História da Música IV – aula 04 (2016)

Orquestra da Victor Talking Machine gravando no sistema mecânico

Orquestra da Victor Talking Machine gravando no sistema mecânico nos estúdios da companhia em New Jersey

Tentando garantir a sequência de posts sobre os temas de aula, hoje tiro o atraso com o post História da Música IV – aula 04. O tema desta aula é a invenção do fonograma e as várias implicações decorrentes para a música do século XX.

Antes disso, já postei aqui sobre a aula 02, que tratou de duas obras fundamentais: Pierrot Lunaire de Schoenberg e Sagração da Primavera de Stravinski. A aula 03 não teve post: assistimos um episódio do documentário de Ken Burns sobre o jazz, e discutimos alguns aspectos da sua abordagem histórica.

Sobre a invenção do fonograma e as múltiplas implicações para a música do século XX, conversamos um bocado na aula da semana passada e também na aula desta semana. Parte das coisas que mostrei em aula estão neste post que escrevi num blog antigo:

A invenção do fonograma

Ali tem imagens e links de onde tirei informações. Além disso, vimos outras coisas que não estão no link acima:

ouvimos alguns exemplos das fabulosas gravações de Caruso feitas nos primeiros anos da fonografia (1902 em diante), que estão disponibilizadas neste fantástico site. Destaque para as seguintes gravações:

a canção Non t’amo piu de Luigi Denza em gravação de 1902

a ária Una furtiva lagrima de L’elisir d’amore de Donizetti – gravação com piano de 1902 e gravação com orquestra de 1904 digitalmente tratada.

ouvimos também algumas das lendárias gravações da banda de John Philip Souza realizadas entre 1901 e 1906 e disponíveis no acervo digital da Library of Congress.

Também olhamos este interessante texto (com farta ilustração e links) publicado no site do britânico Centro de Pesquisa para a História e Análise da Música Gravada:

A Brief History of Recording to ca. 1950

A parte sobre as primeiras gravações no Brasil ficou para a aula 05, sobre a qual irei postar em breve.

 

História da Música Brasileira – aula 02

Dando sequência aos posts que pretendem organizar o material da disciplina, seguimos com História da Música Brasileira – aula 02. A aula 01 foi uma apresentação da disciplina. Tem um post específico sobre ela:

História da Música Brasileira – aula 01

O tema desta segunda aula é a música nos primeiros séculos da colonização portuguesa na América.

Ao contrário do que disse na primeira aula (e no post) sobre a existência de bons livros de História da Música Brasileira para serem tomados como referência, a História do Brasil, de maneira geral, vem recebendo a devida atenção do mercado editorial. Temos bons volumes, muito completos e com referências nas melhores pesquisas recentes. Neste sentido, propus tomarmos o livro Brasil: uma biografia (lançado em 2015) como a principal referência mais atualizada.

Brasil: uma biografia - Capa do livro de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling

Brasil: uma biografia – Capa do livro de Lilia Schwarcz e Heloísa Starling

O assunto da aula oscilou entre questões gerais da empresa ultramarina portuguesa e os primeiros passos de colonização na América e entre questões especificamente musicais. É difícil tratar deste período pela escassez de fontes, especialmente se o assunto for música.

Optamos por acompanhar o trabalho de Anna Maria Kieffer, que gravou o disco Teatro do descobrimento e escreveu um texto a respeito do processo de pesquisa que resultou na gravação. Sobre o disco, maiores informações neste blog.

O texto se baseia principalmente nas pesquisas de Rogério Budasz sobre a lírica de José de Anchieta, nos documentos de época de Jean de Léry e Hans Staden, em pesquisas atuais sobre flautas e cantos indígenas e sobre a música ritual sefardim, embora o assunto da música no Recife holandês tenha ficado para a aula 03 por falta de tempo.

A referência do texto da Anna Maria Kieffer:

KIEFFER, Ana Maria. “A flauta de Matuiú: registro, memória e recriação musical das festas no Brasil nos séculos XVI e XVII.” in JANCSÓ, István; KANTOR, Iris. (orgs.) Festa. Cultura e sociabilidade na América portuguesa. vol II. São Paulo: Imprensa Oficial/HUCITEC/EDUSP/FAPESP, 2001. p. 891-901.

Alguns textos que escrevi sobre esses temas em blogs antigos, e que servem de apoio ao que conversamos nesta aula:

Trilha sonora para uma festa antropófaga dos Tupinambás na qual um viajante alemão quase serviu de jantar

Um canto para a catequese

Os jesuítas e a música na América Portuguesa

Música dos judeus no Brasil Holandês

História da Música IV – aula 02 (2016)

Dando sequência às minhas resoluções de ano novo, pretendo continuar postando textos de apoio às aulas das disciplinas que estou ministrando em 2016. Outro dia postei aqui alguns assuntos sobre a primeira aula de História da Música Brasileira, hoje coloco informações sobre a segunda aula de História da Música IV.

A primeira aula da disciplina não teve post, foi a apresentação dos pressupostos teóricos, conteúdo da disciplina, autores, forma de avaliação e tal. O plano de ensino está disponível na aba Material de Aula neste blog.

A aula 02 teve como tema duas obras seminais da vanguarda no século XX: o Pierrot Lunaire de Schoenberg (1912) e a Sagração da Primavera de Stravinsky (1913). Ambas as obras estrearam em épocas próximas, e marcaram, cada uma a seu modo as principais correntes da música do século XX. Ambas as obras foram muito marcantes e influentes, e os compositores foram os maiores líderes de escola no século XX.

Capa da edição brasileira, pela Zahar

Capa da edição brasileira, pela Zahar

Um dos livros mais influentes sobre a música do século XX é A música moderna, de Paul Griffiths, publicado no Brasil pela Zahar. Esse autor levanta a ideia, a meu ver bastante convincente, de que Schoenberg lidera uma corrente de vanguarda germânica, que guarda ligação com a tradição que remonta a Bach, Mozart, Haydn e Beethoven, passando principalmente por Wagner e Mahler. Essa tradição tem profunda ligação com a construção do sistema tonal, e buscou sua superação pelo caminho dos cromatismos e modulações, chegando a um atonalismo que é quase um “turbo tonalismo” (termo meu, não do Griffiths), ou, como preferia o próprio Schoenberg – “pan tonalismo”. Essa corrente iria desembocar no dodecafonismo (a partir da década de 1920) e no serialismo (na década de 1950).

A outra corrente, da qual Stravinsky foi o líder principal, tendeu a ser sediada em Paris, mas aglutinou compositores franceses, do leste europeu ou de outras partes do mundo. Essa tradição remete mais às pesquisas de Debussy e Mussorgsky, e buscou superar o tonalismo inoculando elementos modais, acordes e escalas sintéticas, polirritmia, politonalismo e outros efeitos não derivados logicamente da tradição clássica.

