Janeiro sem Oficina de Música

Sem Oficina de Música, este janeiro foi o pior de Curitiba nos últimos 36 anos. Praticamente toda minha vida desde que me entendo por gente. Em 1982 começou a primeira Oficina de Música, no Solar do Barão. Até 2016, quando foi realizada a última edição, foram 36 edições com cursos de férias com professores e alunos nacionais e internacionais de alto nível, além de uma notável programação de concertos que pode ser usufruída pelos alunos e pela população da cidade em geral.

Neste ano de 2017, está estabelecida a nova moda Temer , Tump, Teresa May, Dória e outros – cujos objetivos políticos parecem ser arrasar todas as conquistas da civilização nas áreas de cultura e direitos humanos. Não podia ser diferente em Curitiba, talvez a mais conservadora das capitais conservadoras deste país conservador. Somos tão conservadores que agora nosso lema é o retrocesso. Temos um prefeito que compete em imbecilidade com os políticos acima citados. E vai bem na competição.

Sua principal medida até agora foi cancelar a Oficina de Música que teria acontecido em janeiro. Desmarcar todas as passagens de professores contratados. Devolver todo o dinheiro das inscrições dos alunos de toda parte do Brasil e de outros países. Cancelar toda a programação de concertos e liberar a agenda dos teatros. Esvaziar ainda mais uma cidade que já é vazia em janeiro. Afinal, quem precisa de civilização? Temos Greca, e o amamos…

Outros janeiros

Para uma pequena ideia sobre a importância da Oficina e a dinâmica de sua programação, veja os posts que escrevi em anos passados com comentários sobre a programação e sobre alguns concertos:

31ª Oficina de Música (2013)

O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

Um balanço da 31ª Oficina de Música

32ª Oficina de Música (2014)

A abertura da Oficina de Música 2014

O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

 

Vídeo da minha palestra

Nos últimos anos os concertos da Camerata Antiqua de Curitiba tem sido precedidos de palestras explicativas. Em 2016 começou um formato em que as palestras pré-concerto passaram a ser gravadas e apresentadas em vídeo. Eu fui um dos palestrantes. Procurei o vídeo no canal da Fundação Cultural de Curitiba, mas todos tinham sido retirados do ar. Provavelmente por causa do período eleitoral, eu não achava o vídeo da minha palestra. Ontem uma amiga me mostrou que o vídeo está, sim, online. No canal do ICAC, onde estão todos os demais vídeos.

O programa do concerto

O concerto foi com obras de José Penalva, Henrique Morozowicz, Ronaldo Miranda e Eduardo Frigatti. Era parte da programação do Festival Penalva, que vem sendo realizado anualmente com concertos, cursos e palestras, em homenagem ao compositor que adotou a cidade e tanto marcou a vida cultural de Curitiba.

Informações completas sobre o concerto e o programa estão aqui, no site do ICAC. Sobre José Penalva e Henrique Morozowicz eu escrevi posts aqui no blog, com o material que usei para preparar minha palestra.

José Penalva (1924-2002)

Henrique Morozowicz (1934-2008)

Sobre Ronaldo Miranda não há muito pra dizer, exceto que é um compositor de músicas bonitinhas para ganhar prêmios e ser programado para deixar gente feliz. Na palestra eu falo alguma coisa mais politicamente correta sobre ele.

A execução das obras foi de uma grande felicidade. O concerto mostrou o tamanho do trabalho que a regente Mara Campos vem fazendo com a Camerata. Especialmente o coro sempre teve dificuldade em preparar obras não concebidas tonalmente. Mara Campos revelou sua capacidade de ensaiadora e conseguiu empolgar os cantores. Foi um feito especialmente notável na difícil obra de Penalva.

Eduardo Frigatti

Sobre Eduardo Frigatti, infelizmente não estava na programação. Sua obra Campina de vidro foi incluída de última hora no programa e eu só soube disso depois que tinha terminado de gravar minha fala. Ainda deu tempo de incluir mais uma pequena menção ao nome dele. De todo modo, é um compositor jovem, eu não teria muita informação sobre ele. Sua obra foi premiada no concurso de composição da Bienal Música Hoje em 2015, o que lhe valeu como prêmio a execução durante a temporada da Camerata. Parece que só depois de fechada a programação veio a lembrança do prêmio. E foi uma decisão acertada incluir esta obra num festival dedicado à música de vanguarda e homenageando o decano da composição musical em Curitiba.

Eu conheci o compositor pessoalmente no dia do concerto, e ele me mostrou gentilmente a partitura da obra. Peça muito boa, vagamente baseada em técnicas do espectralismo, de ótimo resultado orquestral. Sinto que, ao contrário de muitas obras premiadas em concurso de composição, essa os músicos da orquestra tocaram com gosto e de verdade.

O vídeo da minha palestra

O vídeo está abaixo. Recomendo que você aperte no botãozinho que aparece no canto para ver direto no youtube, onde você também pode curtir e compartilhar.

 

Material de uma aula sobre canção engajada

Esses dias tivemos uma aula sobre Canção Engajada. Foi um assunto que tratamos tanto na turma de História da Música Brasileira do curso de Licenciatura em Música quanto na turma de História da Música IV do curso de Bacharelado em Música Popular.

Capa do disco Nara lançado em 1963 pela gravadora Elenco

O termo Canção Engajada é o que prefiro, embora se use também falar em Canção de Protesto e Bossa Nova Nacionalista. Os últimos dois termos são da própria época, enquanto Canção Engajada é um termo mais analítico, usado, por exemplo, pelo historiador Marcos Napolitano, que escreveu os principais estudos de referência sobre o período.

Falta conteúdo à Bossa Nova

Podemos identificar o fim do movimento da Bossa Nova no ano de 1962. Foi quando os principais artistas foram se estabelecer nos Estados Unidos. Enquanto isso, o entusiasmo desenvolvimentista dos anos JK cedia lugar às incertezas dos governos de Jânio Quadros e João Goulart.

