50 anos do golpe: mais algumas leituras

No dia em que completaram-se os 50 anos do golpe militar de 1964, escrevi um texto no blog História Cultural.

50 anos do golpe e algumas boas leituras

Fiz lá uma avaliação histórica e algumas indicações de leitura. Foram cinco lançamentos editoriais feitos por ocasião da data rememorativa – todos livros de historiadores competentíssimos, que acho que são leituras obrigatórias. Só um destes livros eu tinha lido, e feito a resenha também lá no História Cultural:

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Bom, agora o Celso Barros, cara que faz resenhas como ninguém nestes assuntos de política brasileira, resenhou para o Amálgama um dos livros que eu indiquei. Corra ler:

A tragédia do civil-militar

Tem vários outros textos importantes lá. Como sempre, o Amálgama consegue reunir um time de gente boa para produzir reflexão relevante sobre os temas mais significativos.  Acho que ainda vai sair mais coisa boa sobre o assunto (fiquem de olho em tudo nesta página) mas por enquanto os textos da série são os seguintes:

O legado econômico da ditadura

(Neste texto o Paulo Roberto Silva evidencia a falácia que é dizer que a Ditadura melhorou o Brasil ou favoreceu o desenvolvimento)

Cinquenta anos não são cinco

(Vinícius Justo levantando a necessidade de superar a memória de esquerda do golpe, que fica ressuscitando fantasmas desnecessários. Se entendi bem, ele recomenda que precisamos manter a memória histórica mas pensar em olhar pra frente, coisa que a remissão constante ao golpe vem atrapalhando)

Defender a democracia é mais difícil do que parece

(Uma crítica do Eli Vieira aos estudantes que confrontaram o professor da Faculdade de Direito da USP que leu uma carta sua defendendo a ditadura em uma aula)

O que aprendi sobre a ditadura

(Texto do Carlos Orsi em que resume o legado das entrevistas com professores da UNICAMP que realizou para o dossiê dos 50 anos do golpe para o jornal da universidade)

Além do Amálgama, outro coletivo que tem marcado presença com estes temas atuais da política é o joinvilense Chuva Ácida. Lá saiu também o excelente texto do prof. Clóvis Gruner:

50 anos, hoje

Do que saiu na imprensa, duvido muito que alguém tenha superado o dossiê da revista Carta Capital, que está aqui. Isso eu ainda não li tudo, mas recomendo especialmente o texto do Moniz Bandeira, que resgata um pouco da importância estratégica dos EUA no planejamento e no apoio ao golpe dos militares brasileiros:

Tio Sam dá as cartas

Tem também o Jurandir Machado da Silva, que faz a necessária reflexão sobre o papel da imprensa no golpe:

Jornalismo golpista

Deve ter muito mais coisa boa por aí, se eu descobrir, talvez eu avise.

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Quando foi inventado o canto gregoriano?

Esse é um tema que estou trabalhando nas aulas de História da Música. Antes de chegar no assunto “canto gregoriano”, um fator fundamental para pensar a produção musical da Idade Média, já passamos por outros assuntos que tem temas tratados aqui no blog:

A música grega antiga

Sobre a notação da música grega antiga

Os cânticos dos cristãos nos primeiros séculos

Além disso, tem aqui um slide com as anotações sobre o pensamento musical de Boécio.

Este post é também uma reorganização de algumas informações que já estavam em dois posts do ano passado, onde podem ser pesquisados mais detalhes:

Quando começa a História da Música?

Sobre o surgimento da notação musical durante o período carolíngeo

Basicamente, o negócio é o seguinte: tem pouca informação sobre canto gregoriano na Idade Média, e a pouca informação que tem é guardada por instituições eclesiásticas que, obviamente, tem interesse em defender alguns pontos de vista e mistificar as coisas. O conhecimento sobre canto gregoriano que tem sido veiculado nos livros de história da música em geral é muito dependente da visão do assunto divulgada por pesquisadores eclesiásticos, especialmente os monges da Abadia de Solesmes (veja aqui o verbete da wikipedia, infelizmente o único mais completo está em francês).

Mas continuando com nosso objetivo de verificar aquilo que é realmente confirmável pela documentação, ou seja, estamos em busca de uma história da música para além de ideologias e mistificações – a pista mais antiga que se pode encontrar é um documento do século X. O Cantatorium depositado na biblioteca do Mosteiro suíço de Saint Gallen (talvez o principal centro de documentação eclesiástica do período carolíngeo) foi produzido cerca do ano 925, e é o documento mais antigo existente em notação neumática. Veja uma imagem extraída deste documento:

Trecho do Cantatorium do mosteiro de Saint Gallen
Trecho do Cantatorium do mosteiro de Saint Gallen

Ou seja, esse aí é o documento mais antigo com notação musical de música litúrgica da igreja romana (ou católica, como queiram) – é do século X. Foi produzido num período em que o Império Carolíngio já tinha se tornado a principal força dominante na Europa Ocidental. Do acordo entre os reis carolíngios e os papas romanos surgiu o primeiro sistema político estável a abarcar uma parte considerável da Europa. A tentativa de sistematizar o canto litúrgico é devida ao trabalho dos burocratas (ou intelectuais) desta aliança Religião/Estado que configurou muita coisa do mundo medieval e com transbordamentos para o mundo moderno.

Veja um mapa ilustrativo:

Mapa do império carolíngio
Mapa do império carolíngio

Como está claro no mapa, dá pra dizer que o Império Carolígio reuniu toda a Europa Ocidental sob um mesmo estado/igreja. Estão fora deste mapa apenas as ilhas britâncias, as regiões sob domínio muçulmano na Península Ibérica e as partes da Itália e do Leste Europeu que estavam sob o Império Bizantino.