Para entender um pouco mais o sentido da tradição germânica e o processo de dissolução do tonalismo antes de chegar em Schoenberg demos uma olhada no caso do acorde inicial de Tristão e Isolda de Wagner.

Pierrot Lunaire

Gravações completas desta obra podem ser ouvidas no youtube. Ouvimos as primeiras peças na aula, observando alguns detalhes na partitura.

Trata-se de um ciclo de canções sobre textos do poeta francês Albert Giraud, traduzidas para o alemão por Otto Hartleben. São peças curtas, e o ciclo foi pensado para um pequeno conjunto de 6 músicos e um regente – o que facilitou muito a execução da obra em várias cidades europeias. A instrumentação envolve narrador (ou melhor, voz em Sprechgesang), piano, flauta (alternando com flautim), clarinete (o mesmo músico toca clarone), violino (ou viola) e Cello. No geral cada peça usa a voz e o piano mais 3 instrumentos, usando as combinações de timbres para reforçar o sentido poético.

No Brasil temos a facilidade de termos uma tradução musical/poética por Augusto de Campos. Saiu no livro Música de invenção, publicado pela editora Perspectiva. Augusto de Campos (como os colegas concretistas) é um dos poucos capazes de traduzir poesia respeitando os números de sílabas e acentos. Quer dizer que é possível cantar a versão dele em português com a mesma música do original schoenberguiano que funcionaria.

Prestamos um pouco mais de atenção na 4ª peça – Eine blasse wascherin, porque nela se pode observar uma técnica muito interessante criada por Schoenberg, que chamamos “melodia de timbres”. Tem explicações aqui.

Sagração da Primavera

Stravinsky na década de 1920 (Wikimedia Commons)

Stravinsky na década de 1920 (Wikimedia Commons)

Se Pierrot Lunaire teve boa repercussão em certos meios literários e artísticos, deve-se basicamente a ter sido apresentada a públicos mais predispostos à vanguarda. Já Stravinsky fez a estreia de sua peça para o público conservador dos balés, acostumado ao padrão Tchaikovski, o que amplificou o potencial de escândalo da obra.

Uma boa reconstituição do que deve ter sido a reação do público está no filme Coco Chanel e Igor Stravinsky. Tem a cena da estreia do balé no youtube.

A obra foi composta sobre o argumento de Nicolas Roerich, retratando o ritual de saudação da primavera feito pro tribos da Rússia pré-histórica. Uma jovem era selecionada e deveria dançar até a morte. A coreografia foi de Nijinski. Era o terceiro balé de Stravinsky para a companhia Os balés russos de Diaghilev (as anteriores foram Pássaro de fogo e Petroushka) e, se as outras obras já eram bem avançadas, essa foi além no intuito de retratar os “primitivismos” dos rituais pagãos.

Além do uso de uma orquestra muito grande, com combinações de timbres muito inovadoras e uma série de efeitos harmônicos e linhas melódicas que teriam longa influência sobre outros compositores, parece que o maior efeito da Sagração esteve na organização do ritmo. Muito mais do que na obra de Schoenberg, aqui no Stravinski o elemento rítmico vem ao primeiro plano, com compassos irregulares, alternância de compassos e deslocamentos de acentos.

solo inicial do fagote

solo inicial do fagote

O trecho inicial, por exemplo, tem mudança de compasso em todos os compassos, além de quiálteras e fermatas.

Mas a força rítmica aparece mais acachapante depois da introdução orquestral, quando os dançarinos surgem em cena, no trecho chamado Presságios da primavera.

Presságios da primavera

Nesta seção Stravinsky coloca as cordas tocando em forte, stacatto e no talão do arco, atacando notas repetidas e deslocando acentos por entre as colcheias do compasso 2/4. Todo o trecho constrói variações rítmicas em cima de um acorde repetido. O acorde parece construído por sobreposição, pois parte da orquestra faz um Ré b menor (Dbm) e outra parte um Mi b com sétima de dominante (Eb7). [As 8 trompas em fá estão escritas 5ª acima do que soam.]

Ouça o trecho e calcule o susto das elegantes senhoras que frequentavam o Théâtre des Champs-Élysées em 1913:

Para conhecer melhor a obra, não deixe de ver o excelente hotsite desenvolvido pela San Francisco Symphony.

 

 

História da Música Brasileira – aula 01

Hoje começo uma série de posts com o objetivo de organizar um pouco as informações disponíveis para meus alunos da disciplina de História da Música Brasileira. A aula 01 tem o seguinte tema: Apresentação da disciplina, do Plano de Ensino e da metodologia de trabalho

Inclui também, claro, um pouco de uma apresentação do professor.

Resumindo um pouco do que devemos conversar em sala de aula:

Professor

Para quem saber todas as fofocas acadêmicas sobre um professor, é sempre útil verificar seu Currículo Lattes. O meu está aqui. A principal informação é que minha formação foi em duas áreas – Música (graduação em Licenciatura em Música na antiga EMBAP, hoje Campus de Curitiba I da UNESPAR) e História (Mestrado em História na UFPR e Doutorado em História Social na FFLCH-USP). Também é útil ver a página das minhas publicações neste blog, onde estão as referências bibliográficas e os links para os textos acadêmicos.

Abordagem metodológica

A principal característica da maneira como conduzo esta disciplina é a abordagem transdisciplinar a partir das duas áreas distintas. A área de música costuma tratar os assuntos de História da Música como campos da crítica musical e da musicologia. Ou seja, a disciplina costuma ser um estudo dos principais compositores e as principais obras.

Embora eu não despreze esta abordagem, incluindo observações musicológicas sobre várias obras e respeitando de certa maneira o cânon de compositores considerados mais importantes pela crítica, quem observar o Plano de Ensino da disciplina verá que os objetivos apontam muito mais para uma abordagem vinda da História.

Neste sentido, é preciso reforçar que a maior parte da bibliografia disponível (em alto nível acadêmico e reflexivo) vem de trabalhos desenvolvidos nas áreas de Ciências Humanas, por pesquisadores que às vezes tem formação em música e às vezes não. Assim, a proposta da disciplina é de enfocar questões mais abrangentes como a relação entre música e política, discursos estéticos, instituições, formação e consagração dos compositores, usos do conceito de Música Brasileira, projetos como o Modernismo ou a MPB (os dois principais que abordamos no curso), entre outras questões.

Uso desta página

Faz tempo que tenho esta página com endereço pessoal e servidor bancado por minha conta. Entre outras coisas, a pretensão sempre foi organizar o material das aulas e deixá-lo disponível para os alunos.