Como bem descrevem os historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, entre 1961 e 1964 vivemos tempos muito instáveis. Um presidente renunciou após 9 meses de mandato. Uma junta militar impediu o vice de assumir. O movimento da legalidade foi liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, que distribuiu armas à população civil. O vice-presidente assumiu manietado pela lei do parlamentarismo. Governou sabotando os próprios gabinetes, enquanto o principal líder do seu partido (PTB) pressionou por reformas cada vez mais radicais. O mesmo governador que liderou o movimento pela legalidade agora inviabilizava os acordos que garantiam a estabilidade do governo.

Enquanto isso, inflação alta, desabastecimento, crise de endividamento e insolvência, desemprego, pobreza, desigualdade.

Como estuda Arnaldo Contier neste artigo, ficou fora de contexto continuar cantando as canções bossa novistas. Elas falavam em encontrar um trevo no jardim, barquinho que vai enquanto a tardinha cai, cantadas de praia em paródia de lobo mau e chapeuzinho e outras questões que passaram a ser vistas como fúteis diante das agruras nacionais.

Ver, por exemplo, o repertório dos dois primeiros discos de João Gilberto: Chega de saudade (1959) e O amor, o sorriso e a flor (1960).

A juventude universitária

Por volta de 1962 e 63 era consenso que a Bossa Nova tinha sido um movimento de renovação estética e modernização da Música Popular. Mas também ficava evidente que lhe faltava conteúdo político em relação aos problemas do Brasil. Artistas e intelectuais consideraram necessário assumir as bases harmônicas e timbrísticas lançadas pela modernidade bossanovística mas construir um novo gênero de canção antenada com seu tempo histórico.

Um fator que pesou para a virada estética da Canção Engajada foi a construção de uma massa crítica entre a juventude universitária. O esforço de ampliação do sistema educacional brasileiro empreendido desde 1930 começava a chegar a um resultado. As principais capitais possuíam universidades e um público estudantil secundarista e universitário considerável.

Em grande parte esse foi o público do circuito de shows que movimentou os anos 1962-68. E também foi entre este público, com formação em áreas como filosofia, letras ou arquitetura, que foram recrutados os novos nomes da Música Popular.

Carlos Lyra e a transição

Carlos Lyra foi provavelmente o artista mais significativo desta virada. Ele foi o autor de algumas das mais paradigmáticas canções bossanovistas, como Lobo bobo, gravada por João Gilberto no disco Chega de saudade. Pode-se ver o teor do seu repertório observando sua discografia. Os primeiros três discos são muito ligados à estética e à temática da Bossa Nova: Bossa Nova (1959), Carlos Lyra (1961) e o coletivo Bossa Nova mesmo (1962).

É com Depois do carnaval: o sambalanço de Carlos Lyra (1963) que a virada se evidencia. Especialmente com a canção Influência do jazz.

Pobre samba meu

volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu

pra não ser um samba com notas demais

não ser um samba torto pra frente e pra trás

vai ter que se viver pra poder se livrar

da influência do jazz

Esse refrão sintetiza em boa parte o que passa a ser o programa estético do que chamamos Canção Engajada. Ele denota a busca das raízes da música brasileira e de uma forte ligação com o povo pobre trabalhador. Ambas estão sintetizadas no slogan “volta lá pro morro”.

A gravadora Elenco

Uma gravadora que iria se destacar no novo cenário que estava sendo construído foi o selo Elenco, de Aloísio de Oliveira. O músico e produtor que criou a gravadora tinha participado do Bando da lua, grupo de Carmen Miranda. Com ela foi para os EUA em 1939 e lá ficou por quase 20 anos. Ao voltar para o Brasil, trouxe essa importante experiência profissional. E marcou sua presença no período da Bossa Nova como diretor artístico da gravadora Odeon, que havia lançado importantes discos.

Foi também a experiência de Aloísio de Oliveira que farejou e lançou nomes fundamentais da Canção Engajada como Edu Lobo e Nara Leão.

Além disso, as capas criadas por Cesar Vilella, juntando uma visualidade muito limpa e usando apenas duas cores (para economizar) acabaram estabelecendo um novo padrão de design de discos. A foto que ilustra esse post, lá em cima, é da capa do disco que lançou Nara Leão.

Baden Powell à vontade – outro disco com capa clássica da gravadora Elenco

Show opinião

Um dos momentos mais emblemáticos do movimento da canção engajada foi o show Opinião. Protagonizado por Nara Leão, Zé Ketti e João do Vale. Esse conjunto era um símbolo muito forte da aliança de classes proposta pela esquerda marxista: a classe média universitária (Nara), o sambista de morro (Zé Ketti) e o migrante nordestino (João do Vale).

O repertório do show foi lançado em um disco de estúdio em 1964. Este disco está disponível em um vídeo (abra no youtube porque tem a minutagem das músicas):

Outros artistas

Na aula ouvimos também outras gravações e outros artistas muito simbólicos do movimento.

Duas canções do disco A música de Edu Lobo – por Edu Lobo e Tamba Trio (1965), lançado pela Elenco: Borandá (faixa 1) e Arrastão (faixa 8). Ambas as canções apontam para a ligação com a herança literária e intelectual do modernismo. As narrativas de ambas as canções poderiam, por exemplo, ter sido tiradas de romances de Jorge Amado ou José Lins do Rego, com personagens da seca nordestina ou pescadores num trabalho coletivo.

O acompanhamento do Tamba Trio, também nos chama a atenção para para os conjuntos instrumentais que marcaram a época. Tamba Trio, de Luiz Eça; Zimbo Trio, de Amilson Godoy; o conjunto de Oscar Castro Neves; e o Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Heraldo do Monte e Teo de Barros). Esse conjuntos investiram numa estética do hot jazz, com muita improvisação. Mas buscavam uma linguagem nacionalizada a partir das referências rítmicas do samba, do baião e de outros gêneros considerados autóctones.

Dois intérpretes que marcaram muito a estética vocal da Canção Engajada foram Elis Regina e Jair Rodrigues. Ouvimos um pot-pourri de canções referentes ao morro, primeira faixa do disco Dois na bossa, gravado ao vivo no show do Teatro Paramount (São Paulo) em 1965.

E falamos também de uma dupla de parceiros que marcou a época: Baden Powell e Vinícius de Moraes. A busca do poeta por uma estética afro brasileira já era conhecida desde pelo menos a peça Orfeu da conceição, cuja trilha foi composta por Tom Jobim e marcou o início daquela pareceria.

