História da Música Brasileira – aulas 10, 11 e 12

Como se vê, o blog anda com dificuldade de manter a sequência de posts sobre os temas das aulas. Até o momento, já postamos conteúdo sobre duas aulas:

Aula 01 – Apresentação da metodologia e plano de ensino

Aula 02 – Música nos primeiros séculos de colonização na América Portuguesa

Além disso, tivemos aulas que não receberam posts aqui: Música no tempo de Gregório de Matos; Música sacra em Minas Gerais no século XVIII; Modinhas de Portugal e do Brasil; Música na corte joanina (tema dividido em duas aulas, uma para falar mais de José Maurício e outra para falar mais de Marcos Portugal e Sigmund Neukomm). E tivemos ainda uma aula para debater os textos, e outra para uma atividade acadêmica não diretamente relacionada à disciplina.

E assim é que a contagem chega às aulas mencionadas no título deste post:

Aula 10 – Instituições musicais no Brasil monárquico

Foi a aula dedicada a um panorama das instituições que marcaram sua importância na vida musical, principalmente na capital do império, durante o século XIX.

A aula foi dedicada às seguintes instituições: Capela Real, Teatros de Ópera, Sociedade Beneficente Musical, Conservatório Imperial, Academia de Ópera Nacional, clubes musicais e sociedades de concerto, lojas de música e casas editoras.

O que conversamos na aula foi pautado nos assuntos esquematizados em slides disponíveis aqui.

A bibliografia usada como referência foi composta principalmente de 3 trabalhos:

Lino de Almeida Cardoso. O som e o soberano: uma história da depressão musical carioca pós-Abdicação (1831-1843) e de seus antecedentes. Tese de doutorado, FFLCH-USP, 2006.

Carlos Eduardo de Azevedo e Souza. Dimensões da vida musical no Rio de Janeiro: de José Maurício a Gottschalk e além (1808-1889). Tese de doutorado, IFCH-UFF, 2003.

Janaína Girotto da Silva.  “O florão mais belo do Brasil”. O Imperial Conservatório de Música do Rio de Janeiro 1841-1865. Dissertação de mestrado, IFCS-UFRJ, 2007.

Aula 11 – A chegada da polca no Rio de Janeiro e o surgimento do maxixe

Essa aula foi baseada principalmente no capítulo de Carlos Sandroni sobre o maxixe, do livro Feitiço decente.

Capa do livro Feitiço decente

Capa do livro Feitiço decente

Ouvimos algumas gravações e assistimos alguns vídeos. As principais gravações que escutamos vieram dos discos Lundu de Marruá (dirigido por Edilson de Lima e lançado pela gravadora Paulus), Viagem pelo Brasil (dirigido por Anna Maria Kieffer), coleção Princípios do choro vol. 1 (produzido por Maurício Carrilho) e algumas gravações da Casa Edison incluídas no livro A Casa Edison e seu tempo (de Humberto Franceschi).

Complementamos a reflexão sobre o dilema do músico brasileiro entre a inspiração europeia e as raízes afro brasileiras refletindo sobre o conto “Um homem célebre” de Machado de Assis e o estudo sobre este texto feito por José Miguel Wisnik no artigo “Machado maxixe: o caso Pestana”. Mais informações (e links para estes textos) em uma publicação que fiz em outro blog:

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Aula 12 – Carlos Gomes

Ouvimos algumas gravações: peças selecionadas do disco O piano brasileiro de Carlos Gomes, de uma antiga coleção da FUNARTE, depois relançada pelo Itaú Cultural; trechos da ópera A noite do castelo, encontradas em gravações amadoras disponibilizadas na web; trechos de Il Guarany e de Fosca, nas gravações de Luis Fernando Malheiros com a Ópera de Sofia, na Bulgária.

A bibliografia que serviu de referência para esta aula:

Lorenzo Mammi.  Carlos Gomes. São Paulo: Publifolha, 2001. Coleção Folha Explica.

Marcos Pupo Nogueira.  Muito além do melodrama: os prelúdios e sinfonias das óperas de Carlos Gomes.  São Paulo: UNESP, 2006.

A dissertação de Janaína Girotto da Silva citada acima.

Lenita Nogueira.  Maneco músico: pai e mestre de Carlos Gomes.  São Paulo: UNIP, 1997.

Boa parte das coisas que conversamos nas aulas também está discutida em textos que escrevi em outros blogs antigos:

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

Uma obra prima lírica (com texto e tradução da ária Quale orribile pecatto, da ópera Fosca)

Além disso, hoje existem gravações completas de óperas de Carlos Gomes disponíveis no youtube. Abaixo, os vídeos de Fosca (com regência de Luiz Fernando Malheiros) e de Il Guarany (com regência de Roberto Duarte)

Henrique Morozowicz (1934-2008)

Este post é uma apresentação de Henrique Morozowicz (1934-2008), compositor e pianista curitibano também conhecido como Henrique de Curitiba. As informações foram resumidas a partir do capítulo “Biografia”, páginas 25 a 32, do livro Henrique de Curitiba: catálogo temático 1950-2001, de Liana Justus e Miriam Bonk (Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2002).

Capa do catálogo de obras de Henrique Morozowicz (exemplar da biblioteca da FAP)

Capa do catálogo de obras de Henrique Morozowicz (exemplar da biblioteca da FAP)

Origem da família e os anos iniciais de formação musical em Curitiba

Zbigniew Henrique Morozowicz nasceu em uma família de artistas. Seu avô paterno foi dramaturgo, escritor, tradutor e diretor de teatros na Polônia. Sua avó paterna foi atriz na polônia. Seu pai, Tadeusz Morozowicz (1900-1982), nasceu em Varsóvia e foi bailarino com formação em sua cidade, Kiev e São Petersburgo. Veio para o Brasil em 1926 a convite da comunidade polonesa, para fundar a primeira escola de balé de Curitiba, vinculada à Sociedade Thalia.

No Brasil, casou-se em 1933 com Wanda Lachowski, pianista aluna de René Devrainne Franck. Henrique Morozowicz foi o primeiro filho do casal, e começou a estudar piano com a mãe, em 1942. Antes disso, suas primeiras aulas de música foram na classe de canto orfeônico do Instituto de Educação do Paraná, onde ingressou como aluno em 1940.