No caso da disciplina de História da Música Brasileira, nunca cheguei a fazer isso neste endereço. Este objetivo entrou nas minhas “resoluções de ano novo” e este post de hoje, com este título, me empurrou para a necessidade de respeitar este compromisso.

Assim, deve existir aqui uma série de posts História da Música Brasileira – aula tal que pretendem ser um post para cada aula, sintetizando as questões discutidas e apontando a existência de material na internet (textos, vídeos, áudios, slides, etc).

Além disso, essa página tem a aba Material de Aula, onde o conteúdo e os materiais aparecem de forma mais organizada. Todos os posts referentes ao assunto dessa matéria publicados neste blog ficarão sob a categoria (que eu chamo de “gaveta”) História da Música Brasileira.

“Professor tem um livro para indicar”?

De vez em quando algum bom aluno interessado vem com essa pergunta. Algumas disciplinas podem ter bons manuais para serem adquiridos como bibliografia básica – um pequeno punhado de livros que dê uma boa visão do assunto de forma condensada mas respeitando a complexidade do conhecimento sobre o tema.

Acontece que não existe nada parecido com isso para História da Música Brasileira. Os manuais que já foram editados padecem de alguns problemas básicos: são antigos, superados e/ou muito incompletos. Por exemplo, não existe nenhuma História da Música Brasileira que não separe “música clássica”, e “música popular”. Quero dizer, temos livros de História da Música Brasileira (focando só na música de concerto) ou livros de História da Música Popular Brasileira (focando só na música popular derivada da tradição do samba). Na verdade, os livros existentes acabarão sendo comentados no assunto “projetos ideológicos”.

Os bons trabalhos acadêmicos que aprofundam o tema ainda estão na fase dos estudos temáticos, e espero que logo tenhamos autores e projetos editoriais capazes das necessárias grandes sínteses. Ou seja, para cada aula e cada assunto, teremos um bom conjunto de artigos, teses ou livros temáticos. Mas não teremos bons livros gerais sobre a disciplina. Para um aprofundamento deste ponto, confiram a bibliografia que está no Plano de Ensino. Ela não é nem muito atualizada nem exaustiva, apenas indica os textos que considero mais importantes. Para cada aula serão feitas mais indicações.

Neste blog existe uma bibliografia um pouco mais completa, feita em 2012 para o que seria uma disciplina de mestrado. O mestrado ainda não saiu, a disciplina foi reformulada para novos projetos e a bibliografia é mais completa. Isso apareceu num post aqui – o link para o pdf está com problema, mas devo consertar em breve.

Concluindo

Tem muito mais coisa pra falar, obviamente, mas fica para quem estiver na aula. Aqui serve apenas como um registro para facilitar quem quiser rever questões e ter acesso facilitado ao material de estudo.

O blog História Cultural será descontinuado

foto da página do blog no Facebook

foto da página do blog no Facebook

Como parte de um grande processo de reestruturação do jornal Gazeta do Povo, alguns blogs serão desativados, inclusive o blog História Cultural, que mantive lá com postagens esporádicas entre 2011 e 2015. A reestruturação do jornal já vem acontecendo desde o início do ano, com a troca da direção de redação (saiu a Maria Sandra Gonçalves, que transformou a Gazeta num jornal de verdade em seus anos de trabalho lá, e entrou o Leonardo Mendes Jr, super jornalista esportivo – que Deus o ilumine), com a mudança de formato do jornal impresso e com a reformulação da página na internet.

Entendo perfeitamente as mudanças que o jornal está tendo que fazer. Jornal é uma coisa deficitária faz um tempo. As receitas com publicidade impressa caíram muito, as assinaturas online não engrenaram, a publicidade online não resolveu o problema, as vendas de jornal impresso também caíram. Brasileiro (e curitibano ainda mais) nunca leu jornal, e agora menos ainda, já que se julga bem informado usando o facebook. Por outro lado, quando o jornal decidiu que não deixaria espaço no servidor para tantos blogs, o meu já estava na lista negra, porque meu último post é de outubro de 2015. Eu já tinha recebido um comunicado há algumas semanas, quando escrevi o rascunho deste post. Naquele momento, meu dilema era se eu dizia pra eles que queria continuar com o blog ou se assumia minha impossibilidade de tempo e fechava o boteco. Até então a informação era de que o acervo de posts continuaria disponível. Agora nem isso – no final de abril o blog sai do ar pra valer, nem os posts ficam.

Mas prometo que vou repostar aqui aqueles textos que acho que se sustentam (principalmente resenhas de livros que continuam importantes, e uma ou outra reflexão da qual eu não me arrependa). Fica então aqui um roteiro do que escrevi lá, e dos post que apareceram ano a ano. Para os que eu republicar aqui, vou colocar link no título das postagens (à medida que for republicando). O que estiver sem link é porque ainda vai aparecer, ou porque ficou mesmo pra trás.

 

A lista dos posts de 2011 no blog História Cultural:

A História Cultural e o blog

Entre a história, a música e a teologia: o perfil do blogueiro

A importância da música nova

Ateísmo em discussão

História e música: os anos 60 – minha palestra no IFPR

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Os 30 anos do Conservatório Villa-Lobos: uma homenagem a Valdomiro e Jane

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

 

A lista dos posts de 2012 no blog História Cultural:

O Jesus de Saramago

Curitiba pode ter música popular?

Bem-vindos à quaresma (o caso das salsichas)

Sobre a relevância dos departamentos de música em Curitiba

História e Música – mesa na Semana Acadêmica de História da UFPR

Os 27 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná

Um pedido de desculpas e uma geladeira no blog

O maestro Ricardo Bernardes voltou a Curitiba para estrear duas óperas luso-brasileiras do século XVIII

 

A lista dos posts de 2013 no blog História Cultural:

Um balanço da 31ª Oficina de Música

A renúncia do Papa: uma perspectiva histórica

Uma entrevista de Robert Darnton: a importância da história e o futuro do livro na era digital

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP

Sobre a Comissão da Verdade e um sofisma do historiador Marco Antônio Villa

O futebol da contracapa: uma etnografia da Suburbana em Curitiba

As comemorações dos 10 anos do curso de Bacharelado em Música Popular da FAP

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

 

A lista dos posts de 2014 no blog História Cultural:

História Cultural: o blog e o blogueiro, versão 2014

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Lorenzo Mammi: o LP como forma de arte

Xabier Basurko: O canto cristão na tradição primitiva

Os três anos de Osvaldo Ferreira à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná

50 anos do golpe e algumas boas leituras

Lamento e arioso: 40 anos da Camerata – o que lamentar e o que comemorar

O concerto da Filarmônica da UFPR: 100 anos da Primeira Guerra

Chico Buarque 70 anos

1964: a história do golpe por Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes

Stefan Geiger e Orquestra de Câmara de Curitiba: Stravinski, Antheil e Adams

O centenário de Guerra Peixe e a Sinfonia nº 1 com a Filarmônica UFPR

O ciclo de palestras e concertos “Desde a música eletroacústica”

Os posts mais lidos em 2014

 

A lista dos posts de 2015 no blog História Cultural:

Helma Haller e o Collegium Cantorum: Villa-Lobos – Missa de São Sebastião

Reza Aslam: Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré

Literatura e história: Umberto Eco, O cemitério de Praga

Palestra de Marcos Napolitano e lançamento do livro Arte e Política no Brasil

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

Palestra: A história cultural em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda

Cinema e história: Estrada 47

Mesa redonda: o jazz em trânsito na América Latina

Umberto Eco: Número Zero

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

Tim Blanning: O triunfo da música

 

 

Seminário de Iniciação Científica do Grupo de Pesquisa

Pessoal, o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade está realizando seu I Seminário de Iniciação Científica.

Os alunos que estão desenvolvendo as pesquisas no Programa 2015-2016 vão apresentar resultados parciais (as pesquisas são desenvolvidas de agosto a julho), e teremos comentários e debates com professores do Grupo.

Será nos dias 02 e 03 de março, quarta e quinta próximos, no Auditório da FAP.

Programação e maiores detalhes na página do Grupo.

O evento é aberto ao público.

Por que votar em Fabio Poletto para diretor da EMBAP

Cartaz da chapa Movimento Belas

Cartaz da chapa Movimento Belas

Conheço o prof. Fabio Poletto há vários anos e tenho com ele uma experiência não apenas de amizade, mas de parceria de trabalho. Desde os tempos em que éramos estudantes, quando fizemos muita coisa juntos, principalmente na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Até mais recentemente, como professores, eu na FAP e ele na EMBAP, desde 2011 trabalhando juntos no mesmo Grupo de Pesquisa e mais recentemente convivendo em reuniões administrativas (eu como coordenador de curso ou diretor de centro, ele como chefe de divisão de pesquisa). Mais importante de tudo, convivi e trabalhei intensamente com o Poletto na comissão que está propondo o mestrado em música, formada por professores da EMBAP e da FAP.

Devido a esta parceria posso atestar que o Poletto tem grande capacidade de trabalho, não tem medo de cara feia e faz as coisas com grande eficiência. Ele tem pautado seu trabalho pela ética, pela capacidade de colaboração, pela sinceridade em ouvir e sobretudo pela habilidade em fazer tarefas difíceis. Tem a capacidade de cumprir prazos, mesmo fazendo várias coisas importantes ao mesmo tempo.

Acredito que essas qualidades são essenciais e farão dele um ótimo Diretor de Campus. Vocês podem achar que eu sou suspeito para falar dele, e que tudo que escrevi acima é puxa-saquismo. Não é. Mas em todo caso, sigo com algumas questões mais específicas que me levam a considerar que a candidatura dele representa um passo muito importante para o futuro da Belas.

Antes de falar de outras coisas é preciso salientar que o Poletto constiuiu uma ótima chapa com o Eloi. Acompanho o trabalho do Eloi como Conselheiro no CEPE da UNESPAR, do qual também faço parte, e ele tem sido lá uma voz ponderada, um cara que vem com os documentos lidos e com posições bem fundamentadas. Também convivi com o Eloi durante a greve, e pude perceber como alguém com o conhecimento dele faz a diferença em momentos difíceis. Nas oportunidades em que confraternizei com ele em meio a reuniões do CEPE pelo interior do Paraná, ganhei motivos para considerá-lo uma grande pessoa, um bom caráter.

Pensando estrategicamente: o futuro da UNESPAR terá de passar pela melhoria da oferta de trabalho de agentes universitários, nosso ponto fraco. Temos poucos agentes em comparação com as outras universidades e com nosso número de alunos e de professores. Isso significa que o trabalho administrativo fica sempre comprometido, com resultados catastróficos para o funcionamento da UNESPAR. Uma chapa com um professor e um agente universitário parte de um diagnóstico correto da situação: a UNESPAR precisa da participação ativa dos agentes universitários na sua gestão. Temos experiência positiva neste sentido na FAP – elegemos uma Direção de Campus com a professora Pierângela e o agente universitário Marcelo. Já estamos colhendo resultados positivos.

Talvez a principal questão seja pensar qual o diferencial do Poletto em relação aos demais candidatos.

Pouco conheço o Carlos Iansen, e tendo a dizer que a folha de serviços dele na EMBAP e na UNESPAR é pequena ainda para que seja alçado a um posto tão importante. Não sei em que ele traria colaborações.

Conheço bem e me considero amigo do Marco Koentopp, e não há dúvida que ele já demonstrou sua capacidade de trabalho, e sua atuação na EMBAP e na cena musical curitibana tem sido destacada.

Mas aí entra a questão que considero estratégica: Fabio Poletto é hoje o candidato que tem melhor trânsito acadêmico e melhor entende o funcionamento da universidade. Como membro do Conselho Universitário desde sua primeira composição, e como Chefe de Divisão ele é um professor que conhece e transita bem com outros campi, com a Reitoria e com as Pró-Reitorias. Além de conhecer bem os documentos e regulamentos da UNESPAR, pois participou de sua elaboração, discussão e aprovação no COU – segundo testemunhos de outros conselheiros, com uma atuação destacada.

Talvez nos anos recentes a comunidade acadêmica tenha pensado que o problema mais grave da EMBAP seja a falta de uma sede própria, onde possa desenvolver suas atividades com as condições necessárias. Esse é um problema grave, mas não é o pior que a EMBAP enfrentará. Há uma tendência natural da nossa universidade investir em estrutura física, e os vários campi com problemas da mesma ordem pressionam por uma solução conjunta que não poderá ser ignorada pelos futuros governos.

O pior problema da EMBAP, e digo isso como aluno egresso da instituição, onde estudei na década de 1990 e fiz graduação e especialização, é seu pouco envolvimento com o mundo universitário – seja o sistema de universidades brasileiro sejam as instituições internacionais. A incorporação à UNESPAR apresenta não poucas dificuldades e desafios, como a reestruturação dos cursos de graduação, a implantação do mestrado, e, principalmente, a visibilidade que a EMBAP tem dentro da universidade, levando em conta que ela tem um número de professores muito maior que o dos outros campi, com um número bem menor de alunos.

