Jorge Amado: Seara vermelha (1946)

O romance Seara vermelha foi publicado por Jorge Amado em 1946. Segundo a lista de publicações que consta no verbete da Wikipedia em português, foi o 13º livro do autor, e o 10º romance. A edição que li é da coleção das obras completas que está sendo publicada agora pela Editora Cia. das Letras. Comprei uma versão kindle, que no momento parece ser a única disponível.

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Partido comunista e realismo socialista

O livro pode ser classificado na fase realismo socialista do autor, situado entre a biografia de Luís Carlos Prestes (O cavaleiro da esperança, 1942) o livro de viagens O mundo da paz (1951) e a trilogia Os subterrâneos da liberdade (1954) sobre a saga do movimento comunista durante o Estado Novo.

Em relação à estética do realismo socialista, Seara vermelha é um livro multifacetado, o que ajuda a provar o valor de Jorge Amado como escritor que tensionou sua relação entre militância no partido e liberdade de criação.

Em 1946, quando saiu o livro, a estética do realismo socialista não era aplicada no Brasil como determinação do partido, coisa que aconteceu de modo muito forte entre 1948 e 56. Em 1958 Jorge Amado sacudiria a poeira do estalinismo com Gabriela, cravo e canela, e mais tarde com a não autorização para novas edições de O mundo da paz – seu livro mais claramente propagandístico (a crer nas explicações do autor em suas memórias no livro Navegação de cabotagem).

Jorge Amado acabava de assumir como deputado constituinte eleito pelo PCB, e teria alguns anos de severas limitações à sua atividade criativa, atuando como militante e como deputado. De certa forma, pode se dizer que Seara vermelha serve como uma tentativa de reintroduzir o Partido Comunista na normalidade da política brasileira. O partido tinha sido clandestino e perseguido durante todo o Estado Novo (1937-45) mas principalmente desde o levante de 1935 (por alguns chamado de “intentona comunista” – termo que os historiadores não adotam mais).

Para relançar o PCB em um momento de abertura política e da livre concorrência do partido nas eleições de 1945, nada melhor do que uma reabilitação dos revolucionários de 1935. E Jorge Amado, de certa forma, faz isso no livro. Mas não apenas.

Planos narrativos

Na escrita do livro, Jorge Amado se utiliza de vários planos narrativos, matizando os interesses mais diretos do PCB em uma narrativa difusa inserida no contexto da chamada “literatura social realista”, também conhecida no Brasil como “romance de 30”.

Assim, a narrativa começa com uma família de meeiros vivendo no sertão, e atinge seu ápice no momento de ruptura, em que os meeiros são expulsos da terra e viram retirantes. A obra acompanha a longa viagem até chegar em São Paulo, e aí faz coro com outras obras primas dessa literatura, como as obras de Graciliano Ramos ou outros escritores realistas do período que também tratam da miséria nordestina.

Mas após acompanhar a família de retirantes, que pode ser definida como os protagonistas da história, Jorge Amado constrói um interessante panorama. Mais ou menos como se tentasse descortinar as opções disponíveis ao sertanejo pobre dos anos 1930 no Brasil.

O núcleo principal da família torna-se retirante. Seu caminho será atravessando a pé a caatinga. Depois pegando o barco pelo São Francisco para ir até o interior de São Paulo, e dali tomar o trem para a capital. Nem todos chegarão ao eldorado da capital, mas isso prefiro não comentar para não estragar a experiência de quem vai ler o livro.

Ao longo dessa história começamos a descobrir que partes da família já tinham saído antes das terras. Estes personagens assumem protagonismo em narrativas paralelas que vão ganhando mais importância ao final do livro. São os irmãos mais velhos, que saíram das terras antes do episódio da expulsão dos meeiros.

Retirante, beato, policial, jagunço

Por isso acho que posso afirmar que o personagem principal não é uma pessoa, ou várias. Mas a família na qual a história está centrada. É um casal de agricultores com seus filhos e netos, e uma tia louca agregada. Cada um dos membros da família desdobra-se entre as múltiplas possibilidades que vão se oferecendo aos campesinos pobres do sertão.

Entre os retirantes que tomam o rumo de São Paulo, um abandona a família na caatinga. Ele vai se casar e ficar como lavrador nas terras do sertão. Uma das filhas é aliciada e acaba caindo na prostituição. O pai consegue chegar a São Paulo mas não com saúde suficiente para o sonhado trabalho.

Mas os maiores protagonistas são os irmãos que tinham abandonado a família antes da expulsão das terras. E a tia louca que se junta aos beatos.

Jorge Amado consegue fazer uma forte ambientação destes vários personagens, que acabam se encontrando na trama, de maneira muito inusitada. A tia louca que abandona os retirantes para ser recebida como santa entre os seguidores do beato Estêvão. O filho que tornou-se policial. Seu irmão que se tornou cangaceiro, do bando do temido Lucas Arvoredo.

Jorge Amado leva toda esta trama – beatos, policiais e cangaceiros a um desfecho trágico. Como se negasse a possibilidade de saída por algum destes caminhos. Nenhuma das opções de fuga da lide com a terra e da miséria no campo se torna viável. Entre os retirantes, poucos chegam a São Paulo em condições de viver bem. Os que ficaram no sertão são apanhados pelo trágico desfecho. Resta apenas o filho que entrou para o exército, e que se tornou comunista.

O herói comunista

Este é o verdadeiro herói do romance, mas isso só se torna claro no final. É certamente a parte da obra mais vinculada à estética do realismo socialista e a que mais envelheceu.

O rapaz engajou no exército, e também no partido comunista. Tornou-se o principal líder no levante que levou os comunistas a governarem a cidade de Natal por cerca de 4 dias. Com a derrota do movimento e a repressão, termina preso.

É o personagem com menos profundidade na obra, como não poderia deixar de ser. Afinal, é a parte da obra que praticamente não tem escrita autoral, mas segue as regras do partido. Os heróis não podem ser vacilantes, as tramas não podem levar ao desespero.

Hoje quando lemos a obra, provavelmente nos chama mais à atenção a vívida descrição da miséria do sertão, a trama dos retirantes, a vida intensa e dramática dos beatos, jagunços e policiais. Essa a parte do livro onde o grande romancista aparece, talentoso.

A parte sobre o cabo comunista, líder da revolta de Natal, soa muito como um panfleto, uma obra de propaganda. Ao sabermos dos desdobramentos posteriores à publicação da obra a visão positiva do herói comunista soa no mínimo ingênua. Falo da cassação do registro do PCB em 1948 e clandestinidade do partido até a década de 1980. Ou do golpe de 1964 e o Regime Militar no meio do caminho.

Crise do realismo socialista e do PCB

Continua interessante captar esse momento, logo após o fim da segunda guerra mundial, em que romances publicados no ocidente ainda podiam ter comunistas como heróis. Quando as possibilidades políticas ainda estavam abertas. E quando as tensões entre grandes modelos políticos concorrentes impulsionaram a reconstrução do mundo e a chamada “era de ouro” do crescimento econômico e do Estado de bem-estar social.

Aliás, “era de ouro” e Estado de bem-estar social dos quais o Brasil ficou fora, diga-se de passagem. Como aliás, a inviabilidade dos caminhos traçados pelos camponeses pobres da obra de Jorge Amado já deixava muito claro.

No mais, seguimos, 70 anos  depois, interditando os caminhos de saída de nossa condição crônica de pobreza, miséria e desigualdade.

Jorge Amado continua muito útil e atual, não?

Outros posts correlatos, que podem interessar:

Cinema e história: Estrada 47

John Steinbeck: A pérola

“Suor”, o romance socialista de Jorge Amado

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

Os posts de 2015 do blog História Cultural

Mais abaixo, vou deixar os links dos melhores posts de 2015 do blog História Cultural. Nestes posts eu fiz comentários ou resenhas de livros, filmes, concertos ou eventos acadêmicos.

Tempos atrás eu contei aqui nesta página sobre o descontinuamento do blog História Cultural. Eu editei o blog entre 2011 e 2015 no portal da Gazeta do Povo, mas por falta de postagens o jornal decidiu não mantê-lo em atualização.