Em 1942 tornou-se aluno da professora René Devraine Franck, com a qual também iniciou os estudos de Teoria Musical e Solfejo. Em 1946 começou a trabalhar junto com seu pai, como pianista do Ballet Thalia. Por esta época ingressou no ginásio no Colégio Marista Santa Maria.

Em 1948, com a fundação da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), ingressou como aluno do curso fundamental de piano, levado por sua professora. Em 1949 deu seu primeiro recital como pianista, na série “Valores Novos” promovida pela Sociedade de Cultura Artística Brasílio Itiberê (SCABI). Em 1950 iniciou o curso Clássico no Colégio Estadual do Paraná, onde também estudou órgão com Rodrigo Hermann. Neste ano começou a atuar como pianista acompanhador para vários cantores da cidade, atuando em recitais para a SCABI.

A formação superior e os estudos de composição

Em 1951 Henrique Morozowicz ingressou no Curso Superior de Música da EMBAP. Passou também a estudar Harmonia e Composição com o maestro húngaro George Kaszas, que regia a Orquestra Sinfônica da SCABI. Neste ano passou a trabalhar como organista da Catedral Metropolitana de Curitiba, acompanhando o coro durante as missas. Para o Coro Feminino da Catedral compôs suas primeiras peças sacras.

Em 1953 formou-se no Curso Superior da EMBAP, e em 1954 mudou-se para São Paulo para continuar os estudos. Na Escola Livre de Música estudou piano com Henry Jolles, Teoria Musical com Ernst Mahle e Composição com H. J. Koellreutter – todos professores com formação na Alemanha. Foi em São Paulo que os colegas lhe deram o apelido de Henrique de Curitiba, para diferenciá-lo de outro Henrique que havia na turma. O apelido tornou-se praticamente seu nome artístico pelos anos seguintes.

Formou-se na Escola Livre de Música em 1957, e durante o período estudou paralelamente órgão e regência coral, além de atuar como pianista acompanhador. Entre seus colegas de turma estiveram Isaac Karabtchevsky, Gilberto Tinetti, Clara Sverner e Julio Medaglia.

Entre 1958 e 64 trabalhou como supervisor da Indústria de Órgãos Eletrônicos Whinner, fazendo regulagem dos instrumentos conforme o local de instalação. Em 1960 estudou em Varsóvia como bolsista da Sociedade Polônia. Em 1961, retornando a São Paulo, deu vários recitais pelo Brasil como organista e como pianista acompanhador.

Retorno a Curitiba e a carreira como professor

Em 1962 Henrique Morowicz voltou a residir em Curitiba, assumindo o cargo de professor de órgão no recém criado Studium Theologicum (ver a este respeito o post sobre José Penalva).

Em 1964 tornou-se professor de matérias teóricas e composição na EMBAP, onde trabalhou até a década de 1980. Em 16 de outubro deste ano, no Teatro da Reitoria, aconteceu o primeiro concerto dedicado às suas obras.

Em 1972 casou-se com a pianista Ulrike Graf, com quem tocava em duo desde 1968. Outro duo importante em sua carreira de concertista foi com seu irmão Norton Morozowicz, flautista. Ambos realizaram diversos concertos entre 1969 e 79.

Nos Festivais Internacionais de Música do Paraná Henrique Morozowicz teve várias participações. Em 1966, 67 e 68 frequentou a classe de órgão com a professora norte americana Marilyn Mason. Em 1966 teve a estreia de sua obra Salmo XXII pelo coro do festival, com regência de Samuel Kerr. Em 1968 a professora Marilyn Mason estreou sua Toccata Super Ê Taru-ê em concerto do festival. Em 1969, na programação do festival, sua Missa Breve (1966) foi estreada pelo Coro da Pró-Música, com regência de José Penalva. Em 1975, 76 e 77 participou do Festival Internacional de Música do Paraná como artista convidado, tendo obras encomendadas.

Na EMBAP Henrique Morozowicz não atuou apenas como professor. Foi também chefe de departamento das disciplinas teóricas entre 1966-72 e 1974-76, além de Vice-diretor entre 1970-74. Em 1976 ingressou como professor do Departamento de Artes da UFPR, onde trabalhou até 1991. Nesta universidade também exerceu o cargo de Coordenador do Curso de Educação Artística.

Os estudos nos EUA e a consolidação da carreira de compositor

Entre 1979 e 81 foi aos EUA como bolsista da CAPES, e realizou seu Mestrado na Cornell University em Nova York. Nesta cidade realizou concerto com suas obras. Retornando ao Brasil, ainda no mesmo ano teve sua obra Études-Tableaux incluída na Bienal de Música Contemporânea da FUNARTE.

Em 1982 suas composições foram usadas na trilha sonora do filme Vida e sangue de polaco, de Silvio Back. Em 1983 participou novamente da Bienal da FUNARTE. Entre 1983 e 85 foi Diretor da EMBAP. Paralelamente, entre 1984 e 87 foi novamente Coordenador de Curso na UFPR. Além disso, foi Conselheiro da Fundação Cultural de Curitiba em 1984 e 85. A partir deste ano assumiu a presidência da Sociedade Pró-Música de Curitiba. Em 1987 e 88 foi diretor da Sala Bento Mossorunga da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.

Em 1987 e 89 participou novamente das Bienais da FUNARTE com suas obras. Em 1988 foi Diretor Artístico do Festival de Música de Londrina. Em 1997 mudou-se para esta cidade no Norte do Paraná. E em 2003 passou a residir em Goiânia, para onde foi convidado como professor da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG.

Em 2007 voltou a residir em Curitiba, onde faleceu.

Comentário sobre seu catálogo e sua importância

Em artigo publicado no site da UFG por ocasião da morte do compositor, a professora Glacy Antunes de Oliveira dá pistas da importância de sua obra:

As gravações de suas obras somam mais de 40 CD’s e LP’s, com registros feitos em várias cidades brasileiras e em vários países estrangeiros (Alemanha, Bélgica, Holanda, EUA, Argentina e Itália). Diversas composições suas foram editadas em vários países.