Havia então uma tentativa de disciplinar os cânticos litúrgicos, afinal existiam várias tradições entoativas sobre as quais não resta documentação, senão a que se transmitiu por tradição oral: rito galicano, canto mozárabe, canto romano antigo, entre outros.

Para que a tradição dos cânticos litúrgicos pudesse ser acreditada sob a necessária aura de santidade, começaram a ser produzidos os livros de cânticos que disciplinariam a música nas igrejas do império. Eles começaram a receber a atribuição de “canto gregoriano”, e uma profusão de imagens começaram a ser produzidas ligando o cântico litúrgico à produção de São Gregório, ou Gregório Magno, reputado à época como o maior papa da história da igreja. Ele tinha sido Bispo de Roma no período 590-604, e é correto pensar nele como o primeiro papa, justamente por ter sido o primeiro a estabelecer a Igreja de Roma como centro político administrativo daquilo que passou a ser os Estados Papais. Gregório deixou muita produção escrita, embora não haja nenhum registro de que tenha escrito música – até porque não havia notação musical para isso em sua época, e nenhum documento musical sobreviveu. Se ele tivesse realmente produzido algo tão importante, a igreja não teria guardado esta documentação?

Entretanto, muitas imagens do século X apresentam figuras de São Gregório ditando os cantos litúrgicos a um escriba, enquanto o Espírito Santo está sobre seu ombro em forma de pomba, relevando a inspiração divina para tais cânticos. Veja uma imagem retirada do Antifonário Hartker depositado na biblioteca do Mosteiro de Saint Gallen, que foi produzido por volta do ano 997:

Gregório ditando os cantos litúrgicos a um escriba - Antifonário Hartker
Gregório ditando os cantos litúrgicos a um escriba – Antifonário Hartker

Então, as raízes do que a gente chama de Canto Gregoriano não tem profundidade maior do que o período de sistematização da liturgia empreendida pelo Império Carolíngio no século X, quando surge uma forma de notação minimamente estável e as primeiras compilações de antifonários ou livros de cânticos. A atribuição a Gregório é apenas uma forma de legitimar e sacralizar este processo.

Nossas pontes modernas com esta informação antiga também são muito precárias. Basta ver que a maioria dos livros de história da música disponíveis em português continuam reproduzindo esta conversa de que Gregório sistematizou os cantos litúrgicos durante seu papado.

Na verdade, o que a gente conhece hoje do canto litúrgico medieval é devido em grande parte ao trabalho realizado no final do século XIX por monges franceses. A abadia de Solesmes tornou-se um centro de pesquisa, sistematização e difusão do canto gregoriano. A notação utilizada e os muitos volumes impressos hoje disponíveis (bem como as gravações deles derivadas) foram produzidas a partir da década de 1890, como está explicado no interessante verbete francês da wikipedia. Mais explicações sobre a notação desenvolvida em Solesmes está neste trecho do verbete da wikipedia inglesa sobre neumas.

O principal produto dessa sistematização feita pelos monges de Solesmes no final do século XIX e início do século XX foi o Liber Usualis, um catatau de mais de 2000 páginas que serve de hinário oficial do canto católico.

A noção que a gente tem hoje de canto gregoriano tem mais a ver com este movimento de restauração da igreja surgido no século XIX como reação aos períodos revolucionários dos séculos XVII a XIX. Durante estes períodos, a Igreja foi alijada de sua posição tradicional de ligação umbilical com as monarquias e surgiram os modernos Estados nacionais laicos. A sistematização do canto gregoriano era, então, uma tentativa impossível de volta ao passado – um trabalho ideológico feito a partir da garimpagem em documentos espalhados em diversos mosteiros, coisa que foi produzida a partir daquele período carolíngio, mas que tinha sido abandonada nos períodos em que a música litúrgica começou a abraçar a polifonia (como veremos em aulas posteriores) a partir do século XIII.

Veja aqui um verbete sobre o Liber Usualis, que tem um link para uma edição em inglês. Desta edição saiu a imagem abaixo, de um canto litúrgico em notação gregoriana moderna.

Trecho do Liber Usualis
Trecho do Liber Usualis

 

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Tô escrevendo lá no História Cultural

Só pra contar, aqui, que o História Cultural, blog que mantenho no portal do jornal Gazeta do Povo, está em atividade, com coisas saindo de vez em quando.

Estão lá os textos que já publiquei este ano:

História Cultural: o blog e o blogueiro, versão 2014

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Lorenzo Mammi: o LP como forma de arte

Xabier Basurko: O canto cristão na tradição primitiva

Os três anos de Osvaldo Ferreira à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná

Quem preferir, também pode acompanhar o blog pela página no Facebook – aproveite e curta para divulgar.

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Umas questões sobre o futuro do jornalismo

Faz tempo que o futuro dos jornais e do jornalismo entrou em questão por conta da concorrência da internet como fonte de notícias.

(Isso é outro assunto, mas me ocorre agora – em épocas passadas os jornais impressos receberam concorrência de novas mídias como rádio (anos 1930) e TV (anos 1950) sem que tenha sido desastroso. Talvez o problema tenha sido muito pior no Brasil, pois muita gente começou a se informar pela TV, sem nunca ter passado pela notícia impressa.)

Mas o negócio é que com a internet os jornais impressos tradicionais entraram numa baita crise financeira, com redução de tiragem e de receitas – as revistas talvez tenho sido ainda mais afetadas. Parte do tráfego foi direcionada para as páginas dos próprios jornais na internet, embora praticamente todos tenham fracassado em tirar receita do tráfego pela internet (a publicidade online não decolou como se imaginava).