Ao contrário do que eu tinha imaginado então, não apagaram os arquivos. O blog e os posts continuam lá, só não posso mais atualizar. Como acho que escrevi algumas coisas úteis naquele espaço voltei no post linkado acima e atualizei esta informação. Ainda espero que ao menos meus alunos leiam alguns daqueles textos, por isso também coloquei alguns links.

Por enquanto, não precisarei repostar aqui os textos, como tinha imaginado. Segue então uma lista dos posts do último ano de atividade do blog:

 

Livros

Uma das coisas que gosto de fazer é resenhar livros. Como temos poucos espaços para publicação de resenhas no Brasil (ao contrário de outros países onde essa atividade é muito valorizada tanto no mercado editorial quanto no mundo acadêmico), acho que os blogs podem ser um oásis pra nós quanto a isso. Uma lista dos livros que comentei lá no História Cultural durante o ano de 2015:

O triunfo da música, de Tim Blanning, que continuo considerando a melhor História da Música disponível em português.

O capital no século XXI, obra incontornável de Thomas Piketty – um ambicioso estudo histórico sobre a desigualdade feito por um economista. Certamente uma das obras mais influentes no debate político contemporâneo.

Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré, de Reza Aslam, que deve ser o melhor estudo histórico sobre Jesus disponível em português.

Número Zero e O cemitério de Praga – dois ótimos livros de ficção (mas nem tanto) de Umberto Eco, que faleceu recentemente.

Filme

Vou pouco ao cinema (por falta de tempo, principalmente). Mas entre as melhores coisas que vi na telona está o filme Estrada 47, que trata da participação brasileira na II Guerra Mundial através de personagens e uma história fictícia.

Assim como nos romances de Eco, onde história e ficção se misturam de maneira magistral, neste filme temos uma maneira muito inteligente de trabalhar com história, num ótimo resultado ficcional.

Sigo recomendando: vejam o filme, e leiam minha resenha.

Evento

Este ano foi marcado, já de início, pela morte de Gilberto Mendes – um de nossos compositores e artistas de maior importância. Comentei sobre ele aqui neste post.

A morte de Gilberto Mendes aumentou muito a importância do Festival de Música Contemporânea Brasileira de 2015, onde ele foi um dos compositores homenageados, junto com Edino Krieger. Eu estive lá no evento para uma fala, mas assisti a toda a programação, escrevi alguns textos sobre ele aqui no blog, e um resumo geral com os links lá no blog História Cultural.

Concerto

Teve épocas em que eu fiz muita crítica de concerto, coisa que eu considero de grande importância, mas que dá muito trabalho. É uma atividade para a qual eu venho tendo cada vez menos tempo. Um dos últimos concertos que escrevi crítica foi o do Collegium Cantorum, regido por Helma Haller. As meninas cantaram a Missa de São Sebastião, de Villa-Lobos. Foi o concerto de lançamento do CD no qual gravaram a obra. Foi na Capela Santa Maria, como parte da programação da Oficina de Música.

O link para minha crítica.

 

UNESPAR entra em greve segunda

A UNESPAR entra em greve segunda, dia 17 de outubro, conforme decidido em Assembleia do SINDUNESPAR realizada dia 13. Com os professores reunidos simultaneamente nos 5 municípios onde os docentes são representados pelo SINDUNESPAR, o apoio à greve foi decidido com ampla maioria em todos os campi (me parece que a exceção foi o de Paranavaí, voto vencido).

A greve começa dia 17

A greve começa nesta próxima segunda-feira, dia 17 de outubro. O pauta única é a iniciativa do governo de revogar a lei que reajusta os salários do funcionalismo pela inflação em janeiro de 2017. Importante entender que foi justamente essa lei que foi proposta pelo governador em 2015, como justificativa para não pagar a inflação no reajuste concedido aquele ano. O reajuste pleno da inflação passada ficou assim postergado para janeiro de 2017, e agora o governo pretende voltar atrás e revogar o reajuste durante a votação da Lei Orçamentária.

Em 2015 os servidores tiveram uma longa greve contra uma série de ataques contra as carreiras do serviço público estadual. O governo fez o pacotaço de maldades: aumento generalizado de impostos para a população e para os comerciantes, perda de direitos e de valor do salário para os servidores.  Ao mesmo tempo, aprovou reajustes salariais muito acima da inflação para governador, secretários estaduais e deputados, bem como aprovou auxílio moradia de R$ 4.700 para Tribunal de Justiça e Tribunal de Contas.

Calçado pela generosidade financeira concedida a deputados, desembargadores e conselheiros do TCE, o governo sentiu-se seguro para partir pra cima dos servidores.

Professores protestaram em 2015 - salário menor que o auxílio moradia do judiciário

Professores protestaram em 2015 – salário menor que o auxílio moradia do judiciário

Não é só por 10%

Apesar de a pauta da greve ser única: reajuste salarial em 2017, são muitos os motivos que levam os servidores a se empenharem em uma nova greve.

No caso da UNESPAR, o governo vem aprofundando uma política de arrocho, que a cada ano reduz a já insuficiente verba de custeio. Os investimentos já estão completamente zerados desde pelo menos 2013 – o que no meu campus resultou em uma obra incompleta do Anexo do TELAB.

A construção está parada há anos esperando apenas elevador e mobília para poder ser usada. O prédio seria de salas de aula para os cursos de Teatro e Dança. Atualmente, a FAP (Campus de Curitiba II da UNESPAR) tem turmas em que ingressam 40 alunos, mas nenhuma sala de aula com essa capacidade. A verba para finalização do Anexo do TELAB estava prevista no Fundo Paraná de 2013, congelada desde então.

Pagar salário e arrochar custeio

No primeiro mandato do governador Beto Richa (PSDB), a política para as universidades públicas do estado foi de pagar salários em dia e garantir a reposição anual da inflação. Em paralelo, o governo foi “espremendo” o custeio. Os investimentos foram zerados, e o pagamento de serviços e material de consumo foi sendo reduzido. A ponto de hoje as universidades terem dívidas de anos anteriores com fornecedores e prestadores de serviço e ainda estarem com o orçamento futuro congelado num patamar bem abaixo do necessário.

Como a maioria dos professores não é familiarizada com a gestão da universidade, a política produziu o seguinte resultado: a universidade foi sendo “cozinhada” como na história do sapo que não pula fora da panela porque nunca sabe quando a temperatura está suficientemente inaceitável.

A ruptura e a greve em 2015

Em 2015 o governo rompeu com a própria política de arrocho, e decidiu por em prática o maior ataque contra os direitos do funcionalismo já praticado na história do estado.

Eram tantos direitos a serem tirados de uma vez só que o funcionalismo do Paraná saiu da letargia e iniciou sua mais longa e mais radicalizada greve.

Mais detalhes sobre esse momento dramático da nossa política estão nos textos que escrevi à época:

O caos financeiro do Paraná, o pacotaço de Richa e a invasão da ALEP pelos servidores

O Paraná manchado de sangue

Aquela greve terminou com a retirada de várias medidas que previam perdas de benefícios das carreiras do estado, mas não sem antes ter aprovada a principal medida. O governo conseguiu autorização dos deputados estaduais para retirar dinheiro do Fundo de Previdência do Estado, e vem fazendo isso desde então para pagar despesas correntes.

Além disso, o governo adiou para janeiro de 2017 a reposição integral da inflação passada, tendo dado apenas parte dos reajustes necessários em 2015 e 2016.

A UNESPAR é inviável com esse orçamento

O problema é que as medidas de contenção financeiras que passaram a ser praticadas pelo governo no segundo mandato de Beto Richa pegaram a UNESPAR em situação extremamente vulnerável.

A UNESPAR foi criada da junção de 7 faculdades estaduais espalhadas por 6 municípios distribuídos em extremos praticamente opostos do estado. O decreto de criação foi assinado pelo governador em dezembro de 2013, e desde então não houve nenhum plano de estruturação.