Capa do disco Afro sambas de 1966

Com Baden Powell o poetinha compôs as canções do disco Afro sambas (1966). O álbum se tornou um marco da inserção da musicalidade afro no mainstream da música brasileira. Sobre isso, lembramos o quanto as religiões de matriz africana foram e são perseguidas no Brasil. E apontamos que Jorge Amado, quando deputado na constituinte de 1946 foi o autor da primeira lei garantindo tolerância religiosa.

Janeiro de 2017

Tentando manter uma certa organização das coisas que ando lendo, assistindo, escrevendo, fazendo, inicio com este post Janeiro de 2017 uma série que pretendo publicar a cada mês.

Eu escrevi

A importância das orquestras e sua manutenção (aqui no blog)

Que tipo de evangélico eu sou (no Medium)

Que tipo de esquerdista eu sou (no Medium)

Resoluções de ano novo #1: ficar menos no Facebook (no Medium)

Dá pra ver que pretendo usar o Medium para escrever um bocado de coisas. Talvez um bom critério seja continuar usando esta página para textos mais aprofundados sobre assuntos que eu entendo alguma coisa e o Medium para reflexões mais rápidas do dia-a-dia. Mais ou menos o que seriam os “textões” do Facebook, só que pretendo escrever cada vez manos naquela rede inóspita. Para links e coisas mais ligeiras, continuo firme no Twitter – vocês deviam me seguir lá.

Ando lendo

Tentei atualizar um pouco a barra lateral de links, com as coisas que estou acompanhando no meu Feedly. Será útil você me seguir no Medium, não só pelas coisas que eu escrevo lá, mas principalmente pelos textos que leio e recomendo. E o Twitter também continua servindo muito pra isso.

No início do ano aproveitei uma promoção e fiz assinatura anual do Kindle Unlimited. Acho que é muito recomendável para quem gosta ou trabalha com leitura de livros. Afinal, os benefícios deste serviço no mercado editorial são semelhantes aos provocados pelo Netflix no mercado de audiovisual.

Por conta disso, não estranhe se eu de vez em quando indicar uns negócios estranhos aqui. Provavelmente será que estou aproveitando pra ler “de graça” (ou seja, já incluso no serviço pago) algum livro que não leria se tivesse de comprá-lo.

O primeiro caso é o de Hackeando tudo, um livro fraco mas com ideias úteis. Inclusive me ajudou em algumas resoluções de ano novo e na vontade de organizar listas como as que farei nestes posts mensais.

Na verdade, ideias de organização pessoal e produtividade de trabalho intelectual eu tive as melhores nas conversas com o professor Danilo Ramos, da UFPR, grande amigo e inspiração pra muita coisa. (Ele é co-autor comigo neste livro, não deixe de comprar).

Outras coisas eu não terminei de ler ou não terminei de fichar/resenhar. Merece menção que terminei a biografia de Mário de Andrade escrita por Eduardo Jardim. Devo postar aqui um comentário detalhado em breve.

 

Eduardo Jardim, Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra

No Kindle também estou lendo outros livros que recomendo muito, embora ainda esteja no início da leitura (e talvez não escreva sobre eles por falta de tempo):

Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista

Amós Oz e Fania Oz Salzberger, Os judeus e as palavras

Sobre notícias e textos de internet, ainda estou arranjando um jeito de fazer links, no caso provavelmente será um processo semanal. Por enquanto, acompanhe ao vivo no Twitter.

Estou assistindo

Bem, janeiro era para ser um mês de muitos bons concertos. Infelizmente, na onda dos políticos recém eleitos que estão tentando provocar o fim da civilização, temos nosso alcaide Rafael Greca. Ele decidiu extinguir a Oficina de Música de Curitiba após 36 edições ininterruptas. Foi um janeiro silencioso. E comentarei mais sobre isso em um post que já está em rascunho.

Fora isso, nas locadoras já está Kubo, animação que assisti com a família e recomendo bastante.

No Netflix estou tentando terminar a série Os Bórgias – boa tanto como filme e como enredo, tanto quanto pelo conteúdo histórico. Embora há que se descontar diversas imprecisões praticadas em favor de romancear a trama.

Também estou no final de Downton Abbey. É uma ótima série sobre mudanças sociais durante e após a 1ª Guerra Mundial – do ponto de vista dos trabalhadores de uma propriedade da nobreza rural inglesa.

E comecei Vinkings, depois de muita gente me recomendar – confirmo que é bom, sim, assistam.

A importância das orquestras e sua manutenção

O tema das orquestras e da música sinfônica tem sido uma constante nos meus escritos. Mas resolvei escrever este texto sobre a importância das orquestras e sua manutenção a partir de um texto do Augusto Maurer no blog Impromptu.

Augusto é meu amigo nas redes sociais, músico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, até onde entendi, corpo estável ameaçado pela crise financeira que abate aquele estado meridional. Augusto escreveu sobre o argumento de que se deve acabar com a orquestra como medida de contenção de despesas públicas. O texto a que me refiro é o Para que servem orquestras? Porque sua existência deve ser garantida pelo estado?

Orquestra num teatro de ópera

Sobre a importância das orquestras

Orquestras importam, muito mesmo. Mas acho que isso é uma questão que precisa de uma certa elaboração, e precisa também de um certo fluxo de relevância. Não basta orquestras (e seus maestros, seus músicos, seu público costumeiro) acharem que serão perenes porque são culturalmente necessárias. No mundo de hoje equipamentos culturais com custo tão alto de manutenção precisam estar demonstrando sua relevância à sociedade de maneira mais ampla através de sua atuação.

Não dá pra descansar na relevância social que as orquestras construíram na Europa do século XIX ou nos EUA do século XX. Aquele mundo já ficou pra trás. Se orquestras continuam relevantes hoje é uma questão a se refletir. Precisa-se construir essa relevância com novos argumentos e, principalmente, atuações convincentes. Não apenas uma execução musical convincente de certas obras – mas uma programação geral que possa ser considerada relevante por seus financiadores (no caso das orquestras públicas, os pagadores de impostos).

Sobre essas questões, vejam um pouco mais neste ótimo texto do Jorge Santos no Medium. É sempre bom lembrar que existe um hiato entre orquestra e o grande público, ou o eleitor comum. Se a orquestra é algo tão distante da realidade local (regional, municipal ou estadual), como convencer os eleitores de que vale a pena mantê-las com recursos públicos?