Diversos jornais fecharam, e outros estão achando jeitos de cobrar pela notícia, ganhando novo fôlego financeiro. A situação talvez seja bem pior nos Estados Unidos, pois no Brasil ainda há espaço para captação de novos leitores de jornal, coisa que lá já estava saturado faz décadas (como também na Europa).

Essa coisa toda vem muito bem discutida neste ótimo texto do norte-americano Dean Starkman, traduzido no portal Observatório da Imprensa:

Um novo consenso sobre o futuro do jornalismo

Algumas coisas ali são alentadoras, porque nós leitores fomos vítimas de uma terrível queda de qualidade do jornalismo na última década e meia. Isso em parte parece estar estancando, ou vem sendo revertido.

O grande problema continua com as notícias locais e a imprensa regional, como se pode ler neste interessante trecho:

As redações metropolitanas que já cobriram delegacias de polícia, escolas, autoridades fiscais e o poder em suas comunidades parecem ter sido atingidas por uma bomba de nêutrons; as mesas estão lá, mas as pessoas sumiram. Pautas importantes como o meio ambiente e a educação não têm cobertura alguma. Como disse um importante relatório das Comunicações Federais em 2011, “uma abundância de veículos jornalísticos não significa uma abundâncias de reportagens… Embora a tecnologia digital tenha dado poder a algumas pessoas de muitas maneiras, o declínio paralelo nas reportagens locais, em outros casos, tirou o poder dos cidadãos passando-o ao governo e a outras instituições poderosas que, mais frequentemente, organizam a pauta das notícias”. Amém.

Algumas coisas estão em vias de solução pelo tal “novo consenso” identificado no texto. Outras estão longe disso. No caso nosso aqui em Curitiba, a gente vive uma situação privilegiada de ter um jornal local que vem em ascensão na qualidade da apuração (desde o caso dos fantasmas da Assembléia Legislativa que, pra mim, significou um marco de ruptura com aquele jornalzão comprometido com as elites políticas locais para algo mais próximo da imprensa apurativa).

Mas se a gente olhar a situação em cidades grandes do interior e/ou polos regionais (pensemos em lugares como Londrina, Maringá ou Joinville – com coisa na ordem dos 500 mil habitantes) veremos que o negócio está bem feio – como sempre esteve no Brasil, na verdade. Um país sem jornais, sem leitores e sem imprensa séria. Não dá pra comparar aqui com nenhum lugar da Europa ou dos EUA.

Mas a falta de reportagens locais cobrando as coisas que deviam funcionar talvez explique em grande parte a má qualidade e a decadência dos políticos e das instituições políticas. Nisso estamos irmanados com europeus e norte-americanos. O problema é geral, e a falta de um jornalismo regional de qualidade explica a ascensão meteórica dos tiranetes de aldeia incompetentes, que é praticamente tudo que temos nos dias de hoje.

Pra resumir, precisamos de jornais decentes. Não vai dar pra confiar que tudo se resolve com facebook e twitter.

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Sobre esquerda e direita, a propósito dos protestos na Venezuela

Protesto na Venezuela (foto de Davi Gonzáles para o Terra)
Protesto na Venezuela (foto de Davi Gonzáles para o Terra)

Tô escrevendo este post por causa da reação de uns amigos quando compartilhei no facebook este texto do Vargas Llosa sobre os protestos na Venezuela.

São amigos pelos quais tenho profundo respeito como intelectuais, o que significa que vale a pena elaborar melhor algum raciocínio sobre o assunto, porque acho que a discussão pode ser muito interessante.

Você vai ler, ou já leu o texto do link acima, então nem preciso dizer que o Vargas Llosa defende os manifestantes venezuelanos, e considera legítimas suas reivindicações. Na verdade diz muito mais – que os manifestantes estão conseguindo, a duras penas, evitar que a Venezuela se torne mais uma Cuba, e que toda a América Latina mergulhe em regimes ditatoriais.

Que esses regimes ditatoriais sejam considerados “de esquerda”, e que o Vargas Llosa e os manifestantes venezuelanos sejam considerados “de direita” é um pequeno detalhe, mas que tem feito toda a diferença no que as pessoas tem pensado sobre estes casos. O argumento dos meus amigos foi algo como uma surpresa que eu pudesse concordar com um texto escrito por alguém assumidamente de direita.

Temos que fazer algumas diferenças aqui. Em primeiro lugar acho que o Vargas Llosa deve ser definido mais precisamente como um liberal. Reduzir isso a um simples “de direita” é diminuir a complexidade da questão. Se quisermos lembrar o quanto o liberalismo tem de esquerda, temos que ler esta ótima (e curta) explicação histórica do prof. Clóvis Gruner.

Por outro lado, acho que é bem contraproducente pensar em “esquerda” como coisas ligadas a Lênin e Stalin, Fidel e Che, Mao Zedong. Porque se pensamos que esquerda é defender igualdade e justiça social, temos que lembrar que não existe esquerda sem pensar em garantia de direitos e liberdade de expressão. Governos ditatoriais não são de esquerda. São governos ditatoriais. Já passou da hora de sabermos que não é de esquerda ser estatizante, cercear a liberdade de expressão e de imprensa, realizar prisões arbitrárias e estabelecer controles centralizados sobre as decisões econômicas. Se não quisermos pensar que isso é moralmente errado, pelo menos sejamos pragmáticos: está mais que provado que isso não melhora a vida das pessoas.

O bolivarianismo de Chávez e o chavismo de Maduro não são esquerda. O fato de que existe uma elite branca que sempre viveu as benesses da riqueza petrolífera do país, deixando à míngua a maioria de pobres mestiços e índios, não significa que as mudanças políticas provocadas pelos anos de Chavez sejam a priori boas, só porque pretendiam mudar este estado de coisas.

