Março de 2017

Como já venho fazendo desde o início do ano, resolvi concentrar aqui algumas informações e links sobre o que aconteceu em março de 2017.

Escrevi

Ao contrário de janeiro e fevereiro, em março escrevi quase nada no blog.

Foi difícil organizar o tempo, agora que as atividades de todos da família entraram a pleno vapor. E foi o mês de finalizar as avaliações do ano letivo de 2016, além dos TCC, mas isso é assunto para outro item.

O único texto que publiquei foi a crítica do concerto do Luciano Lima. Foi pouco texto, mas pelo menos foi um texto bem importante.

O concerto de Luciano Lima

Atividades acadêmicas como professor

Como disse acima, em março encerramos o ano letivo de 2016. Ou seja, foi o mês de fazermos avaliações do 4º bimestre, exames finais, fechamento de notas e preenchimento de livros-classe. Além da distribuição de disciplinas para 2017 e o respectivo planejamento.

Mas o destaque mesmo foi para as defesas dos TCC do curso de Bacharelado em Música Popular. Eu fui coordenador de TCC em 2016, então acompanhei bem de perto o processo. Alguns alunos não conseguiram terminar os trabalhos e deixaram para 2017. Mas tivemos 4 heróicos que fizeram bons trabalhos. As bancas aconteceram dia 06 de março, e as informações estão neste edital.

O trabalho do Ricardo Salmazo, orientado por Alan Rafael de Medeiros, foi uma pesquisa sobre a trajetória do sambista Chocolate e seu grupo carnavalesco “Ideais do ritmo”.

Lucas Bonaldo produziu composições para guitarra elétrica sobre exercícios rítmicos de Eduardo Gramani, sob orientação de Aglaê Frigeri.

Vinícius Luisi Moraes realizou a criação de uma performance, orientado pelo prof. Diego Baffi. A obra foi chamada Correntio e eu tive o prazer de assistir à primeira apresentação ano passado.

Meu orientando Thiago Stahlschmidt Barroso pesquisou semelhanças e influências de uma canção de Robert Johnson em canções dos Beatles.

Para mim foi uma mudança e tanto, pois na distribuição de disciplinas voltei a assumir todas as Histórias da Música (I, II, III e IV) do Bacharelado em Música Popular. Além de ficar com História da Música e História da Música Brasileira na Licenciatura em Música.

Depois de sair do cargo de Diretor de Centro em julho de 2016, agora será o momento de voltar às minhas disciplinas e à carga horária cheia em sala de aula e na pesquisa. Vou precisar “desintoxicar” dos cargos administrativos.

notícias da unespar

Foi em março também que vimos à posse do Reitor e do Vice-Reitor da UNESPAR, para o mandato até 2021. O Reitor empossado foi o professor Carlos Aleixo, e o vice Sydnei Kempa. Eu já tinha escrito aqui nesta página uma defesa da candidatura deles na época da eleição:

Porque votar em Carlos Aleixo e Sydnei Kempa para a reitoria da UNESPAR

Na solenidade de posse, realizada em uma sala do Palácio Iguaçu, bonitos discursos. Ambos os professores ressaltaram as dificuldades em gerir uma universidade que está começando, e em situação muito precária por falta de investimentos. Mas, acharam espaço para destilar sua empolgação com a educação, fazer tributos a momentos marcantes de suas vidas na academia e demonstrar a garra de contribuir para a construção de uma universidade e de um futuro melhores.

Sydnei Kempa ainda achou espaço para ler o texto da canção Morro velho, de Milton Nascimento. Veja se não é de se ter esperança, uma universidade dessa, em que Vice Reitor cita Milton Nascimento em discurso de posse. Só pode ser coisa boa.

Livros, filmes, etc.

Meu destaque no mês é para a série das Crônicas de Arthur de Bernard Cornwell, que comecei a ler porque achei no Kindle Unlimited. Narrativa cativante, e um ótimo equilíbrio entre ficção e história. O autor imagina a saga de Arthur quase sem as interpolações posteriores que foram enriquecendo a história e tornando-a mais inverossímil. O Arthur de Bernard Cornwell é uma história da Britânia após o fim do Império Romano, num combate entre os antigos habitantes destas terras e os invasores saxões, bem como uma disputa entre a antiga religião dos druidas e o crescimento do cristianismo. O autor consegue retratar um panorama histórico fidedigno misturando com ótima narrativa de ficção.

Entre os filmes, consegui assistir Silêncio de Scorcese. Como tudo deste diretor, uma obra muito marcante. Vou levar tempo digerindo. E estou preparando um texto sobre o filme, a ver se consigo terminar e publicar aqui no blog. Basicamente, uma história intrigante sobre a perseguição ao cristianismo no Japão do século XVII, a partir do trabalho de jesuítas portugueses.

Também me caiu na mão, comprado em um bazar, o ótimo Beatriz, raro livro de contos de Cristóvão Tezza. Pra mim, o romancista confirmou que tem ótima mão para histórias de fôlego curto. É uma delícia seu “Prólogo”, explicando muito da relação entre o escritor, sua obra e a literatura, tema que também perpassa as histórias do livro.

Outra descoberta interessante é o blog do Edward Schmitz. Ele é meu amigo, e eu sabia da página dele há algum tempo, mas não tinha prestado atenção. Agora fui olhar, e vi que ele tem bons vídeos para ajudar na organização pessoal e administração do tempo e da carreira. Coisas que eu andei comentando aqui no post sobre o mês de janeiro.

A página dele é esta:

edwardschmitz.com

E o conteúdo é basicamente o mesmo que ele publica em seu canal no youtube.

 

 

 

O concerto de Luciano Lima

No dia 16 de março de 2017, quinta-feira, aconteceu no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, o concerto de Luciano Lima. Foram tocadas, ao violão, obras de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Claudio Santoro, Osvaldo Lacerda, além de composições do próprio Luciano Lima.

Foto do concerto de Luciano Lima no SESC Paço da Liberdade (por André Egg)

Com exceção de uma peça de Radamés Gnattali e das duas obras de Luciano Lima, apresentadas em primeira audição, todas as demais foram transcritas para violão pelo músico. Foram repertório produzido originalmente para piano. Algumas destas obras já foram publicadas por Luciano Lima, como a série de peças do Guia Prático de Villa-Lobos, cujas transcrições foram publicadas pela Academia Brasileira de Música (veja aqui), e as peças de Claudio Santoro, em transcrições publicadas pela Editora Savart (veja aqui).