Um destaque em seu catálogo, tanto em quantidade como em qualidade, é sua música coral: um total de 59 obras para várias formações. Dado o destaque que considerou para esta faceta de sua obra, a professora Glacy concorreu no ano da morte do compositor ao edital de publicação de partituras de Fundação Cultural de Curitiba. E em 2009 viu a impressão do volume A obra coral de Henrique de Curitiba Morozowicz, justa homenagem à memória do compositor.

Capa do livro de partituras com a obra coral de Henrique Morozowicz (exemplar da Biblioteca da FAP)

Capa do livro de partituras com a obra coral de Henrique Morozowicz (exemplar da Biblioteca da FAP)

José Penalva (1924-2002)

Este post é uma apresentação de José Penalva (1924-2002), o maestro e compositor campinense que fez sua carreira em Curitiba, também padre e teólogo claretiano. As informações aqui contidas são sintetizadas a partir do livro José Penalva: uma vida com a batina e a batuta, de Silvana Bojanoski e Elizabeth Seraphim Prosser (Curitiba: Editora Unificado, 2006).

Capa do livro sobre o compositor (exemplar da Biblioteca da FAP)

Capa do livro José Penalva: uma vida com a batina e a batuta (exemplar da Biblioteca da FAP)

A formação e os anos iniciais

José Penalva nasceu em Campinas em 1924, e começou a estudar música com a mãe. Ela faleceu quando ele tinha 6 anos de idade. Aos 11 anos ingressou no ginásio dos claretianos em Rio Claro – SP. Ali iniciou os estudos formais de música, e assumiu aos 14 anos a regência do coro da instituição. Começava assim uma das suas principais atividades profissionais, que iria desenvolver com excelência até o fim da vida.

Em 1941 transferiu-se para a sede do Noviciado dos claretianos em Guarulhos. Em 1942 chegou em Curitiba para completar seus estudos teológicos no à época Seminário Maior dos claretianos. Aqui viveu o restante de sua vida e construiu sua carreira, tornando-se um dos nomes mais importantes da cultura local.

Logo que chegou à cidade começou a participar do coro chamado Orfeão Claretiano, reputado como um dos melhores do estado. Com este coro participou de diversos concertos em teatros e igrejas, muitas vezes com participação de orquestra. Fundou também um conjunto vocal dos seminaristas, chamado Schola Cantorum Aloysiana.

Ainda como seminarista tornou-se colaborador assíduo da revista Vida Claretiana, escrevendo artigos sobre teologia entre 1945 e 49. Ao final deste ano foi ordenado sacerdote. Durante o período no seminário compôs as primeiras obras, vocais e religiosas. Mais tarde considerou a produção da década de 1940 como exercícios ou obras de juventude quando da organização de seu catálogo.

Padre ordenado, professor e compositor – a vida profissional

Em 1950 transferiu-se para Guarulhos-SP para trabalhar no Instituto de Filosofia Claretiano. Ali atuou como professor de filosofia e de música, e também como regente do coro do Instituto e do coro paroquial. Neste período estudou teoria e composição musical com o professor Savino de Benedictis.

Em 1953 retornou a Curitiba como padre coadjutor do Instituto, e assumiu diversas outras funções. Foi professor de Teologia, História do Cristianismo e Música no Instituto Claretiano e padre na Igreja do Imaculado Coração de Maria. Foi diretor da Congregação Mariana, diretor da revista Vida Claretiana e regente do coro paroquial. Manteve as aulas com Savino de Benedictis durante as férias.

Entre 1956 e 58 residiu em Roma para fazer seu doutorado em Teologia. A tese foi publicada em português em 1987 com o título Credibilidade racional da fé cristã segundo Guilherme de Alvérnia (1191-1249). Em seu período na Itália especializou-se também em música da Renascença e em Canto Gregoriano.

Em 1958 retornou a Curitiba e reassumiu sua atividade paroquial. Suas missas se tornaram célebres, tanto por sua homilia como pelo uso do coro paroquial, que ele mesmo regia. Sua ida à Itália fazia parte de um plano de ampliação do Instituto Teológico dos claretianos em Curitiba, que quando de sua volta já estava reformado e ampliado. O Instituto transformou-se num importante centro de formação teológica para diversas congregações e ordens católicas. Com o trabalho de líderes católicos e participação de Penalva, em 1962 o Instituto foi transformado em Studium Theologicum, conveniado à Universidade Lateranense de Roma. Em 1975, seria incorporado à Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Doutor em teologia, professor e referência na música sacra

Em 1962 Penalva se notabilizou por ministrar em sua paróquia cursos sobre a encíclica Mater et Magistra, publicada em 1961 pelo papa João XXIII. Como professor de teologia, produziu material didático em forma de apostilas, que viria a ser publicado em livros na década de 1990.

Desde 1959 começou a se destacar também por sua atuação em prol do ecumenismo cristão, organizando a Semana de estudos sobre o protestantismo no Instituto Teológico. Em 1962 publicou o livro Concílio e união das igrejas, sobre as demandas ecumênicas que faziam parte do Concílio Vaticano II que se iniciava. A partir desta época participou em inúmeras cerimônias ecumênicas com o pastor presbiteriano Oswaldo Emrich.

Logo que retornou a Curitiba passou a envolver-se institucionalmente com a administração da música litúrgica. Passou a participar da Comissão de Música Sacra da Arquidiocese de Curitiba e foi presidente da Comissão de Música Sacra do Congresso Eucarístico Nacional em 1960. Em suporte a esta comissão, produziu 8 teses de trabalho sobre variados temas relativos à música litúrgica. No período de 1966 a 71, participou ativamente do processo de reorganização litúrgica pós concílio. Atuou nos 6 Encontros Nacionais de Música Sacra promovidos pela CNBB.