Os governos de Chavez (1998-2013) arruinaram a economia da Venezuela, a tal ponto que hoje a população não consegue produtos básicos como papel higiênico ou mesmo comida. É um caminho que vem seguido de perto pela Argentina dos Kirchner, que vive perseguições à mídia oposicionista (é “burguesa”, mas e daí? Não se cala a oposição por ela ser oposição – convive-se com ela, derrota-se ela politicamente) descontrole inflacionário e falta de insumos por insolvência externa (mesmo com o alto valor das commodities de exportação).

De modo que é imperativo preocupar-se com a situação dos vizinhos próximos e distantes. Até porque há um flerte perigoso dos nossos governos petistas com essa irresponsabilidade toda só porque é “de esquerda”. Vamos lembrar que o PT não é eleito no Brasil porque significaria um impulso na vitória mundial da esquerda. É eleito no Brasil enquanto puder distribuir renda mantendo a inflação sob controle. Vamos lembrar que nossos governos de esquerda tem sido muito tímidos em fazer mudanças mais profundas na estrutura econômica que sustenta nossa desigualdade – nossos pobres continuam tendo que trabalhar muito mais porque não contam com infraestrutura básica, e os governos do PT pouquíssimo avançaram nisso. É difícil mudar, dá muito trabalho. E é fácil fazer besteira quando se é muito afoito ou voluntarista. O episódio da baixa da SELIC por determinação presidencial já está patente que foi desastroso. Apenas estamos em situação mais fácil de consertar, enquanto a Venezuela já chegou ao fundo do poço. Mas as nossas “jornadas de junho” bem nos mostram que as coisas não vão a mil maravilhas por aqui, especialmente porque nossos governos (de todas as matrizes ideológicas) não conseguem fazer transportes públicos decentes.

Não basta classificar os protestos venezuelanos como “financiados por Washington” ou os rebeldes como “de direita”. Se Washington financia instituições pró mercado e pró democracia, isso é bom. Se regimes querem ser anti americanos, anti capitalistas e anti imperialistas, que ótimo também. Basta governarem bem, e construírem um sistema onde tenha papel higiênico para todos no supermercado.

Ou seja, o negócio de esquerda e direita aqui está bem embaralhado. Não basta desprezar o texto do Vargas Llosa por que foi escrito por alguém da direita. É preciso identificar onde estão as ideias erradas no texto dele. Onde estão as virtudes do chavismo, que não enxergamos, e porque alguém que vive na Venezuela não deveria protestar contra o governo.

Por fim, só pra ilustrar, um tuíte do meu deputado Dr. Rosinha.

Ele trai sua posição ali, embora o link remeta para um texto da BBC que fundamenta o que está dizendo, e mostra uma Venezuela com profundas divisões sociais. Elas existem, e a coisa não é simples. Mas o direito de protestar, de exigir mais liberdade é a marca da juventude. E que bom que tem gente protestando, sempre. Nos leva a um mundo melhor, com direita e esquerda disputando posições em eleições democráticas, coisa que a Venezuela não tem faz tempo.

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Os cânticos dos cristãos nos primeiros séculos

Christ-Orpheus from Rome catacombe

Ao tentarmos estudar sobre os cânticos dos cristãos nos primeiros séculos, fica patente que é muito difícil pesquisar sobre assuntos de história mais remota, especialmente quando são temas sobre os quais resta pouca documentação. O caso fica ainda mais complicado se envolver uma tradição religiosa que se consolidou como hegemônica em séculos posteriores, e que foi responsável por produzir e depois preservar os únicos documentos existentes a seu respeito.

Por isso é muito complicado estabelecer postulados históricos confiáveis sobre o cristianismo dos primeiros 4 séculos. Provavelmente a documentação histórica mais antiga sejam algumas das cartas de Paulo que hoje compõem o Novo Testamento, datando da década de 50 do primeiro século. Os Evangelhos circularam oralmente antes de serem definidos como canônicos ou descartados pela ortodoxia (no caso dos hoje chamados apócrifos ou pseudo epígrafos). Como os cristãos foram um grupo perseguido tanto pela tradição judaica quanto pela burocracia romana, a produção e a preservação de documentos era muito complicada e difícil.

Parte do material que pode servir de pista aos pesquisadores é a iconografia, que tem num dos melhores exemplos a imagem que ilustra o post. Ela está preservada numa catacumba onde foram sepultados vários mártires que foram vítimas de perseguição no início do Século IV. A imagem retrata o Cristo na forma de Orfeu, o que nos remete a duas ligações muito importantes: primeiro aos processos de helenização que transformaram o cristianismo de uma seita sectária em um grupo intelectualizado e aceitável para o mundo urbano antigo, e em segundo lugar à importância que a música assumiu nas comunidades cristãs dos primeiros séculos.

A associação da figura do Cristo Salvador com o mito grego de Orfeu diz muito sobre o status da música nas primeiras comunidades cristãs. Afinal, Orfeu era filho de uma musa, e usou suas habilidades com a lira que ganhara de Apolo para salvar os argonautas em vários perigos da viagem. Depois tinha usado sua lira novamente na descida ao inferno para a busca de sua amada Eurídice, quando tocou para a barca de Caronte não afundar carregando um vivo, para acalmar o cão Cérbero, e até mesmo para aliviar o sofrimento dos mortos.