O programa

Luciano Lima intercalou 12 canções do Guia Prático de Villa-Lobos, parte das 87 que ele transcreveu na edição da Academia Brasileira de Música. Organizando-as em grupos de 4 peças, normalmente elas são curtas, dividiu em três grupos distribuídos entre as demais obras. Radamés Gnattali também foi outro compositor com presença marcante, servindo para abrir o concerto e fornecendo as três peças tocadas ao final.

Gnattali tem sido um objeto das pesquisas de Luciano Lima há longo tempo. Foi sobre os concertos para violão e orquestra deste compositor que ele fez seu doutorado pela Université de Montréal. Também a obra para violão solo de Radamés foi objeto de sua última publicação: um livro com a revisão da obra do compositor e mais alguns “brindes”, como contei aqui no blog do Grupo de Pesquisa.

As obras, na sequência em que foram tocadas, foram as seguintes:

Radamés Gnattali – Batuque

Villa-Lobos – Chora menina, chora; A cobra e a rolinha; Nesta rua; O bastão, ou mia gato

Ernesto Nazareth – Fidalga e Nenê

Villa-Lobos – Constante; Carneirinho, carneirão; A pombinha voou; Senhora Dona Sancha

Luciano Lima – Choro e cantiga nº 9 e Choro e cantiga nº 7

Camargo Guarnieri – Ficarás sozinha

Lorenzo Fernandez – Na beira do rio

Claudio Santoro – Peças infantis nº 5

Osvaldo Lacerda – Cinco variações sobre Escravos de Jó

Claudio Santoro – Preludio nº 1 e Preludio nº 2

Villa-Lobos – Sambalelê; O gato; Você diz que sabe tudo; Fui no Itororó

Radamés Gnattali – Caminho da saudade, Canhoto e Choro da Brasiliana nº 13

Quase todas as obras do concerto obedeceram a uma temática de relação com cantigas infantis, uma coisa que todos os compositores modernistas brasileiros se empenharam com esmero. Luciano Lima esclareceu que toda a busca dessa temática de canções foi decorrente da experiência da paternidade, e dedicou o concerto a sua filha Tarsila, que estava presente.

Ampliando o repertório do instrumento

De todas as obras do concerto, apenas 3 foram escritas originalmente para violão: as duas de Luciano Lima e a peça de Radamés que encerrou o programa. Todas as demais foram peças que Luciano Lima adquiriu para o repertório do violão em transcrições belíssimas. Um grande trabalho de pesquisa que poucos violonistas estão fazendo no mundo.

Vale lembrar que o violão é um instrumento com muitas possibilidades como solistas. Não tem tantos recursos harmônicos e tantas possibilidade polifônicas quanto o piano, desvantagem que seria compensada pela gama de timbres e nuances sonoras que o instrumento fornece, bem como sua versatilidade em muitos espaços, devido ao menor tamanho. O grande problema do violão como solista é o repertório.

Não é que o instrumento não tem um repertório significativo. Se isso ocorresse, não tinha tanto violonista bom trabalhando nesse mundão. Acontece que o repertório do violão tem muita coisa aproveitada do período barroco e do renascimento (adaptando do repertório de alaúde, guitarras e outros instrumentos antigos), mas uma limitação maior de 1750 pra frente (quando o piano construiu todo seu repertório clássico). O violão tem sido objeto de muita produção idiomática (gente que conhece o instrumento e escreve pra ele coisas que funcionam bem nos dedos), mas tem pouco dos compositores que trabalharam na fronteira das linguagens composicionais, por ser um instrumento difícil para não violonistas.

O problema não existiria se muitos violonistas fossem capazes de fazer transcrições com a excelência que o Luciano Lima demonstra. As peças recebem uma nova escrita, às vezes mudando de tonalidade, mas mantêm a fluência musical. Ver Luciano Lima tocando estas obras é quase se perguntar como ele consegue tocar aquilo tudo como se fosse tão fácil.

Garanto que não é. Mas ele, como violonista, tem uma notável habilidade em dar brilho a uma gama harmônica e polifônica que não é natural do repertório violonístico.

Ademais, quase todas as obras do programa foram estreias. Uma informação que não constava no papel que recebemos, talvez porque não fossem estreias no sentido estrito. São obras já tocadas, algumas muitas vezes. Mas foram estreias as versões para violão.

Assim, com exceção do Choro da Brasiliana e possivelmente de Nenê (Nazareth) – todas as outras peças nasceram pro mundo esse dia, nos dedos e no violão de Luciano Lima.

Comentários sobre as obras

Difícil fazer qualquer comentário das obras, por que todas são sensacionais. Escreverei sobre as que mais me marcaram. Isso pode não ter sido mérito das obras em si, mas apenas alguma afinidade maior. Ou pode dizer sobre os limites da minha audição concentrada.

De Ernesto Nazareth foram escolhidas duas peças menos conhecidas, mas nem por isso menos bonitas. Um baita compositor, injustamente pouco valorizado no repertório de concerto (embora essa afirmação, sobre compositor brasileiro, sempre tenda ao pleonasmo).

As duas obras de Luciano Lima foram a prova de por que ele transcreve tão bem. Se é capaz de compor obras como essa, o que não pode fazer transcrevendo. Ambas exploram o instrumento de forma magistral, negociam com o repertório de canções infantis sem concessões a “facilidades” de textura ou harmonia. E dialogam, também, estilisticamente com os compositores que elas homenageiam a quem foram dedicadas: Sergio Assad e Egberto Gismonti (dois monstros do repertório híbrido jazz/brasileiro/clássico)

Os dois Preludios do Santoro são peças pequenas e não muito pretensiosas. Mas esse compositor é especialmente muito bom nas coisas que fez sem pretensão. Quando ele foi folclorista, por dever político, na década de 1950, compôs algumas de suas melhores obras. E essas miniaturas são sempre melhores que aquelas coisas mais grandiloquentes que vieram ao mundo tocadas por orquestras e coros soviéticos. Aliás, as composições de Santoro em parceria com Vinícius de Moraes foram um vislumbre do que a MPB faria nos anos seguintes.

Luciano Lima tem uma execução do Preludio nº 1 de Santoro em seu canal do youtube. O vídeo aparecerá abaixo, ao final desta postagem.

No geral, não há como achar defeito em obras de Villa-Lobos, Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Santoro ou Radamés Gnattali. Mesmo Osvaldo Lacerda aqui não fica devendo nada aos colegas. Só o que podemos dizer é que estes compositores merecem pedestal mais alto. Merecem ser mais ouvidos, mais tocados mais estudados.

