O concerto de Luciano Lima

No dia 16 de março de 2017, quinta-feira, aconteceu no SESC Paço da Liberdade, em Curitiba, o concerto de Luciano Lima. Foram tocadas, ao violão, obras de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Claudio Santoro, Osvaldo Lacerda, além de composições do próprio Luciano Lima.

Foto do concerto de Luciano Lima no SESC Paço da Liberdade (por André Egg)

Com exceção de uma peça de Radamés Gnattali e das duas obras de Luciano Lima, apresentadas em primeira audição, todas as demais foram transcritas para violão pelo músico. Foram repertório produzido originalmente para piano. Algumas destas obras já foram publicadas por Luciano Lima, como a série de peças do Guia Prático de Villa-Lobos, cujas transcrições foram publicadas pela Academia Brasileira de Música (veja aqui), e as peças de Claudio Santoro, em transcrições publicadas pela Editora Savart (veja aqui).

O programa

Luciano Lima intercalou 12 canções do Guia Prático de Villa-Lobos, parte das 87 que ele transcreveu na edição da Academia Brasileira de Música. Organizando-as em grupos de 4 peças, normalmente elas são curtas, dividiu em três grupos distribuídos entre as demais obras. Radamés Gnattali também foi outro compositor com presença marcante, servindo para abrir o concerto e fornecendo as três peças tocadas ao final.

Gnattali tem sido um objeto das pesquisas de Luciano Lima há longo tempo. Foi sobre os concertos para violão e orquestra deste compositor que ele fez seu doutorado pela Université de Montréal. Também a obra para violão solo de Radamés foi objeto de sua última publicação: um livro com a revisão da obra do compositor e mais alguns “brindes”, como contei aqui no blog do Grupo de Pesquisa.

As obras, na sequência em que foram tocadas, foram as seguintes:

Radamés Gnattali – Batuque

Villa-Lobos – Chora menina, chora; A cobra e a rolinha; Nesta rua; O bastão, ou mia gato

Ernesto Nazareth – Fidalga e Nenê

Villa-Lobos – Constante; Carneirinho, carneirão; A pombinha voou; Senhora Dona Sancha

Luciano Lima – Choro e cantiga nº 9 e Choro e cantiga nº 7

Camargo Guarnieri – Ficarás sozinha

Lorenzo Fernandez – Na beira do rio

Claudio Santoro – Peças infantis nº 5

Osvaldo Lacerda – Cinco variações sobre Escravos de Jó

Claudio Santoro – Preludio nº 1 e Preludio nº 2

Villa-Lobos – Sambalelê; O gato; Você diz que sabe tudo; Fui no Itororó

Radamés Gnattali – Caminho da saudade, Canhoto e Choro da Brasiliana nº 13

Quase todas as obras do concerto obedeceram a uma temática de relação com cantigas infantis, uma coisa que todos os compositores modernistas brasileiros se empenharam com esmero. Luciano Lima esclareceu que toda a busca dessa temática de canções foi decorrente da experiência da paternidade, e dedicou o concerto a sua filha Tarsila, que estava presente.

Ampliando o repertório do instrumento

De todas as obras do concerto, apenas 3 foram escritas originalmente para violão: as duas de Luciano Lima e a peça de Radamés que encerrou o programa. Todas as demais foram peças que Luciano Lima adquiriu para o repertório do violão em transcrições belíssimas. Um grande trabalho de pesquisa que poucos violonistas estão fazendo no mundo.

Vale lembrar que o violão é um instrumento com muitas possibilidades como solistas. Não tem tantos recursos harmônicos e tantas possibilidade polifônicas quanto o piano, desvantagem que seria compensada pela gama de timbres e nuances sonoras que o instrumento fornece, bem como sua versatilidade em muitos espaços, devido ao menor tamanho. O grande problema do violão como solista é o repertório.