Se a lira de Orfeu tinha tantos poderes miraculosos, nada melhor do que associá-la ao Redentor dos cristãos. Essa importância da música na tradição das comunidades dos primeiros séculos também pode ser atestada pelas fontes escritas. Por exemplo, em Adoração na igreja primitiva, Ralph Martin demonstra que vários trechos do Novo Testamento são cânticos litúrgicos que passaram ao cânone (assim como também várias orações coletivas). Este autor parte dos Evangelhos e demais livros do cânone cristão para mapear as pistas sobre os cânticos litúrgicos das comunidades do primeiro século. Mas só nos chegam os textos poéticos, pois nada sobrevive em notação, nem que sejam fragmentos como os da música grega antiga.

Na verdade, é conhecido um único fragmento de hino cristão anotado à maneira como faziam os gregos. Ele foi encontrado como parte da coleção dos Papiros de Oxyrrinco, e foi publicada uma transcrição deste fragmento, que foi incluída nos apêndices do livro A música grega, de Théodore Reinach. Veja a imagen:

Transcrição do hino cristão de Oxyrrinco
Transcrição do hino cristão de Oxyrrinco

Se a documentação direta sobre música é rara, resta a documentação indireta, e aí a coisa começa a ficar mais interessante. Tem dois livros que eu gostaria de estudar sobre o tema mas estão um pouco mais difíceis de achar. Um livro antigo em francês do Oscar Cullman sobre a fé e o culto da igreja primitiva – este autor tem várias coisas em português nos catálogos, mas não este livro, infelizmente. Outro livro antigo em inglês do Eric Werner (esse pelo menos tem um pdf disponível). E ambos os livros são usados e citados pelo Xabier Basurko no livro O canto cristão na tradição primitiva, que está mais fácil pra gente aqui no Brasil.

O Basurko faz um ótimo panorama do uso da música nos séculos II a V através da literatura patrística. E assim ele consegue umas pistas ótimas sobre os usos da música, suas funções e a maneira como tudo foi regulado pelos caras que criaram a ortodoxia que seria dominante pelos próximos milênios.

De começo a coisa já faz ligação com a imagem do Cristo/Orfeu das catacumbas. Na página 34 o Basurko aponta o seguinte:

O salmo cantado torna-se assim uma medicina divina para a cura do espírito humano, ferido pelo pecado. Os médicos experientes – anota Basílio – quando têm de curar um paciente com um remédio amargo, têm o costume de ungir uma ou outra vez com mel a borda do cálice. Desta forma, o enfermo recebe seu remédio sem sentir o gosto desagradável. Deus fez a mesma coisa no canto do salmo, juntando o mel da melodia ao remédio de suas palavras divinas.

A imagem do remédio pode facilmente responder aos métodos terapêuticos do tempo dos Pais. Ela, não obstante, aparece em Platão em um contexto muito afim ao nosso, e essa passagem já é conhecida e citada por Eusébio de Cesaréia. Assim, pois, parece mais uma transposição de ideias recolhidas da filosofia helênica a um plano cristão.

O trecho de Basílio estava em sua Homilia ao Salmo 1. A referência a Platão remete ao Diálogo das Leis, livro II, vers. 660 (ver aqui uma edição bilíngue grego/francês). O trecho mencionado de Eusébio de Cesaréia está nas Preparatio Evangelica, XII, 20.

Por aí a gente tem duas coisas importantes sobre a função da música no entender das lideranças eclesiásticas dos primeiros séculos. A primeira é que a música assumiu papel fundamental no ensino da doutrina aos jovens, de modo a amenizar a dureza da decoreba. A segunda é que esta concepção educativa da música já estava em Platão e que muitas coisas que os Pais antigos escreveram era mera cópia da filosofia da Grécia Clássica. Não é pra menos, os caras escreviam em grego e viviam num mundo helenizado (o grego é mesmo a língua do Novo Testamento e vários conceitos cristãos vêm da tradição grega – talvez o mais notável seja da ideia do verbo/logos que está no início do Evangelho de João).

O Basurko também vai seguindo as pistas e identificando dois tipos diferentes de canto litúrgico. O primeiro seria uma maneira entoada de ler os textos bíblicos, que foi apenas uma das muitas tradições cúlticas que o cristianismo trouxe do judaísmo. Veja que interessante um exemplo de uma dessas leituras feitas por um rabino atual:

Haveria ainda um outro modo musical de fazer a recitação quando fosse referente ao livro dos Salmos. E, por fim, um outro tipo de cântico que seria usado para os demais momentos do culto, intercalados entre as leituras.

A forma entoativa de praticar as leituras litúrgicas é mais compreensível se pensarmos que o mundo daquela época tinha poucas possibilidades de produzir, copiar e manter textos escritos. As formas orais de criação e transmissão eram fundamentais, e por isso as leituras eram tão fundamentais. Pode parecer estranho para o nosso mundo em que todos tem Bíblia de papel, e até nos smartfones.

Os outros tipos de música assumiriam papel fundamental nos cultos e como elemento de conforto espiritual e como amálgama do corpo dos fiéis.

Sobre a questão do conforto espiritual e afastamento dos maus espíritos, vejamos dois trechos do Basurko:

Uma interessante interpretação espiritual encontramos em Nicetas de Remesiana. Segundo ele, não foi o som da cítara de Davi que expulsou o espírito maligno que agia em Saul, mas o poder de Cristo. Na realidade, a cítara de Davi com suas cordas estendidas sobre a madeira era o símbolo de Cristo crucificado e era também a paixxão do Salvador que Davi cantava naquele momento. (p.64)

Assim como os porcos se juntam nos lugares lamacentos – as abelhas, ao contrário, em lugares onde se encontram aromas e perfumes – assim também os demônios se congregam onde se estão cantando canções de meretrizes, enquanto que lá onde se cantam os cantos espirituais voa num instante a graça do espírito, que santifica a boca e a alma dos cantores. (João Crisóstomo, Exposição sobre o Salmo 41). (p. 66)