Que bom que Luciano Lima trouxe eles pro público do concerto, e trouxe pros violonistas. Estes agora vão poder fazer essa música e aprender ainda mais com ela. Com isso ele fez uma coisa muito boa – pro Brasil, pro violão, pra música.

Fevereiro de 2017

Mês passado eu comecei a postar uns resumos mensais das coisas que tô escrevendo, lendo, assistindo. Tentando dar sequência, seguem as informações sobre fevereiro de 2017.

Escrevi

Material de uma aula sobre canção engajada (aqui no blog)

Vídeo da minha palestra (aqui no blog, sobre uma palestra minha no pré-concerto da Camerata, com obras de Penalva e Henrique Morozowicz)

Janeiro sem Oficina de Música (aqui no blog)

Luciano Lima: Radamés Gnattali e o violão de concerto (no blog do Grupo de Pesquisa)

Além desses textos que publiquei em fevereiro, sigo recomendando o texto que escrevi em janeiro no Medium, e que acho um dos meus textos recentes mais importantes:

Que tipo de evangélico eu sou

Outros fevereiros

Em anos passados, publiquei textos interessantes nos meses de fevereiro, que acho que ainda valem a leitura:

Arte e política no Brasil: modernidades (o livro e seu processo editorial) (em 2015, aqui no blog, auto jabá sobre o livro do qual fui um dos organizadores)

Sobre a notação da música grega antiga (em 2014, aqui no blog, assunto de aulas de História da Música)

A renúncia de Ratzinger: prenúncio de abertura? (em 2013, aqui no blog, texto que escrevi antes de sabermos que o próximo papa seria Francisco, e quais as reviravoltas incríveis ele traria com sua ascensão ao cargo)

E mais interessante de tudo: foi há 5 anos, em fevereiro de 2012, que iniciei este blog com endereço próprio. Continuar escrevendo aqui, e pagando o serviço de hospedagem (o ótimo serviço da Via Hospedagem, diga-se) é prova da minha teimosia. O primeiro texto publicado neste endereço foi:

Meu próprio blog

Atividades acadêmicas

Em 1º de fevereiro retomamos as aulas no meu Campus de Curitiba II da UNESPAR, antiga FAP. Estamos finalizando o ano de 2016, em decorrência de greve docente, ocupação estudantil e impossibilidade de reposição em janeiro por múltiplos fatores relativos a uma universidade multi campi.

Por isso, um dos textos linkados acima foi sobre assuntos das aulas de História da Música Brasileira.

Além das aulas que ministro na UNESPAR, tivemos a definição das Bancas de TCC do curso de Bacharelado em Música Popular, do qual sou o coordenador. O edital está aqui – são poucos os heróis que foram até o fim, mas os trabalhos são interessantes.

Participei também de duas bancas fora da UNESPAR. São trabalhos que acho que vão ganhar seu lugar ao sol nas bibliografias obrigatórias da música brasileira. Bons orientadores, pesquisa aprofundada em fontes primárias, boa discussão bibliográfica e referenciais teóricos precisos.

A Suíte popular brasileira na trajetória de Villa-Lobos: arte, povo e uma suíte à brasileira. Dissertação de mestrado de Lurian José Lima, defendida no PPGMUS-UFPR, sob orientação de Edwin Pitre-Vásquez.

O movimento Música Nova e suas ressonâncias na música popular brasileira. Tese de doutorado de Eduardo Kolody Bay, defendida no Departamento de História da UNB, sob orientação de Elonora Zicari de Brito.

Assim que estiverem publicados os trabalhos, coloco link aqui no blog.

Livros, filmes, etc

Com a volta das aulas, sobrou pouco tempo para a leitura este mês. É claro, gastei a maior parte do tempo lendo com prazer os dois trabalhos dos quais fiz parte da banca.

Mesmo não tendo terminado os livros que estava lendo em janeiro, eu me atrevi a começar novos. Andei lendo uns pedaços de O século das revoluções, de Christopher Hill e de A noção de crítica de arte no romantismo alemão, de Walter Benjamin. O primeiro é um balanço do século XVII pelo historiador britânico. A ideia geral é que as transformações que a Inglaterra viveu neste período deixaram marcas profundas no mundo moderno (ou pelo menos nas partes do mundo que se modernizaram um pouco, mas isso é outro caso). O outro é a primeira publicação em português de um trabalho inicial de Walter Benjamin, onde, segundo a explicação de Marcio Seligmann-Silva (o tradutor da obra) as ideias do pensador alemão já se desenhavam como seriam depois desenvolvidas em outras obras consideradas mais importantes.

Espero trazer mais novidades em março.

De filmes e séries, a novidade é que comecei a assistir Flash com meus filhos. E estamos gostando bastante. Assistimos também, com uns amigos, o Ben-Hur de Timur Bekmambetov. O filme é fraco, senti como se estivesse vendo aquelas novelas da Record (ainda mais que assistimos dublado).

Eu tinha ainda a promessa de trazer aqui uns links de textos que leio na imprensa ou em blogs, mas tô achando que vai ser inviável. A ideia era fazer listas semanais, mas acho que não vou ser organizado suficiente para isso. A recomendação segue sendo: sigam minha conta no twitter, porque sempre que leio alguma coisa boa dou o link lá.

Janeiro sem Oficina de Música

Sem Oficina de Música, este janeiro foi o pior de Curitiba nos últimos 36 anos. Praticamente toda minha vida desde que me entendo por gente. Em 1982 começou a primeira Oficina de Música, no Solar do Barão. Até 2016, quando foi realizada a última edição, foram 36 edições com cursos de férias com professores e alunos nacionais e internacionais de alto nível, além de uma notável programação de concertos que pode ser usufruída pelos alunos e pela população da cidade em geral.

Neste ano de 2017, está estabelecida a nova moda Temer , Tump, Teresa May, Dória e outros – cujos objetivos políticos parecem ser arrasar todas as conquistas da civilização nas áreas de cultura e direitos humanos. Não podia ser diferente em Curitiba, talvez a mais conservadora das capitais conservadoras deste país conservador. Somos tão conservadores que agora nosso lema é o retrocesso. Temos um prefeito que compete em imbecilidade com os políticos acima citados. E vai bem na competição.