Financiamento público ou privado?

Outro ponto no texto do Augusto Maurer é o argumento de que, dada a importância estratégica de uma orquestra sinfônica para a cultura, esses agrupamentos devem ser financiados pelo Estado. O principal ponto da argumentação aqui é que só seria possível desenvolver relevância cultural sem a pressão de ser lucrativa ou auto sustentável.

Sobre isso, há que se considerar que existem pelo menos dois modelos muito diferentes de financiamento. Na Europa talvez seja mais comum vermos o financiamento público para manutenção de orquestras e outros diversos equipamentos culturais. Enquanto nos EUA orquestras de alto nível também são mantidas em caráter associativo – as chamadas filarmônicas.

Em ambos os casos, financiamento público ou manutenção em formato associativo, as orquestras lidam com o mesmo problema: tornarem-se relevantes para seus financiadores – sejam os pagadores de impostos, compradores de ingressos ou assinaturas de temporada e/ou patrocinadores privados.

A importância das orquestras para a cultura europeia

Na Europa é mais ou menos consensual que se devem manter orquestras sinfônicas. O repertório que as orquestras tocam é grosso modo música europeia do século XIX. Um pouco de século XVIII e de século XX pra dar certa variedade. É uma questão estratégica, de sobrevivência cultural.

Os EUA, nos últimos 100 anos, estiveram razoavelmente convencidos de que precisavam se atualizar em relação à cultura europeia. De que precisavam manter um bastião de cultura europeia transoceânica. De que poderiam e/ou deveriam até mesmo concorrer com as nações europeias para a liderança das formas culturais europeias tradicionais.

Tiveram sucesso nisso, não há dúvida. Mas no caso do Brasil – chegamos a algum consenso público de que devemos nos atualizar com a cultura europeia? Temos ganas de alguma liderança geopolítica ou cultural? Queremos ser relevantes internacionalmente? Em certo momento estas questões estiveram em pauta, junto com o projeto de desenvolver uma música clássica nacional. Chamamos este período, concentrado nas décadas de 1930 a 1960, de modernismo.

Mas talvez essa ideia não tenha se tornado tão consensual. E se podemos dizer que o modernismo conseguiu formar um corpo de compositores sinfônicos relevantes (Villa-Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, Claudio Santoro, Edino Krieger) – também é evidente que a constituição de orquestras de alto nível no país foi um fracasso colossal. Grosso modo, tivemos a OSB, fundada em 1941. No mais – experiências episódicas e fracassadas em maior ou menor grau.

Só mais recentemente, nos períodos FHC – Lula – Dilma chegamos a estabelecer um número mais significativo de conjuntos orquestrais perenes e geograficamente disseminados. Mas, ainda dependo mais da presença de governantes ilustrados (figura agora em extinção) do que de amplos consensos públicos.

Orquestras, democracia e elitismo

No caso das poucas orquestras brasileiras, continuamos sofrendo de um problema crônico. São grupos que não desenvolvem trabalho contínuo nem conseguem ampliar sua relevância para além de suas salas de concerto hermeticamente fechadas para a sociedade brasileira.

Casos de sinfônicas na favela, ou de orquestras que editam as próprias partituras e mantêm escolas de formação de músicos e regentes seguem sendo exceção. A regra geral é orquestras que tocam o que acham que devem tocar e imaginam que todos devam desejar se deslocar aos teatros para ouvir aquilo. Seguimos não desenvolvendo relevância social ou geográfica de maior amplitude, exceção talvez para o programa de orquestras jovens da Bahia.

Ou seja, orquestras, no Brasil, seguem sendo um negócio elitista, ancorado na cultura europeia do século XIX. Imagina-se que sua relevância para o Brasil seja um dado sem necessidade de demonstração. É chique ter orquestra, ponto. Quem não gosta de orquestra é burro, ponto.

Qualquer esforço maior do que repetir as últimas duas frases é pedir demais. Orquestras em programas de difusão junto com o sistema educacional? Dá muito trabalho. Orquestras e meios de comunicação? Muito humilhante. Orquestras em diálogo com a cultura nacional? Seria descer o nível – já temos Mozart e Beethoven, não precisamos nada brasileiro para sermos cultos. Formação de plateia? Que preguiça.

Curiosamente, o mesmo Augusto Maurer que defende a necessidade de orquestras com financiamento público (uma política pública altamente elitista) também acha que devemos extinguir a democracia representativa, os legislativos e os partidos, para estabelecer governo direto pela internet com decisões plebicitárias. Como neste post: Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política

Sempre que leio este tipo de post dele sobre política tenho vontade de perguntar: “meu filho, o que você acha que aconteceria se fizéssemos um plebiscito pela internet para decidir se devemos ou não manter orquestras com verba pública?” Ironicamente, a OSPA e a Oficina de Música de Curitiba, bem como a programação do Teatro Municipal de São Paulo, estão entre as muitas vítimas a ascensão do populismo anti elitista que derruba governo no Brasil, elege Sartori, Greca e Dória, ou Trump e Teresa May.

Sobre elites e suas instituições culturais

Ao contrário do que possa parecer numa leitura mais apressada, democracia não é a decisão por maioria. Mas um frágil equilíbrio entre decisões por sufrágio, manutenção de regras claras, instituições e equipes técnicas de elite, representatividade, defesa de minorias e uma série de outros fatores de uma frágil ecologia.

Sim, eu concordo com o Augusto Maurer que precisamos manter orquestras públicas. Mas discordo muito da maneira como ele situa tudo isso num contexto político mais amplo. Vivemos um difícil equilíbrio político institucional. Arrasar a civilização pode custar o simples apertar de um botão. Manter a tradição cultural requer enorme dispêndio de tempo, trabalho e dinheiro. (Repito a frase tantas vezes dita pelo professor Paulo Castagna numa oficina sobre acervos musicais na ANPPOM).

Convencer a população em geral de que vale a pena o esforço de manter essas tradições culturais é um trabalho contínuo. Mais fácil de ser feito quando estamos gerando prosperidade e distribuindo isso de maneira mais ou menos equilibrada. Caso contrário, as elites correm o risco de ver suas cabeças decepadas – ou perderem suas significativas instituições culturais.