Participou do Movimento de Renovação da Música Sacra, que mobilizou compositores brasileiros. Forneceu-lhes textos litúrgicos para que compusessem obras musicais. Este projeto foi desencadeado a partir de uma reunião durante os Seminários de Música do Paraná, em 1968. O grupo contou com a presença dos compositores José Penalva, Osvaldo Lacerda, Enst Widmer e Edino Krieger. Viriam a se unir ao grupo outros compositores, como Lindembergue Cardoso e Henrique Morozovicz. Algumas das obras resultantes do movimento foram publicadas pela editora Irmãos Vitale, outras seguem inéditas até hoje.

Professor, regente e musicólogo renomado

Em 1959 José Penalva assumiu a cadeira de professor da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), onde lecionou contraponto e fuga até a década de 1980. Em 1963 foi um dos fundadores da Sociedade Pró-Música de Curitiba. Criou e passou a reger o Coro da Pró-Música, que se tornou um grupo de notabilidade nacional e internacional. Entre 1965 e 77 foi professor a trabalhou na organização dos Festivais Internacionais de Música do Paraná.

Além das atividades de professor de música, regente e compositor, dedicou-se também à crítica musical e à musicologia. Entre 1961 e 75 assinou a coluna de música do jornal católico Voz do Paraná. Durante suas visitas à família em Campinas, passou a pesquisar o acervo do compositor Carlos Gomes. Escreveu vários artigos e dois livros sobre o compositor. Em 1972 escreveu um informe sobre o acervo musical do Arquivo Eclesiástico de Mariana. Este texto é reputado pelo Musicólogo Paulo Castagna como uma importante reflexão sobre os métodos da musicologia. Essa discussão só se desenvolveria mais seriamente no Brasil a partir do final do século XX.

O trânsito para a vanguarda e o legado para a cultura de Curitiba

No início da década de 1970 a corrente de renovação da música sacra à qual Penalva era ligado foi superada por movimentos ligados à canção popular. Isso o afastou da produção litúrgica como compositor. Em 1972 e 73 foi novamente à Itália, para revisão teológica, mas acabou estudando principalmente música, com Boris Porena. Estes estudos, somados a um período de estudo com Damiano Cozzella em São Paulo em 1959 e 60, marcaram a aproximação de Penalva com as técnicas de composição de música de vanguarda. Como compositor, passou a um maior desenvolvimento de obras não litúrgicas e obras instrumentais ou orquestrais a partir da década de 1970. Abandonou as técnicas de composição tonais, passando a adotar atonalismo, serialismo, aleatoriedade, entre outras técnicas da vanguarda.

Desde a década de 1960 Penalva dirigia um grupo vocal de menor tamanho, com cantores selecionados a partir do Coro Pró-Música, que se chamava Madrigal Pró-Música. Em 1982 o grupo se desvinculou da Sociedade Pró-Música e se transformou no Madrigal Vocale, que Penalva regeu até sua morte, e que foi assumido depois por seu assistente Bruno Spadoni, continuando em atividade até hoje.

O livro recomendado acima, base para este post, é leitura obrigatória para conhecer a biografia do compositor. Também vale à pena assistir o documentário Pe. José Penalva: o mestre da música, dirigido por Ulisses Iarochinski. O vídeo tem depoimentos de pesquisadores e conhecedores da obra de Penalva como Elizabeth Prosser, Maurício Dottori, Bruno Spadoni e Carmen Célia Fregoneze, bem como de colegas de sacerdócio e de teologia.

História da Música IV – aula 04 (2016)

Orquestra da Victor Talking Machine gravando no sistema mecânico

Orquestra da Victor Talking Machine gravando no sistema mecânico nos estúdios da companhia em New Jersey

Tentando garantir a sequência de posts sobre os temas de aula, hoje tiro o atraso com o post História da Música IV – aula 04. O tema desta aula é a invenção do fonograma e as várias implicações decorrentes para a música do século XX.

Antes disso, já postei aqui sobre a aula 02, que tratou de duas obras fundamentais: Pierrot Lunaire de Schoenberg e Sagração da Primavera de Stravinski. A aula 03 não teve post: assistimos um episódio do documentário de Ken Burns sobre o jazz, e discutimos alguns aspectos da sua abordagem histórica.

Sobre a invenção do fonograma e as múltiplas implicações para a música do século XX, conversamos um bocado na aula da semana passada e também na aula desta semana. Parte das coisas que mostrei em aula estão neste post que escrevi num blog antigo:

A invenção do fonograma

Ali tem imagens e links de onde tirei informações. Além disso, vimos outras coisas que não estão no link acima:

ouvimos alguns exemplos das fabulosas gravações de Caruso feitas nos primeiros anos da fonografia (1902 em diante), que estão disponibilizadas neste fantástico site. Destaque para as seguintes gravações:

a canção Non t’amo piu de Luigi Denza em gravação de 1902

a ária Una furtiva lagrima de L’elisir d’amore de Donizetti – gravação com piano de 1902 e gravação com orquestra de 1904 digitalmente tratada.

ouvimos também algumas das lendárias gravações da banda de John Philip Souza realizadas entre 1901 e 1906 e disponíveis no acervo digital da Library of Congress.

Também olhamos este interessante texto (com farta ilustração e links) publicado no site do britânico Centro de Pesquisa para a História e Análise da Música Gravada:

A Brief History of Recording to ca. 1950

A parte sobre as primeiras gravações no Brasil ficou para a aula 05, sobre a qual irei postar em breve.

 

História da Música Brasileira – aula 02

Dando sequência aos posts que pretendem organizar o material da disciplina, seguimos com História da Música Brasileira – aula 02. A aula 01 foi uma apresentação da disciplina. Tem um post específico sobre ela:

História da Música Brasileira – aula 01

O tema desta segunda aula é a música nos primeiros séculos da colonização portuguesa na América.

Ao contrário do que disse na primeira aula (e no post) sobre a existência de bons livros de História da Música Brasileira para serem tomados como referência, a História do Brasil, de maneira geral, vem recebendo a devida atenção do mercado editorial. Temos bons volumes, muito completos e com referências nas melhores pesquisas recentes. Neste sentido, propus tomarmos o livro Brasil: uma biografia (lançado em 2015) como a principal referência mais atualizada.