A UNESPAR foi criada só no papel, sem estrutura física, sem prédios, sem laboratórios, sem funcionários administrativos (agentes universitários). E está congelada no patamar em que estava quando foi criada.

É como se você parisse um bebê e o proibisse de se alimentar ou de crescer. É exatamente isso que o governo faz quando se queixa que a UNESPAR aumentou muito a folha de pagamento, e deve reduzir o custeio. Ora, aumentou porque quase um terço do quadro de professores se doutorou nos últimos 5 anos. Isso significa progressão na carreira e aumento no salário.

O “erro” é da UNESPAR? Não. A carreira foi criada justamente para estimular o maior número de doutores. Agora o governo quer nos punir por isso. Para cada doutor a mais que formarmos em nosso corpo docente deveremos amargar mais alguns anos sem papel higiênico nos banheiros, sem tinta para impressoras e sem outros materiais básicos de funcionamento.

A saída da greve

Ao longo dos próximos dias (17 a 20) várias reuniões importantes devem acontecer entre governo e servidores. A depender dos desdobramentos, a greve da UNESPAR pode ser suspensa na Assembleia do SINDUNESPAR que será realizada na próxima quinta, dia 20 de outubro.

Se queremos ficar em greve? Certamente não. Queremos trabalhar. Mas não temos condições. Queremos respeito à educação, aos professores, aos alunos, aos recursos que a população confia ao governo por meio de seus impostos.

A greve é só um passo na luta pela consolidação da UNESPAR. Esperamos que seja breve e que as negociações sejam frutíferas.

 

Ensamble Móbile faz hoje 5 estreias no SiMN

Hoje, penúltimo dia do Simpósio Internacional de Música Nova 2016, o SiMN, teremos o concerto do Ensamble Móbile, com 5 estreias. O concerto acontece às 20:00 horas no Auditório do Museu Oscar Niemeyer, e às 19:30 eu farei uma palestra/pre-concert talk.

No repertório do concerto, teremos 4 obras encomendadas para o SiMN, e mais uma estreia de obra de Harry Crowl e uma peça do compositor austríaco Georg Friedrich Haas.

O programa

Tadeu Taffarello – Choro vão da água triste (2016 – encomenda/estreia)

Franco Bridarolli – Los objetos magnéticos (2016 – encomenda/estreia)

Harry Crowll – Charneca em flor (2014 – estreia)

Georg Friedrich Haas – Ins licht (2007)

Marcio Steuernagel – De profundis super de profundis (2016 – encomenda/estreia)

Bryan Holmes – Evitar levitar (2016 – encomenda/estreia)

Ensamble Móbile

Ensamble Móbile em concerto - foto de Cida Demarchi (divulgação/site do grupo)

O Ensamble Móbile é um conjunto formado a partir do Núcleo Música Nova – Grupo de Pesquisa em Música Contemporânea da UNESPAR, que é também o organizador institucional do SiMN. O Ensamble Móbile dedica-se à música contemporânea, em intersecção com as pesquisas desenvolvidas no âmbito do grupo.

Mais informações sobre o grupo, fotos e áudios na página do Núcleo Música Nova.

Atualmente, o grupo tem como integrantes: Fabricio Ribeiro (flauta), Dhiego Lima (violino), Shante Antunes Cabral (violoncelo), Eric Moreira (violão), Alexsander Ribeiro de Lara (piano), Felipe de Almeida Ribeiro (eletrônica), Márcio Steuernagel (regência). Para o concerto, participação especial de Helen Tórmina (voz soprano). A direção artística/coordenação do grupo é feita por Fabricio Ribeiro e Felipe de Almeida Ribeiro.

Os compositores

Tadeu Taffarello reside na região de Campinas-SP. Foi professor da UEL entre 2012 e 2015 e atualmente trabalha no Centro de Documentação em Música Contemporânea da UNICAMP. Nesta universidade fez seu doutorado (em 2010) sobre a influência da escrita de Oliver Messiaen nas Cartas celestes de Almeida Prado.

Taffarello já teve obras apresentadas em outras edições do SiMN. Ele tem um blog onde se encontram algumas gravações e partituras de obras de sua autoria.

Franco Bridarolli nasceu em 1991 e vive em Córdoba – Argentina. Concluiu sua graduação em 2011 e começou a se destacar como compositor ao vencer o concurso de composição da Orquestra Sinfônica de Córdoba em 2014. Ele possui uma página no Soundcloud onde se pode ouvir algumas obras.

Harry Crowl é mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1958, mas radicado em Curitiba desde 1994. Em sua carreira articulou pesquisas com música colonial mineira e o trabalho de composição. É um dos principais compositores brasileiros vivos, e o catálogo de obras disponível em seu site possui 140 obras listadas, mas só foi atualizado até 2012.

Sua peça que será estreada neste concerto é baseada num soneto da poetisa portuguesa Florbela Espanca, que abre um volume publicado logo após seu suicídio em 1931:

CHARNECA EM FLOR

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Georg Friedrich Haas é austríaco, nascido em 1953. Sua obra começou a receber destaque na década de 1990, e uma de suas marcas tem sido desde então o uso do microtonalismo. Esta técnica aparece com moderação em sua obra Ins licht, que já faz parte do repertório do Ensamble Móbile. É uma curta obra para trio de violino, violoncelo e piano. A partitura da peça pode ser observada aqui.

Marcio Steuernagel nasceu e vive em Curitiba. Estudou composição nesta cidade, sob influência de Maurício Dottori e Harry Crowl, os dois compositores mais importantes da cena local. Além de se destacar na cidade com suas composições, tem feito um trabalho notável como regente, especialmente com a Orquestra Filarmônica da UFPR. É também um dos organizadores da Bienal Música Hoje, que teve edições em 2011, 2013 e 2015. É professor da UNESPAR/EMBAP.

Bryan Holmes é chileno, nascido em 1981 e radicado no Rio de Janeiro desde 2006. Em sua obra destaca-se o uso de eletrônica. Em sua dissertação de mestrado defendida na UNIRIO, analisou obras instrumentais da primeira metade do século XX aplicando parâmetros que normalmente são usados para analisar música eletroacústica.

Sobre as obras

Sobre as obras, ainda não posso dizer nada. Exceto pela peça de Georg Friedrich Haas, que pode ser ouvida na internet e observada sua partitura (link acima).

As demais, são ilustres novidades. Apesar de ser o palestrante daqui a pouco, ainda não tenho o que dizer, pois são estreias. Eu deveria assistir ao ensaio para ter alguma coisa a falar. O horário me será impossível. De todo modo, meu conhecimento das técnicas composicionais e de obras deste tipo é tão limitado que acredito que mesmo assistindo o ensaio e olhando as partituras eu continuaria tendo problemas.

Prefiro então, ficar com a fala de Marcio Steuernagel em sua palestra para o concerto do Mivos Quartet na última segunda feira. Ele disse que sempre que alguém pergunta como é a música contemporânea ele responde que não sabe. Ainda estamos descobrindo pra onde vai, ela está sendo feita agora!

Assim, convido para essa jornada inesperada pelos novos sons. A única certeza é que os músicos são muito bons e os compositores são insuspeitos, reconhecidíssimos. Certeza que vai ser incrível.

 

Começa hoje o Simpósio Internacional de Música Nova 2016

Poster do Simpósio Internacional de Música Nova 2016

Poster do Simpósio Internacional de Música Nova 2016

Daqui a pouco (19:00 de hoje, 11 de setembro) ocorre a cerimônia de abertura do Simpósio Internacional de Música Nova 2016, o terceiro SiMN. O SiMN é promovido pelo Núcleo Música Nova – Grupo de Pesquisa em Música Contemporânea da UNESPAR, dirigido pelo professor Felipe Ribeiro. Logo após a cerimônia acontece o concerto com difusão de Alvaro Borges.

O SiMN consiste em palestras, conferências, leitura de obras, cursos, e, principalmente, concertos. Vários grupos e/ou músicos de altíssimo nível, especializados em música contemporânea. Eles irão fazer de Curitiba a capital da música nova por uns dias.