 

 

Livro Música, Cultura e Sociedade

Acaba de ser lançando o livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno, do qual sou o organizador.

Capa do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno

O livro reúne textos de professores que integram o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade da UNESPAR, além de autores convidados de outras instituições que têm pesquisas que interseccionam com as nossas em temáticas ou abordagens, além de desenvolverem outras parcerias acadêmicas.

Autores

Os autores que escreveram capítulos incluídos nesta obra são: Antonio José Augusto (UFRJ), Ricardo Bernardes (CESEM  – Universidade Nova de Lisboa), Teresa Cascudo (Universidad de La Rioja), André Egg (UNESPAR – Campus de Curitiba II), Fernanda Nunes Moya (UNESP), Ana Paula Peters (UNESPAR – Campus de Curitiba I), Allan de Paula Oliveira (UNESPAR – Campus de Curitiba II), Fabio Poletto (UNESPAR – Campus de Curitiba I), Jefferson Gohl (UNESPAR – Campus União da Vitória), Joêzer de Souza Mendonça (PUC-PR / UNESPAR), Danilo Ramos (UFPR).

Links

Maiores informações na página do livro no site da editora, onde está disponível o sumário e a apresentação dos autores. O livro está à venda também no site da editora e, em breve, nas livrarias.

Em fevereiro devemos promover alguns eventos de lançamento com participação de autores.

O Grupo de Pesquisa tem uma página na internet para divulgação de suas atividades. A página do grupo na plataforma do CNPQ é esta.

Jorge Amado: Seara vermelha (1946)

O romance Seara vermelha foi publicado por Jorge Amado em 1946. Segundo a lista de publicações que consta no verbete da Wikipedia em português, foi o 13º livro do autor, e o 10º romance. A edição que li é da coleção das obras completas que está sendo publicada agora pela Editora Cia. das Letras. Comprei uma versão kindle, que no momento parece ser a única disponível.

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Partido comunista e realismo socialista

O livro pode ser classificado na fase realismo socialista do autor, situado entre a biografia de Luís Carlos Prestes (O cavaleiro da esperança, 1942) o livro de viagens O mundo da paz (1951) e a trilogia Os subterrâneos da liberdade (1954) sobre a saga do movimento comunista durante o Estado Novo.

Em relação à estética do realismo socialista, Seara vermelha é um livro multifacetado, o que ajuda a provar o valor de Jorge Amado como escritor que tensionou sua relação entre militância no partido e liberdade de criação.

Em 1946, quando saiu o livro, a estética do realismo socialista não era aplicada no Brasil como determinação do partido, coisa que aconteceu de modo muito forte entre 1948 e 56. Em 1958 Jorge Amado sacudiria a poeira do estalinismo com Gabriela, cravo e canela, e mais tarde com a não autorização para novas edições de O mundo da paz – seu livro mais claramente propagandístico (a crer nas explicações do autor em suas memórias no livro Navegação de cabotagem).

Jorge Amado acabava de assumir como deputado constituinte eleito pelo PCB, e teria alguns anos de severas limitações à sua atividade criativa, atuando como militante e como deputado. De certa forma, pode se dizer que Seara vermelha serve como uma tentativa de reintroduzir o Partido Comunista na normalidade da política brasileira. O partido tinha sido clandestino e perseguido durante todo o Estado Novo (1937-45) mas principalmente desde o levante de 1935 (por alguns chamado de “intentona comunista” – termo que os historiadores não adotam mais).

Para relançar o PCB em um momento de abertura política e da livre concorrência do partido nas eleições de 1945, nada melhor do que uma reabilitação dos revolucionários de 1935. E Jorge Amado, de certa forma, faz isso no livro. Mas não apenas.

Planos narrativos

Na escrita do livro, Jorge Amado se utiliza de vários planos narrativos, matizando os interesses mais diretos do PCB em uma narrativa difusa inserida no contexto da chamada “literatura social realista”, também conhecida no Brasil como “romance de 30”.

Assim, a narrativa começa com uma família de meeiros vivendo no sertão, e atinge seu ápice no momento de ruptura, em que os meeiros são expulsos da terra e viram retirantes. A obra acompanha a longa viagem até chegar em São Paulo, e aí faz coro com outras obras primas dessa literatura, como as obras de Graciliano Ramos ou outros escritores realistas do período que também tratam da miséria nordestina.

Mas após acompanhar a família de retirantes, que pode ser definida como os protagonistas da história, Jorge Amado constrói um interessante panorama. Mais ou menos como se tentasse descortinar as opções disponíveis ao sertanejo pobre dos anos 1930 no Brasil.

O núcleo principal da família torna-se retirante. Seu caminho será atravessando a pé a caatinga. Depois pegando o barco pelo São Francisco para ir até o interior de São Paulo, e dali tomar o trem para a capital. Nem todos chegarão ao eldorado da capital, mas isso prefiro não comentar para não estragar a experiência de quem vai ler o livro.

Ao longo dessa história começamos a descobrir que partes da família já tinham saído antes das terras. Estes personagens assumem protagonismo em narrativas paralelas que vão ganhando mais importância ao final do livro. São os irmãos mais velhos, que saíram das terras antes do episódio da expulsão dos meeiros.

Retirante, beato, policial, jagunço

Por isso acho que posso afirmar que o personagem principal não é uma pessoa, ou várias. Mas a família na qual a história está centrada. É um casal de agricultores com seus filhos e netos, e uma tia louca agregada. Cada um dos membros da família desdobra-se entre as múltiplas possibilidades que vão se oferecendo aos campesinos pobres do sertão.

Entre os retirantes que tomam o rumo de São Paulo, um abandona a família na caatinga. Ele vai se casar e ficar como lavrador nas terras do sertão. Uma das filhas é aliciada e acaba caindo na prostituição. O pai consegue chegar a São Paulo mas não com saúde suficiente para o sonhado trabalho.

Mas os maiores protagonistas são os irmãos que tinham abandonado a família antes da expulsão das terras. E a tia louca que se junta aos beatos.