Mas o que mais me chama a atenção é a função coletivizadora e uniformizadora dos cânticos cultuais. Se todos os estudiosos concordam que o cristianismo primitivo tinha como marca a radical igualdade entre os irmãos, fica mais forte ler a seguinte citação de João Crisóstomo, um pregador que, depois de ser monge, viveu entre a riqueza imperial de Constantinopla na época em que o cristianismo ia se tornando religião do império. Suas palavras buscam retomar a radicalidade da fé que coloca todos como iguais perante Deus, e isso se faz especialmente através dos cânticos:

Desde que o salmo cai no meio de nós, ele reúne as vozes diversas e forma de todas elas um cântico harmonioso: jovens e velhos, ricos e pobres, mulheres e homens, escravos e livres, fomos arrastados em uma só melodia. Se um músico, fazendo soar com arte as diversas cordas de sua cítara, compõe com elas um só canto, apesar de serem múltiplos os seus sons, é preciso ainda espantar-se de que nossos salmos e nossos cantos tenham o mesmo poder?… O profeta fala, e todos nós respondemos, todos mesclamos nossa voz à sua. Aqui não há nem escravo nem livre, nem rico nem pobre, nem príncipe nem súdito; longe de nós estas desigualdades sociais, formamos todos um só coro, todos fazemos igualmente parte dos santos cânticos, e a terra imita o céu. Tal é a nobreza da Igreja. E não se dirá que o senhor canta com segurança e que o servo tem a boca fechada; que o rico faz uso da língua e que, o pobre não; que, por fim, o homem tem direito de cantar e que a mulher deve permanecer em completo silêncio. Investidos de uma mesma honra, oferecemos a todos um comum sacrifício, uma comum oblação; um não é mais do que o outro, não existe nenhuma distinção, nenhuma diferença; todos nós temos a mesma honra, repito-o uma só voz se eleva de distintas línguas ao Criador do universo. (De studio presentium, homilia 5, 2) (p. 101)

 

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Sobre a notação da música grega antiga

Aqui no blog tem outro texto sobre a música grega antiga, com algumas imagens e informações. Mas uma coisa que faltava falar melhor é sobre o sistema de notação da música grega.

Restaram poucos fragmentos de música grega antiga em notação. E parece que o único documento completo encontrado (ao menos era isso até tempos atrás) tinha sido o chamado Epitáfio de Seikilos.

Aqui está uma imagem de como está a inscrição, que sobreviveu por ter sido esculpida num suporte mais permanente:

Epitáfio de Seikilos - hoje guardado no Museu Nacional da Dinamarca
Epitáfio de Seikilos – hoje guardado no Museu Nacional da Dinamarca

Para enxergar melhor, aqui uma impressão plana da inscrição completa:

Planificação da imagem gravada na coluna
Planificação da imagem gravada na coluna

Uma possível transcrição é esta aqui, que encontrei neste interessante blog:

Transcrição para notação moderna da música do Epitáfio de Seikilos
Transcrição para notação moderna da música do Epitáfio de Seikilos

As possibilidades de transcrição partindo deste tipo de notação são múltiplas, afinal não se trata de uma notação com informações completas, como se vê no original mais acima. A dedução das alturas parece não encerrar muita dúvida para os especialistas, mas a transcrição do ritmo pode ter pequenas variações de interpretação. Vejamos, por exemplo, a transcrição proposta no livro de Théodore Reinach:

Transcrição incluída no livro de Théodore Reinach
Transcrição incluída no livro de Théodore Reinach

A tradução inclusa no livro do Reinach, vertida para o português por Newton Cunha com revisão do grego por Daniel Rossi Nunes Lopes é a seguinte:

Enquanto viveres, brilha

não te aflijas com nada além da medida

a vida dura pouco

o tempo reclama seu tributo

Os motivos para a dificuldade com a transcrição ficam evidentes neste quadro dado por Théodore Reinach, com as explicações sobre a notação das alturas conforme se depreende dos fragmentos de notação grega já encontrados:

Quadro da notação grega antiga elaborado por Théodore Reinach
Quadro da notação grega antiga elaborado por Théodore Reinach

Por fim, duas interessantes possibilidades de execução da canção encontrada na lápide. A primeira, mais fiel às transcrições feitas. A segunda um arranjo livre de Luis Paniagua:

 

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Voltando às aulas e reativando os blogs

Dois mil-e-catorze já começou, mesmo antes do carnaval. As aulas voltaram no último dia 10, tanto pra mim na UNESPAR Campus Curitiba II (antiga FAP) como para as crianças na rede pública municipal.

Não que esta página tenha ficado parada. Às vezes é mais fácil escrever nas férias que no período letivo. Em janeiro este blog teve 7 postagens, das quais uma foi na verdade minha filha que escreveu (esta aqui). Isso foi mais do que qualquer mês deste blog desde junho de 2012.

Só que, mais do que blog, esta página funciona como um lugar para eu organizar os materiais que uso em minhas aulas. Então dá pra dizer que a página voltou à ativa quando foram colocados aqui os arquivos principais para organizar as atividades. Está tudo ali, na aba História da Música (aulas): os planos de ensino e os cronogramas de todas as disciplinas que estou ministrando em 2014 (que incluem links para textos de apoio na internet). Também tem uma nova aba chamada Pesquisa e orientações, com explicações para quem pretende ser orientando deste escriba (no momento, há vagas para Iniciação Científica).

Fora isso, estou tentando manter maior regularidade no blog História Cultural, que funciona no portal de blogs da Gazeta do Povo.