Se julgarmos pela programação das edições anteriores do SiMN (2012 e 2014), será completa e totalmente imperdível.

Público alvo

Quem deve assistir e/ou participar da programação do SiMN? Qualquer pessoa interessada em música tirará muito proveito. Mas quem é estudante ou profissional tem obrigação de acompanhar alguma coisa.

Por quê? Para estar um pouco informado do que está acontecendo agora no mundo em termos de composição musical. Aqui no SiMN estarão grupos especializados e compositores que constituem boa mostra do que de melhor está acontecendo.

É perigoso ouvir música contemporânea? Claro que sim! Perigoso demais. Pra você que pretende ficar no seu conformismo, ouvindo música que já sabe de cor – melhor passar longe do SiMN. Vá apenas se estiver disposto ao novo, ao inusitado, a aprender, a ver/ouvir o mundo com outros olhos/ouvidos. Conhecer gente interessante, novas ideias, uma nova ecologia sonora.

Agora, se você estudante ou professor de música e não quiser participar, sinto informar – você corre o risco de estar seriamente desatualizado.

Programação

O evento tem um sítio na internet. Lá tem uma página com a programação. E um folder com explicações, currículos dos músicos e repertório dos concertos.

Pela manhã acontecem principalmente as leituras de obras, cursos e palestras – eventos mais direcionados ao público especializado e/ou que se inscreveu no evento.

Durante as tardes, muitos concertos e palestras (cujos participantes se inscreveram e foram selecionados pela comissão organizadora). Alguns serão especialmente interessantes, como as Sonatas e interludios para piano preparado de John Cage, apresentadas por Grace Torres e Lilian Nakahodo (terça 14:30 no teatro da Reitoria) ou o concerto de Luciane Cardassi e Fabio Oliveira (sexta 12:00 no Museu Oscar Niemeyer).

Mas o grosso da programação de concertos ocorre à noite, com os convidados especiais. Isso aí não vai dar pra perder nada: hoje (domingo, 19:30) – música eletro acústica com difusão de Alvaro Borges no TELAB/FAP; segunda, 19:30 – Mivos Quartet na Capela Santa Maria; terça, 19:30 – Matthias Koole na Capela Santa Maria; quarta, 19:30 – Mark McGregor na Capela Santa Maria; quarta, quinta, 19:30 – Orquestra Filarmônica da UFPR faz homenagem a Gilberto Mendes no auditório da UTFPR; sexta, 19:30 – Ensamble Móbile no auditório do Museu Oscar Niemeyer; sábado, 19:30 – Duo Cardassi/Oliveira no auditório do Museu Oscar Niemeyer.

A maior parte das obras apresentadas será de estreias. Ou seja, o evento é simplesmente o topo da produção atual, com grupos de altíssimo nível estreando obras dos compositores de maior destaque na atualidade.

Tá esperando o quê? Corra marcar tudo na agenda, não perca nada!

Para saber mais

Veja outros textos que já escrevi sobre eventos relacionados ou músicos participantes do SiMN 2016:

O concerto de Ralf Ehlers no Simpósio de Música Nova em Curitiba

O ciclo de palestras e concertos “Desde a música eletroacústica”

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

Perdemos Gilberto Mendes e Pierre Boulez

Porque votar em Carlos Aleixo e Sydnei Kempa para a reitoria da UNESPAR

Banner da chapa UNESPAR de todos nós

Banner da chapa UNESPAR de todos nós, com a foto dos professores Carlos Aleixo e Sydnei Kempa

Na eleição para Reitor da UNESPAR que ocorrerá dia 27 de setembro vou votar na chapa UNESPAR de todos nós, formada pelos professores Carlos Aleixo e Sydnei Kempa.

Os motivos que me levam a votar na chapa Aleixo/Kempa não estão nos documentos que as chapas colocaram à disposição da comunidade (nesta página): plano de gestão das chapas e currículos dos professores candidatos. Elaborar um bom plano de gestão é uma coisa necessária, mas não suficiente.

A chapa Unespar de todos nós tem um bom plano de gestão (documento aqui). Ele foi construído a partir da experiência de participação nas instâncias de criação e consolidação da UNESPAR nos últimos anos. Dá pra entender melhor lendo o documento, especialmente o histórico de criação da universidade. A UNESPAR passou a existir de fato em 2013 com o decreto de criação.

Mas o diferencial, que me leva a votar em Carlos Aleixo e Sydnei Kempa é a experiência de ambos e o engajamento já demonstrado em fazer da UNESPAR uma grande universidade, mesmo sem as condições ideais de gestão.

Os professores Carlos Aleixo e Sydnei Kempa

Conheço os professor Carlos Aleixo e Sydnei Kempa por que trabalhei na gestão da universidade. Fui Diretor do Centro de Música e Musicoterapia do Campus de Curitiba II na gestão 2014-2016. Como tal conheci a capacidade do professor Sydnei e atesto seu excelente trabalho na Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas. E pude observar o trabalho do professor Carlos Aleixo como atual Reitor.

Foi o trabalho do professor Sydnei que garantiu que não ficássemos sem professores em sala de aula, agilizando os Testes Seletivos e as contratações, solucionando as questões mais graves que temos, no âmbito do que era de competência da universidade. (Porque no que depende do governo do Estado já teríamos fechado a UNESPAR há tempos.)

Também conheço a habilidade do professor Sydnei em conversar com as pessoas, ouvir as demandas e manter uma postura sempre exemplar no trato com os colegas e subordinados. O que não significa que ele tenha fugido aos enfrentamentos necessários. Pelo contrário, o professor Sydnei tem a coragem necessária para enfrentar os problemas, e o fez em várias ocasiões conforme pude testemunhar quando diretor.

O professor Carlos Aleixo tem a competência política extremamente rara e necessária para gerir uma universidade tão complicada quanto a UNESPAR. Com campi espalhados em 6 municípios cuja distância entre eles chega a mais de 600 km, as disparidades regionais poderiam causar a completa desagregação da UNESPAR. Sob a direção do professor Carlos Aleixo, as rivalidades regionais estiveram sob controle,  a distribuição de recursos, pessoal e cargos foi o mais equânime possível, e a complexa geografia não tornou a UNESPAR disfuncional.

Nos conselhos superiores e na relação com a comunidade

Carlos Aleixo tem grande habilidade na presidência das reuniões de Conselho, e uma clara visão política de onde a universidade pode e deve chegar. As limitações atuais são muitas, mas sua gestão mira no potencial de uma universidade que pode se tornar  a maior e mais efetiva do estado. Já é a mais capilarizada (pela presença em diversas regiões) e a única presente na capital.

Os objetivos da gestão Carlos Aleixo não miram apenas na excelência acadêmica e no crescimento voltado para as demandas internas do corpo docente e discente. Aleixo tem a clareza de que a UNESPAR tem importância em regiões que não participam dos grandes polos consolidados de desenvolvimento do estado. Estas são as regiões onde já estão as outras universidades estaduais mais antigas. Por isso, sua gestão preocupa-se, principalmente com o perfil dos alunos da UNESPAR. São trabalhadores que muitas vezes precisam se deslocar de seus municípios diariamente para as aulas. A inserção social e regional da universidade é seu grande condão. Uma universidade que não pode se fechar em si mesma.

Desafios da próxima gestão

A UNESPAR vive às voltas com os problemas normais que hoje enfrentam as universidades estaduais. As finanças estaduais estão em frangalhos e governador, secretários e deputados mal sabem o que é uma universidade. Assim, as universidades do estado estão todas condenadas a minguar sem contratações, sem custeio básico e sem investimento de nenhum tipo. Isso é ruim para todas as universidades mas representa menos drama para quem já está em situação estável. Universidades mais antigas têm grandes construções, campi universitários estruturados, grande número de funcionários, pós-graduações consolidadas e um nome construído no cenário brasileiro.