Sua principal medida até agora foi cancelar a Oficina de Música que teria acontecido em janeiro. Desmarcar todas as passagens de professores contratados. Devolver todo o dinheiro das inscrições dos alunos de toda parte do Brasil e de outros países. Cancelar toda a programação de concertos e liberar a agenda dos teatros. Esvaziar ainda mais uma cidade que já é vazia em janeiro. Afinal, quem precisa de civilização? Temos Greca, e o amamos…

Outros janeiros

Para uma pequena ideia sobre a importância da Oficina e a dinâmica de sua programação, veja os posts que escrevi em anos passados com comentários sobre a programação e sobre alguns concertos:

31ª Oficina de Música (2013)

O concerto de abertura da 31ª Oficina de Música de Curitiba

Um balanço da 31ª Oficina de Música

32ª Oficina de Música (2014)

A abertura da Oficina de Música 2014

O concerto de encerramento da 32ª Oficina de Música

 

Vídeo da minha palestra

Nos últimos anos os concertos da Camerata Antiqua de Curitiba tem sido precedidos de palestras explicativas. Em 2016 começou um formato em que as palestras pré-concerto passaram a ser gravadas e apresentadas em vídeo. Eu fui um dos palestrantes. Procurei o vídeo no canal da Fundação Cultural de Curitiba, mas todos tinham sido retirados do ar. Provavelmente por causa do período eleitoral, eu não achava o vídeo da minha palestra. Ontem uma amiga me mostrou que o vídeo está, sim, online. No canal do ICAC, onde estão todos os demais vídeos.

O programa do concerto

O concerto foi com obras de José Penalva, Henrique Morozowicz, Ronaldo Miranda e Eduardo Frigatti. Era parte da programação do Festival Penalva, que vem sendo realizado anualmente com concertos, cursos e palestras, em homenagem ao compositor que adotou a cidade e tanto marcou a vida cultural de Curitiba.

Informações completas sobre o concerto e o programa estão aqui, no site do ICAC. Sobre José Penalva e Henrique Morozowicz eu escrevi posts aqui no blog, com o material que usei para preparar minha palestra.

José Penalva (1924-2002)

Henrique Morozowicz (1934-2008)

Sobre Ronaldo Miranda não há muito pra dizer, exceto que é um compositor de músicas bonitinhas para ganhar prêmios e ser programado para deixar gente feliz. Na palestra eu falo alguma coisa mais politicamente correta sobre ele.

A execução das obras foi de uma grande felicidade. O concerto mostrou o tamanho do trabalho que a regente Mara Campos vem fazendo com a Camerata. Especialmente o coro sempre teve dificuldade em preparar obras não concebidas tonalmente. Mara Campos revelou sua capacidade de ensaiadora e conseguiu empolgar os cantores. Foi um feito especialmente notável na difícil obra de Penalva.

Eduardo Frigatti

Sobre Eduardo Frigatti, infelizmente não estava na programação. Sua obra Campina de vidro foi incluída de última hora no programa e eu só soube disso depois que tinha terminado de gravar minha fala. Ainda deu tempo de incluir mais uma pequena menção ao nome dele. De todo modo, é um compositor jovem, eu não teria muita informação sobre ele. Sua obra foi premiada no concurso de composição da Bienal Música Hoje em 2015, o que lhe valeu como prêmio a execução durante a temporada da Camerata. Parece que só depois de fechada a programação veio a lembrança do prêmio. E foi uma decisão acertada incluir esta obra num festival dedicado à música de vanguarda e homenageando o decano da composição musical em Curitiba.

Eu conheci o compositor pessoalmente no dia do concerto, e ele me mostrou gentilmente a partitura da obra. Peça muito boa, vagamente baseada em técnicas do espectralismo, de ótimo resultado orquestral. Sinto que, ao contrário de muitas obras premiadas em concurso de composição, essa os músicos da orquestra tocaram com gosto e de verdade.

O vídeo da minha palestra

O vídeo está abaixo. Recomendo que você aperte no botãozinho que aparece no canto para ver direto no youtube, onde você também pode curtir e compartilhar.

 

Material de uma aula sobre canção engajada

Esses dias tivemos uma aula sobre Canção Engajada. Foi um assunto que tratamos tanto na turma de História da Música Brasileira do curso de Licenciatura em Música quanto na turma de História da Música IV do curso de Bacharelado em Música Popular.

Capa do disco Nara lançado em 1963 pela gravadora Elenco

O termo Canção Engajada é o que prefiro, embora se use também falar em Canção de Protesto e Bossa Nova Nacionalista. Os últimos dois termos são da própria época, enquanto Canção Engajada é um termo mais analítico, usado, por exemplo, pelo historiador Marcos Napolitano, que escreveu os principais estudos de referência sobre o período.

Falta conteúdo à Bossa Nova

Podemos identificar o fim do movimento da Bossa Nova no ano de 1962. Foi quando os principais artistas foram se estabelecer nos Estados Unidos. Enquanto isso, o entusiasmo desenvolvimentista dos anos JK cedia lugar às incertezas dos governos de Jânio Quadros e João Goulart.

Como bem descrevem os historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, entre 1961 e 1964 vivemos tempos muito instáveis. Um presidente renunciou após 9 meses de mandato. Uma junta militar impediu o vice de assumir. O movimento da legalidade foi liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, que distribuiu armas à população civil. O vice-presidente assumiu manietado pela lei do parlamentarismo. Governou sabotando os próprios gabinetes, enquanto o principal líder do seu partido (PTB) pressionou por reformas cada vez mais radicais. O mesmo governador que liderou o movimento pela legalidade agora inviabilizava os acordos que garantiam a estabilidade do governo.

Enquanto isso, inflação alta, desabastecimento, crise de endividamento e insolvência, desemprego, pobreza, desigualdade.

Como estuda Arnaldo Contier neste artigo, ficou fora de contexto continuar cantando as canções bossa novistas. Elas falavam em encontrar um trevo no jardim, barquinho que vai enquanto a tardinha cai, cantadas de praia em paródia de lobo mau e chapeuzinho e outras questões que passaram a ser vistas como fúteis diante das agruras nacionais.

Ver, por exemplo, o repertório dos dois primeiros discos de João Gilberto: Chega de saudade (1959) e O amor, o sorriso e a flor (1960).

A juventude universitária

Por volta de 1962 e 63 era consenso que a Bossa Nova tinha sido um movimento de renovação estética e modernização da Música Popular. Mas também ficava evidente que lhe faltava conteúdo político em relação aos problemas do Brasil. Artistas e intelectuais consideraram necessário assumir as bases harmônicas e timbrísticas lançadas pela modernidade bossanovística mas construir um novo gênero de canção antenada com seu tempo histórico.

Um fator que pesou para a virada estética da Canção Engajada foi a construção de uma massa crítica entre a juventude universitária. O esforço de ampliação do sistema educacional brasileiro empreendido desde 1930 começava a chegar a um resultado. As principais capitais possuíam universidades e um público estudantil secundarista e universitário considerável.

