André Egg

Crítica cultural, análise política com pitadas de reflexão histórica. E material de aulas.

Palpites e previsões infalíveis para o Brasileirão 2012

Posted on | maio 18, 2012 | 1 Comment

Santos e Fluminense têm os melhores conjuntos. Pensando conjunto como a soma dos valores individuais, do conjunto do time e a qualidade do treinador.

Seriam os mais fortes candidatos ao título brasileiro, exceto pelo fato de que seu sucesso na Libertadores pode colocar o torneio nacional em segundo plano.

Num patamar logo abaixo, estão os times que tem grande conjunto exceto pelo treinador: eu ponho nesse grupo Internacional e São Paulo. Suspeito que são grandes as chances de ambos trocarem de técnico no meio da temporada, e passarem mais um ano rendendo bem abaixo do que a qualidade de seus jogadores permitiria supor. Mesmo assim, são fortes candidatos a ficar com vagas de Libertadores.

Mais abaixo vem aqueles times que correm por fora. Tem qualidades para entrarem na disputa, mas tem defeitos que fazem supor que as coisas podem não ir tão bem.

Vasco e Corinthians são times um tanto limitados, apesar de muito fortes no conjunto, e muito entrosados. Entretanto, boa parte do sucesso de ambos em 2011 veio da sua constância e da falta de vergonha em ganhar de 1×0 (segredo do Corinthians para ser campeão brasileiro) ou empatar todos os jogos fazendo mais gols fora de casa (segredo do Vasco para ser campeão da Copa do Brasil). Como ambos estão se desgastando em seu duelo particular na Libertadores, começam o Brasileirão já meio fora de foco: quem ganhar porque precisará se dedicar ao torneio continental, e quem perder porque precisará lamber as feridas.

O Palmeiras conseguiu construir um time bem mais consistente do que em 2011, e corre por fora para beliscar uma vaga de Libertadores. O mesmo se pode dizer do Grêmio. O Coritiba perdeu jogadores importantes, mas manteve uma certa base e conta com um elenco maior e mais diversificado – não deve sentir tanto o peso da grande quantidade de jogos. Seu desafio é mostrar que aprendeu a jogar fora de casa, porque foi o melhor mandante do Brasileirão 2011, mas ficou com um pífio 8º lugar.

O pelotão intermediário é composto daqueles que não tem condições de sonhar com nada mais ambicioso, mas também não devem ser cotados entre os arriscados ao rebaixamento. Tenho dúvidas se coloco aqui neste grupo o Figueirense, que foi o grande destaque em 2011, por tudo que conseguiu fazer sem o peso da camisa e sem toda a dinheirama investida pelos grandes. Pode repetir a boa atuação em 2012. A Ponte Preta é o único clube entre os que subiram da Série B que mantem um futebol em alto nível este ano. Pode aprontar alguma coisa.

Decrépitos são o Flamengo e o Botafogo (que além de tudo é o time mais endividado do país). O Atlético MG tem suas qualidades, e um bom técnico, mas não creio que tenha time nem para ficar entre os 8 primeiros. O mesmo se pode dizer do Bahia: tem um ótimo técnico e vai jogar um bom futebol, mas não tem bala na agulha para brigar com os grandes. Estes 4 clubes se ressentem da falta de uma qualidade básica para um campeonato de pontos corridos em 38 rodadas: regularidade e peças de reposição.

Sobram os sérios candidatos ao rebaixamento: o Cruzeiro já devia ter caído em 2011, só não o fez porque o BMG deu ordens claras para manter seus dois patrocinados na Série A. O Atlético GO parece ser outro vocacionado ao descenso. A Portuguesa não conseguiu se segurar nem na 1ª divisão do paulista. Sport e Náutico ainda estão longe das qualidades administrativas e financeiras necessárias para disputar a sério a 1ª divisão.

Arrisco até dar uma classificação da qualidade dos clubes neste ano, que vai ser mais ou menos o esqueleto da classificação, com algumas possíveis alterações (separo os times em blocos de equilíbrio técnico):

1º Santos

2º Fluminense

-

3º São Paulo

4º Internacional

-

5º Corinthians

6º Coritiba

7º Vasco

8º Palmeiras

9º Grêmio

-

10º Ponte Preta

11º Figueirense

12º Atlético MG

13º Botafogo

14º Bahia

15º Flamengo

-

16º Atlético GO

17º Cruzeiro

18º Sport

19º Náutico

20º Portuguesa

 

Principais craques em atividade: Neymar, Ganso, Fred, Deco, Thiago Neves, Oscar, Damião, Lucas, Luis Fabiano, Rafinha, Emerson, Dedé, André (devo estar esquecendo alguém).

P.S. Pela primeira vez na história recente o Campeonato Brasileiro é um espetáculo que quase se sustenta, e os clubes não estão vivendo da venda de jogadores. Apesar disso, poucos dirigentes mostram ter o traquejo para navegar pelos novos mares da economia emergente brasileira, e o endividamento dos clubes cresce absurdamente mesmo com o aumento das receitas. É urgente reavaliar o calendário insano, e trabalhar seriamente para que os estaduais não tenham mais do que 8 clubes na disputa, e a Série A tenha só 16 clubes. Apartir de 2013 a Copa do Brasil já vai ficar bem melhor, no segundo semestre, e com os clubes mais fortes entrando no final.

Um clube como o Coritiba já disputou 31 jogos na temporada, e só estamos em maio. Vai disputar mais 38 pelo Brasileiro, talvez mais 5 pela Copa do Brasil e uns tantos pela sulamericana. Pode superar os 80 jogos na temporada: não há físico de atleta e finança de clube que sobreviva a uma maratona dessas. Pela Copa do Brasil o clube já viajou quilometragem suficiente para ir à China.

Veja também, a palpitaria especializada deste blogueiro em anos anteriores:

Começa hoje o Brasileirão 2011

Palpites infalíveis e previsões para o Brasileirão 2010

Tudo sobre o Brasileirão 2009, palpites e uma enquete

Palpites para o campeonato brasileiro que começa no próximo domingo [2008]

As coisas que andei publicando

Posted on | maio 14, 2012 | No Comments

Quando abri esta página sonhei que ia atualizar sempre, com materiais de aulas, links para minhas publicações, indicações de leituras, além dos posts mesmo.