A UNESPAR é uma universidade que ainda não tem estrutura física: faltam salas de aula, laboratórios, espaço de trabalho para professores e espaço de convivência e atendimento par alunos. Faltam sobretudo agentes universitários, em proporção de cerca de 1 para cada 9 professores ou 1 para cada 80 alunos. Não dá pra comparar esta proporção com UEM ou UEL, que tem número de professores ou alunos semelhante ao da UNESPAR, mas 10 vezes mais funcionários técnico administrativos.

Isso significa que o próximo Reitor da UNESPAR tem que ser alguém com altas habilidades políticas para circular entre secretários estaduais e deputados. Capaz de convencê-los dos problemas da universidade, sem ter ainda a capacidade de pressão política que as mais antigas já construíram. A UEL, por exemplo, tem um ex-professor que hoje é deputado estadual.

Eu duvido que hoje na UNESPAR haja alguém com tanta experiência e capacidade para enfrentar estes desafios quanto o professor Carlos Aleixo. Some-se os desafios internos: manter o equilíbrio regional e respeitar as especificidades. Para isso, será preciso evitar a supremacia dos campi mais estruturados da região norte. E respeitando as particularidades de cada campus em suas demandas específicas (como os cursos da área de artes nos dois campi da capital).

Apoios consolidados

Além das qualidades e capacidades já explicadas acima, a chapa UNESPAR de todos nós já reúne apoios consistentes entre a comunidade acadêmica. A ponto de ter a certeza de poder montar uma equipe qualificada (coisa que Carlos Aleixo já fez na atual gestão) e de contar com bom trânsito institucional e político em todos os campi.

Porque eu tenho a certeza de que isso significará trabalho qualificado, experiência de gestão, habilidades políticas e a UNESPAR no rumo certo – por isso voto Carlos Aleixo e Sydnei Kempa para Reitor e Vice-Reitor da UNESPAR.

Sobre modernismo musical nos Estados Unidos

Modernismo musical nos Estados Unidos foi o tema da última aula de História da Música IV, que ministro no Campus de Curitiba II da UNESPAR – FAP. Na verdade o tema mais geral foi música de concerto nos EUA na primeira metade do século XX, e envolveu dois pontos principais: modernismo e vanguarda nos EUA (principalmente Nova York, décadas de 1910 e 20) e políticas para música no governo F. D. Roosevelt (décadas de 1930 e 40).

Referências

Para abordar o tema consultamos principalmente os seguintes textos:

Capa do ótimo livro de Alex Ross

Capa do ótimo livro de Alex Ross

Do livro O resto é ruído, de Alex Ross (São Paulo: Cia. das Letras, 2009) – melhor obra de referência em português sobre música do século XX, dois capítulos importantes são sobre o tema:

“Homens invisíveis: compositores americanos, de Ives a Ellington”, p. 135-172

“Música para todos: música nos Estados Unidos de Franklin Roosevelt”, p. 280-325

Principal referência é o livro de Carol Oja

Principal referência é o livro de Carol Oja

Usamos também a principal obra em inglês sobre a vanguarda em Nova York: Making music modern: New York in the 1920’s de Carol J. Oja (New York: Oxford UP, 2000). Felizmente tem em Kindle.

Livro em português sobre Charles Ives

Livro em português sobre Charles Ives

E uma ótima referência em português sobre Charles Ives: o livro de Valerie Albright publicado pela Annablume/FAPESP.

Além dessas referências mais básicas, dois textos de modernistas brasileiros que fizeram contato com a música norte-americana na época:

A conferência “A expressão musical dos Estados Unidos”, que Mário de Andrade proferiu no Instituto Cultura Brasil – Estados Unidos em 1942, e que foi depois publicada no volume Música, doce música para a edição das Obras Completas na década de 1960.

O livro Gato preto em campo de neve no qual Érico Veríssimo faz minucioso relato de sua viagem aos EUA em 1941 como convidado do Departamento de Estado no âmbito da Política de Boa Vizinhança.

Música moderna em Nova York

Começando pelas pistas dadas por Carol Oja, vimos que um pioneiro da música de vanguarda em Nova York foi o pianista e compositor Leo Ornstein. Ele foi reputado como um grande recitalista, num nível performático semelhante ao atingido por Liszt. O magnetismo que esse pianista exercia sobre as plateias foi fundamental para estabelecer uma primeira difusão da vanguarda musical nos EUA.

Interessante que as obras que ele compôs e executava nos programas foram em geral mais ousadas que as peças tocadas na Europa na mesma época, o que mostra que, na verdade Nova York se tornava um dos polos mais avançados de composição musical.

Vejam que interessante este exemplo, uma das peças mais conhecidas de Ornstein – A la chinoise, de 1917.

Outra figura à qual Oja atribui grande protagonismo foi o compositor francês Edgar Varèse. Depois de ter estudado composição na França e na Alemanha, ele julgou as oportunidades muito restritas para compositores na Europa, e mudou-se para os EUA em 1915.

Em solo americano Varèse tornou-se um dos compositores mais ousados e experimentalistas do mundo, embora o fato de não estar na Europa signifique geralmente ser percebido como de menor importância na História da Música (mesmo nas histórias da música escritas nos EUA, um país que padece quase tanto de eurocentrismo quanto o Brasil).

Ouvimos duas obras que ele compôs nos EUA. Começando por um trecho de Amériques (concluída em 1921). Esta obra tem um início até bem semelhante à Sagração da Primavera de Stravinski (pelo solo inicial de instrumento de sopro) mas logo vai mostrando novidades importantes. Varèse está muito mais interessado no timbre como elemento criativo do que na harmonia, no ritmo ou na forma musical como ainda se fazia na Europa. Ele também dá muito mais protagonismo aos instrumentos de percussão.

A orquestração desta peça inclui madeiras a 5 (2 flautins, 2 flautas e flauta em sol; 3 oboés, corne inglês e heckelfone; requinta, 3 clarinetes em Sib e clarone; 3 fagotes e 2 contrafagotes). E um vagalhão sonoro no naipe dos bocais, com 8 trompas em Fá, 6 trompetes em Dó, 3 trombones tenor, um trombone baixo, um trombone contrabaixo, tuba e tuba contrabaixo. E ainda 2 harpas, 2 tímpanos e mais 9 percussionistas tocando um set multifacetado.

O resultado:

E outra peça clássica deste compositor – Ionisation (1931) para conjunto de instrumentos de percussão. Talvez uma das obras mais inovadoras do século XX, e a que hoje ainda mais serve de referência para a música nova dentre as compostas naquela época.

Uma boa gravação em vídeo:

Charles Ives

Uma coisa curiosa é que por esta época já vivia em Nova York aquele que viria a ser considerado por muitos o compositor mais importante do EUA: Charles Ives. Mas ele não era ativo como compositor. Vivia recluso, trabalhava com venda de seguros, e compunha para a gaveta. Somente mais tarde, provavelmente estimulado pelo desenvolvimento da cena de vanguarda na cidade começa a tentar publicar e executar suas obras.

Sobre Charles Ives escrevi um texto, sintetizando informações do livro de Valerie Albright e colocando duas gravações importantes. Está aqui, num blog antigo.

Instituições

Chama muito à atenção aqui no Brasil (elemento muito destacado por Mário de Andrade no texto que escreveu sobre a música norte-americana) a dinâmica das sociedades promotoras de concerto.

Nova York teve várias exclusivamente dedicadas à música de vanguarda. Especialmente a New Symphony Orchestra fundada por Varèse, a International Composer’s Guild também protagonizada por ele, e League of Composers e a revista Modern Music.

Programas de difusão musical na era Roosevelt

Esse tema já não deu muito tempo de falar na aula, mas o período do governo Roosevelt (1933-45) foi marcado por grandes programas de combate ao desemprego e à crise. O chamado New Deal também teve um grande programa de investimentos em várias áreas, conhecido como WPA.

Símbolo da agência governamental Administração para o Progresso do Trabalho (WPA na sigla em inglês)

Símbolo da agência governamental Administração para o Progresso do Trabalho (WPA na sigla em inglês)

A agência durou de 1935 a 1943 e desenvolveu vários projetos, entre eles um grande programa de bolsas para as áreas de artes. Um programa para escritores, outro para teatro, outro para música.