Brasil: uma biografia - Capa do livro de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling

Brasil: uma biografia – Capa do livro de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling

O assunto da aula oscilou entre questões gerais da empresa ultramarina portuguesa e os primeiros passos de colonização na América e entre questões especificamente musicais. É difícil tratar deste período pela escassez de fontes, especialmente se o assunto for música.

Optamos por acompanhar o trabalho de Anna Maria Kieffer, que gravou o disco Teatro do descobrimento e escreveu um texto a respeito do processo de pesquisa que resultou na gravação. Sobre o disco, maiores informações neste blog.

O texto se baseia principalmente nas pesquisas de Rogério Budasz sobre a lírica de José de Anchieta, nos documentos de época de Jean de Léry e Hans Staden, em pesquisas atuais sobre flautas e cantos indígenas e sobre a música ritual sefardim, embora o assunto da música no Recife holandês tenha ficado para a aula 03 por falta de tempo.

A referência do texto da Anna Maria Kieffer:

KIEFFER, Ana Maria. “A flauta de Matuiú: registro, memória e recriação musical das festas no Brasil nos séculos XVI e XVII.” in JANCSÓ, István; KANTOR, Iris. (orgs.) Festa. Cultura e sociabilidade na América portuguesa. vol II. São Paulo: Imprensa Oficial/HUCITEC/EDUSP/FAPESP, 2001. p. 891-901.

Alguns textos que escrevi sobre esses temas em blogs antigos, e que servem de apoio ao que conversamos nesta aula:

Trilha sonora para uma festa antropófaga dos Tupinambás na qual um viajante alemão quase serviu de jantar

Um canto para a catequese

Os jesuítas e a música na América Portuguesa

Música dos judeus no Brasil Holandês

História da Música IV – aula 02 (2016)

Dando sequência às minhas resoluções de ano novo, pretendo continuar postando textos de apoio às aulas das disciplinas que estou ministrando em 2016. Outro dia postei aqui alguns assuntos sobre a primeira aula de História da Música Brasileira, hoje coloco informações sobre a segunda aula de História da Música IV.

A primeira aula da disciplina não teve post, foi a apresentação dos pressupostos teóricos, conteúdo da disciplina, autores, forma de avaliação e tal. O plano de ensino está disponível na aba Material de Aula neste blog.

A aula 02 teve como tema duas obras seminais da vanguarda no século XX: o Pierrot Lunaire de Schoenberg (1912) e a Sagração da Primavera de Stravinsky (1913). Ambas as obras estrearam em épocas próximas, e marcaram, cada uma a seu modo as principais correntes da música do século XX. Ambas as obras foram muito marcantes e influentes, e os compositores foram os maiores líderes de escola no século XX.

Capa da edição brasileira, pela Zahar

Capa da edição brasileira, pela Zahar

Um dos livros mais influentes sobre a música do século XX é A música moderna, de Paul Griffiths, publicado no Brasil pela Zahar. Esse autor levanta a ideia, a meu ver bastante convincente, de que Schoenberg lidera uma corrente de vanguarda germânica, que guarda ligação com a tradição que remonta a Bach, Mozart, Haydn e Beethoven, passando principalmente por Wagner e Mahler. Essa tradição tem profunda ligação com a construção do sistema tonal, e buscou sua superação pelo caminho dos cromatismos e modulações, chegando a um atonalismo que é quase um “turbo tonalismo” (termo meu, não do Griffiths), ou, como preferia o próprio Schoenberg – “pan tonalismo”. Essa corrente iria desembocar no dodecafonismo (a partir da década de 1920) e no serialismo (na década de 1950).

A outra corrente, da qual Stravinsky foi o líder principal, tendeu a ser sediada em Paris, mas aglutinou compositores franceses, do leste europeu ou de outras partes do mundo. Essa tradição remete mais às pesquisas de Debussy e Mussorgsky, e buscou superar o tonalismo inoculando elementos modais, acordes e escalas sintéticas, polirritmia, politonalismo e outros efeitos não derivados logicamente da tradição clássica.

Para entender um pouco mais o sentido da tradição germânica e o processo de dissolução do tonalismo antes de chegar em Schoenberg demos uma olhada no caso do acorde inicial de Tristão e Isolda de Wagner.

Pierrot Lunaire

Gravações completas desta obra podem ser ouvidas no youtube. Ouvimos as primeiras peças na aula, observando alguns detalhes na partitura.

Trata-se de um ciclo de canções sobre textos do poeta francês Albert Giraud, traduzidas para o alemão por Otto Hartleben. São peças curtas, e o ciclo foi pensado para um pequeno conjunto de 6 músicos e um regente – o que facilitou muito a execução da obra em várias cidades europeias. A instrumentação envolve narrador (ou melhor, voz em Sprechgesang), piano, flauta (alternando com flautim), clarinete (o mesmo músico toca clarone), violino (ou viola) e Cello. No geral cada peça usa a voz e o piano mais 3 instrumentos, usando as combinações de timbres para reforçar o sentido poético.

No Brasil temos a facilidade de termos uma tradução musical/poética por Augusto de Campos. Saiu no livro Música de invenção, publicado pela editora Perspectiva. Augusto de Campos (como os colegas concretistas) é um dos poucos capazes de traduzir poesia respeitando os números de sílabas e acentos. Quer dizer que é possível cantar a versão dele em português com a mesma música do original schoenberguiano que funcionaria.

Prestamos um pouco mais de atenção na 4ª peça – Eine blasse wascherin, porque nela se pode observar uma técnica muito interessante criada por Schoenberg, que chamamos “melodia de timbres”. Tem explicações aqui.

Sagração da Primavera

Stravinsky na década de 1920 (Wikimedia Commons)

Stravinsky na década de 1920 (Wikimedia Commons)

Se Pierrot Lunaire teve boa repercussão em certos meios literários e artísticos, deve-se basicamente a ter sido apresentada a públicos mais predispostos à vanguarda. Já Stravinsky fez a estreia de sua peça para o público conservador dos balés, acostumado ao padrão Tchaikovski, o que amplificou o potencial de escândalo da obra.