Triste ilusão.

Desde março entrei numa roda viva com as aulas, orientações, coordenação de curso, produção de textos acadêmicos, entre outras atividades. E esta página ficou em banho maria.

Tentando me redimir um pouco: estou devendo diversos textos, que sairão assim que possível, mas volto aqui à série de textos em que faço links para minhas últimas publicações. Interrompida desde fevereiro.

Desde então:

Publiquei meu discurso como paraninfo para os formandos de Licenciatura em Música da FAP:

Meu discurso de paraninfo para os formandos de Licenciatura em Música 2011 da FAP

Comentei minha participação como curador e os resultados do Edital O som da cidade 2012 do SESC da Esquina:

Edital “O som da cidade” do SESC da Esquina

Publiquei a resenha de outra das leituras de férias:

Leon Uris: Exodus

Trouxe vários textos de blogs antigos pra cá, e coloquei uns links para materiais de aula (para ver isso é melhor clicar nas páginas das disciplinas que ministro, no menu horizontal).

Além disso:

Escrevi uns comentários sobre a tal lei “anti-baixaria”, depois que dei uma entrevista sobre isso para uma rádio local:

Sobre a “lei anti baixaria”

Fiz meus comentários sobre a programação anual da Camerata (ainda estou devendo o da Sinfônica):

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

Escrevi crítica do concerto com a 2ª de Mahler:

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: a Sinfonia nº 2 de Mahler

Fui a Campo Mourão participar de um Simpósio de pesquisa e dar um minicurso, cujo mateiral coloquei aqui:

Mini curso: o historiador e a música

Escrevi o meu libelo sobre a decisão do STF a respeito das cotas para negros nas universidades (comentando um texto cheio de sofismas do Simon Schwartzman):

Sobre as cotas para negros nas universidades: a respeito da decisão do STF

Além disso, continuei escrevendo bastante sobre o Coritiba no blog Do alto de tantas glórias – por questões de sanidade mental o único que ficou ativo normalmente por estes meses. Veja os posts que saíram lá em março e abril.

O blog História Cultural também andou bastante parado, e só voltou a ganhar post no último sábado:

Sobre a relevância dos departamentos de música em Curitiba

E até no Amálgama a coisa andou devagar. Saiu só minha resenha do livro do Uri Avnery:

Uri Avnery e o outro Israel possível

Sobre as cotas para negros nas universidades: a respeito da decisão do STF

Posted on | abril 30, 2012 | 6 Comments

O Ministro Joaquim Barbosa no momento de seu voto

A foto é do banco de imagens do STF.

Os Ministros da corte máxima do judiciário brasileiro declararam por unanimidade ser improcedente a queixa ajuizada pelo Partido Democratas (DEM), que arrazoava ser injusto um aluno ser aprovado por cotas, substituindo outro de melhor desempenho. Veja a notícia aqui na página do STF.

Eu nem ia escrever sobre este assunto, que pra mim é de uma obviedade tão gritante que nem precisa discussão.

Aliás, já escrevi sobre isso em 2009, em blogs antigos (Sobre as cotas raciais, Uma resposta bem educada ao Demétrio Magnoli e O debate sobre recismo no Brasil).

Também já teve muita gente boa escrevendo sobre isso agora, depois do caso julgado no STF, como o Hugo Albuquerque (Sobre quotas e o STF, criticando a judicialização do debate político e a mesquinhez da oposição) e o Pádua Fernandes (O Brasil e as velhas cotas para brancos, insistindo numa questão que eu também sempre pondero – os brancos sempre tiveram 100% de cota, e agora alguns reclamam de perder uma pequena parcela disso).

Mas o que me motiva mesmo a escrever sobre o assunto é ler o texto do Simon Schwartzman (A questão das cotas raciais), porque ele é um pesquisador importante, e acho que é influente. Mas está difundindo um sofisma que precisa ser desarmado por quem quer entender direito a questão.

Me refiro à afirmação que ele faz, em certo ponto do texto:

Um argumento curioso que se ouve com frequencia a favor das cotas é que o desempenho dos alunos que entram nas universidades por este sistema tende a ser igual ou melhor do que dos que entram pelos procedimentos normais. É curioso porque, se eles têm realmente melhor desempenho, não precisariam das cotas para ser admitidos.  Se eles têm pior desempenho nos vestbulares ou no ENEM mas têm melhor desempenho nos cursos, isto indica que existem sérios problemas no ENEM e nos exames vestibulares, que precisariam ser corrigidos. Problemas deste tipo certamente existem, mas não há evidência de eles consistam em discriminar sistematicamente contra pessoas de pele escura. Para entender melhor o que está ocorrendo seria preciso observar se a baixa correlaçao entre resultados dos exames de ingresso e desempenho se dá igualmente em todos os  níveis ou somente nos cursos de níveis de exigência mais baixo.

São diversas as questões que ele aponta, e acho que é preciso ponderar cada uma.

Em primeiro lugar, o sistema de cotas coloca em cheque a meritocracia embutida no conceito de vestibular ou seleção pelo ENEM. Schwartzman considera como um dado inquestionável que os alunos de melhor desempenho nessas provas de admissão sejam mesmo os melhores para cursar o Ensino Superior.

Como professor de Ensino Superior eu devo, empiricamente, considerar este argumento uma falácia. Eu já vi diversos exemplos de alunos que são aprovados com ótimo desempenho no vestibular e evadem do curso na primeira semana de aulas. Também já vi diversos exemplos de alunos que passaram capengando no vestibular e terminaram o curso com louvor.

É preciso levar em conta que, por melhor planejado que seja um vestibular, ele não é capaz de selecionar os melhores alunos para o curso. Ele seleciona apenas os capazes de se dar melhor em um tipo de prova específica, para a qual muitos se preparam em cursos específicos, o que para mim já é prova absoluta da inutilidade de exames tipo vestibular. Na verdade, o que a gente nota em todos os colégios, é que desde quase a Educação Infantil o que temos é treinamento para vestibular, e não educação em sentido amplo.