Quem não estiver pensando estrategicamente esses problemas, e não for capaz de conversar e argumentar sobre isso com gente de outras áreas do conhecimento não conseguirá segurar a EMBAP, encaminhar sua brilhante tradição para um futuro também brilhante. A EMBAP precisará desesperadamente de um negociador capaz e enérgico, ou, como definiu o professor Márcio Steuernagel em seu Facebook, “o momento requer um estadista”.

Neste sentido estratégico, considero que o Poletto é o homem certo. Votar nele é estar seguro para navegar nas águas turbulentas que a EMBAP enfrentará no processo de consolidação da UNESPAR.

A programação 2016 do Teatro Municipal de São Paulo

A programação 2016 do Teatro Municipal de São Paulo já foi divulgada. Faço neste post um comentário do ponto de vista de quem mora fora da cidade.

O Municipal de São Paulo, em vista do início do século XX (foto do sítio do Teatro)

O Municipal de São Paulo, em vista do início do século XX (foto do sítio do Teatro)

O Teatro Municipal é certamente um dos palcos mais importantes de uma das cidades mais importantes do mundo. No hemisfério sul do globo, provavelmente São Paulo só é comparável em termos de teatros musicais com cidades australianas, além de Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu, Caracas, Santiago. A cidade poderia ter uma vida musical comparável à de metrópoles da Europa, EUA, Canadá ou Japão, pelo tamanho e riqueza que ostenta. E o Teatro Municipal foi o primeiro palco a colocar São Paulo no caminho da civilização, com bastante atraso em relação às outras metrópoles sulamericanas mencionadas, todas com vida muito dinâmica desde o século XIX.

Construído como um teatro de ópera, o Municipal de São Paulo paga a pena de existir num país onde não existe ópera. Sim: o Brasil passou o século XIX e a maior parte do XX sendo um comprador de espetáculos de companhias italianas, de valor cultural bastante duvidoso, mas servindo com exatidão aos seus principais propósitos: o orgulho besta de classes dominantes retrógradas e o lucro fácil de empresários espertos.

Espera-se mais do nosso país no século XXI. Embora nosso nível de exigência cultural continue baixíssimo e, provavelmente, esteja caindo mais. Particularmente na música de concerto, apesar de muitas iniciativas louváveis e várias orquestras melhorando de nível de maneira impressionante em décadas recentes. Pior ainda na ópera: neste gênero somos um país sem teatros, sem companhias e sem programação, apesar do bom trabalho isolado de ótimos cantores e maestros dedicados.

Neste sentido, a programação 2016 do Teatro Municipal merece ser comemorada e elogiada. O Teatro passa por diversos problemas bem graves de gestão e financiamento, há bastante tempo. As prefeituras das últimas décadas parecem não ter dado muita atenção à programação artística do teatro, e neste sentido a gestão de Haddad se destaca positivamente.

A programação de 2016 confirma o que estou dizendo. Pra quem mora em São Paulo, o Teatro Municipal terá muita coisa boa pra se ver, de música coral, orquestra e de balé. Para mim, que moro em outra capital, e teria que viajar para São Paulo para assistir alguma coisa, pareceu pouco interessante.

Imagine alguém que, como eu, vai gastar passagem e hospedagem para assistir um concerto. Como estou a cerca de 400 km da cidade, não é tão longe que seja impraticável, nem tão perto que deva ir para alguma coisa que não valha MUITO a pena.

Basta dizer que nunca fui a São Paulo para assistir alguma coisa do Municipal, mas estou planejando fazer isso em 2016. Por quê?

Vejam a programação de óperas para a temporada deste ano:

Puccini, La Boheme, 7 récitas entre 30 de abril e 8 de maio.

Shostakovich, Lady Macbeth de Mtsensk, récitas de 12 a 17 de julho.

Richard Strauss, Elektra, 7 récitas entre 9 e 20 de outubro.

Carlos Gomes, Fosca, 7 récitas entre 7 e 17 de dezembro.

Quatro óperas em um ano é uma programação tímida para o tamanho da cidade e a importância do teatro. Mas, consideradas as ressalvas que fiz acima sobre sermos um país sem ópera, e levando em conta os permanentes problemas financeiros que assolam as instituições culturais no país, o TMSP faz bonito, procurando ser relevante na escassez.

O Puccini eu não vou assistir. Não que a obra não valha a pena, é que eu sei que poderei ver outras vezes, provavelmente na minha própria cidade. Talvez não numa montagem tão boa, mas não importa. Mas Lady Macbteh, Elektra e Fosca acho que vale a pena sair daqui de Curitiba para ir assistir.

Acho que nunca foram e provavelmente nunca serão apresentadas na minha cidade. Também não é um acontecimento recorrente em São Paulo, e desconfio que sequer sejam repertório nos principais teatros de ópera do mundo (a do Strauss deve ser das 3 a que mais fica em cartaz).

São duas óperas modernistas de importância inegável e uma ópera brasileira que talvez seja a principal criação do nosso país neste gênero.

As três óperas de Strauss estreadas entre 1905 e 1911 foram um marco na música europeia. Vários críticos já tentaram dizer quando começou a música do século XX, e quais marcos foram mais definidores. Alguns apontam a estreia da Sagração da Primavera em 1913, Paul Griffiths considera o Prelude à l’après-midi d’un faune de Debussy como uma obra seminal. Mas Alex Ross afirma que o século XX é marcado principalmente pela estréia de Salomé, em 1905. A fase mais criativa e mais impactante de Strauss seguiria com Elektra, estreada em 1909 e Der Rosenkavalier em 1911. Elektra é certamente uma das obras mais importantes do século XX, e provavelmente uma das mais importantes obras do repertório alemão. Talvez a maior, pra quem se autodeclarar sem a paciência e a dedicação necessárias para as obras de Wagner, como é o meu caso.

A ópera de Shostakovich que o Municipal vai apresentar marca o fim do momento mais criativo do compositor russo. Depois de ter sido um prodígio da vanguarda musical no momento mais rico da vida cultural soviética, a Lady Macbeth de Shostakovich lhe valeu uma condenação no Pravda, o enquadramento pelo regime de Stálin e seguidas prisões, ameaças de morte e outras amenidades. Além dos diversos outros motivos que tenho para me interessar por esta obra, só esse já vale: condenada pelo stalinismo, só pode ser coisa interessante.

Fosca é considerada por muitos como a obra prima de Carlos Gomes. O único compositor brasileiro a ter se inserido significativamente como compositor de óperas no mercado italiano, e o primeiro caso de reconhecimento da música brasileira na Europa, o compositor de Campinas continua sendo inexplicavelmente ignorado por nós. Exceto o massacre sonoro da Abertura de Il Guarany, de longe a música mais executada de todos os tempos no país (e provavelmente a mais mal executada também), Carlos Gomes continua sendo nunca apreciado no Brasil.