Uma boa reconstituição do que deve ter sido a reação do público está no filme Coco Chanel e Igor Stravinsky. Tem a cena da estreia do balé no youtube.

A obra foi composta sobre o argumento de Nicolas Roerich, retratando o ritual de saudação da primavera feito pro tribos da Rússia pré-histórica. Uma jovem era selecionada e deveria dançar até a morte. A coreografia foi de Nijinski. Era o terceiro balé de Stravinsky para a companhia Os balés russos de Diaghilev (as anteriores foram Pássaro de fogo e Petroushka) e, se as outras obras já eram bem avançadas, essa foi além no intuito de retratar os “primitivismos” dos rituais pagãos.

Além do uso de uma orquestra muito grande, com combinações de timbres muito inovadoras e uma série de efeitos harmônicos e linhas melódicas que teriam longa influência sobre outros compositores, parece que o maior efeito da Sagração esteve na organização do ritmo. Muito mais do que na obra de Schoenberg, aqui no Stravinski o elemento rítmico vem ao primeiro plano, com compassos irregulares, alternância de compassos e deslocamentos de acentos.

solo inicial do fagote

solo inicial do fagote

O trecho inicial, por exemplo, tem mudança de compasso em todos os compassos, além de quiálteras e fermatas.

Mas a força rítmica aparece mais acachapante depois da introdução orquestral, quando os dançarinos surgem em cena, no trecho chamado Presságios da primavera.

Presságios da primavera

Nesta seção Stravinsky coloca as cordas tocando em forte, stacatto e no talão do arco, atacando notas repetidas e deslocando acentos por entre as colcheias do compasso 2/4. Todo o trecho constrói variações rítmicas em cima de um acorde repetido. O acorde parece construído por sobreposição, pois parte da orquestra faz um Ré b menor (Dbm) e outra parte um Mi b com sétima de dominante (Eb7). [As 8 trompas em fá estão escritas 5ª acima do que soam.]

Ouça o trecho e calcule o susto das elegantes senhoras que frequentavam o Théâtre des Champs-Élysées em 1913:

Para conhecer melhor a obra, não deixe de ver o excelente hotsite desenvolvido pela San Francisco Symphony.

 

 

História da Música Brasileira – aula 01

Hoje começo uma série de posts com o objetivo de organizar um pouco as informações disponíveis para meus alunos da disciplina de História da Música Brasileira. A aula 01 tem o seguinte tema: Apresentação da disciplina, do Plano de Ensino e da metodologia de trabalho

Inclui também, claro, um pouco de uma apresentação do professor.

Resumindo um pouco do que devemos conversar em sala de aula:

Professor

Para quem saber todas as fofocas acadêmicas sobre um professor, é sempre útil verificar seu Currículo Lattes. O meu está aqui. A principal informação é que minha formação foi em duas áreas – Música (graduação em Licenciatura em Música na antiga EMBAP, hoje Campus de Curitiba I da UNESPAR) e História (Mestrado em História na UFPR e Doutorado em História Social na FFLCH-USP). Também é útil ver a página das minhas publicações neste blog, onde estão as referências bibliográficas e os links para os textos acadêmicos.

Abordagem metodológica

A principal característica da maneira como conduzo esta disciplina é a abordagem transdisciplinar a partir das duas áreas distintas. A área de música costuma tratar os assuntos de História da Música como campos da crítica musical e da musicologia. Ou seja, a disciplina costuma ser um estudo dos principais compositores e as principais obras.

Embora eu não despreze esta abordagem, incluindo observações musicológicas sobre várias obras e respeitando de certa maneira o cânon de compositores considerados mais importantes pela crítica, quem observar o Plano de Ensino da disciplina verá que os objetivos apontam muito mais para uma abordagem vinda da História.

Neste sentido, é preciso reforçar que a maior parte da bibliografia disponível (em alto nível acadêmico e reflexivo) vem de trabalhos desenvolvidos nas áreas de Ciências Humanas, por pesquisadores que às vezes tem formação em música e às vezes não. Assim, a proposta da disciplina é de enfocar questões mais abrangentes como a relação entre música e política, discursos estéticos, instituições, formação e consagração dos compositores, usos do conceito de Música Brasileira, projetos como o Modernismo ou a MPB (os dois principais que abordamos no curso), entre outras questões.

Uso desta página

Faz tempo que tenho esta página com endereço pessoal e servidor bancado por minha conta. Entre outras coisas, a pretensão sempre foi organizar o material das aulas e deixá-lo disponível para os alunos.

No caso da disciplina de História da Música Brasileira, nunca cheguei a fazer isso neste endereço. Este objetivo entrou nas minhas “resoluções de ano novo” e este post de hoje, com este título, me empurrou para a necessidade de respeitar este compromisso.

Assim, deve existir aqui uma série de posts História da Música Brasileira – aula tal que pretendem ser um post para cada aula, sintetizando as questões discutidas e apontando a existência de material na internet (textos, vídeos, áudios, slides, etc).

Além disso, essa página tem a aba Material de Aula, onde o conteúdo e os materiais aparecem de forma mais organizada. Todos os posts referentes ao assunto dessa matéria publicados neste blog ficarão sob a categoria (que eu chamo de “gaveta”) História da Música Brasileira.

“Professor tem um livro para indicar”?

De vez em quando algum bom aluno interessado vem com essa pergunta. Algumas disciplinas podem ter bons manuais para serem adquiridos como bibliografia básica – um pequeno punhado de livros que dê uma boa visão do assunto de forma condensada mas respeitando a complexidade do conhecimento sobre o tema.

Acontece que não existe nada parecido com isso para História da Música Brasileira. Os manuais que já foram editados padecem de alguns problemas básicos: são antigos, superados e/ou muito incompletos. Por exemplo, não existe nenhuma História da Música Brasileira que não separe “música clássica”, e “música popular”. Quero dizer, temos livros de História da Música Brasileira (focando só na música de concerto) ou livros de História da Música Popular Brasileira (focando só na música popular derivada da tradição do samba). Na verdade, os livros existentes acabarão sendo comentados no assunto “projetos ideológicos”.