Não é que o instrumento não tem um repertório significativo. Se isso ocorresse, não tinha tanto violonista bom trabalhando nesse mundão. Acontece que o repertório do violão tem muita coisa aproveitada do período barroco e do renascimento (adaptando do repertório de alaúde, guitarras e outros instrumentos antigos), mas uma limitação maior de 1750 pra frente (quando o piano construiu todo seu repertório clássico). O violão tem sido objeto de muita produção idiomática (gente que conhece o instrumento e escreve pra ele coisas que funcionam bem nos dedos), mas tem pouco dos compositores que trabalharam na fronteira das linguagens composicionais, por ser um instrumento difícil para não violonistas.

O problema não existiria se muitos violonistas fossem capazes de fazer transcrições com a excelência que o Luciano Lima demonstra. As peças recebem uma nova escrita, às vezes mudando de tonalidade, mas mantêm a fluência musical. Ver Luciano Lima tocando estas obras é quase se perguntar como ele consegue tocar aquilo tudo como se fosse tão fácil.

Garanto que não é. Mas ele, como violonista, tem uma notável habilidade em dar brilho a uma gama harmônica e polifônica que não é natural do repertório violonístico.

Ademais, quase todas as obras do programa foram estreias. Uma informação que não constava no papel que recebemos, talvez porque não fossem estreias no sentido estrito. São obras já tocadas, algumas muitas vezes. Mas foram estreias as versões para violão.

Assim, com exceção do Choro da Brasiliana e possivelmente de Nenê (Nazareth) – todas as outras peças nasceram pro mundo esse dia, nos dedos e no violão de Luciano Lima.

Comentários sobre as obras

Difícil fazer qualquer comentário das obras, por que todas são sensacionais. Escreverei sobre as que mais me marcaram. Isso pode não ter sido mérito das obras em si, mas apenas alguma afinidade maior. Ou pode dizer sobre os limites da minha audição concentrada.

De Ernesto Nazareth foram escolhidas duas peças menos conhecidas, mas nem por isso menos bonitas. Um baita compositor, injustamente pouco valorizado no repertório de concerto (embora essa afirmação, sobre compositor brasileiro, sempre tenda ao pleonasmo).

As duas obras de Luciano Lima foram a prova de por que ele transcreve tão bem. Se é capaz de compor obras como essa, o que não pode fazer transcrevendo. Ambas exploram o instrumento de forma magistral, negociam com o repertório de canções infantis sem concessões a “facilidades” de textura ou harmonia. E dialogam, também, estilisticamente com os compositores que elas homenageiam a quem foram dedicadas: Sergio Assad e Egberto Gismonti (dois monstros do repertório híbrido jazz/brasileiro/clássico)

Os dois Preludios do Santoro são peças pequenas e não muito pretensiosas. Mas esse compositor é especialmente muito bom nas coisas que fez sem pretensão. Quando ele foi folclorista, por dever político, na década de 1950, compôs algumas de suas melhores obras. E essas miniaturas são sempre melhores que aquelas coisas mais grandiloquentes que vieram ao mundo tocadas por orquestras e coros soviéticos. Aliás, as composições de Santoro em parceria com Vinícius de Moraes foram um vislumbre do que a MPB faria nos anos seguintes.

Luciano Lima tem uma execução do Preludio nº 1 de Santoro em seu canal do youtube. O vídeo aparecerá abaixo, ao final desta postagem.

No geral, não há como achar defeito em obras de Villa-Lobos, Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Santoro ou Radamés Gnattali. Mesmo Osvaldo Lacerda aqui não fica devendo nada aos colegas. Só o que podemos dizer é que estes compositores merecem pedestal mais alto. Merecem ser mais ouvidos, mais tocados mais estudados.

Que bom que Luciano Lima trouxe eles pro público do concerto, e trouxe pros violonistas. Estes agora vão poder fazer essa música e aprender ainda mais com ela. Com isso ele fez uma coisa muito boa – pro Brasil, pro violão, pra música.

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