Jorge Amado consegue fazer uma forte ambientação destes vários personagens, que acabam se encontrando na trama, de maneira muito inusitada. A tia louca que abandona os retirantes para ser recebida como santa entre os seguidores do beato Estêvão. O filho que tornou-se policial. Seu irmão que se tornou cangaceiro, do bando do temido Lucas Arvoredo.

Jorge Amado leva toda esta trama – beatos, policiais e cangaceiros a um desfecho trágico. Como se negasse a possibilidade de saída por algum destes caminhos. Nenhuma das opções de fuga da lide com a terra e da miséria no campo se torna viável. Entre os retirantes, poucos chegam a São Paulo em condições de viver bem. Os que ficaram no sertão são apanhados pelo trágico desfecho. Resta apenas o filho que entrou para o exército, e que se tornou comunista.

O herói comunista

Este é o verdadeiro herói do romance, mas isso só se torna claro no final. É certamente a parte da obra mais vinculada à estética do realismo socialista e a que mais envelheceu.

O rapaz engajou no exército, e também no partido comunista. Tornou-se o principal líder no levante que levou os comunistas a governarem a cidade de Natal por cerca de 4 dias. Com a derrota do movimento e a repressão, termina preso.

É o personagem com menos profundidade na obra, como não poderia deixar de ser. Afinal, é a parte da obra que praticamente não tem escrita autoral, mas segue as regras do partido. Os heróis não podem ser vacilantes, as tramas não podem levar ao desespero.

Hoje quando lemos a obra, provavelmente nos chama mais à atenção a vívida descrição da miséria do sertão, a trama dos retirantes, a vida intensa e dramática dos beatos, jagunços e policiais. Essa a parte do livro onde o grande romancista aparece, talentoso.

A parte sobre o cabo comunista, líder da revolta de Natal, soa muito como um panfleto, uma obra de propaganda. Ao sabermos dos desdobramentos posteriores à publicação da obra a visão positiva do herói comunista soa no mínimo ingênua. Falo da cassação do registro do PCB em 1948 e clandestinidade do partido até a década de 1980. Ou do golpe de 1964 e o Regime Militar no meio do caminho.

Crise do realismo socialista e do PCB

Continua interessante captar esse momento, logo após o fim da segunda guerra mundial, em que romances publicados no ocidente ainda podiam ter comunistas como heróis. Quando as possibilidades políticas ainda estavam abertas. E quando as tensões entre grandes modelos políticos concorrentes impulsionaram a reconstrução do mundo e a chamada “era de ouro” do crescimento econômico e do Estado de bem-estar social.

Aliás, “era de ouro” e Estado de bem-estar social dos quais o Brasil ficou fora, diga-se de passagem. Como aliás, a inviabilidade dos caminhos traçados pelos camponeses pobres da obra de Jorge Amado já deixava muito claro.

No mais, seguimos, 70 anos  depois, interditando os caminhos de saída de nossa condição crônica de pobreza, miséria e desigualdade.

Jorge Amado continua muito útil e atual, não?

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Cinema e história: Estrada 47

John Steinbeck: A pérola

“Suor”, o romance socialista de Jorge Amado

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

Os posts de 2015 do blog História Cultural

Mais abaixo, vou deixar os links dos melhores posts de 2015 do blog História Cultural. Nestes posts eu fiz comentários ou resenhas de livros, filmes, concertos ou eventos acadêmicos.

Tempos atrás eu contei aqui nesta página sobre o descontinuamento do blog História Cultural. Eu editei o blog entre 2011 e 2015 no portal da Gazeta do Povo, mas por falta de postagens o jornal decidiu não mantê-lo em atualização.

Ao contrário do que eu tinha imaginado então, não apagaram os arquivos. O blog e os posts continuam lá, só não posso mais atualizar. Como acho que escrevi algumas coisas úteis naquele espaço voltei no post linkado acima e atualizei esta informação. Ainda espero que ao menos meus alunos leiam alguns daqueles textos, por isso também coloquei alguns links.

Por enquanto, não precisarei repostar aqui os textos, como tinha imaginado. Segue então uma lista dos posts do último ano de atividade do blog:

 

Livros

Uma das coisas que gosto de fazer é resenhar livros. Como temos poucos espaços para publicação de resenhas no Brasil (ao contrário de outros países onde essa atividade é muito valorizada tanto no mercado editorial quanto no mundo acadêmico), acho que os blogs podem ser um oásis pra nós quanto a isso. Uma lista dos livros que comentei lá no História Cultural durante o ano de 2015:

O triunfo da música, de Tim Blanning, que continuo considerando a melhor História da Música disponível em português.

O capital no século XXI, obra incontornável de Thomas Piketty – um ambicioso estudo histórico sobre a desigualdade feito por um economista. Certamente uma das obras mais influentes no debate político contemporâneo.

Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré, de Reza Aslam, que deve ser o melhor estudo histórico sobre Jesus disponível em português.

Número Zero e O cemitério de Praga – dois ótimos livros de ficção (mas nem tanto) de Umberto Eco, que faleceu recentemente.

Filme

Vou pouco ao cinema (por falta de tempo, principalmente). Mas entre as melhores coisas que vi na telona está o filme Estrada 47, que trata da participação brasileira na II Guerra Mundial através de personagens e uma história fictícia.

Assim como nos romances de Eco, onde história e ficção se misturam de maneira magistral, neste filme temos uma maneira muito inteligente de trabalhar com história, num ótimo resultado ficcional.

Sigo recomendando: vejam o filme, e leiam minha resenha.

Evento

Este ano foi marcado, já de início, pela morte de Gilberto Mendes – um de nossos compositores e artistas de maior importância. Comentei sobre ele aqui neste post.

A morte de Gilberto Mendes aumentou muito a importância do Festival de Música Contemporânea Brasileira de 2015, onde ele foi um dos compositores homenageados, junto com Edino Krieger. Eu estive lá no evento para uma fala, mas assisti a toda a programação, escrevi alguns textos sobre ele aqui no blog, e um resumo geral com os links lá no blog História Cultural.

Concerto

Teve épocas em que eu fiz muita crítica de concerto, coisa que eu considero de grande importância, mas que dá muito trabalho. É uma atividade para a qual eu venho tendo cada vez menos tempo. Um dos últimos concertos que escrevi crítica foi o do Collegium Cantorum, regido por Helma Haller. As meninas cantaram a Missa de São Sebastião, de Villa-Lobos. Foi o concerto de lançamento do CD no qual gravaram a obra. Foi na Capela Santa Maria, como parte da programação da Oficina de Música.