Outro aspecto que Schwartzman não leva em conta é a motivação para o estudo no Ensino Superior. No Brasil temos uma tradição bem classe média que é o negócio de que você estuda na vida até passar no vestibular. Passou, tá garantido. Precisa aprender nada não, que papai vai arranjar emprego entre os amigos. Basta tirar diploma. Isso é bem válido, por exemplo, em cursos como medicina, direito ou odontologia, onde os filhos de pais que estão na profissão tem colocação garantida no mercado, por pior que seja seu desempenho na faculdade. Não há como imaginar que um cotista tenha desempenho pior que um cara desses sabendo que ele corre por conta própria, e precisará conquistar seu espaço profissional exclusivamente por mérito.

Aí entra a outra questão: as cotas subvertem o mérito apenas em parte. Por que uma vez que você entre na categoria “cotista”, você imediatamente passa a concorrer com muitos outros em mesma situação – o que em cursos muito concorridos não chega a ser grande refresco. Ou seja, o cotista aprovado é uma elite educacional entre o conjunto completo dos cotistas.

Outra coisa que não se cogita muito ao analisar a questão é que outros países com sistemas educacionais muito melhores que os nossos usam coisas como currículo e entrevistas (conjugados com o desempenho em provas) para selecionar os alunos do Ensino Superior. Por exemplo nos EUA. E que as cotas são praticadas informalmente nas instituições de ponta que fazem questão de ter uma diversidade social, étnica e cultural em suas turmas, da mesma forma que fazem empresas de ponta em suas equipes de trabalho. Essa diversidade enriquece bastante o ambiente de estudo e de trabalho, ou seja, turmas com cotistas são turmas melhores que turmas sem cotistas, porque a diversidade de alunos torna as turmas muito mais dinâmicas.

Sobre a afirmação de Schwartzman de que vestibulares e ENEM têm muitos problemas (no Brasil, porque não vejo ele criticando os sistemas de seleção em si, mas apenas a maneira que são elaborados no país), mas entre eles não o de discriminar negros: chega a ser ridícula. É claro que não são os exames que discriminam os negros – a discriminação se manifesta nas inúmeras dificuldades que eles tem para concorrer de igual para igual com pessoas de melhor origem social em exames desta natureza. As cotas burlam a lógica dos exames, e é exatamente por isso que são boas: porque subvertem a lógica perversa de que os lugares sociais e as possibilidades educacionais estão determinadas ao nascer, pela classe social e pela cor da pele do sujeito.

De todos os pontos positivos do sistema de cotas, o maior de todos, a meu ver, é criar uma cultura da convivência. Garotos brancos que só convivem com negros em posição subalterna serão obrigados a conviverem com negros em situação de igualdade. Alguns deles irão destilar seu preconceito, como prevê Demétrio Magnoli e também o texto do Schwartzman – pois o argumento de ambos vai na linha do “as cotas estão criando um racismo que não existe”. Outros alunos (e acho que serão muitos) irão aprender bastante desta convivência, e criar um Brasil completamente novo. Isso é muito importante para superar o racismo atávico que construímos em nossa sociedade fundada no latifúndio escravocrata. Isso é muito importante se quisermos ser um país de classe média e não da classe média como parecem preconizar Magnoli e Schwartzman.

P.S. Depois de escrever esse texto fui conferir, e claro que o Alex Castro escreveu mais um texto ótimo sobre o assunto: O peso da história – A escravidão e as cotas.

Estaduais na reta final

Posted on | abril 29, 2012 | No Comments

Os estaduais costumam ser uma mesmice óbvia e chata, longos demais e cheios de jogos que não servem pra nada. Mas às vezes acontecem umas surpresas legais.

Tipo o América, depois de rebaixado na sua primeira participação em anos na Série A do Brasileirão, achar forças para brilhar no Campeonato Mineiro. O Coelho acabou de eliminar o Cruzeiro (que também mereceu ser rebaixado, e só não foi por causa da pastelada armada pelo Banco BMG para manter seus dois clubes mineiros na série A – estou falando daquele 6×1 comprado na última rodada).

É a primeira vez que o América chega à final desde 2001, quando foi campeão sobre o Atlético – seu rival na final deste ano. Veja os gols da vitória de hoje neste vídeo.

O Botafogo superou um rival superior, derrotou o Vasco e foi à uma final que não acontece desde 1971 contra o Fluminense. O Fluminense hoje é mais time, mas a graça das finais é justamente que a superação pode levar o Botafogo ao título. Já o Vasco continua amargando na fila desde 2003. Veja os gols da vitória do Botafogo.

Já em São Paulo, o Guarani conquistou vaga na segunda final de sua história. A vez anterior foi contra o Corinthians em 1988. Desta vez será contra o Santos, que despachou o São Paulo (veja os gols).

No Gauchão, o Internacional venceu o segundo turno em final contra o Grêmio (veja os gols). Agora, fará final inédita do estadual contra o Caxias (que já enfrentou duas vezes o Grêmio, para ser vice em 1990 e campeão em 2000).

O Campeonato Paranaense vai ter final pela primeira vez desde 2008. E vai ser o tradicional Atletiba. (Veja tudo sobre o campeonato aqui, no blog Do dlto de tantas glórias).

 

Mini curso: o historiador e a música

Posted on | abril 25, 2012 | No Comments

Começa daqui a pouco o meu mini curso no III Colóquio Nacional Cultura e Poder, na FECILCAM.

Eu fiz uns slides só para eu lembrar do que quero falar, e eles estão aqui.

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Posted on | abril 21, 2012 | 2 Comments

Texto antigo, publicado originalmente em 7 de julho de 2011

A meu ver, os destaques da programação deste ano são: (1) a existência de uma programação definida com antecedência, coisa normal em qualquer orquestra decente, mas uma coisa que os governos do Paraná em tempos anteriores nunca deram condição de nossa orquestra fazer; (2) a presença constante de música brasileira; (3) a presença constante de música moderna; (4) o ótimo novo regente titular e os grandes regentes convidados, além do bom trabalho (bem aproveitado) do regente assistente; (4) os bons solistas e a boa escolha das peças tradicionais do repertório. No repertório, chamo a atenção para: Sinfonia Fantástica de Berlioz (já tocada); Concerto para orquestra de Bártok (dia 14/9); a Quinta de Mahler (15/10); a Abertura Concertante de Guarnieri com regência do Neschling (19 e 23/10); Vox Amazoniae de Harry Crowl  – a única estréia da temporada (9/12); A ceremony of carols op. 28 de Britten, para coro infantil, solistas e harpa, em versão com orquestração de Márcio Steuernagel (16 e 18/12).