Em grande parte esse foi o público do circuito de shows que movimentou os anos 1962-68. E também foi entre este público, com formação em áreas como filosofia, letras ou arquitetura, que foram recrutados os novos nomes da Música Popular.

Carlos Lyra e a transição

Carlos Lyra foi provavelmente o artista mais significativo desta virada. Ele foi o autor de algumas das mais paradigmáticas canções bossanovistas, como Lobo bobo, gravada por João Gilberto no disco Chega de saudade. Pode-se ver o teor do seu repertório observando sua discografia. Os primeiros três discos são muito ligados à estética e à temática da Bossa Nova: Bossa Nova (1959), Carlos Lyra (1961) e o coletivo Bossa Nova mesmo (1962).

É com Depois do carnaval: o sambalanço de Carlos Lyra (1963) que a virada se evidencia. Especialmente com a canção Influência do jazz.

Pobre samba meu

volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu

pra não ser um samba com notas demais

não ser um samba torto pra frente e pra trás

vai ter que se viver pra poder se livrar

da influência do jazz

Esse refrão sintetiza em boa parte o que passa a ser o programa estético do que chamamos Canção Engajada. Ele denota a busca das raízes da música brasileira e de uma forte ligação com o povo pobre trabalhador. Ambas estão sintetizadas no slogan “volta lá pro morro”.

A gravadora Elenco

Uma gravadora que iria se destacar no novo cenário que estava sendo construído foi o selo Elenco, de Aloísio de Oliveira. O músico e produtor que criou a gravadora tinha participado do Bando da lua, grupo de Carmen Miranda. Com ela foi para os EUA em 1939 e lá ficou por quase 20 anos. Ao voltar para o Brasil, trouxe essa importante experiência profissional. E marcou sua presença no período da Bossa Nova como diretor artístico da gravadora Odeon, que havia lançado importantes discos.

Foi também a experiência de Aloísio de Oliveira que farejou e lançou nomes fundamentais da Canção Engajada como Edu Lobo e Nara Leão.

Além disso, as capas criadas por Cesar Vilella, juntando uma visualidade muito limpa e usando apenas duas cores (para economizar) acabaram estabelecendo um novo padrão de design de discos. A foto que ilustra esse post, lá em cima, é da capa do disco que lançou Nara Leão.

Baden Powell à vontade – outro disco com capa clássica da gravadora Elenco

Show opinião

Um dos momentos mais emblemáticos do movimento da canção engajada foi o show Opinião. Protagonizado por Nara Leão, Zé Ketti e João do Vale. Esse conjunto era um símbolo muito forte da aliança de classes proposta pela esquerda marxista: a classe média universitária (Nara), o sambista de morro (Zé Ketti) e o migrante nordestino (João do Vale).

O repertório do show foi lançado em um disco de estúdio em 1964. Este disco está disponível em um vídeo (abra no youtube porque tem a minutagem das músicas):

Outros artistas

Na aula ouvimos também outras gravações e outros artistas muito simbólicos do movimento.

Duas canções do disco A música de Edu Lobo – por Edu Lobo e Tamba Trio (1965), lançado pela Elenco: Borandá (faixa 1) e Arrastão (faixa 8). Ambas as canções apontam para a ligação com a herança literária e intelectual do modernismo. As narrativas de ambas as canções poderiam, por exemplo, ter sido tiradas de romances de Jorge Amado ou José Lins do Rego, com personagens da seca nordestina ou pescadores num trabalho coletivo.

O acompanhamento do Tamba Trio, também nos chama a atenção para para os conjuntos instrumentais que marcaram a época. Tamba Trio, de Luiz Eça; Zimbo Trio, de Amilson Godoy; o conjunto de Oscar Castro Neves; e o Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Heraldo do Monte e Teo de Barros). Esse conjuntos investiram numa estética do hot jazz, com muita improvisação. Mas buscavam uma linguagem nacionalizada a partir das referências rítmicas do samba, do baião e de outros gêneros considerados autóctones.

Dois intérpretes que marcaram muito a estética vocal da Canção Engajada foram Elis Regina e Jair Rodrigues. Ouvimos um pot-pourri de canções referentes ao morro, primeira faixa do disco Dois na bossa, gravado ao vivo no show do Teatro Paramount (São Paulo) em 1965.

E falamos também de uma dupla de parceiros que marcou a época: Baden Powell e Vinícius de Moraes. A busca do poeta por uma estética afro brasileira já era conhecida desde pelo menos a peça Orfeu da conceição, cuja trilha foi composta por Tom Jobim e marcou o início daquela pareceria.

Capa do disco Afro sambas de 1966

Com Baden Powell o poetinha compôs as canções do disco Afro sambas (1966). O álbum se tornou um marco da inserção da musicalidade afro no mainstream da música brasileira. Sobre isso, lembramos o quanto as religiões de matriz africana foram e são perseguidas no Brasil. E apontamos que Jorge Amado, quando deputado na constituinte de 1946 foi o autor da primeira lei garantindo tolerância religiosa.

Janeiro de 2017

Tentando manter uma certa organização das coisas que ando lendo, assistindo, escrevendo, fazendo, inicio com este post Janeiro de 2017 uma série que pretendo publicar a cada mês.

Eu escrevi

A importância das orquestras e sua manutenção (aqui no blog)

Que tipo de evangélico eu sou (no Medium)

Que tipo de esquerdista eu sou (no Medium)

Resoluções de ano novo #1: ficar menos no Facebook (no Medium)

Dá pra ver que pretendo usar o Medium para escrever um bocado de coisas. Talvez um bom critério seja continuar usando esta página para textos mais aprofundados sobre assuntos que eu entendo alguma coisa e o Medium para reflexões mais rápidas do dia-a-dia. Mais ou menos o que seriam os “textões” do Facebook, só que pretendo escrever cada vez manos naquela rede inóspita. Para links e coisas mais ligeiras, continuo firme no Twitter – vocês deviam me seguir lá.

Ando lendo

Tentei atualizar um pouco a barra lateral de links, com as coisas que estou acompanhando no meu Feedly. Será útil você me seguir no Medium, não só pelas coisas que eu escrevo lá, mas principalmente pelos textos que leio e recomendo. E o Twitter também continua servindo muito pra isso.

No início do ano aproveitei uma promoção e fiz assinatura anual do Kindle Unlimited. Acho que é muito recomendável para quem gosta ou trabalha com leitura de livros. Afinal, os benefícios deste serviço no mercado editorial são semelhantes aos provocados pelo Netflix no mercado de audiovisual.