O link para minha crítica.

 

UNESPAR entra em greve segunda

A UNESPAR entra em greve segunda, dia 17 de outubro, conforme decidido em Assembleia do SINDUNESPAR realizada dia 13. Com os professores reunidos simultaneamente nos 5 municípios onde os docentes são representados pelo SINDUNESPAR, o apoio à greve foi decidido com ampla maioria em todos os campi (me parece que a exceção foi o de Paranavaí, voto vencido).

A greve começa dia 17

A greve começa nesta próxima segunda-feira, dia 17 de outubro. O pauta única é a iniciativa do governo de revogar a lei que reajusta os salários do funcionalismo pela inflação em janeiro de 2017. Importante entender que foi justamente essa lei que foi proposta pelo governador em 2015, como justificativa para não pagar a inflação no reajuste concedido aquele ano. O reajuste pleno da inflação passada ficou assim postergado para janeiro de 2017, e agora o governo pretende voltar atrás e revogar o reajuste durante a votação da Lei Orçamentária.

Em 2015 os servidores tiveram uma longa greve contra uma série de ataques contra as carreiras do serviço público estadual. O governo fez o pacotaço de maldades: aumento generalizado de impostos para a população e para os comerciantes, perda de direitos e de valor do salário para os servidores.  Ao mesmo tempo, aprovou reajustes salariais muito acima da inflação para governador, secretários estaduais e deputados, bem como aprovou auxílio moradia de R$ 4.700 para Tribunal de Justiça e Tribunal de Contas.

Calçado pela generosidade financeira concedida a deputados, desembargadores e conselheiros do TCE, o governo sentiu-se seguro para partir pra cima dos servidores.

Professores protestaram em 2015 - salário menor que o auxílio moradia do judiciário

Professores protestaram em 2015 – salário menor que o auxílio moradia do judiciário

Não é só por 10%

Apesar de a pauta da greve ser única: reajuste salarial em 2017, são muitos os motivos que levam os servidores a se empenharem em uma nova greve.

No caso da UNESPAR, o governo vem aprofundando uma política de arrocho, que a cada ano reduz a já insuficiente verba de custeio. Os investimentos já estão completamente zerados desde pelo menos 2013 – o que no meu campus resultou em uma obra incompleta do Anexo do TELAB.

A construção está parada há anos esperando apenas elevador e mobília para poder ser usada. O prédio seria de salas de aula para os cursos de Teatro e Dança. Atualmente, a FAP (Campus de Curitiba II da UNESPAR) tem turmas em que ingressam 40 alunos, mas nenhuma sala de aula com essa capacidade. A verba para finalização do Anexo do TELAB estava prevista no Fundo Paraná de 2013, congelada desde então.

Pagar salário e arrochar custeio

No primeiro mandato do governador Beto Richa (PSDB), a política para as universidades públicas do estado foi de pagar salários em dia e garantir a reposição anual da inflação. Em paralelo, o governo foi “espremendo” o custeio. Os investimentos foram zerados, e o pagamento de serviços e material de consumo foi sendo reduzido. A ponto de hoje as universidades terem dívidas de anos anteriores com fornecedores e prestadores de serviço e ainda estarem com o orçamento futuro congelado num patamar bem abaixo do necessário.

Como a maioria dos professores não é familiarizada com a gestão da universidade, a política produziu o seguinte resultado: a universidade foi sendo “cozinhada” como na história do sapo que não pula fora da panela porque nunca sabe quando a temperatura está suficientemente inaceitável.

A ruptura e a greve em 2015

Em 2015 o governo rompeu com a própria política de arrocho, e decidiu por em prática o maior ataque contra os direitos do funcionalismo já praticado na história do estado.

Eram tantos direitos a serem tirados de uma vez só que o funcionalismo do Paraná saiu da letargia e iniciou sua mais longa e mais radicalizada greve.

Mais detalhes sobre esse momento dramático da nossa política estão nos textos que escrevi à época:

O caos financeiro do Paraná, o pacotaço de Richa e a invasão da ALEP pelos servidores

O Paraná manchado de sangue

Aquela greve terminou com a retirada de várias medidas que previam perdas de benefícios das carreiras do estado, mas não sem antes ter aprovada a principal medida. O governo conseguiu autorização dos deputados estaduais para retirar dinheiro do Fundo de Previdência do Estado, e vem fazendo isso desde então para pagar despesas correntes.

Além disso, o governo adiou para janeiro de 2017 a reposição integral da inflação passada, tendo dado apenas parte dos reajustes necessários em 2015 e 2016.

A UNESPAR é inviável com esse orçamento

O problema é que as medidas de contenção financeiras que passaram a ser praticadas pelo governo no segundo mandato de Beto Richa pegaram a UNESPAR em situação extremamente vulnerável.

A UNESPAR foi criada da junção de 7 faculdades estaduais espalhadas por 6 municípios distribuídos em extremos praticamente opostos do estado. O decreto de criação foi assinado pelo governador em dezembro de 2013, e desde então não houve nenhum plano de estruturação.

A UNESPAR foi criada só no papel, sem estrutura física, sem prédios, sem laboratórios, sem funcionários administrativos (agentes universitários). E está congelada no patamar em que estava quando foi criada.

É como se você parisse um bebê e o proibisse de se alimentar ou de crescer. É exatamente isso que o governo faz quando se queixa que a UNESPAR aumentou muito a folha de pagamento, e deve reduzir o custeio. Ora, aumentou porque quase um terço do quadro de professores se doutorou nos últimos 5 anos. Isso significa progressão na carreira e aumento no salário.

O “erro” é da UNESPAR? Não. A carreira foi criada justamente para estimular o maior número de doutores. Agora o governo quer nos punir por isso. Para cada doutor a mais que formarmos em nosso corpo docente deveremos amargar mais alguns anos sem papel higiênico nos banheiros, sem tinta para impressoras e sem outros materiais básicos de funcionamento.

A saída da greve

Ao longo dos próximos dias (17 a 20) várias reuniões importantes devem acontecer entre governo e servidores. A depender dos desdobramentos, a greve da UNESPAR pode ser suspensa na Assembleia do SINDUNESPAR que será realizada na próxima quinta, dia 20 de outubro.