Os pontos fracos:  (1) só uma estréia na temporada inteira é muito pouco (entretanto, concedemos o benefício da dúvida, visto que é um ano de transição da inexistência de política cultural no estado para a criação de uma à queima-roupa); (2) as obras de compositores brasileiros ainda são pouco representativas da produção nacional, entram como pequenas obras pitorescas, e não como parte fundamental da programação; (3) o mesmo pode ser dito sobre as obras do século XX; (4) é um absurdo ter uma orquestra tão boa como a Sinfônica do Paraná e não ter programação de ópera e balé com a orquestra – aliás, isso já se fez no passado com ótimos resultados, e não seria difícil fazer agora, exceto pelo fato de que ópera e balé precisam de muito mais verba do que concertos sinfônicos.

Isso dito, segue a programação completa:

Quarta, 13 de abril:

Guarnieri – Abertura festiva, Tchaikovsky – Concerto para violino op. 35 (solista Nicolas Koeckert), Beethoven – Sinfonia n° 3. Regência de Osvaldo Ferreira. Minha crítica do concerto.

Quarta, 27 de abril:

Dottori – Aqui caíram as asas dos anjos, Schumann – Concerto para piano op. 54 (solista Cristina Ortiz), Tchaikovisky - Sinfonia n° 5. Regência de Osvaldo Ferreira. Minha crítica do concerto.

Domingo, 8 de maio:

Mozart – árias de concerto para soprano (solista Marília Vargas), Mahler – Sinfonia n° 4. Regência de Abel Rocha.

Sábado, 14 de maio (Série Clássica – igreja Nossa Senhora da Paz, Boqueirão):

Mendelssohn – As hébridas op. 26: A gruta de Fingal, Mozart – Sinfonia n° 39. Regência de Márcio Steuernagel.

Quarta, 25 de maio:

Bocchino – Suíte miniatura, Strauss – quatro últimas canções (solista Rosana Lamosa), Brahms – Sinfonia n° 4. Regência de Osvaldo Ferreira.

Quarta, 8 de junho:

Bruckner – Sinfonia n° 4. Regência de Osvaldo Ferreira.

Quarta, 22 de junho:

Vilani-Côrtes – Cinco miniaturas brasileiras, Santoro – Brasiliana, Berlioz – Sinfonia Fantástica. Regência de Luiz Fernando Malheiro. Minha crítica do concerto.

Domingo, 14 de agosto:

Rossini – Abertura de Guliherme Tell, Lalo – Sinfonia espanhola op. 21 (solista Pablo de Leon), Mignone – Sinfonia tropical, Strauss – Till Eulenspiegel op. 28. Regência de Osvaldo Ferreira.

Sábado, 20 de agosto (Série Clássica – igreja Bom Pastor, Vista Alegre):

Mozart – Sinfonia concertante KV 364 (solistas Maria Ester Brandão e Marcelo Lemos), Haydn – Sinfonia n° 104, “Londres”. Regência de Osvaldo Ferreira.

Sexta, 2 de setembro:

Concerto com as obras finalistas do Concurso de Composição Sinfônica – com voto do público. Minha crítica do concerto

Quarta, 14 de setembro:

Rachmaninof – Concerto para piano n° 2 (solista Olga Kiun), Liszt – Estudo Transcendental n° 12 e “Les cloches de Genéve” e “Orage” ambas do ciclo Anées de pelerinage (piano Olga Kiun), Bártok – Concerto para orquestra. Regência de Osvaldo Ferreira.

Sábado, 24 de setembro (Série Clássica – local a definir):

Beethoven – Abertura Coriolano op. 62, Mozart – Sinfonia n° 40. Regência de Márcio Steuernagel.

Quarta, 5 de outubro:

Mahler – Sinfonia n° 5. Regência de Osvaldo Ferreira.

Quarta, 19 e Domingo, 23 de outubro:

Guarnieri – Abertura Concertante, Liszt – Concerto para piano n° 1 (solista Piotr Banasik), Brahms – Sinfonia n° 2. Regência de John Neschling.

Sábado, 5 de novembro:

Programa surpresa. Regência de Osvaldo Ferreira.

Quinta, 17, Sexta, 18 e Sábado, 19 de novembro:

Concerto cênico. Programa a anunciar. Regência de Osvaldo Ferreira.

Domingo, 27 de novembro:

Programa surpresa. Regência de Osvaldo Ferreira.

Sexta, 9 de dezembro:

Harry Crowl – Vox Amazoniae (solista Ariadne Oliveira), Bruckner – Sinfonia n° 3. Regência de Hans-Peter Frank.

Sexta, 16 e Domingo, 18 de dezembro:

Britten – A ceremony of carols, para coro infantil, solistas e harpa. Orquestração de Márcio Steuernagel. Papo Coral – com Regência de Cristiane Alexandre. Solista (harpa) Hélio Leite. Regência do concerto Márcio Steuernagel.

Quarta, 21 de dezembro:

Primeira parte: programa surpresa. Segunda parte: Mahler – Des knaben Wunderhorn (solista Adriana Clus). Regência de Osvaldo Ferreira.

Veja também:

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

Osvaldo Ferreira e a Sinfônica do Paraná: a Sinfonia nº 2 de Mahler

Posted on | abril 11, 2012 | 4 Comments

A OSP no concerto da Igreja Batista, semana passada

A foto acima é do sítio do Teatro Guaíra.

Eu saí do Teatro Guaíra ontem convicto de ter presenciado um dos melhores momentos da Orquestra Sinfônica do Paraná.

A Sinfonia nº 2 de Mahler, “Ressurreição”, é uma peça que faz a gente entender porque poucos compositores se aventuraram a compor sinfonias no século XX.