Por conta disso, não estranhe se eu de vez em quando indicar uns negócios estranhos aqui. Provavelmente será que estou aproveitando pra ler “de graça” (ou seja, já incluso no serviço pago) algum livro que não leria se tivesse de comprá-lo.

O primeiro caso é o de Hackeando tudo, um livro fraco mas com ideias úteis. Inclusive me ajudou em algumas resoluções de ano novo e na vontade de organizar listas como as que farei nestes posts mensais.

Na verdade, ideias de organização pessoal e produtividade de trabalho intelectual eu tive as melhores nas conversas com o professor Danilo Ramos, da UFPR, grande amigo e inspiração pra muita coisa. (Ele é co-autor comigo neste livro, não deixe de comprar).

Outras coisas eu não terminei de ler ou não terminei de fichar/resenhar. Merece menção que terminei a biografia de Mário de Andrade escrita por Eduardo Jardim. Devo postar aqui um comentário detalhado em breve.

 

Eduardo Jardim, Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra

No Kindle também estou lendo outros livros que recomendo muito, embora ainda esteja no início da leitura (e talvez não escreva sobre eles por falta de tempo):

Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista

Amós Oz e Fania Oz Salzberger, Os judeus e as palavras

Sobre notícias e textos de internet, ainda estou arranjando um jeito de fazer links, no caso provavelmente será um processo semanal. Por enquanto, acompanhe ao vivo no Twitter.

Estou assistindo

Bem, janeiro era para ser um mês de muitos bons concertos. Infelizmente, na onda dos políticos recém eleitos que estão tentando provocar o fim da civilização, temos nosso alcaide Rafael Greca. Ele decidiu extinguir a Oficina de Música de Curitiba após 36 edições ininterruptas. Foi um janeiro silencioso. E comentarei mais sobre isso em um post que já está em rascunho.

Fora isso, nas locadoras já está Kubo, animação que assisti com a família e recomendo bastante.

No Netflix estou tentando terminar a série Os Bórgias – boa tanto como filme e como enredo, tanto quanto pelo conteúdo histórico. Embora há que se descontar diversas imprecisões praticadas em favor de romancear a trama.

Também estou no final de Downton Abbey. É uma ótima série sobre mudanças sociais durante e após a 1ª Guerra Mundial – do ponto de vista dos trabalhadores de uma propriedade da nobreza rural inglesa.

E comecei Vinkings, depois de muita gente me recomendar – confirmo que é bom, sim, assistam.

A importância das orquestras e sua manutenção

O tema das orquestras e da música sinfônica tem sido uma constante nos meus escritos. Mas resolvei escrever este texto sobre a importância das orquestras e sua manutenção a partir de um texto do Augusto Maurer no blog Impromptu.

Augusto é meu amigo nas redes sociais, músico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, até onde entendi, corpo estável ameaçado pela crise financeira que abate aquele estado meridional. Augusto escreveu sobre o argumento de que se deve acabar com a orquestra como medida de contenção de despesas públicas. O texto a que me refiro é o Para que servem orquestras? Porque sua existência deve ser garantida pelo estado?

Orquestra num teatro de ópera

Sobre a importância das orquestras

Orquestras importam, muito mesmo. Mas acho que isso é uma questão que precisa de uma certa elaboração, e precisa também de um certo fluxo de relevância. Não basta orquestras (e seus maestros, seus músicos, seu público costumeiro) acharem que serão perenes porque são culturalmente necessárias. No mundo de hoje equipamentos culturais com custo tão alto de manutenção precisam estar demonstrando sua relevância à sociedade de maneira mais ampla através de sua atuação.

Não dá pra descansar na relevância social que as orquestras construíram na Europa do século XIX ou nos EUA do século XX. Aquele mundo já ficou pra trás. Se orquestras continuam relevantes hoje é uma questão a se refletir. Precisa-se construir essa relevância com novos argumentos e, principalmente, atuações convincentes. Não apenas uma execução musical convincente de certas obras – mas uma programação geral que possa ser considerada relevante por seus financiadores (no caso das orquestras públicas, os pagadores de impostos).

Sobre essas questões, vejam um pouco mais neste ótimo texto do Jorge Santos no Medium. É sempre bom lembrar que existe um hiato entre orquestra e o grande público, ou o eleitor comum. Se a orquestra é algo tão distante da realidade local (regional, municipal ou estadual), como convencer os eleitores de que vale a pena mantê-las com recursos públicos?

Financiamento público ou privado?

Outro ponto no texto do Augusto Maurer é o argumento de que, dada a importância estratégica de uma orquestra sinfônica para a cultura, esses agrupamentos devem ser financiados pelo Estado. O principal ponto da argumentação aqui é que só seria possível desenvolver relevância cultural sem a pressão de ser lucrativa ou auto sustentável.

Sobre isso, há que se considerar que existem pelo menos dois modelos muito diferentes de financiamento. Na Europa talvez seja mais comum vermos o financiamento público para manutenção de orquestras e outros diversos equipamentos culturais. Enquanto nos EUA orquestras de alto nível também são mantidas em caráter associativo – as chamadas filarmônicas.

Em ambos os casos, financiamento público ou manutenção em formato associativo, as orquestras lidam com o mesmo problema: tornarem-se relevantes para seus financiadores – sejam os pagadores de impostos, compradores de ingressos ou assinaturas de temporada e/ou patrocinadores privados.

A importância das orquestras para a cultura europeia

Na Europa é mais ou menos consensual que se devem manter orquestras sinfônicas. O repertório que as orquestras tocam é grosso modo música europeia do século XIX. Um pouco de século XVIII e de século XX pra dar certa variedade. É uma questão estratégica, de sobrevivência cultural.

Os EUA, nos últimos 100 anos, estiveram razoavelmente convencidos de que precisavam se atualizar em relação à cultura europeia. De que precisavam manter um bastião de cultura europeia transoceânica. De que poderiam e/ou deveriam até mesmo concorrer com as nações europeias para a liderança das formas culturais europeias tradicionais.

Tiveram sucesso nisso, não há dúvida. Mas no caso do Brasil – chegamos a algum consenso público de que devemos nos atualizar com a cultura europeia? Temos ganas de alguma liderança geopolítica ou cultural? Queremos ser relevantes internacionalmente? Em certo momento estas questões estiveram em pauta, junto com o projeto de desenvolver uma música clássica nacional. Chamamos este período, concentrado nas décadas de 1930 a 1960, de modernismo.