Na área de música um dos principais programas foi o pagamento de bolsas para copistas fazerem partituras de orquestra, que passaram a fazer parte da Fleischer Music Collection na Filadélfia.

O programa para escritores é bastante bem descrito por Érico Veríssimo no seu livro Gato preto em campo de neve.

Além dos programas governamentais, a marca do New Deal foi a existência de grandes parcerias com empresas privadas. Na área de música as mais ativas foram as grades empresas de radiodifusão: NBC e CBS. A NBC criou uma orquestra regida por Toscanini, que se tornou o maior símbolo cultural da liberdade nos EUA, por ter brigado com Mussolini e fugido da Itália fascista. Sua orquestra transmitia domingos à noite em cadeia nacional (e até para outros países, como o Brasil). Cada disco gravado por Toscanini vendia dezenas de milhões de cópias.

Além disso, Stokowski também dirigiu uma orquestra nacionalmente famosa, sendo convidado para gravar filmes para os estúdios de Walt Disney (a famosa animação Fantasia, de 1940, baseada em obras musicais clássicas). Ambas as orquestras, de Toscanini e de Stokowski excursionaram pela América do Sul causando grande impacto.

Um programa radiofônico muito conhecido também foi o produzido pelo maestro Walter Damrosch, transmitido no horário das aulas para que os professores pudessem ouvir ao vivo com os alunos e causar um grande impacto na difusão educacional de música clássica.

Este programa foi bastante criticado por Adorno, que não considerava legítima a pretensão de massificar a música clássica, por envolver, no seu entender, excessiva simplificação no processo de audição.

Aaron Copland

Certamente o músico mais importante e de maior valor simbólico da era Roosevelt foi Aaron Copland.

Tanto por seu papel como compositor de clássicos populares, deliberadamente representativos do estilo norte-americano, como pela sua grande atividade como compositor para cinema, professor, escritor, organizador de concertos e gestor de instituições musicais.

Copland chegou a trabalhar para o Departamento de Estado, exercendo papel chave na política de aproximação com músicos da América do Sul no âmbito da política de Boa Vizinhança.

Talvez sua obra mais popular seja a Fanfare for the common man. Aqui um trecho numa belíssima gravação de Marin Aslop e a OSESP, em sua participação no festival BBC Proms de 2012:

E abaixo Hoe down, trecho do bailado Rodeo, certamente a obra mais “folclórica” de Copland, que representa bem seu esforço de sintetizar o americano comum e fazer música acessível para um público mais amplo (bem de acordo com as ambições do governo Roosevelt).

História da Música Brasileira – aulas 10, 11 e 12

Como se vê, o blog anda com dificuldade de manter a sequência de posts sobre os temas das aulas. Até o momento, já postamos conteúdo sobre duas aulas:

Aula 01 – Apresentação da metodologia e plano de ensino

Aula 02 – Música nos primeiros séculos de colonização na América Portuguesa

Além disso, tivemos aulas que não receberam posts aqui: Música no tempo de Gregório de Matos; Música sacra em Minas Gerais no século XVIII; Modinhas de Portugal e do Brasil; Música na corte joanina (tema dividido em duas aulas, uma para falar mais de José Maurício e outra para falar mais de Marcos Portugal e Sigmund Neukomm). E tivemos ainda uma aula para debater os textos, e outra para uma atividade acadêmica não diretamente relacionada à disciplina.

E assim é que a contagem chega às aulas mencionadas no título deste post:

Aula 10 – Instituições musicais no Brasil monárquico

Foi a aula dedicada a um panorama das instituições que marcaram sua importância na vida musical, principalmente na capital do império, durante o século XIX.

A aula foi dedicada às seguintes instituições: Capela Real, Teatros de Ópera, Sociedade Beneficente Musical, Conservatório Imperial, Academia de Ópera Nacional, clubes musicais e sociedades de concerto, lojas de música e casas editoras.

O que conversamos na aula foi pautado nos assuntos esquematizados em slides disponíveis aqui.

A bibliografia usada como referência foi composta principalmente de 3 trabalhos:

Lino de Almeida Cardoso. O som e o soberano: uma história da depressão musical carioca pós-Abdicação (1831-1843) e de seus antecedentes. Tese de doutorado, FFLCH-USP, 2006.

Carlos Eduardo de Azevedo e Souza. Dimensões da vida musical no Rio de Janeiro: de José Maurício a Gottschalk e além (1808-1889). Tese de doutorado, IFCH-UFF, 2003.

Janaína Girotto da Silva.  “O florão mais belo do Brasil”. O Imperial Conservatório de Música do Rio de Janeiro 1841-1865. Dissertação de mestrado, IFCS-UFRJ, 2007.

Aula 11 – A chegada da polca no Rio de Janeiro e o surgimento do maxixe

Essa aula foi baseada principalmente no capítulo de Carlos Sandroni sobre o maxixe, do livro Feitiço decente.

Capa do livro Feitiço decente

Capa do livro Feitiço decente

Ouvimos algumas gravações e assistimos alguns vídeos. As principais gravações que escutamos vieram dos discos Lundu de Marruá (dirigido por Edilson de Lima e lançado pela gravadora Paulus), Viagem pelo Brasil (dirigido por Anna Maria Kieffer), coleção Princípios do choro vol. 1 (produzido por Maurício Carrilho) e algumas gravações da Casa Edison incluídas no livro A Casa Edison e seu tempo (de Humberto Franceschi).

Complementamos a reflexão sobre o dilema do músico brasileiro entre a inspiração europeia e as raízes afro brasileiras refletindo sobre o conto “Um homem célebre” de Machado de Assis e o estudo sobre este texto feito por José Miguel Wisnik no artigo “Machado maxixe: o caso Pestana”. Mais informações (e links para estes textos) em uma publicação que fiz em outro blog:

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Aula 12 – Carlos Gomes

Ouvimos algumas gravações: peças selecionadas do disco O piano brasileiro de Carlos Gomes, de uma antiga coleção da FUNARTE, depois relançada pelo Itaú Cultural; trechos da ópera A noite do castelo, encontradas em gravações amadoras disponibilizadas na web; trechos de Il Guarany e de Fosca, nas gravações de Luis Fernando Malheiros com a Ópera de Sofia, na Bulgária.

A bibliografia que serviu de referência para esta aula:

Lorenzo Mammi.  Carlos Gomes. São Paulo: Publifolha, 2001. Coleção Folha Explica.

Marcos Pupo Nogueira.  Muito além do melodrama: os prelúdios e sinfonias das óperas de Carlos Gomes.  São Paulo: UNESP, 2006.

A dissertação de Janaína Girotto da Silva citada acima.

Lenita Nogueira.  Maneco músico: pai e mestre de Carlos Gomes.  São Paulo: UNIP, 1997.

Boa parte das coisas que conversamos nas aulas também está discutida em textos que escrevi em outros blogs antigos:

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

Uma obra prima lírica (com texto e tradução da ária Quale orribile pecatto, da ópera Fosca)

Além disso, hoje existem gravações completas de óperas de Carlos Gomes disponíveis no youtube. Abaixo, os vídeos de Fosca (com regência de Luiz Fernando Malheiros) e de Il Guarany (com regência de Roberto Duarte)

Henrique Morozowicz (1934-2008)

Este post é uma apresentação de Henrique Morozowicz (1934-2008), compositor e pianista curitibano também conhecido como Henrique de Curitiba. As informações foram resumidas a partir do capítulo “Biografia”, páginas 25 a 32, do livro Henrique de Curitiba: catálogo temático 1950-2001, de Liana Justus e Miriam Bonk (Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2002).