Os bons trabalhos acadêmicos que aprofundam o tema ainda estão na fase dos estudos temáticos, e espero que logo tenhamos autores e projetos editoriais capazes das necessárias grandes sínteses. Ou seja, para cada aula e cada assunto, teremos um bom conjunto de artigos, teses ou livros temáticos. Mas não teremos bons livros gerais sobre a disciplina. Para um aprofundamento deste ponto, confiram a bibliografia que está no Plano de Ensino. Ela não é nem muito atualizada nem exaustiva, apenas indica os textos que considero mais importantes. Para cada aula serão feitas mais indicações.

Neste blog existe uma bibliografia um pouco mais completa, feita em 2012 para o que seria uma disciplina de mestrado. O mestrado ainda não saiu, a disciplina foi reformulada para novos projetos e a bibliografia é mais completa. Isso apareceu num post aqui – o link para o pdf está com problema, mas devo consertar em breve.

Concluindo

Tem muito mais coisa pra falar, obviamente, mas fica para quem estiver na aula. Aqui serve apenas como um registro para facilitar quem quiser rever questões e ter acesso facilitado ao material de estudo.

O blog História Cultural será descontinuado

foto da página do blog no Facebook

foto da página do blog no Facebook

Como parte de um grande processo de reestruturação do jornal Gazeta do Povo, alguns blogs serão desativados, inclusive o blog História Cultural, que mantive lá com postagens esporádicas entre 2011 e 2015. A reestruturação do jornal já vem acontecendo desde o início do ano, com a troca da direção de redação (saiu a Maria Sandra Gonçalves, que transformou a Gazeta num jornal de verdade em seus anos de trabalho lá, e entrou o Leonardo Mendes Jr, super jornalista esportivo – que Deus o ilumine), com a mudança de formato do jornal impresso e com a reformulação da página na internet.

Entendo perfeitamente as mudanças que o jornal está tendo que fazer. Jornal é uma coisa deficitária faz um tempo. As receitas com publicidade impressa caíram muito, as assinaturas online não engrenaram, a publicidade online não resolveu o problema, as vendas de jornal impresso também caíram. Brasileiro (e curitibano ainda mais) nunca leu jornal, e agora menos ainda, já que se julga bem informado usando o facebook. Por outro lado, quando o jornal decidiu que não deixaria espaço no servidor para tantos blogs, o meu já estava na lista negra, porque meu último post é de outubro de 2015. Eu já tinha recebido um comunicado há algumas semanas, quando escrevi o rascunho deste post. Naquele momento, meu dilema era se eu dizia pra eles que queria continuar com o blog ou se assumia minha impossibilidade de tempo e fechava o boteco. Até então a informação era de que o acervo de posts continuaria disponível. Agora nem isso – no final de abril o blog sai do ar pra valer, nem os posts ficam.

Mas prometo que vou repostar aqui aqueles textos que acho que se sustentam (principalmente resenhas de livros que continuam importantes, e uma ou outra reflexão da qual eu não me arrependa). Fica então aqui um roteiro do que escrevi lá, e dos post que apareceram ano a ano. Para os que eu republicar aqui, vou colocar link no título das postagens (à medida que for republicando). O que estiver sem link é porque ainda vai aparecer, ou porque ficou mesmo pra trás.

 

A lista dos posts de 2011 no blog História Cultural:

A História Cultural e o blog

Entre a história, a música e a teologia: o perfil do blogueiro

A importância da música nova

Ateísmo em discussão

História e música: os anos 60 – minha palestra no IFPR

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Os 30 anos do Conservatório Villa-Lobos: uma homenagem a Valdomiro e Jane

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

 

A lista dos posts de 2012 no blog História Cultural:

O Jesus de Saramago

Curitiba pode ter música popular?

Bem-vindos à quaresma (o caso das salsichas)

Sobre a relevância dos departamentos de música em Curitiba

História e Música – mesa na Semana Acadêmica de História da UFPR

Os 27 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná

Um pedido de desculpas e uma geladeira no blog

O maestro Ricardo Bernardes voltou a Curitiba para estrear duas óperas luso-brasileiras do século XVIII

 

A lista dos posts de 2013 no blog História Cultural:

Um balanço da 31ª Oficina de Música

A renúncia do Papa: uma perspectiva histórica

Uma entrevista de Robert Darnton: a importância da história e o futuro do livro na era digital

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP

Sobre a Comissão da Verdade e um sofisma do historiador Marco Antônio Villa

O futebol da contracapa: uma etnografia da Suburbana em Curitiba

As comemorações dos 10 anos do curso de Bacharelado em Música Popular da FAP

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

 

A lista dos posts de 2014 no blog História Cultural:

História Cultural: o blog e o blogueiro, versão 2014

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Lorenzo Mammi: o LP como forma de arte

Xabier Basurko: O canto cristão na tradição primitiva

Os três anos de Osvaldo Ferreira à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná

50 anos do golpe e algumas boas leituras

Lamento e arioso: 40 anos da Camerata – o que lamentar e o que comemorar

O concerto da Filarmônica da UFPR: 100 anos da Primeira Guerra

Chico Buarque 70 anos

1964: a história do golpe por Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes

Stefan Geiger e Orquestra de Câmara de Curitiba: Stravinski, Antheil e Adams

O centenário de Guerra Peixe e a Sinfonia nº 1 com a Filarmônica UFPR

O ciclo de palestras e concertos “Desde a música eletroacústica”

Os posts mais lidos em 2014

 

A lista dos posts de 2015 no blog História Cultural:

Helma Haller e o Collegium Cantorum: Villa-Lobos – Missa de São Sebastião

Reza Aslam: Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré

Literatura e história: Umberto Eco, O cemitério de Praga

Palestra de Marcos Napolitano e lançamento do livro Arte e Política no Brasil

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

Palestra: A história cultural em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda

Cinema e história: Estrada 47

Mesa redonda: o jazz em trânsito na América Latina

Umberto Eco: Número Zero

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

Tim Blanning: O triunfo da música

 

 

Seminário de Iniciação Científica do Grupo de Pesquisa

Pessoal, o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade está realizando seu I Seminário de Iniciação Científica.