Mas talvez essa ideia não tenha se tornado tão consensual. E se podemos dizer que o modernismo conseguiu formar um corpo de compositores sinfônicos relevantes (Villa-Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, Claudio Santoro, Edino Krieger) – também é evidente que a constituição de orquestras de alto nível no país foi um fracasso colossal. Grosso modo, tivemos a OSB, fundada em 1941. No mais – experiências episódicas e fracassadas em maior ou menor grau.

Só mais recentemente, nos períodos FHC – Lula – Dilma chegamos a estabelecer um número mais significativo de conjuntos orquestrais perenes e geograficamente disseminados. Mas, ainda dependo mais da presença de governantes ilustrados (figura agora em extinção) do que de amplos consensos públicos.

Orquestras, democracia e elitismo

No caso das poucas orquestras brasileiras, continuamos sofrendo de um problema crônico. São grupos que não desenvolvem trabalho contínuo nem conseguem ampliar sua relevância para além de suas salas de concerto hermeticamente fechadas para a sociedade brasileira.

Casos de sinfônicas na favela, ou de orquestras que editam as próprias partituras e mantêm escolas de formação de músicos e regentes seguem sendo exceção. A regra geral é orquestras que tocam o que acham que devem tocar e imaginam que todos devam desejar se deslocar aos teatros para ouvir aquilo. Seguimos não desenvolvendo relevância social ou geográfica de maior amplitude, exceção talvez para o programa de orquestras jovens da Bahia.

Ou seja, orquestras, no Brasil, seguem sendo um negócio elitista, ancorado na cultura europeia do século XIX. Imagina-se que sua relevância para o Brasil seja um dado sem necessidade de demonstração. É chique ter orquestra, ponto. Quem não gosta de orquestra é burro, ponto.

Qualquer esforço maior do que repetir as últimas duas frases é pedir demais. Orquestras em programas de difusão junto com o sistema educacional? Dá muito trabalho. Orquestras e meios de comunicação? Muito humilhante. Orquestras em diálogo com a cultura nacional? Seria descer o nível – já temos Mozart e Beethoven, não precisamos nada brasileiro para sermos cultos. Formação de plateia? Que preguiça.

Curiosamente, o mesmo Augusto Maurer que defende a necessidade de orquestras com financiamento público (uma política pública altamente elitista) também acha que devemos extinguir a democracia representativa, os legislativos e os partidos, para estabelecer governo direto pela internet com decisões plebicitárias. Como neste post: Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política

Sempre que leio este tipo de post dele sobre política tenho vontade de perguntar: “meu filho, o que você acha que aconteceria se fizéssemos um plebiscito pela internet para decidir se devemos ou não manter orquestras com verba pública?” Ironicamente, a OSPA e a Oficina de Música de Curitiba, bem como a programação do Teatro Municipal de São Paulo, estão entre as muitas vítimas a ascensão do populismo anti elitista que derruba governo no Brasil, elege Sartori, Greca e Dória, ou Trump e Teresa May.

Sobre elites e suas instituições culturais

Ao contrário do que possa parecer numa leitura mais apressada, democracia não é a decisão por maioria. Mas um frágil equilíbrio entre decisões por sufrágio, manutenção de regras claras, instituições e equipes técnicas de elite, representatividade, defesa de minorias e uma série de outros fatores de uma frágil ecologia.

Sim, eu concordo com o Augusto Maurer que precisamos manter orquestras públicas. Mas discordo muito da maneira como ele situa tudo isso num contexto político mais amplo. Vivemos um difícil equilíbrio político institucional. Arrasar a civilização pode custar o simples apertar de um botão. Manter a tradição cultural requer enorme dispêndio de tempo, trabalho e dinheiro. (Repito a frase tantas vezes dita pelo professor Paulo Castagna numa oficina sobre acervos musicais na ANPPOM).

Convencer a população em geral de que vale a pena o esforço de manter essas tradições culturais é um trabalho contínuo. Mais fácil de ser feito quando estamos gerando prosperidade e distribuindo isso de maneira mais ou menos equilibrada. Caso contrário, as elites correm o risco de ver suas cabeças decepadas – ou perderem suas significativas instituições culturais.

 

 

Livro Música, Cultura e Sociedade

Acaba de ser lançando o livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno, do qual sou o organizador.

Capa do livro Música, cultura e sociedade: dilemas do moderno

O livro reúne textos de professores que integram o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade da UNESPAR, além de autores convidados de outras instituições que têm pesquisas que interseccionam com as nossas em temáticas ou abordagens, além de desenvolverem outras parcerias acadêmicas.

Autores

Os autores que escreveram capítulos incluídos nesta obra são: Antonio José Augusto (UFRJ), Ricardo Bernardes (CESEM  – Universidade Nova de Lisboa), Teresa Cascudo (Universidad de La Rioja), André Egg (UNESPAR – Campus de Curitiba II), Fernanda Nunes Moya (UNESP), Ana Paula Peters (UNESPAR – Campus de Curitiba I), Allan de Paula Oliveira (UNESPAR – Campus de Curitiba II), Fabio Poletto (UNESPAR – Campus de Curitiba I), Jefferson Gohl (UNESPAR – Campus União da Vitória), Joêzer de Souza Mendonça (PUC-PR / UNESPAR), Danilo Ramos (UFPR).

Links

Maiores informações na página do livro no site da editora, onde está disponível o sumário e a apresentação dos autores. O livro está à venda também no site da editora e, em breve, nas livrarias.

Em fevereiro devemos promover alguns eventos de lançamento com participação de autores.

O Grupo de Pesquisa tem uma página na internet para divulgação de suas atividades. A página do grupo na plataforma do CNPQ é esta.

Jorge Amado: Seara vermelha (1946)

O romance Seara vermelha foi publicado por Jorge Amado em 1946. Segundo a lista de publicações que consta no verbete da Wikipedia em português, foi o 13º livro do autor, e o 10º romance. A edição que li é da coleção das obras completas que está sendo publicada agora pela Editora Cia. das Letras. Comprei uma versão kindle, que no momento parece ser a única disponível.

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Seara vermelha, em capa da edição de 2009 da Cia. das Letras

Partido comunista e realismo socialista

O livro pode ser classificado na fase realismo socialista do autor, situado entre a biografia de Luís Carlos Prestes (O cavaleiro da esperança, 1942) o livro de viagens O mundo da paz (1951) e a trilogia Os subterrâneos da liberdade (1954) sobre a saga do movimento comunista durante o Estado Novo.

Em relação à estética do realismo socialista, Seara vermelha é um livro multifacetado, o que ajuda a provar o valor de Jorge Amado como escritor que tensionou sua relação entre militância no partido e liberdade de criação.