Mahler levou ao ápice as possibilidades da forma sinfônica, deixando bem difícil a vida de quem queria compor no século XX, sem ficar fraco na comparação. Me chama à atenção, principalmente, a habilidade do compositor austríaco em tratar dramaticamente a música instrumental. No sentido de que os temas musicais e, principalmente o uso do colorido orquestral se prestam a efeitos capazes de arrebatar o ouvinte – coisa difícil nas formas sinfônicas puras (sem texto, baile ou representação cênica). É bem verdade que os dois movimentos finais da Segunda Sinfonia tinham texto, cantado por solistas (soprano e mezzo) e um coral de quase 200 vozes. Mas para a maioria dos ouvintes (eu incluso) o texto em alemão não fez qualquer sentido semântico – ficamos com o efeito musical apenas.

Ou seja, mesmo que a obra tenha trechos vocais com texto, ouvi como se fosse música instrumental pura, e é sobre isso que comento.

A primeira coisa que me atraiu foi o fato de que a obra tem quase uma hora e meia de duração, que transcorreram como se fossem 15 minutos. A maneira como Mahler conduz o ouvinte, “pegando pelo ouvido” e levando-o na esteira de seus temas musicais e efeitos instrumentais é cabal, uma verdadeira aula de como articular formas longas.

Em grande parte isso se dá pela maneira como Mahler usa a instrumentação. A orquestra, gigantesca, quase nunca toca em tutti. Os 5 trombones fazem um coro próprio em vários momentos, com ou sem os 3 trompetes (que aumentam para 6 no final do último movimento). O mesmo para as 6 trompas, as 4 flautas, os 4 oboés (incluído Corne Inglês), os 4 clarinetes e os 4 fagotes (com contra-fagote). Os 5 percussionistas e as duas harpas exigidos pela partitura se integram de tal modo ao tecido orquestral que dificilmente podemos percebê-los como naipes à parte. Mais do que marcação rítmica, a percussão dá densidade dramática à peça.

Outra habilidade que Mahler conduz com maestria é a dialética entre a profundidade e a seriedade do discurso harmônico (tonalismo expandido às últimas conseqüências) com a banalidade e a simplicidade da música ligeira. Isso fica muito claro quando o ouvinte é levado a momentos de distensão dos ouvidos no segundo e no terceiro movimentos – um uma valsinha vienense que soa à Johann Strauss e outro com espanholices em modo frígio.

Todo o peso dramático da música germânica cai novamente sobre o ouvinte nos dois movimentos finais, o penúltimo com um solo de mezzo e o último com a soprano e o coral.

Outra coisa que Mahler faz muito bem, é usar o efeito cênico que nunca deve ser desconsiderado em um concerto. É por isso, principalmente, que não dá pra ouvir uma sinfonia dessas em alto-falante. A presença cência da orquestra é uma coisa simplesmente fantástica: tem momentos que o prato sai para a coxia, toca com tanta força que o teatro inteiro treme, mas ouvimos o som suave e distante. O mesmo para um dueto de trompete e trompa, no último movimento. É realmente uma coisa incrível ver aquele enorme efetivo de músicos sobre o tablado, e perceber que cada um deles fica calado grande parte do tempo – o fôlego musical como uma coisa que passa entre os naipes de maneira meio mágica.

A força brutal dos tutti gigantescos era muito bem intercalada com momentos em pianíssimo. Pode-se dizer que o ouvinte é convidado a perceber detalhes musicais que em outras obras sinfônicas quase não aparecem, porque todo mundo fica tocando sempre. Mais do que volume de som, a orquestra de Mahler é o detalhe de cada timbre, de cada combinação, de cada conjunto.

Nada disso teria tido o efeito que teve não fosse uma grande orquestra em ação. Nossos “rapazes” mostraram a que vêm, e porque merecem ser considerados entre as grandes orquestras ativas no Brasil. O que sempre faltou foi uma programação digna, capaz de mostrar o verdadeiro valor do nosso conjunto. E aí está o mérito de Osvaldo Ferreira: ele é hoje um dos grandes regentes em atividade no Brasil. Não está pensando dentro do nosso padrão recente de mediocridade, e a depender de suas iniciativas Curitiba pode voltar a recuperar o protagonismo musical de outrora, que anda muito perdido – principalmente com a sensível melhora comparativa de outras orquestras, como a OSESP e a Filarmônica de Minas Gerais, entre outras.

Aliás, o belo concerto da OSP é uma resposta aos arautos da terceirização, que ficam bradando em todas as ocasiões que aquelas orquestras são boas porque não têm funcionário estável. Estão lá os nossos músicos, muitos deles sentando há décadas nas mesmas cadeiras do palco, e recebendo contracheque do governo do Estado, mostrando cabalmente que o problema do funcionalismo público não é a tal acomodação do funcionário, mas a falta de perspectiva de quem administra suas unidades. Quando conclamados a fazer algo grandioso, nossos funcionários públicos estão lá, prontos a dar sua qualidade, sem a qual não teriam sido selecionados nos rigorosos exames que resultaram em suas contratações.

Um plano de carreira decente seria também um ótimo incentivo. Quero dizer – o problema não está no funcionário, mas no formulador de políticas, função na qual temos colocado as pessoas mais tacanhas em tempos recentes.

Nesse sentido, o concerto marca um renascimento da orquestra. A temporada 2011 já foi muito louvável, apesar de montada às pressas. Que dirá agora que houve tempo para planejar tudo com antecedência.

Aliás, ainda não se tem a programação completa do ano, o que é indesculpável. Falta também à nossa orquestra um sítio decente na internet. Eu já ouvi boatos de que teremos até Sagração da Primavera com balé. Mas falta o caderno impresso para a gente ter um planejamento mínimo da agenda de concertos.

Se nossos “rapazes” continuarem tocando como ontem, Curitiba poderá se gloriar novamente de ter vida musical digna de nota. Osvaldo Ferreira mostra que é capaz de ser o condutor neste processo – remetendo ao termo em inglês para regente, dando um sentido muito mais amplo do que o mexer de braços que acontece na noite do concerto. Para chegar a tal resultado, o maestro português teve que usar toda sua capacidade de liderar e empolgar os músicos. Se não estivessem todos com “o coração na ponta da chuteira”, nada teria saído como foi. Seu trabalho de ensaiador meticuloso transpareceu com clareza na noite de ontem – ele definitivamente não tem medo de fazer as coisas difíceis.