Como eu já disse, somos um país sem ópera, e por isso nosso único compositor relevante do gênero é simplesmente inexistente na nossa programação. Somos tão ruins nisso que nos damos ao luxo de montar ópera italiana do século XIX na maioria das vezes, e deixamos pra trás nosso compositor mais importante. Se a obra não tivesse qualidade musical nenhuma, já bastaria isso pra nos obrigar a assisti-la (quem se interessa por ópera, é claro).

Mas acontece que tem qualidade musical, e muita. Um pouco do porque Carlos Gomes merece ser ouvido está explicado em um texto que escrevi sobre ele. Não preciso repetir aqui.

Então é isso. Se precisar de um motivo para passear em São Paulo, provavelmente você terá, com a programação do Teatro Municipal em 2016, principalmente as óperas. Mas não faça como eu, que já fui uma vez a São Paulo e tentei comprar ingresso na hora – simplesmente não existe. É preciso fazer uma assinatura anual, ou comprar ingressos com muita antecedência. Como o Brasil tem pouquíssimo destas coisas, os lugares esgotam MUITO antes. Hoje está na fase de trocas de assinaturas (a renovação já passou). Assinaturas novas abrem dia 21 de janeiro e ingressos avulsos abrem para venda dia 15 de fevereiro.

 

Perdemos Gilberto Mendes e Pierre Boulez

Morreram Gilberto Mendes e Pierre Boulez. Se aqui no Brasil nós tendemos a achar que 2015 foi um ano catastrófico, 2016 já mostrou a que veio. Com diferença de apenas alguns dias, a primeira semana do ano já levou os dois maiores músicos da segunda metade do século passado – um líder estético no mundo e outro no Brasil. O brasileiro morreu, e, antes que eu pudesse escrever um texto, já chega a notícia da partida do francês.

Esta foi uma das peças que a vida prega no mundo, levar em datas tão próximas músicos de significado tão marcante.

Eu estou em viagem, sem meus livros por perto, o que significa que não poderei escrever com a profundidade que eu gostaria. Mas vamos lá, assim mesmo.

Pierre Boulez foi o líder da geração pós 1945. Uns jovens que perceberam que o nazi fascismo tinha significado a completa ruína cultural da Europa, e que a criação artística não podia seguir o caminho histórico linear que tinha desaguado nessa coisa toda. Era preciso, sobre as ruínas da Guerra, construir uma nova Europa, e isso só seria feito com a superação radical da tradição.

Ou, nas palavras de Boulez, o compositor que não partisse do zero, não fizesse tábula rasa do passado, não tinha entendido seu lugar no mundo que surgia dos escombros.

Essas ideias radicais foram enunciadas pelo jovem compositor em 1951, quando escreveu um necrológio nada elogioso ao mestre da primeira metade do século, Arnold Schoenberg. O texto foi escrito por Boulez para jornal, em 1951, e no Brasil está incluso no volume Apontamentos de aprendiz, onde saiu com o título “Morreu Schoenberg”. O título original francês é “Schoenberg est mort” que eu traduziria como “Schoenberg está morto”, dando um pouco mais relação ao título com o conteúdo do texto.

Porque era isso que Boulez propunha. Em linguagem mais coloquial: “Schoenberg já era”. No texto, Boulez defende que Schoenberg teve uma excelente ideia ao organizar os temas musicais em séries com as 12 notas do total cromático. O dodecafonismo do compositor alemão seria uma grande ideia composicional, mas Schoenberg teria cometido o grave erro de usar a nova técnica para tentar dar vida a velhas fórmulas. Não à toa, a primeira peça dodecafônica de Schoenberg foi uma Suite tributária ao modelo bachiano, com Preludio, Gavotte, Musette, etc.

A resposta composicional de Boulez viria com Structures para dois pianos, trabalhada ao longo de 1951. Nesta peça Boulez lançou o que viria a ser chamado de “serialismo integral”, ou seja, a tomada da ideia dodecafônica com um encaminhamento para o futuro, e não para o passado como Shoenberg tinha feito na década de 1920. Na peça de Boulez a técnica consistiu em criar uma série de alturas com as 12 notas, como Schoennberg já fazia, mas aplicar o número atribuído a cada nota para também produzir séries de durações e de intensidades.

O detalhe é que a música dodecafônica tinha passado praticamente desconhecida das novas gerações, à medida que teve dificuldades de ser publicada e executada nos anos 1920, e passou mesmo a ser proibida na Europa da década de 1930 quando os totalitarismos exerceram estrito controle da vida musical. A geração de Boulez iria descobrir a música dodecafônica nos cursos de férias de Darmstadt, mais especificamente a partir de 1948 quando a música dodecafônica começou a aparecer na programação (em cursos de composição de René Leibowitz e na programação de obras de Schoenberg, mas também em conferências de Koellreutter e na execução de música dodecafônica dos compositores brasileiros como Guerra Peixe, Santoro e Eunice Katunda – pode-se conferir na programação registrada aqui).

A descoberta da aventura dodecafônica de antes da guerra serviu de inspiração aos novos rumos, ainda mais radicais, que um nova vanguarda empreenderia nas décadas de 1950 e 1960. Boulez seria um dos principais compositores desta linha renovadora, acompanhado do trabalho de colegas como Stockhausen, Berio, Nonno, reforçados pelo experimentalismo de norte americanos como Babbitt e Cage. Para esta nova geração, o importante era pensar a composição a partir de técnicas que impedissem “compor com o ouvido”, o que significava, geralmente, estar preso à tradição. A técnica para livrar-se da tradição era compor com regras estritas, que obrigassem os compositores a resultados completamente novos, sem relação com  obra dos mestres clássicos.

Uma música tão apartada da tradição, como a que foi produzida por estes compositores, só pode prosperar num mundo onde chegou-se à conclusão de que o financiamento público ao experimentalismo das vanguardas era um necessário antídoto aos totalitarismos. Se nazismo, fascismo e stalinismo tinham perseguido as vanguardas, a democracia deveria apoiá-las. A música de Boulez e de seus contemporâneos foi uma música de laboratório, tocada por orquestras estatais e difundida por rádios e tevês estatais européias. Assim como os colegas norte-americanos se tornariam compositores de universidade (fenômeno que se observa também no Brasil em período mais recente). Até a CIA apoiou as vanguardas, contrapondo-se à possível influência do realismo socialista no Ocidente, em tempos de Guerra Fria.