Se queremos ficar em greve? Certamente não. Queremos trabalhar. Mas não temos condições. Queremos respeito à educação, aos professores, aos alunos, aos recursos que a população confia ao governo por meio de seus impostos.

A greve é só um passo na luta pela consolidação da UNESPAR. Esperamos que seja breve e que as negociações sejam frutíferas.

 

Ensamble Móbile faz hoje 5 estreias no SiMN

Hoje, penúltimo dia do Simpósio Internacional de Música Nova 2016, o SiMN, teremos o concerto do Ensamble Móbile, com 5 estreias. O concerto acontece às 20:00 horas no Auditório do Museu Oscar Niemeyer, e às 19:30 eu farei uma palestra/pre-concert talk.

No repertório do concerto, teremos 4 obras encomendadas para o SiMN, e mais uma estreia de obra de Harry Crowl e uma peça do compositor austríaco Georg Friedrich Haas.

O programa

Tadeu Taffarello – Choro vão da água triste (2016 – encomenda/estreia)

Franco Bridarolli – Los objetos magnéticos (2016 – encomenda/estreia)

Harry Crowll – Charneca em flor (2014 – estreia)

Georg Friedrich Haas – Ins licht (2007)

Marcio Steuernagel – De profundis super de profundis (2016 – encomenda/estreia)

Bryan Holmes – Evitar levitar (2016 – encomenda/estreia)

Ensamble Móbile

Ensamble Móbile em concerto - foto de Cida Demarchi (divulgação/site do grupo)

O Ensamble Móbile é um conjunto formado a partir do Núcleo Música Nova – Grupo de Pesquisa em Música Contemporânea da UNESPAR, que é também o organizador institucional do SiMN. O Ensamble Móbile dedica-se à música contemporânea, em intersecção com as pesquisas desenvolvidas no âmbito do grupo.

Mais informações sobre o grupo, fotos e áudios na página do Núcleo Música Nova.

Atualmente, o grupo tem como integrantes: Fabricio Ribeiro (flauta), Dhiego Lima (violino), Shante Antunes Cabral (violoncelo), Eric Moreira (violão), Alexsander Ribeiro de Lara (piano), Felipe de Almeida Ribeiro (eletrônica), Márcio Steuernagel (regência). Para o concerto, participação especial de Helen Tórmina (voz soprano). A direção artística/coordenação do grupo é feita por Fabricio Ribeiro e Felipe de Almeida Ribeiro.

Os compositores

Tadeu Taffarello reside na região de Campinas-SP. Foi professor da UEL entre 2012 e 2015 e atualmente trabalha no Centro de Documentação em Música Contemporânea da UNICAMP. Nesta universidade fez seu doutorado (em 2010) sobre a influência da escrita de Oliver Messiaen nas Cartas celestes de Almeida Prado.

Taffarello já teve obras apresentadas em outras edições do SiMN. Ele tem um blog onde se encontram algumas gravações e partituras de obras de sua autoria.

Franco Bridarolli nasceu em 1991 e vive em Córdoba – Argentina. Concluiu sua graduação em 2011 e começou a se destacar como compositor ao vencer o concurso de composição da Orquestra Sinfônica de Córdoba em 2014. Ele possui uma página no Soundcloud onde se pode ouvir algumas obras.

Harry Crowl é mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1958, mas radicado em Curitiba desde 1994. Em sua carreira articulou pesquisas com música colonial mineira e o trabalho de composição. É um dos principais compositores brasileiros vivos, e o catálogo de obras disponível em seu site possui 140 obras listadas, mas só foi atualizado até 2012.

Sua peça que será estreada neste concerto é baseada num soneto da poetisa portuguesa Florbela Espanca, que abre um volume publicado logo após seu suicídio em 1931:

CHARNECA EM FLOR

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas…
Sob as urzes queimadas nascem rosas…
Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Georg Friedrich Haas é austríaco, nascido em 1953. Sua obra começou a receber destaque na década de 1990, e uma de suas marcas tem sido desde então o uso do microtonalismo. Esta técnica aparece com moderação em sua obra Ins licht, que já faz parte do repertório do Ensamble Móbile. É uma curta obra para trio de violino, violoncelo e piano. A partitura da peça pode ser observada aqui.

Marcio Steuernagel nasceu e vive em Curitiba. Estudou composição nesta cidade, sob influência de Maurício Dottori e Harry Crowl, os dois compositores mais importantes da cena local. Além de se destacar na cidade com suas composições, tem feito um trabalho notável como regente, especialmente com a Orquestra Filarmônica da UFPR. É também um dos organizadores da Bienal Música Hoje, que teve edições em 2011, 2013 e 2015. É professor da UNESPAR/EMBAP.

Bryan Holmes é chileno, nascido em 1981 e radicado no Rio de Janeiro desde 2006. Em sua obra destaca-se o uso de eletrônica. Em sua dissertação de mestrado defendida na UNIRIO, analisou obras instrumentais da primeira metade do século XX aplicando parâmetros que normalmente são usados para analisar música eletroacústica.

Sobre as obras

Sobre as obras, ainda não posso dizer nada. Exceto pela peça de Georg Friedrich Haas, que pode ser ouvida na internet e observada sua partitura (link acima).

As demais, são ilustres novidades. Apesar de ser o palestrante daqui a pouco, ainda não tenho o que dizer, pois são estreias. Eu deveria assistir ao ensaio para ter alguma coisa a falar. O horário me será impossível. De todo modo, meu conhecimento das técnicas composicionais e de obras deste tipo é tão limitado que acredito que mesmo assistindo o ensaio e olhando as partituras eu continuaria tendo problemas.

Prefiro então, ficar com a fala de Marcio Steuernagel em sua palestra para o concerto do Mivos Quartet na última segunda feira. Ele disse que sempre que alguém pergunta como é a música contemporânea ele responde que não sabe. Ainda estamos descobrindo pra onde vai, ela está sendo feita agora!

Assim, convido para essa jornada inesperada pelos novos sons. A única certeza é que os músicos são muito bons e os compositores são insuspeitos, reconhecidíssimos. Certeza que vai ser incrível.