Aliás, é muito simbólico disso tudo que o concerto tenha sido primeiro feito numa igreja – apesar do crime imperdoável de fazer a orquestra tocar naquela acústica, a ida à igreja batista significou uma busca de um possível público que não costuma freqüentar o Guaíra. A entrada franca também foi fundamental para ter casa cheia na terça-feira à noite.

Uma orquestra tem que ser isso mesmo, uma coisa integrada à comunidade da cidade e do estado, que tem que se empolgar com seus músicos.

O fato de o coro sinfônico ter sido o resultado da soma de esforços de 10 corais de Curitiba e Ponta Grossa (parabéns à Priscila Prueter pela coordenação), amplia ainda mais esse alcance. Estavam lá diversos cantores amadores que participaram talvez do evento musical de suas vidas. O que nos faz lembrar que a orquestra sinfônica é apenas a ponta do iceberg da vida musical de uma cidade.

 

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

Posted on | abril 10, 2012 | 3 Comments

Peguei o folheto da programação lá esses dias. O concerto de estreia da temporada aconteceu no último fim de semana e eu já perdi. Vou ficar de olho nas próximas: certamente não poderei assistir tudo, tem algumas coisas que me interessam mais, outras menos. Mas prometo que o que eu assistir escrevo uma crítica e depois atualizo aqui com os links.

De todo modo, a temporada merece alguns comentários, depois da lista dos concertos, como segue:

30 e 31 de março

J. S. Bach – Paixão segundo São João

Coro e orquestra

regência Luiz Otávio Santos

20 e 21 de abril

Antonio Vivaldi – dois concertos para violino

Giuseppe Tartini – movimento lento de um concerto para violino

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista não informado

11 e 12 de maio

canções inglesas dos séculos XVI a XVIII e canções dos Beatles

Coro e orquestra

regência Luiz Gustavo Petri

arranjos Marco Aurélio Koentopp

direção cênica Jaqueline Daher

textos Marcelo Sandmann

25 e 26 de maio

Antonio Vivaldi – dois concertos para fagote

Heitor Villa-Lobos – ciranda das 7 notas

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista Fábio Cury

11 a 15 de junho

programação especial com canções infantis

Coro e orquestra

arranjos Marco Aurélio Koentopp

29 e 30 de junho

Camargo Guarnieri – Toada à moda paulista nº 4

Dmitri Shostakovich – Sinfonia de Câmara op. 110

Bela Bartok – Divertimento

Orquestra de Câmara

regência Ricardo Bologna

6 e 7 de julho

Marc Antoine Charpentier – Missa, Stabat Mater e Magnificat

Coro e orquestra

regência Juan Manuel Quintana

10 e 11 de agosto

Mozart – Adágio e fuga KV546 e Concerto para piano e orquestra KV449

Henry Purcell – Suíte do “velho solteiro”

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista Guilherme Pozzi

17 e 18 de agosto

música sacra dos séculos XVI e XVII (Morales, Cristo, Victória, Palestrina, Byrd, Giovanni Gabrielli e Monteverdi)

Coro da Camerata

regência Maria Guinand

24 e 25 de agosto

uma mistura de obras bem heterogênea de 1700 a 2000 (Vivaldi, Eben, Hahn, Grieg)

Coro e orquestra

regência Helmut Riebl

14 e 15 de setembro

Schubert – Quarteto “Der Tod und das Mädchen” – transcrição para orquestra de cordas de Gustav Mahler

Orquestra de Câmara

regência Stefan Geiger

28 e 29 de setembro

música coral norte-americana

Coro da Camerata

regência Keith McCutchen

2 a 5 de outubro

programa especial de canções infantis

Coro e orquestra

arranjos Marco Aurélio Koentopp

18 e 19 de outubro

Carl Orff – Carmina Burana

Coro da Camerata, Coro Carmina Mundi (Alemanha) e Canarinho de Campo Largo

regência Harald Nickoll

preparação dos Canarinhos Théo de Petrus

26 e 27 de outubro

Henrique de Curitiba – Cantigas do bem-querer

José Penalva – Provérbios

Jaime Zenamon – Curitiba tecida pelos povos (estreia – obra encomendada)

Coro e orquestra

regência Norton Morozowicz

9 e 10 de novembro

Gustav Holst – St. Paul Suite

Ernani Aguiar – Instantes II

Mateus Freire – Suite Brasilis

Rufo Herrera – Buenos Aires Siglo XX

Orquestra de Câmara

regência Rodrigo Toffolo

solista Rufo Herrera (bandoneon)

30 de novembro e 1º de dezembro

Natal com a família Bach

Coro da Camerata

regência Helma Haller

14 e 15 de dezembro

J. S. Bach – Cantatas BWV 36, 62 e 121

Coro e orquestra

regência Luiz Otávio Santos

Em linhas gerais, é uma programação bem com a cara da Camerata. No sentido de que já sabemos o que esperar da programação.

Por um lado, isso é bom demais num país em que as coisas dificilmente ganham continuidade e chegam a virar tradição. Neste sentido, a existência da Camerata já um feito por si só.

Pelo lado negativo, é um problema quando um grupo vai ficando meio repetitivo em si mesmo, quando programa um ano inteiro de trabalho sem nenhuma grande surpresa. Continuo achando a programação eclética, no mau sentido da palavra. Os convidados e os programas vão ficando muito manjados, e alguns até mesmo parece que se justificam mais por idiossincrasias da direção que por representatividade musical.

Como grupo mantido com verbas públicas (apesar de ser gerido por uma OS e ter participação de patrocinadores privados em sua programação), a Camerata deveria assumir um papel um tanto mais estratégico no fomento da vida musical e da profissionalização em Curitiba. Como contribuinte sigo me sentido com aquele gostinho de que o dinheiro público poderia estar mais bem empregado.

Sendo mais específico: a temporada está bastante pobre de estreias – a única peça é uma encomenda a um compositor que tem uma representatividade bem específica, e é um nome bem estabelecido e esteticamente acomodado.

Temos também um único concerto com obras de compositores locais. Nestes dois aspectos já se evidencia a pobreza da programação do ponto de vista da boa aplicação da verba pública: pouco resultado para a vida musical da cidade e pouco pioneirismo no cenário nacional.

Os dois defeitos (falta de estreias e de produção local) seriam menores se o restante da programação fosse coisa altamente recomendável, se cada concerto atraísse a atenção como programação indispensável de clássicos ou de música antiga (que o nome falsamente sugere ser a especialidade do conjunto).

Mas neste sentido eu achei que ficamos aquém. Os únicos programas que eu sinto como imperdíveis são os de 17/18 de agosto (música sacra vocal dos séculos XVI e XVII), o de 6/7 de julho (dedicado a Charpentier, um compositor menos óbvio, e com um regente internacional), e principalmente o de 29/30 de junho (Guarnieri, Shostakovich e Bártok).

Mas, deveríamos considerar interessante, na verdade, um programa que atraísse, por exemplo, alguém viajar para Curitiba para assistir um concerto da Camerata, como me dá vontade de fazer com grande parte da programação que acontece no Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte. Comparativamente, Curitiba decidiu que não quer mais ser um polo de música erudita, parou no tempo e vai se afundando na própria mediocridade.

Outros problemas que apontam para essa nossa vocação para a mediocridade: a programação da Camerata não faz uma coisa que seria óbvia e básica: aproveitar nomes com ligação em Curitiba que poderiam voltar aqui para programas de alto nivel, e seguem solenemente ignorados – como Rodolfo Richter, Fernando Swiech ou Ricardo Bernardes, para ficar apenas nos que consigo me lembrar sem esforço.

E mais, uma cidade que tem compositores ativos como Mauricio Dottori, Harry Crowl, Marcio Steuernagel, Felipe Ribeiro, entre outros que se destacaram na I Bienal Música Hoje, não pode simplesmente ignorá-los em todo um ano de programação.

E ainda: cerca de um terço da programação pode ser considerada “música antiga”, entretanto nenhuma obra sequer foi programada entres as produzidas na América Portuguesa.

Resta a experiência crossover de misturar Beatles e canção inglesa antiga (na verdade eu devia ter incluído isso na parte que considero imperdível, mas esta programação embute um risco considerável).

Os dois programas dedicados a canções infantis em arranjos feitos por um profissional muito competente poderiam ser altamente alvissareiros, não fosse pelo fato de que a Camerata ficou pra trás em relação à iniciativa bem mais interessante que a Orquestra Sinfônica do Paraná pôs a campo este ano.

P.S. – a equipe que montou a programação e vai tocar a temporada:

Roberta Storelli, presidente da FCC; Nilton Cordoni Jr, presidente do ICAC (OS que administra a orquestra com verba pública); Janete Andrade, coordenadora de música erudita da FCC (cargo meio que vitalício); Maurício Aguiar (diretor musical, regente e spalla); Helma Haller (diretora musical e regente do coro). Há ainda um “conselho artístico” formado por Janete Andrade e Milton Cordoni (acúmulo de cargos?) mais os representantes dos músicos – Ivan Moraes (do coro) e Francisco Freitas (da orquestra), e um único membro externo – Luis Otávio Santos.

P.S.2 – dos 18 concertos, 2 não tem indicação de regente (os do cancioneiro infantil). Os 16 restantes tem 11 regentes convidados de fora da cidade. Destes 11, três concertos tem regentes que vêm de Minas Gerais e dois de São Paulo. Restam 6 concertos com regentes convidados de fora do Brasil, ou 1/3 da programação. Não conheço o trabalho destes regentes que vêm da Alemanha, Inglaterra, EUA, Venezuela e Argentina – mas fico com uma pontinha de dúvida se as despesas com viagens internacionais estão provocando algum impacto positivo na via musical local, especialmente no caso dos que vêm do “primeiro mundo”. (Ou talvez seja o caso de as passagens deles estarem sendo custeadas por parcerias e patrocínios.)

P.S.3 – Os concertos com obras do cancioneiro infantil são promovidos em convenio com a Secretaria de Educação, Comunidade Escola e Fundação de Ação Social. Que apontam para um fator primordial a levar em conta na organização destas temporadas: qual o potencial de que a Camerata seja um agente significativo para além do momento do concerto em si? Acho que dá para ousar muito mais com relação a isso em Curitiba.

P.S.4 – A Fundação Cultural tem o trabalho de imprimir a programação, mas não se importa em fazer um sítio na internet para a Camerata (acredite se quiser, mas eles usam o blogspot, e tem uma seçãozinha na página da FCC) . Isso ajuda a entender a pequenês da visão estratégica de quem faz o negócio todo. Compare-se com a OSESP ou a Filarmônica de MG para entender do que estou falando.

Veja também:

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A programação 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

Posted on | abril 9, 2012 | 2 Comments

Texto antigo, publicado originalmente em 2 de março de 2011

Este ano, ao invés dos outrora belos cadernos de programação, saiu um folder. Fotos menores, sem cor, menos informações. Ao invés de vendido por R$ 10,00 – distribuição gratuita.

E a prática de organizar com antecedência uma programação anual continua sendo um excelente mister. Espero que com Viapiana na Secretaria de Cultura tenhamos algo parecido com a Sinfônica do Paraná.

Segue a lista dos concertos previstos para a temporada:

25, 26 e 27 de março – Marlui Miranda - Missa Kewere – coro e orquestra – regência Wagner Polistchuk

15, 16 e 17 de abril – J. S. Bach - Paixão segungo São Mateus – coro, orquestra e solistas – regência Luis Otávio Santos

6 e 7 de maio – concertos para flauta (C.P.E. Bach, Dimitri Cervo e Antonin Dvorak) – orquestra e solista (José Ananias Lopes) – regência Norton Morozowicz

20 e 21 de maio – concertos para violino de Vivaldi – orquestra – regente e solista: Emanuelle Baldini

27 e 28 de maio – música coral francesa e espanhola (Fauré, Duruflé e Castelnuovo-Tedesco) – coro – regência de Eliane Fajioli

10 e 11 de junho – música para trompete, piano e cordas (Lutoslawski, Jolivet, Nino Rota e Shostakovich) – orquestra – regência de Rodrigo de Carvalho, piano Olga Kopylova, trompete Flavio Gabriel.