As dificuldades em manter-se em uma linha criativa tão ousada, aos poucos levaram Boulez a potencializar seu trabalho como regente. O compositor percebeu que se os ouvintes não tivessem um bom conhecimento dos experimentalismos da primeira metade do século, sua própria obra de compositor talvez fizesse pouco sentido frente à onipresença de sinfonias de beethovens com filarmônicas de vienas regidas por karajans da vida. Para quem já comprou discos em loja, Boulez provavelmente é mais conhecido como regente, sendo atribuídas a ele várias das melhores gravações de Debussy, Stravinski, Bartok, Schoenberg e Webern.

Veja o instrutivo vídeo de um jovem Boulez fazendo o papel de anti-maestro regendo Jeux, de Debussy:

No Brasil, a realidade era muito diferente. O país viveu pequenos “engasgos” de vanguarda, que nunca chegaram a se a afirmar. Temos diversos compositores que fizeram criações bastante originais, mas numa terra de poucas orquestras, quase nenhuma editora de música (exceto para partituras de piano), conservatórios atrasados e intérpretes limitados, as experiências mais inovadoras de criação musical não tinham chão para prosperar.

O surto criativo de Villa-Lobos na década de 1920 apoiou-se no mercado de concertos parisiense, e Camargo Guarnieri só se firmou como compositor depois de ter suas obras executadas nos EUA na década de 1940. Entre 1941 e 1948 Koellreutter conseguiu arejar um pouco a cena criativa no Rio de Janeiro, com a atuação do Grupo Música Viva. Por um curto período, as obras de Santoro e Guerra Peixe abraçaram o experimentalismo.

Mas por volta de 1950 ninguém defendia vanguarda na música brasileira. Todo mundo tinha aderido ao populismo nacionalista, baseado em uma escrita neoclássica e em aproximação com o folclore – pensamento que embasava a criação dos principais compositores vivos então (Villa-Lobos, Mignone, Guarnieri, Santoro e Guerra Peixe).

Por esta época, lá em Santos estava o jovem Gilberto Mendes. Tentando estudar música mas com pouca empolgação com o nacionalismo conservador disponível no momento. Apesar da admiração por Guarnieri como compositor, a empolgação era pouca para estudar com uma cara que tinha escrito a Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil para dizer absurdos sobre o processo de criação e sobre a música nova.

Parece que a sorte de Gilberto Mendes foi ter estudado com Santoro, justamente o compositor brasileiro que mais tinha avançado no período de influência de Koellreutter, e o que abraçaria com mais vontade a vanguarda na década de 1960.

Assim, munido de um espírito irriquieto, e embebido por um ecletismo profético Gilberto Mendes começou a aparecer na década de 1960 com uma improvável produção altamente sofisticada e completamente deslocada do chão tradicional da música brasileira.

Não é exagero dizer que ele foi o único brasileiro a estar postado como um compositor na vanguarda mundial. Sua assinatura no Manifesto Música Nova em 1962 e composições como Santos Football Music ou o Moteto em Ré menor (o anti-jingle “Beba Coca-Cola” sobre poema de Décio Pignatari) ajudaram a evidenciar o completo descompasso da música brasileira feita então com a fronteira criativa no Ocidente.

Gilberto Mendes se tornou rapidamente o único compositor brasileiro a apontar rumos ainda não testados, e se tornou o principal expoente de uma geração que rompeu completamente com os grilhões de brasilidade que tinham aprisionado os compositores desde os tempos de Carlos Gomes. Indiretamente, pode-se dizer que ele foi beneficiado por uma transição importante na vida cultural brasileira – em algum momento da década de 1950 a “missão” de representar o Brasil em sons deixou de ser atribuída à música de concerto e passou à canção popular midiatizada. Enquanto movimentos como a Bossa Nova, a Canção Engajada e o Tropicalismo estabeleciam os novos parâmetros do que era a “música brasileira” e acabariam estabelecendo a sigla MPB, Gilberto Mendes estava livre para fazer simplesmente “música”.

Como profeta desta nova geração, Gilberto Mendes sempre foi muito consciencioso de sua responsabilidade, e a exerceu como ninguém. Ao contrário de seus antecessores, que gostavam de divulgar seus processos criativos e defender suas técnicas publicamente, inclusive de maneira bastante belicosa, Gilberto Mendes sempre ridicularizou isso de maneira aberta. Suas falas sempre soam como “anti-manifestos” diluindo, desdizendo, confundindo. Essa era sua “missão”: quando procuravam a pedra filosofal da música de vanguarda, Gilberto Mendes estava lá, para apontar sempre para o lado errado, e confundir os incautos (ver uma coleção de seus ditos nesta ótima matéria de João Luiz Sampaio). No dizer de Carla Delgado de Souza em uma mesa no II Festival de Música Contemporânea Brasileira, Gilberto Mendes foi mais que pós-moderno – ele foi “trans-moderno”.

Gilberto Mendes comentando suas obras num concerto no II FMCB

Gilberto Mendes comentando suas obras num concerto no II FMCB

Eu, que conheço pouco o compositor e sua obra, experimentei isso claramente na única conversa que tive com ele. Foi num jantar logo após a abertura do II FMCB, no qual ele estava como compositor homenageado e eu como conferencista. Num raro momento em que pude conversar um pouquinho com ele, na falta de assunto melhor, perguntei se as composições dele nos anos 1960 tinham sido influenciadas por Penderecki. A resposta dele foi a melhor possível:

Não! Imagina! A música de Penderecki é tão séria, a minha sempre foi uma grande brincadeira.

P.S. O falecimento de Gilberto Mendes aumentou sobremaneira a importância do II FMCB, realizado em março de 2015. Os homenageados eram ele e Edino Krieger, os dois maiores compositores brasileiros vivos. Eu tive o privilégio de estar lá e assistir diversos concertos e comunicações, e escutar o compositor falar da vida, de música e das suas obras. Escrevi alguns textos sobre o evento:

Bate-papo com Edino Krieger e Gilberto Mendes no FMCB

Thiago Kreutz e a obra para violão de Edino Krieger

Victor Hugo Toro e a Sinfônica de Campinas: o concerto de encerramento do FMCB

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

P.S.2 Escrevi um texto estes dias sobre os melhores concertos que assisti e que não assisti em 2015. Agora me lembro que talvez o concerto mais importante que não assisti foi o que estava programado para o II FMCB, com o PIAP (Grupo de Percussão da UNESP) tocando obras de Gilberto Mendes. O concerto foi cancelado, se entendi bem, por problemas de falta de verba, que impediu o deslocamento do grupo com seus instrumentos.

P.S.3 Os Anais do II FMCB com vários trabalhos importantes sobre Gilberto Mendes estão publicados aqui.