Comecei em fevereiro, com um post que é meio um chute inicial para 2014 e uma atualização para a página de perfil do blogueiro, que estava com as informações de quando o blog começou em agosto de 2011. O post é este:

História Cultural: o blog e o blogueiro, versão 2014

Aí tem também uma lista dos principais posts do blog. Depois disso, já publiquei mais dois textos novos – corram ler. Um é a resenha do livro do Marcos Napolitano sobre o Regime Militar brasileiro, que acabou de sair pela Contexto. E outro é sobre um texto do Lorenzo Mammi na revista Piauí:

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Lorenzo Mammi: o LP como forma de arte

Agora só falta eu retomar as contribuições para o Amálgama, um lugar que eu prezo muito nesta internet.

E vamos lá, que o ano promete.

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Tons de Duorum

O ótimo vinho produzido por José Maria Soares Franco
O ótimo vinho produzido por José Maria Soares Franco

Descobri este vinho numa indicação do enófilo Guilherme Rodrigues para o Bom Gourmet de janeiro. Ele deu uma lista dos seus vinhos preferidos de 2013, todos com notas altas (em torno de 90) e preço na casa dos R$ 90. Este vinho do Douro me chamou a atenção por estar indicado como preço de R$ 45 na distribuidora. Disse para mim mesmo que iria comprar.

Mas eis que topo com ele por R$ 37,90 no supermercado Condor. Faltava só a ocasião de algum amigo que fosse bom bebedor de vinho e capaz de apreciar a diferença que faria um produto de melhor qualidade. Não sou acostumado a comprar bons vinhos. Também não tenho muitos amigos capazes de apreciar a diferença entre um de R$ 18 e um de R$ 50. Ou seja, nem pra mim nem para meu círculo de amizades valia muito a pena gastar mais num vinho, pois a chance de aproveitarmos a diferença de qualidade seria pouca.

Entretanto, eu gostei muito da experiência. Na foto, que tirei logo depois de abrir o vinho, você pode ver que não me dei muito bem com a rolha. Foi a primeira vez que usei termômetro. O vinho tinha ficado umas 3 horas na geladeira, e eu achei que seria suficiente, porque não se deve beber vinho tinto gelado. Que eu saiba a temperatura ideal seria pelos 18ºC, e eu medi 22ºC – talvez por ter me batido um pouco para abrir a garrafa. Servimos a primeira taça e voltamos o bicho pra geladeira.

Na segunda taça ele estava mais para a temperatura ideal. Um parêntese: nunca vi verão tão quente aqui em Curitiba. As temperaturas estão chegando a 34ºC, e minha casa acumula o calor do dia, ficando bem quente à noite. Minha preocupação com a temperatura do vinho mostrou-se correta.

Ao beber, posso dizer que tive minha primeira experiência com um vinho de um pouco mais alto nível, ou pelo menos com a capacidade de perceber alguma coisa da sua qualidade.

O Tons de Duorum é feito com um corte de Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz (me parece que os portugueses só fazem vinhos com mistura de uvas). O que me marcou neste vinho foi o equilíbrio: taninos suaves, frutado mas não muito, madeira no ponto e frescor até o final da garrafa. Ou seja, um vinho equilibrado, capaz de agradar paladares variados e funcionar bem mesmo no calor que estamos vivendo estes dias. Aqui está a página do vinho na internet.

Pra resumir, se você quiser aproveitar, ainda vai encontrar algumas garrafas por este preço no supermercado. Eu diria que é um preço muito bem pago para um vinho excelente. Tons de Duorum safra 2011 é um vinho para ficar na memória.

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O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

Ainda não colocaram no Flickr da FCC as fotos do concerto de ontem, então vai esta foto do ensaio da orquestra, com a regência de Osvaldo Ferreira. Ele que é o diretor musical da parte de “música erudita” (ô nominho complicado) e que dirigiu ontem a orquestra de alunos (e alguns professores dando uma força) no que foi o encerramento da primeira parte da Oficina de Música e também sua despedida da cidade, afinal, o maestro não estará mais à frente da OSP em 2014.

Em primeiro lugar, o concerto de ontem serviu para mostrar o que a cidade está perdendo ao deixar ir embora um maestro deste nível. Orquestra da Oficina fazendo um concerto tão bem tocado eu só me lembro dos tempos em que Alceo Bocchino estava no pódio, dirigindo sua classe de orquestra (mas eram sinfonias clássicas, não Mahler e Villa-Lobos).

Por outro lado, o concerto serviu para mostrar que as impressões que eu tive com o concerto de abertura eram parciais e limitadas. Se por aquele concerto eu pude achar a Oficina pouco ambiciosa do ponto de vista de seu significado para a cidade, por este concerto eu posso dizer o contrário: é a exata noção de como fazer os alunos dos cursos se engajarem numa experiência musical altamente significativa para suas vidas e para a vida da cidade. (Minha crítica do concerto de abertura está aqui, e se tratava de um corpo estável profissional da cidade, ao contrário deste concerto que foi executado pelos jovens alunos do curso.)

Este concerto de encerramento teve diversas coisas, todas muito significativas.

Primeiro, a classe de regência e coral infantil. A professora Yara Campos regeu o grupo, formado por alunos da oficina – crianças da cidade que se inscreveram e crianças de lares da prefeitura. O conjunto foi completado por alguns regentes que fizeram o curso, mas não todos, para que o timbre adulto não prevalecesse sobre a voz das crianças. As crianças começaram cantando mal, talvez nervosas com a primeira vez que subiam num palco – e já era logo o palco mais importante da cidade. Mas aos poucos foram assumindo o controle da situação e cantando cada vez melhor: vozes bem trabalhadas dentro do que permite o limite de uma semana de curso. A regência de Yara foi fantástica, o repertório bem escolhido e tudo bem trabalhado. Criança pode fazer muita coisa importante, desde que a gente não subestime a capacidade deles. Aliás, fica a ótima pedida: porque não fazer um coro infantil permanente mantido pela prefeitura funcionando o ano inteiro? Curitiba já tem alguns bons corais infantis, mas é pouco para o tamanho da cidade.