[este concerto recebeu uma crítica minha aqui]

17 e 18 de junho – Carlos Alberto Pinto Fonseca – Missa Afro-brasileira “de batuque e acalanto” – coro à capela e solistas – regência de Angela Pinto Coelho, percussão Djalma Correa

1 e 2 de julho – árias de Haendel e Vivaldi - coro e orquestra – regência de Beatriz de Luca, contratenor Marconi Araújo

12 e 13 de agosto – música russa (Abdokov, Schnitke e Tchaikovski) – orquestra e solistas – regência de Danielle Lisboa, violinos Andréa Campos e Priscila Vargas

26 e 27 de agosto – obras sacras de Mozart – coro e orquestra – regência de Wagner Polistchuk, soprano Adélia Issa

16 e 17 de setembro – música inglesa (Britten e Jacob) – orquestra e solistas – regência de Stefan Geiger, trompa Zora Slokar, tenor Sérgio Wernec Jr

23 e 24 de setembro – Many nations, one world (salada de compositores, épocas e estilos) – coro – regência Paul Crabb

30 de setembro e 1 de outubro – Música suíça (Frank Martin, Mozart e Ernst Bloch) – orquestra e solista – regência Christopher Whiting, piano Elaine Fukunaga

11 e 12 de novembro – Brahms – Ein Deutsches Requiem - soprano, barítono, coro e piano a quatro mãos – regência Helma Haller, soprano Siomone Foltran, barítono Carlos Eduardo Marcos, piano Clenice Ortigara e Carmen Célia Fregonese

2 e 3 de dezembro – música latino-americana (Zamora, Pitombeira, Romero e Ginastera) – orquestra – regência Victor Hugo Toro, violoncelo Raiff Dantas Barreto

16, 17 e 18 de dezembro – estréias de obra inéditas e encomendadas (Dimitri Cervo, Liduino Pitombeira, S. Prokudin, S. McIntosh, M. Frisina) – coro e orquestra – regência de Wagner Polistchuk.

P.S. (2012) – de tudo que não assisti, considero como única perda inestimável o Requiem Alemão de Brahms.

Veja também:

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A programação 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

Posted on | abril 9, 2012 | 3 Comments

Texto antigo, publicado originalmente em 24 de abril de 2010

12/13 de Março – Obras de Eric Whitacre

26/27 de Março – Vivaldi, Salmo 126 e Falla, Suíte de El amor brujo (isso eu lamento muito ter perdido).

9/10 de Abril – J. S. Bach, Concerto para cravo n° 3 BWV 1054 e Haydn, Missa Lord Nelson

23/24 de Abril – obras de Bach, Bottesini, Van der Roost, além de Pedro Cameron e Camargo Guarnieri

[este concerto recebeu crítica minha aqui]

30 de Abril/1° de Maio – obras corais de países do Báltico, regidas por Fernando Gabriel Swiech

[este concerto recebeu crítica minha aqui]

7/8 de Maio – óperas de bolso (Rossini, Puccini e Menotti), solos de Rita Marques e Sandro Bodilon.

[este concerto recebeu crítica minha aqui]

21/22 de Maio – entre outras obras, o Stabat Mater de Pergolesi

25/26 de Junho – Mozart e Vivaldi

2/3 de Julho – obras de Boris Tchaikovsky e Satnislav Prokudin (inclusive uma obra encomendada pela Orquestra de Câmara de Curitiba)

13/14 de Agosto – compositores nórdicos (Orquestra)

20/21 de Agosto – poemas e canções alemãs (Coro), regência de Helma Haller

27/28 de Agosto – compositores brasileiros vivos (Orquestra)

17/18 de Setembro – música cubana e latina (Coro), regência de Alina Orraca

24/25 de Setembro – serenatas de Mozart (Orquestra)

8/9 de Outubro – Spirituals (Orquestra), com regência e arranjos de Mário Zaccaro

15/16 de Outubro – intercâmbio Camerata Antiqua e Coro Carmina Mundi (Alemanha), obras corais brasileiras e alemãs

22/23 de Outubro – Trombone Cocktail – obras concertantes para trombones, regência de Abel Rocha

12/13 de Novembro – Mozart, Brahms, Mendelssohn, Schbert (Orquestra), regência de Jayme Guimarães

26/27 de Novembro – Turina e Rodrigo (Orquestra), regência de Luis Gustavo Petri

3/4 de Dezembro – composições orquestrais brasileiras baseadas em música folclórica, regência de Dario Sotelo

17/18 de Dezembro – obras natalinas de Finzi e Saint-Säens

Veja também (em breve):

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A programação 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

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    Mistura de página pessoal, blog e não-sei-o-que-mais.

    André Egg é professor de ensino superior nas áreas de história e música. Graduado em Música pela EMBAP, mestre em História pela UFPR e doutor em História Social pela USP.

    Pesquisador, professor da FAP, coordenador do curso de Bacharelado em Música Popular. Já foi professor de violão e outras matérias em escolas de música de Curitiba e Joinville. Já foi professor de História do Cristianismo e de outras matérias na Faculdade Teológica Batista do Paraná.

    Crítico musical, colaborador do jornal Gazeta do Povo, onde tem um blog sobre História. Colaborador do Amálgama. Foi colaborador em O Pensador Selvagem. Teve uma montoeira de blogs no blogger, no opsblog.org, no wordpress.com - mas agora está tomando a decência de juntar tudo aqui, em endereço próprio.

    Já foi técnico em eletrônica (formado pelo antigo CEFET-PR). Já foi violonista ativo e concertista. Já foi crente empolgado, depois desviado, depois empolgado de novo - agora cristão desiludido.

    Pai de família, torcedor muqirana do Coritiba (também, com o preço que andam assaltando nos ingressos e camisas!)

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