Os alunos que estão desenvolvendo as pesquisas no Programa 2015-2016 vão apresentar resultados parciais (as pesquisas são desenvolvidas de agosto a julho), e teremos comentários e debates com professores do Grupo.

Será nos dias 02 e 03 de março, quarta e quinta próximos, no Auditório da FAP.

Programação e maiores detalhes na página do Grupo.

O evento é aberto ao público.

Por que votar em Fabio Poletto para diretor da EMBAP

Cartaz da chapa Movimento Belas

Cartaz da chapa Movimento Belas

Conheço o prof. Fabio Poletto há vários anos e tenho com ele uma experiência não apenas de amizade, mas de parceria de trabalho. Desde os tempos em que éramos estudantes, quando fizemos muita coisa juntos, principalmente na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Até mais recentemente, como professores, eu na FAP e ele na EMBAP, desde 2011 trabalhando juntos no mesmo Grupo de Pesquisa e mais recentemente convivendo em reuniões administrativas (eu como coordenador de curso ou diretor de centro, ele como chefe de divisão de pesquisa). Mais importante de tudo, convivi e trabalhei intensamente com o Poletto na comissão que está propondo o mestrado em música, formada por professores da EMBAP e da FAP.

Devido a esta parceria posso atestar que o Poletto tem grande capacidade de trabalho, não tem medo de cara feia e faz as coisas com grande eficiência. Ele tem pautado seu trabalho pela ética, pela capacidade de colaboração, pela sinceridade em ouvir e sobretudo pela habilidade em fazer tarefas difíceis. Tem a capacidade de cumprir prazos, mesmo fazendo várias coisas importantes ao mesmo tempo.

Acredito que essas qualidades são essenciais e farão dele um ótimo Diretor de Campus. Vocês podem achar que eu sou suspeito para falar dele, e que tudo que escrevi acima é puxa-saquismo. Não é. Mas em todo caso, sigo com algumas questões mais específicas que me levam a considerar que a candidatura dele representa um passo muito importante para o futuro da Belas.

Antes de falar de outras coisas é preciso salientar que o Poletto constiuiu uma ótima chapa com o Eloi. Acompanho o trabalho do Eloi como Conselheiro no CEPE da UNESPAR, do qual também faço parte, e ele tem sido lá uma voz ponderada, um cara que vem com os documentos lidos e com posições bem fundamentadas. Também convivi com o Eloi durante a greve, e pude perceber como alguém com o conhecimento dele faz a diferença em momentos difíceis. Nas oportunidades em que confraternizei com ele em meio a reuniões do CEPE pelo interior do Paraná, ganhei motivos para considerá-lo uma grande pessoa, um bom caráter.

Pensando estrategicamente: o futuro da UNESPAR terá de passar pela melhoria da oferta de trabalho de agentes universitários, nosso ponto fraco. Temos poucos agentes em comparação com as outras universidades e com nosso número de alunos e de professores. Isso significa que o trabalho administrativo fica sempre comprometido, com resultados catastróficos para o funcionamento da UNESPAR. Uma chapa com um professor e um agente universitário parte de um diagnóstico correto da situação: a UNESPAR precisa da participação ativa dos agentes universitários na sua gestão. Temos experiência positiva neste sentido na FAP – elegemos uma Direção de Campus com a professora Pierângela e o agente universitário Marcelo. Já estamos colhendo resultados positivos.

Talvez a principal questão seja pensar qual o diferencial do Poletto em relação aos demais candidatos.

Pouco conheço o Carlos Iansen, e tendo a dizer que a folha de serviços dele na EMBAP e na UNESPAR é pequena ainda para que seja alçado a um posto tão importante. Não sei em que ele traria colaborações.

Conheço bem e me considero amigo do Marco Koentopp, e não há dúvida que ele já demonstrou sua capacidade de trabalho, e sua atuação na EMBAP e na cena musical curitibana tem sido destacada.

Mas aí entra a questão que considero estratégica: Fabio Poletto é hoje o candidato que tem melhor trânsito acadêmico e melhor entende o funcionamento da universidade. Como membro do Conselho Universitário desde sua primeira composição, e como Chefe de Divisão ele é um professor que conhece e transita bem com outros campi, com a Reitoria e com as Pró-Reitorias. Além de conhecer bem os documentos e regulamentos da UNESPAR, pois participou de sua elaboração, discussão e aprovação no COU – segundo testemunhos de outros conselheiros, com uma atuação destacada.

Talvez nos anos recentes a comunidade acadêmica tenha pensado que o problema mais grave da EMBAP seja a falta de uma sede própria, onde possa desenvolver suas atividades com as condições necessárias. Esse é um problema grave, mas não é o pior que a EMBAP enfrentará. Há uma tendência natural da nossa universidade investir em estrutura física, e os vários campi com problemas da mesma ordem pressionam por uma solução conjunta que não poderá ser ignorada pelos futuros governos.

O pior problema da EMBAP, e digo isso como aluno egresso da instituição, onde estudei na década de 1990 e fiz graduação e especialização, é seu pouco envolvimento com o mundo universitário – seja o sistema de universidades brasileiro sejam as instituições internacionais. A incorporação à UNESPAR apresenta não poucas dificuldades e desafios, como a reestruturação dos cursos de graduação, a implantação do mestrado, e, principalmente, a visibilidade que a EMBAP tem dentro da universidade, levando em conta que ela tem um número de professores muito maior que o dos outros campi, com um número bem menor de alunos.

Quem não estiver pensando estrategicamente esses problemas, e não for capaz de conversar e argumentar sobre isso com gente de outras áreas do conhecimento não conseguirá segurar a EMBAP, encaminhar sua brilhante tradição para um futuro também brilhante. A EMBAP precisará desesperadamente de um negociador capaz e enérgico, ou, como definiu o professor Márcio Steuernagel em seu Facebook, “o momento requer um estadista”.

Neste sentido estratégico, considero que o Poletto é o homem certo. Votar nele é estar seguro para navegar nas águas turbulentas que a EMBAP enfrentará no processo de consolidação da UNESPAR.