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti

Assisti poucos concertos esse ano. Tempo escasso, dedicado principalmente aos compromissos familiares e profissionais.

Entre os principais concertos que perdi, o que mais lamento foi não ter ido a nada da III Bienal Música Hoje. Ocorreu entre 14 e 22 de agosto, com uma programação interessantíssima.

Também não assisti nada da Orquestra Sinfônica do Paraná. Deve ter tido coisa interessante. Mas o meu tempo foi escasso, e a minha empolgação ainda menor. É triste ver um conjunto entrar em decadência logo após atingir seu auge, e tudo por não haver política pública e interesse em manter uma programação digna. Acho que agora a Orquestra vai precisar voltar a convencer seu público, depois de a direção do teatro jogar fora a boa experiência dos anos 2011-2013.

Pelos mesmos motivos pessoais assisti pouco ou nada da Camerata. Mas aqui ocorre o contrário: mesmo sem receber o devido apoio financeiro da prefeitura, a programação vem mantendo o nível ou melhorando, e a qualidade técnica é notavelmente ascendente. Ficou claro isso pra mim no concerto de encerramento, para o qual escrevi uma crítica:

Emmanuelle Baldini e a Camerata Antiqua de Curitiba: O Messias de Haendel

O outro concerto que assisti foi o que fiz palestra. Regido por Rodrigo de Carvalho (que vem fazendo ótimo trabalho sempre que rege aqui), teve Villa-Lobos, Copland e Bártok. Sempre gosto das apresentações da Orquestra de Câmara de Curitiba quando faz música do século XX, esse foi mais um concerto em que eles acertaram bastante. Acabei não escrevendo comentários sobre o concerto nem publicando as anotações da minha palestra (como fiz aqui em 2014).

Que o ano seria fraco de idas a concertos e críticas escritas já ficou evidente desde o início. A sempre boa e diversificada programação da Oficina de Música não acompanhei quase nada. Escrevi crítica sobre o concerto do Collegium Cantorum com a Missa de São Sebastião de Villa-Lobos. Infelizmente acho que o CD não ficou tão bom quanto a apresentação ao vivo. Gravar música de concerto não é nada fácil mesmo.

Acho que a melhor oportunidade de ouvir concertos que aproveitei este ano foi ter participado no II Festival de Música Contemporânea Brasileira, que foi dedicado a Edino Krieger e Gilberto Mendes, provavelmente os maiores compositores brasileiros vivos. Era muita coisa boa, palestras, debates, comunicações e concertos. Tentei fazer um apanhado geral neste texto:

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

E escrevi críticas específicas para 2 concertos:

Thiago Kreutz e a obra para violão de Edino Krieger

Victor Hugo Toro e a Sinfônica de Campinas: o concerto de encerramento do FMCB

Fiquei realmente muito impressionado com o trabalho de Victor Hugo Toro com a orquestra.

Outra impressão muito positiva foi assistir à Opereta Marumby (1928), de Benedito Nicolau dos Santos. Esse compositor foi um importante teórico musical no Brasil, injustamente desconhecido nos nossos dias. Nunca tinha ouvido nada dele, e o resgate dessa peça confirma a importância do trabalho musicológico que quase não se faz no Brasil. Tanta obra boa precisando ser apresentada, o que depende quase sempre de encontrar partituras invariavelmente mal preservadas – quando não totalmente perdidas.

No caso de Marumby, me parece que o trabalho de pesquisa (bem como a produção) foi feito por Gehad Hajar. Destaque também para Renata Bueno no papel de “Rainha da Boina”. Agora, o sucesso indiscutível nesta peça é para a entrada dos “caipiras”, representados em cena pela Orquestra Rabecônica do Mestre Aorélio, que encantou o público com seu fandango.

A apresentação fez parte do I Festivel de Ópera de Curitiba, que teve também uma apresentação de Sidéria de Augusto Stresser, que infelizmente não pude assistir.

Claudio de Biaggi e as crianças do Papo Coral ensaiando

Claudio de Biaggi e as crianças do Papo Coral ensaiando

Com pouca chance de assistir à programação, escolhi apenas coisas que eu tinha certeza que seriam boas. De modo que é difícil eleger o melhor concerto que assisti no ano. Do ponto de vista técnico. Porque emocionalmente pra mim o melhor concerto foi a seleção de cenas de mini-óperas que o Papo Coral apresentou no edital Ópera Ilustrada da Fundação Cultural de Curitiba.

Minhas crianças cantam no coral, por isso sou suspeito. Que é mais do que corujice minha pode ficar confirmado pelas opiniões de outras pessoas que assistiram à apresentação sem ter filhos no coral.

Além do ótimo grupo regido por Cristiane Alexandre, uma boa seleção de trechos (Dueto dos gatos de Rossini, L’enfant et les sortilèges de Ravel, Il maestro di musica de Pergolesi e Der Schulmeister de Tellemann) a fantástica direção de cena de Carlos Harmusch e o ótimo conjunto instrumental dirigido por Clenice Ortigara. Ver crianças participando de uma apresentação em tão alto nível artístico não é coisa comum. Destaque também para a participação de Claudio de Biaggi e para a execução de Clenice Ortigara, que impressionou tanto no piano nas peças de Ravel como no cravo nas peças de Tellemann.

Grupo Fato e os alunos da FAP, no TELAB

Grupo Fato e os alunos da FAP, no TELAB (foto Aline Lobo)

Finalmente, não é bem um concerto, mas também tem valor musical e emocional pra mim. Eu já tinha ido a um coquetel de lançamento do incrível disco Próximo, último lançamento do Grupo Fato, que dispensa apresentações.

E este ano eles foram conversar pra fazer um show na FAP, onde trabalho. Ajudei a organizar algumas partes, principalmente o edital que selecionou alunos para participarem do show. A incrível qualidade descoberta no trabalho dos alunos deu alegria demais para todos nós. Lucas Ribeiro, Josimar Artigas e Rafael Bueno participaram como gente grande, e tiveram suas composições intercaladas com o trabalho do Grupo. A apresentação foi muito bonita, e muito marcante pra quem estava lá. Descobri, no show, que muita gente no Fato foi aluno na FAP.

Um abraço e um agradecimento aos amigos Ulisses Galetto e Grace Torres. O disco dá pra ouvir no Soundcloud, e no Spotify. E a melhor música provavelmente é Indivídua – não deixe de ouvir.

Não foi tudo que assisti, mas espero que tenha lembrado dos mais importantes.

P.S. Veja também os outros textos desta série:

Retrospectiva 2015: livros

Retrospectiva 2015: filmes e séries

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti