora no programa e eu só soube disso depois que tinha terminado de gravar minha fala. Ainda deu tempo de incluir mais uma pequena menção ao nome dele. De todo modo, é um compositor jovem, eu não teria muita informação sobre ele. Sua obra foi premiada no concurso de composição da Bienal Música Hoje em 2015, o que lhe valeu como prêmio a execução durante a temporada da Camerata. Parece que só depois de fechada a programação veio a lembrança do prêmio. E foi uma decisão acertada incluir esta obra num festival dedicado à música de vanguarda e homenageando o decano da composição musical em Curitiba.

Eu conheci o compositor pessoalmente no dia do concerto, e ele me mostrou gentilmente a partitura da obra. Peça muito boa, vagamente baseada em técnicas do espectralismo, de ótimo resultado orquestral. Sinto que, ao contrário de muitas obras premiadas em concurso de composição, essa os músicos da orquestra tocaram com gosto e de verdade.

O vídeo da minha palestra

O vídeo está abaixo. Recomendo que você aperte no botãozinho que aparece no canto para ver direto no youtube, onde você também pode curtir e compartilhar.

 

Material de uma aula sobre canção engajada

Esses dias tivemos uma aula sobre Canção Engajada. Foi um assunto que tratamos tanto na turma de História da Música Brasileira do curso de Licenciatura em Música quanto na turma de História da Música IV do curso de Bacharelado em Música Popular.

Capa do disco Nara lançado em 1963 pela gravadora Elenco

O termo Canção Engajada é o que prefiro, embora se use também falar em Canção de Protesto e Bossa Nova Nacionalista. Os últimos dois termos são da própria época, enquanto Canção Engajada é um termo mais analítico, usado, por exemplo, pelo historiador Marcos Napolitano, que escreveu os principais estudos de referência sobre o período.

Falta conteúdo à Bossa Nova

Podemos identificar o fim do movimento da Bossa Nova no ano de 1962. Foi quando os principais artistas foram se estabelecer nos Estados Unidos. Enquanto isso, o entusiasmo desenvolvimentista dos anos JK cedia lugar às incertezas dos governos de Jânio Quadros e João Goulart.

Como bem descrevem os historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, entre 1961 e 1964 vivemos tempos muito instáveis. Um presidente renunciou após 9 meses de mandato. Uma junta militar impediu o vice de assumir. O movimento da legalidade foi liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, que distribuiu armas à população civil. O vice-presidente assumiu manietado pela lei do parlamentarismo. Governou sabotando os próprios gabinetes, enquanto o principal líder do seu partido (PTB) pressionou por reformas cada vez mais radicais. O mesmo governador que liderou o movimento pela legalidade agora inviabilizava os acordos que garantiam a estabilidade do governo.

Enquanto isso, inflação alta, desabastecimento, crise de endividamento e insolvência, desemprego, pobreza, desigualdade.

Como estuda Arnaldo Contier neste artigo, ficou fora de contexto continuar cantando as canções bossa novistas. Elas falavam em encontrar um trevo no jardim, barquinho que vai enquanto a tardinha cai, cantadas de praia em paródia de lobo mau e chapeuzinho e outras questões que passaram a ser vistas como fúteis diante das agruras nacionais.

Ver, por exemplo, o repertório dos dois primeiros discos de João Gilberto: Chega de saudade (1959) e O amor, o sorriso e a flor (1960).

A juventude universitária

Por volta de 1962 e 63 era consenso que a Bossa Nova tinha sido um movimento de renovação estética e modernização da Música Popular. Mas também ficava evidente que lhe faltava conteúdo político em relação aos problemas do Brasil. Artistas e intelectuais consideraram necessário assumir as bases harmônicas e timbrísticas lançadas pela modernidade bossanovística mas construir um novo gênero de canção antenada com seu tempo histórico.

Um fator que pesou para a virada estética da Canção Engajada foi a construção de uma massa crítica entre a juventude universitária. O esforço de ampliação do sistema educacional brasileiro empreendido desde 1930 começava a chegar a um resultado. As principais capitais possuíam universidades e um público estudantil secundarista e universitário considerável.

Em grande parte esse foi o público do circuito de shows que movimentou os anos 1962-68. E também foi entre este público, com formação em áreas como filosofia, letras ou arquitetura, que foram recrutados os novos nomes da Música Popular.

Carlos Lyra e a transição

Carlos Lyra foi provavelmente o artista mais significativo desta virada. Ele foi o autor de algumas das mais paradigmáticas canções bossanovistas, como Lobo bobo, gravada por João Gilberto no disco Chega de saudade. Pode-se ver o teor do seu repertório observando sua discografia. Os primeiros três discos são muito ligados à estética e à temática da Bossa Nova: Bossa Nova (1959), Carlos Lyra (1961) e o coletivo Bossa Nova mesmo (1962).

É com Depois do carnaval: o sambalanço de Carlos Lyra (1963) que a virada se evidencia. Especialmente com a canção Influência do jazz.

Pobre samba meu

volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu

pra não ser um samba com notas demais

não ser um samba torto pra frente e pra trás

vai ter que se viver pra poder se livrar

da influência do jazz

Esse refrão sintetiza em boa parte o que passa a ser o programa estético do que chamamos Canção Engajada. Ele denota a busca das raízes da música brasileira e de uma forte ligação com o povo pobre trabalhador. Ambas estão sintetizadas no slogan “volta lá pro morro”.

A gravadora Elenco

Uma gravadora que iria se destacar no novo cenário que estava sendo construído foi o selo Elenco, de Aloísio de Oliveira. O músico e produtor que criou a gravadora tinha participado do Bando da lua, grupo de Carmen Miranda. Com ela foi para os EUA em 1939 e lá ficou por quase 20 anos. Ao voltar para o Brasil, trouxe essa importante experiência profissional. E marcou sua presença no período da Bossa Nova como diretor artístico da gravadora Odeon, que havia lançado importantes discos.

Foi também a experiência de Aloísio de Oliveira que farejou e lançou nomes fundamentais da Canção Engajada como Edu Lobo e Nara Leão.

Além disso, as capas criadas por Cesar Vilella, juntando uma visualidade muito limpa e usando apenas duas cores (para economizar) acabaram estabelecendo um novo padrão de design de discos. A foto que ilustra esse post, lá em cima, é da capa do disco que lançou Nara Leão.

Baden Powell à vontade – outro disco com capa clássica da gravadora Elenco

Show opinião

Um dos momentos mais emblemáticos do movimento da canção engajada foi o show Opinião. Protagonizado por Nara Leão, Zé Ketti e João do Vale. Esse conjunto era um símbolo muito forte da aliança de classes proposta pela esquerda marxista: a classe média universitária (Nara), o sambista de morro (Zé Ketti) e o migrante nordestino (João do Vale).

O repertório do show foi lançado em um disco de estúdio em 1964. Este disco está disponível em um vídeo (abra no youtube porque tem a minutagem das músicas):

Outros artistas

Na aula ouvimos também outras gravações e outros artistas muito simbólicos do movimento.

Duas canções do disco A música de Edu Lobo – por Edu Lobo e Tamba Trio (1965), lançado pela Elenco: Borandá (faixa 1) e Arrastão (faixa 8). Ambas as canções apontam para a ligação com a herança literária e intelectual do modernismo. As narrativas de ambas as canções poderiam, por exemplo, ter sido tiradas de romances de Jorge Amado ou José Lins do Rego, com personagens da seca nordestina ou pescadores num trabalho coletivo.

O acompanhamento do Tamba Trio, também nos chama a atenção para para os conjuntos instrumentais que marcaram a época. Tamba Trio, de Luiz Eça; Zimbo Trio, de Amilson Godoy; o conjunto de Oscar Castro Neves; e o Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Heraldo do Monte e Teo de Barros). Esse conjuntos investiram numa estética do hot jazz, com muita improvisação. Mas buscavam uma linguagem nacionalizada a partir das referências rítmicas do samba, do baião e de outros gêneros considerados autóctones.

Dois intérpretes que marcaram muito a estética vocal da Canção Engajada foram Elis Regina e Jair Rodrigues. Ouvimos um pot-pourri de canções referentes ao morro, primeira faixa do disco Dois na bossa, gravado ao vivo no show do Teatro Paramount (São Paulo) em 1965.

E falamos também de uma dupla de parceiros que marcou a época: Baden Powell e Vinícius de Moraes. A busca do poeta por uma estética afro brasileira já era conhecida desde pelo menos a peça Orfeu da conceição, cuja trilha foi composta por Tom Jobim e marcou o início daquela pareceria.

Capa do disco Afro sambas de 1966

Com Baden Powell o poetinha compôs as canções do disco Afro sambas (1966). O álbum se tornou um marco da inserção da musicalidade afro no mainstream da música brasileira. Sobre isso, lembramos o quanto as religiões de matriz africana foram e são perseguidas no Brasil. E apontamos que Jorge Amado, quando deputado na constituinte de 1946 foi o autor da primeira lei garantindo tolerância religiosa.