Em 1946, quando saiu o livro, a estética do realismo socialista não era aplicada no Brasil como determinação do partido, coisa que aconteceu de modo muito forte entre 1948 e 56. Em 1958 Jorge Amado sacudiria a poeira do estalinismo com Gabriela, cravo e canela, e mais tarde com a não autorização para novas edições de O mundo da paz – seu livro mais claramente propagandístico (a crer nas explicações do autor em suas memórias no livro Navegação de cabotagem).

Jorge Amado acabava de assumir como deputado constituinte eleito pelo PCB, e teria alguns anos de severas limitações à sua atividade criativa, atuando como militante e como deputado. De certa forma, pode se dizer que Seara vermelha serve como uma tentativa de reintroduzir o Partido Comunista na normalidade da política brasileira. O partido tinha sido clandestino e perseguido durante todo o Estado Novo (1937-45) mas principalmente desde o levante de 1935 (por alguns chamado de “intentona comunista” – termo que os historiadores não adotam mais).

Para relançar o PCB em um momento de abertura política e da livre concorrência do partido nas eleições de 1945, nada melhor do que uma reabilitação dos revolucionários de 1935. E Jorge Amado, de certa forma, faz isso no livro. Mas não apenas.

Planos narrativos

Na escrita do livro, Jorge Amado se utiliza de vários planos narrativos, matizando os interesses mais diretos do PCB em uma narrativa difusa inserida no contexto da chamada “literatura social realista”, também conhecida no Brasil como “romance de 30”.

Assim, a narrativa começa com uma família de meeiros vivendo no sertão, e atinge seu ápice no momento de ruptura, em que os meeiros são expulsos da terra e viram retirantes. A obra acompanha a longa viagem até chegar em São Paulo, e aí faz coro com outras obras primas dessa literatura, como as obras de Graciliano Ramos ou outros escritores realistas do período que também tratam da miséria nordestina.

Mas após acompanhar a família de retirantes, que pode ser definida como os protagonistas da história, Jorge Amado constrói um interessante panorama. Mais ou menos como se tentasse descortinar as opções disponíveis ao sertanejo pobre dos anos 1930 no Brasil.

O núcleo principal da família torna-se retirante. Seu caminho será atravessando a pé a caatinga. Depois pegando o barco pelo São Francisco para ir até o interior de São Paulo, e dali tomar o trem para a capital. Nem todos chegarão ao eldorado da capital, mas isso prefiro não comentar para não estragar a experiência de quem vai ler o livro.

Ao longo dessa história começamos a descobrir que partes da família já tinham saído antes das terras. Estes personagens assumem protagonismo em narrativas paralelas que vão ganhando mais importância ao final do livro. São os irmãos mais velhos, que saíram das terras antes do episódio da expulsão dos meeiros.

Retirante, beato, policial, jagunço

Por isso acho que posso afirmar que o personagem principal não é uma pessoa, ou várias. Mas a família na qual a história está centrada. É um casal de agricultores com seus filhos e netos, e uma tia louca agregada. Cada um dos membros da família desdobra-se entre as múltiplas possibilidades que vão se oferecendo aos campesinos pobres do sertão.

Entre os retirantes que tomam o rumo de São Paulo, um abandona a família na caatinga. Ele vai se casar e ficar como lavrador nas terras do sertão. Uma das filhas é aliciada e acaba caindo na prostituição. O pai consegue chegar a São Paulo mas não com saúde suficiente para o sonhado trabalho.

Mas os maiores protagonistas são os irmãos que tinham abandonado a família antes da expulsão das terras. E a tia louca que se junta aos beatos.

Jorge Amado consegue fazer uma forte ambientação destes vários personagens, que acabam se encontrando na trama, de maneira muito inusitada. A tia louca que abandona os retirantes para ser recebida como santa entre os seguidores do beato Estêvão. O filho que tornou-se policial. Seu irmão que se tornou cangaceiro, do bando do temido Lucas Arvoredo.

Jorge Amado leva toda esta trama – beatos, policiais e cangaceiros a um desfecho trágico. Como se negasse a possibilidade de saída por algum destes caminhos. Nenhuma das opções de fuga da lide com a terra e da miséria no campo se torna viável. Entre os retirantes, poucos chegam a São Paulo em condições de viver bem. Os que ficaram no sertão são apanhados pelo trágico desfecho. Resta apenas o filho que entrou para o exército, e que se tornou comunista.

O herói comunista

Este é o verdadeiro herói do romance, mas isso só se torna claro no final. É certamente a parte da obra mais vinculada à estética do realismo socialista e a que mais envelheceu.

O rapaz engajou no exército, e também no partido comunista. Tornou-se o principal líder no levante que levou os comunistas a governarem a cidade de Natal por cerca de 4 dias. Com a derrota do movimento e a repressão, termina preso.

É o personagem com menos profundidade na obra, como não poderia deixar de ser. Afinal, é a parte da obra que praticamente não tem escrita autoral, mas segue as regras do partido. Os heróis não podem ser vacilantes, as tramas não podem levar ao desespero.

Hoje quando lemos a obra, provavelmente nos chama mais à atenção a vívida descrição da miséria do sertão, a trama dos retirantes, a vida intensa e dramática dos beatos, jagunços e policiais. Essa a parte do livro onde o grande romancista aparece, talentoso.

A parte sobre o cabo comunista, líder da revolta de Natal, soa muito como um panfleto, uma obra de propaganda. Ao sabermos dos desdobramentos posteriores à publicação da obra a visão positiva do herói comunista soa no mínimo ingênua. Falo da cassação do registro do PCB em 1948 e clandestinidade do partido até a década de 1980. Ou do golpe de 1964 e o Regime Militar no meio do caminho.

Crise do realismo socialista e do PCB

Continua interessante captar esse momento, logo após o fim da segunda guerra mundial, em que romances publicados no ocidente ainda podiam ter comunistas como heróis. Quando as possibilidades políticas ainda estavam abertas. E quando as tensões entre grandes modelos políticos concorrentes impulsionaram a reconstrução do mundo e a chamada “era de ouro” do crescimento econômico e do Estado de bem-estar social.

Aliás, “era de ouro” e Estado de bem-estar social dos quais o Brasil ficou fora, diga-se de passagem. Como aliás, a inviabilidade dos caminhos traçados pelos camponeses pobres da obra de Jorge Amado já deixava muito claro.

No mais, seguimos, 70 anos  depois, interditando os caminhos de saída de nossa condição crônica de pobreza, miséria e desigualdade.

Jorge Amado continua muito útil e atual, não?

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