Capa do catálogo de obras de Henrique Morozowicz (exemplar da biblioteca da FAP)

Capa do catálogo de obras de Henrique Morozowicz (exemplar da biblioteca da FAP)

Origem da família e os anos iniciais de formação musical em Curitiba

Zbigniew Henrique Morozowicz nasceu em uma família de artistas. Seu avô paterno foi dramaturgo, escritor, tradutor e diretor de teatros na Polônia. Sua avó paterna foi atriz na polônia. Seu pai, Tadeusz Morozowicz (1900-1982), nasceu em Varsóvia e foi bailarino com formação em sua cidade, Kiev e São Petersburgo. Veio para o Brasil em 1926 a convite da comunidade polonesa, para fundar a primeira escola de balé de Curitiba, vinculada à Sociedade Thalia.

No Brasil, casou-se em 1933 com Wanda Lachowski, pianista aluna de René Devrainne Franck. Henrique Morozowicz foi o primeiro filho do casal, e começou a estudar piano com a mãe, em 1942. Antes disso, suas primeiras aulas de música foram na classe de canto orfeônico do Instituto de Educação do Paraná, onde ingressou como aluno em 1940.

Em 1942 tornou-se aluno da professora René Devraine Franck, com a qual também iniciou os estudos de Teoria Musical e Solfejo. Em 1946 começou a trabalhar junto com seu pai, como pianista do Ballet Thalia. Por esta época ingressou no ginásio no Colégio Marista Santa Maria.

Em 1948, com a fundação da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), ingressou como aluno do curso fundamental de piano, levado por sua professora. Em 1949 deu seu primeiro recital como pianista, na série “Valores Novos” promovida pela Sociedade de Cultura Artística Brasílio Itiberê (SCABI). Em 1950 iniciou o curso Clássico no Colégio Estadual do Paraná, onde também estudou órgão com Rodrigo Hermann. Neste ano começou a atuar como pianista acompanhador para vários cantores da cidade, atuando em recitais para a SCABI.

A formação superior e os estudos de composição

Em 1951 Henrique Morozowicz ingressou no Curso Superior de Música da EMBAP. Passou também a estudar Harmonia e Composição com o maestro húngaro George Kaszas, que regia a Orquestra Sinfônica da SCABI. Neste ano passou a trabalhar como organista da Catedral Metropolitana de Curitiba, acompanhando o coro durante as missas. Para o Coro Feminino da Catedral compôs suas primeiras peças sacras.

Em 1953 formou-se no Curso Superior da EMBAP, e em 1954 mudou-se para São Paulo para continuar os estudos. Na Escola Livre de Música estudou piano com Henry Jolles, Teoria Musical com Ernst Mahle e Composição com H. J. Koellreutter – todos professores com formação na Alemanha. Foi em São Paulo que os colegas lhe deram o apelido de Henrique de Curitiba, para diferenciá-lo de outro Henrique que havia na turma. O apelido tornou-se praticamente seu nome artístico pelos anos seguintes.

Formou-se na Escola Livre de Música em 1957, e durante o período estudou paralelamente órgão e regência coral, além de atuar como pianista acompanhador. Entre seus colegas de turma estiveram Isaac Karabtchevsky, Gilberto Tinetti, Clara Sverner e Julio Medaglia.

Entre 1958 e 64 trabalhou como supervisor da Indústria de Órgãos Eletrônicos Whinner, fazendo regulagem dos instrumentos conforme o local de instalação. Em 1960 estudou em Varsóvia como bolsista da Sociedade Polônia. Em 1961, retornando a São Paulo, deu vários recitais pelo Brasil como organista e como pianista acompanhador.

Retorno a Curitiba e a carreira como professor

Em 1962 Henrique Morowicz voltou a residir em Curitiba, assumindo o cargo de professor de órgão no recém criado Studium Theologicum (ver a este respeito o post sobre José Penalva).

Em 1964 tornou-se professor de matérias teóricas e composição na EMBAP, onde trabalhou até a década de 1980. Em 16 de outubro deste ano, no Teatro da Reitoria, aconteceu o primeiro concerto dedicado às suas obras.

Em 1972 casou-se com a pianista Ulrike Graf, com quem tocava em duo desde 1968. Outro duo importante em sua carreira de concertista foi com seu irmão Norton Morozowicz, flautista. Ambos realizaram diversos concertos entre 1969 e 79.

Nos Festivais Internacionais de Música do Paraná Henrique Morozowicz teve várias participações. Em 1966, 67 e 68 frequentou a classe de órgão com a professora norte americana Marilyn Mason. Em 1966 teve a estreia de sua obra Salmo XXII pelo coro do festival, com regência de Samuel Kerr. Em 1968 a professora Marilyn Mason estreou sua Toccata Super Ê Taru-ê em concerto do festival. Em 1969, na programação do festival, sua Missa Breve (1966) foi estreada pelo Coro da Pró-Música, com regência de José Penalva. Em 1975, 76 e 77 participou do Festival Internacional de Música do Paraná como artista convidado, tendo obras encomendadas.

Na EMBAP Henrique Morozowicz não atuou apenas como professor. Foi também chefe de departamento das disciplinas teóricas entre 1966-72 e 1974-76, além de Vice-diretor entre 1970-74. Em 1976 ingressou como professor do Departamento de Artes da UFPR, onde trabalhou até 1991. Nesta universidade também exerceu o cargo de Coordenador do Curso de Educação Artística.

Os estudos nos EUA e a consolidação da carreira de compositor

Entre 1979 e 81 foi aos EUA como bolsista da CAPES, e realizou seu Mestrado na Cornell University em Nova York. Nesta cidade realizou concerto com suas obras. Retornando ao Brasil, ainda no mesmo ano teve sua obra Études-Tableaux incluída na Bienal de Música Contemporânea da FUNARTE.

Em 1982 suas composições foram usadas na trilha sonora do filme Vida e sangue de polaco, de Silvio Back. Em 1983 participou novamente da Bienal da FUNARTE. Entre 1983 e 85 foi Diretor da EMBAP. Paralelamente, entre 1984 e 87 foi novamente Coordenador de Curso na UFPR. Além disso, foi Conselheiro da Fundação Cultural de Curitiba em 1984 e 85. A partir deste ano assumiu a presidência da Sociedade Pró-Música de Curitiba. Em 1987 e 88 foi diretor da Sala Bento Mossorunga da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.

Em 1987 e 89 participou novamente das Bienais da FUNARTE com suas obras. Em 1988 foi Diretor Artístico do Festival de Música de Londrina. Em 1997 mudou-se para esta cidade no Norte do Paraná. E em 2003 passou a residir em Goiânia, para onde foi convidado como professor da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG.

Em 2007 voltou a residir em Curitiba, onde faleceu.

Comentário sobre seu catálogo e sua importância

Em artigo publicado no site da UFG por ocasião da morte do compositor, a professora Glacy Antunes de Oliveira dá pistas da importância de sua obra:

As gravações de suas obras somam mais de 40 CD’s e LP’s, com registros feitos em várias cidades brasileiras e em vários países estrangeiros (Alemanha, Bélgica, Holanda, EUA, Argentina e Itália). Diversas composições suas foram editadas em vários países.

Um destaque em seu catálogo, tanto em quantidade como em qualidade, é sua música coral: um total de 59 obras para várias formações. Dado o destaque que considerou para esta faceta de sua obra, a professora Glacy concorreu no ano da morte do compositor ao edital de publicação de partituras de Fundação Cultural de Curitiba. E em 2009 viu a impressão do volume A obra coral de Henrique de Curitiba Morozowicz, justa homenagem à memória do compositor.

Capa do livro de partituras com a obra coral de Henrique Morozowicz (exemplar da Biblioteca da FAP)

Capa do livro de partituras com a obra coral de Henrique Morozowicz (exemplar da Biblioteca da FAP)

José Penalva (1924-2002)

Este post é uma apresentação de José Penalva (1924-2002), o maestro e compositor campinense que fez sua carreira em Curitiba, também padre e teólogo claretiano. As informações aqui contidas são sintetizadas a partir do livro José Penalva: uma vida com a batina e a batuta, de Silvana Bojanoski e Elizabeth Seraphim Prosser (Curitiba: Editora Unificado, 2006).