Saindo as crianças vieram os adultos da aula de regência coral, comandados pela professora Mara Campos. Quatro obras para coro à capela de Henrique de Curitiba, compositor homenageado pela ocasião dos 80 anos de seu nascimento. A viúva e o filho subiram ao palco para receber homenagem em seu nome. Mara Campos regeu magistralmente, e o grupo mostrou a qualidade da preparação vocal de Lúcia Passos. Mara Campos demonstrou conhecer profundamente a obra de Henrique de Curitiba, deu depoimento pessoal sobre o compositor, e mostrou como fazer uma homenagem relevante para a memória da cidade e para a formação de novas gerações de músicos. E fica mais uma ótima pedida: porque os grupos da cidade não programam os compositores locais?

Depois veio a orquestra de cordas, formadas por jovens alunos, e complementada por quatro percussionistas, tocando arranjos de temas de filmes. Cada peça foi regida por um dos alunos da classe de regência de orquestra, e todos demonstraram bom gestual e boa capacidade de condução do conjunto. Foram eles: Eudes Stockler, William Lentz, Neylson Crepalde, Gesiel Vilarubia e Rodrigo Lara. Foi o momento de descontração para o público presente, com um repertório mais leve que favoreceu a execução de músicos muito jovens no conjunto e permitiu experiência de palco a regentes ainda em formação. Vale lembrar que o Brasil é um país sem orquestras, o que significa que são raras as oportunidades para instrumentistas e regentes aprendizes praticarem suas habilidades.

Voltou ao palco a regente Mara Campos, desta vez com um coral de 160 vozes, formado por pessoas da cidade que se inscreveram para a prática coral. Então foi a apresentação de Poema Sonoro – evocação das montanhas, certamente a música mais famosa de Henrique de Curitiba, pois foi gravada por Milton Nascimento (neste disco). O arranjo coral foi de Mara Campos.

O coro de 160 vozes ficou no palco e subiu a orquestra de alunos, regida por Osvaldo Ferreira. Primeiro para fazer as quatro peças do Lieder eines fahrenden Gesellen de Mahler, soladas magistralmente pela professora Eiko Senda. Como são belas as peças de Mahler para voz e orquestra! A execução foi digna, uma obra bem difícil.

E o grande final do concerto foi o Choros nº 10 – “Rasga o coração” de Villa-Lobos. Com coro e orquestra. É uma peça fantástica, talvez a melhor obra de Villa-Lobos, talvez o produto artístico mais significativo que o Brasil já mostrou ao mundo, pois a peça foi parte do repertório que consagrou Villa-Lobos em Paris na década de 1920 e colocou seu nome na lista mundial dos grandes compositores. Peça bem difícil pois a orquestração não é convencional em nenhum momento, exige bastante dos sopros e da percussão, e as partes de cordas também não são nada simples. O único defeito pra mim foi a ideia de amplificar o coro. Talvez pelo medo de que as vozes amadoras não conseguissem o volume necessário, coisa que eu acho que não seria problema pois, mais uma vez a preparação vocal de Lúcia Passos deu mostras de que é possível preparar bem um grupo amador mesmo com pouco tempo de ensaio. E a amplificação fez perder todo o efeito de espacialidade sonora que é tão importante numa peça ao vivo, jogando o som do coro para frente da orquestra e superando o volume do instrumental com um pouco de desequilíbrio.

O Guairão estava cheio, mostrando que o evento é significativo para a cidade (mesmo numa época em que muita gente está fora). O prefeito Gustavo Fruet estava lá, o que só me lembro de acontecer com essa normalidade nos tempos de Jaime Lerner, outro político que era frequentador de concertos por hábito cultural e não conveniência de ocasião.

O evento foi uma grande mostra de como a parte artística da Oficina foi bem dirigida por Osvaldo Ferreira, um maestro que sabe montar programação relevante e liderar os músicos com sucesso em empreitadas difíceis. Sua atuação como regente da OSP nos últimos dois anos é assunto para outro post (que está no forno), mas já fica patente a perda que será não tê-lo aqui durante o ano. Esperamos que continue com a Oficina, e que volte em melhores condições para dirigir um grupo permanente, afinal, não é fácil conseguir um regente europeu de bom nível para uma cidade como Curitiba, e a atuação de Osvaldo Ferreira foi generosa e competente, evidenciando o quanto são despreparadas as pessoas que deveriam dar as condições para ele desenvolver seu trabalho.

Duvido que houvesse melhor maneira de encerrar uma Oficina, e acho que deve ter sido mesmo o melhor encerramento de todos os que já foram feitos. Teve todos os ingredientes necessários: envolveu professores e alunos, adultos e crianças, profissionais e amadores, gente de fora e da cidade. Teve desde peças simples até obras das mais complexas do repertório musical. O conjunto do programa foi capaz de agradar tanto músicos profissionais quanto amadores com pouca experiência. Foi significativo tanto para a experiência musical dos que estavam no palco, coroando seus dias de aprendizado no curso, como para os que estavam na plateia e para toda a vida musical da cidade. Não vimos sombra da timidez e do medo que costumam dirigir nossas políticas culturais. Vimos a ousadia de mostrar que é possível ser relevante, fazer coisas importantes com o que se têm à mão. Que o desenvolvimento cultural está ao alcance, com muito trabalho. Apontou caminhos que eu espero que Curitiba tenha a decência de seguir, não se conformando com menos.

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