Capa do livro sobre o compositor (exemplar da Biblioteca da FAP)

Capa do livro José Penalva: uma vida com a batina e a batuta (exemplar da Biblioteca da FAP)

A formação e os anos iniciais

José Penalva nasceu em Campinas em 1924, e começou a estudar música com a mãe. Ela faleceu quando ele tinha 6 anos de idade. Aos 11 anos ingressou no ginásio dos claretianos em Rio Claro – SP. Ali iniciou os estudos formais de música, e assumiu aos 14 anos a regência do coro da instituição. Começava assim uma das suas principais atividades profissionais, que iria desenvolver com excelência até o fim da vida.

Em 1941 transferiu-se para a sede do Noviciado dos claretianos em Guarulhos. Em 1942 chegou em Curitiba para completar seus estudos teológicos no à época Seminário Maior dos claretianos. Aqui viveu o restante de sua vida e construiu sua carreira, tornando-se um dos nomes mais importantes da cultura local.

Logo que chegou à cidade começou a participar do coro chamado Orfeão Claretiano, reputado como um dos melhores do estado. Com este coro participou de diversos concertos em teatros e igrejas, muitas vezes com participação de orquestra. Fundou também um conjunto vocal dos seminaristas, chamado Schola Cantorum Aloysiana.

Ainda como seminarista tornou-se colaborador assíduo da revista Vida Claretiana, escrevendo artigos sobre teologia entre 1945 e 49. Ao final deste ano foi ordenado sacerdote. Durante o período no seminário compôs as primeiras obras, vocais e religiosas. Mais tarde considerou a produção da década de 1940 como exercícios ou obras de juventude quando da organização de seu catálogo.

Padre ordenado, professor e compositor – a vida profissional

Em 1950 transferiu-se para Guarulhos-SP para trabalhar no Instituto de Filosofia Claretiano. Ali atuou como professor de filosofia e de música, e também como regente do coro do Instituto e do coro paroquial. Neste período estudou teoria e composição musical com o professor Savino de Benedictis.

Em 1953 retornou a Curitiba como padre coadjutor do Instituto, e assumiu diversas outras funções. Foi professor de Teologia, História do Cristianismo e Música no Instituto Claretiano e padre na Igreja do Imaculado Coração de Maria. Foi diretor da Congregação Mariana, diretor da revista Vida Claretiana e regente do coro paroquial. Manteve as aulas com Savino de Benedictis durante as férias.

Entre 1956 e 58 residiu em Roma para fazer seu doutorado em Teologia. A tese foi publicada em português em 1987 com o título Credibilidade racional da fé cristã segundo Guilherme de Alvérnia (1191-1249). Em seu período na Itália especializou-se também em música da Renascença e em Canto Gregoriano.

Em 1958 retornou a Curitiba e reassumiu sua atividade paroquial. Suas missas se tornaram célebres, tanto por sua homilia como pelo uso do coro paroquial, que ele mesmo regia. Sua ida à Itália fazia parte de um plano de ampliação do Instituto Teológico dos claretianos em Curitiba, que quando de sua volta já estava reformado e ampliado. O Instituto transformou-se num importante centro de formação teológica para diversas congregações e ordens católicas. Com o trabalho de líderes católicos e participação de Penalva, em 1962 o Instituto foi transformado em Studium Theologicum, conveniado à Universidade Lateranense de Roma. Em 1975, seria incorporado à Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Doutor em teologia, professor e referência na música sacra

Em 1962 Penalva se notabilizou por ministrar em sua paróquia cursos sobre a encíclica Mater et Magistra, publicada em 1961 pelo papa João XXIII. Como professor de teologia, produziu material didático em forma de apostilas, que viria a ser publicado em livros na década de 1990.

Desde 1959 começou a se destacar também por sua atuação em prol do ecumenismo cristão, organizando a Semana de estudos sobre o protestantismo no Instituto Teológico. Em 1962 publicou o livro Concílio e união das igrejas, sobre as demandas ecumênicas que faziam parte do Concílio Vaticano II que se iniciava. A partir desta época participou em inúmeras cerimônias ecumênicas com o pastor presbiteriano Oswaldo Emrich.

Logo que retornou a Curitiba passou a envolver-se institucionalmente com a administração da música litúrgica. Passou a participar da Comissão de Música Sacra da Arquidiocese de Curitiba e foi presidente da Comissão de Música Sacra do Congresso Eucarístico Nacional em 1960. Em suporte a esta comissão, produziu 8 teses de trabalho sobre variados temas relativos à música litúrgica. No período de 1966 a 71, participou ativamente do processo de reorganização litúrgica pós concílio. Atuou nos 6 Encontros Nacionais de Música Sacra promovidos pela CNBB.

Participou do Movimento de Renovação da Música Sacra, que mobilizou compositores brasileiros. Forneceu-lhes textos litúrgicos para que compusessem obras musicais. Este projeto foi desencadeado a partir de uma reunião durante os Seminários de Música do Paraná, em 1968. O grupo contou com a presença dos compositores José Penalva, Osvaldo Lacerda, Enst Widmer e Edino Krieger. Viriam a se unir ao grupo outros compositores, como Lindembergue Cardoso e Henrique Morozovicz. Algumas das obras resultantes do movimento foram publicadas pela editora Irmãos Vitale, outras seguem inéditas até hoje.

Professor, regente e musicólogo renomado

Em 1959 José Penalva assumiu a cadeira de professor da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), onde lecionou contraponto e fuga até a década de 1980. Em 1963 foi um dos fundadores da Sociedade Pró-Música de Curitiba. Criou e passou a reger o Coro da Pró-Música, que se tornou um grupo de notabilidade nacional e internacional. Entre 1965 e 77 foi professor a trabalhou na organização dos Festivais Internacionais de Música do Paraná.

Além das atividades de professor de música, regente e compositor, dedicou-se também à crítica musical e à musicologia. Entre 1961 e 75 assinou a coluna de música do jornal católico Voz do Paraná. Durante suas visitas à família em Campinas, passou a pesquisar o acervo do compositor Carlos Gomes. Escreveu vários artigos e dois livros sobre o compositor. Em 1972 escreveu um informe sobre o acervo musical do Arquivo Eclesiástico de Mariana. Este texto é reputado pelo Musicólogo Paulo Castagna como uma importante reflexão sobre os métodos da musicologia. Essa discussão só se desenvolveria mais seriamente no Brasil a partir do final do século XX.

O trânsito para a vanguarda e o legado para a cultura de Curitiba

No início da década de 1970 a corrente de renovação da música sacra à qual Penalva era ligado foi superada por movimentos ligados à canção popular. Isso o afastou da produção litúrgica como compositor. Em 1972 e 73 foi novamente à Itália, para revisão teológica, mas acabou estudando principalmente música, com Boris Porena. Estes estudos, somados a um período de estudo com Damiano Cozzella em São Paulo em 1959 e 60, marcaram a aproximação de Penalva com as técnicas de composição de música de vanguarda. Como compositor, passou a um maior desenvolvimento de obras não litúrgicas e obras instrumentais ou orquestrais a partir da década de 1970. Abandonou as técnicas de composição tonais, passando a adotar atonalismo, serialismo, aleatoriedade, entre outras técnicas da vanguarda.

Desde a década de 1960 Penalva dirigia um grupo vocal de menor tamanho, com cantores selecionados a partir do Coro Pró-Música, que se chamava Madrigal Pró-Música. Em 1982 o grupo se desvinculou da Sociedade Pró-Música e se transformou no Madrigal Vocale, que Penalva regeu até sua morte, e que foi assumido depois por seu assistente Bruno Spadoni, continuando em atividade até hoje.

O livro recomendado acima, base para este post, é leitura obrigatória para conhecer a biografia do compositor. Também vale à pena assistir o documentário Pe. José Penalva: o mestre da música, dirigido por Ulisses Iarochinski. O vídeo tem depoimentos de pesquisadores e conhecedores da obra de Penalva como Elizabeth Prosser, Maurício Dottori, Bruno Spadoni e Carmen Célia Fregoneze, bem como de colegas de sacerdócio e de teologia.