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História da Música Brasileira História da Música IV

Material de uma aula sobre canção engajada

Esses dias tivemos uma aula sobre Canção Engajada. Foi um assunto que tratamos tanto na turma de História da Música Brasileira do curso de Licenciatura em Música quanto na turma de História da Música IV do curso de Bacharelado em Música Popular.

Capa do disco Nara lançado em 1963 pela gravadora Elenco

O termo Canção Engajada é o que prefiro, embora se use também falar em Canção de Protesto e Bossa Nova Nacionalista. Os últimos dois termos são da própria época, enquanto Canção Engajada é um termo mais analítico, usado, por exemplo, pelo historiador Marcos Napolitano, que escreveu os principais estudos de referência sobre o período.

Falta conteúdo à Bossa Nova

Podemos identificar o fim do movimento da Bossa Nova no ano de 1962. Foi quando os principais artistas foram se estabelecer nos Estados Unidos. Enquanto isso, o entusiasmo desenvolvimentista dos anos JK cedia lugar às incertezas dos governos de Jânio Quadros e João Goulart.

Como bem descrevem os historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, entre 1961 e 1964 vivemos tempos muito instáveis. Um presidente renunciou após 9 meses de mandato. Uma junta militar impediu o vice de assumir. O movimento da legalidade foi liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, que distribuiu armas à população civil. O vice-presidente assumiu manietado pela lei do parlamentarismo. Governou sabotando os próprios gabinetes, enquanto o principal líder do seu partido (PTB) pressionou por reformas cada vez mais radicais. O mesmo governador que liderou o movimento pela legalidade agora inviabilizava os acordos que garantiam a estabilidade do governo.

Enquanto isso, inflação alta, desabastecimento, crise de endividamento e insolvência, desemprego, pobreza, desigualdade.

Como estuda Arnaldo Contier neste artigo, ficou fora de contexto continuar cantando as canções bossa novistas. Elas falavam em encontrar um trevo no jardim, barquinho que vai enquanto a tardinha cai, cantadas de praia em paródia de lobo mau e chapeuzinho e outras questões que passaram a ser vistas como fúteis diante das agruras nacionais.

Ver, por exemplo, o repertório dos dois primeiros discos de João Gilberto: Chega de saudade (1959) e O amor, o sorriso e a flor (1960).

A juventude universitária

Por volta de 1962 e 63 era consenso que a Bossa Nova tinha sido um movimento de renovação estética e modernização da Música Popular. Mas também ficava evidente que lhe faltava conteúdo político em relação aos problemas do Brasil. Artistas e intelectuais consideraram necessário assumir as bases harmônicas e timbrísticas lançadas pela modernidade bossanovística mas construir um novo gênero de canção antenada com seu tempo histórico.

Um fator que pesou para a virada estética da Canção Engajada foi a construção de uma massa crítica entre a juventude universitária. O esforço de ampliação do sistema educacional brasileiro empreendido desde 1930 começava a chegar a um resultado. As principais capitais possuíam universidades e um público estudantil secundarista e universitário considerável.

Em grande parte esse foi o público do circuito de shows que movimentou os anos 1962-68. E também foi entre este público, com formação em áreas como filosofia, letras ou arquitetura, que foram recrutados os novos nomes da Música Popular.

Carlos Lyra e a transição

Carlos Lyra foi provavelmente o artista mais significativo desta virada. Ele foi o autor de algumas das mais paradigmáticas canções bossanovistas, como Lobo bobo, gravada por João Gilberto no disco Chega de saudade. Pode-se ver o teor do seu repertório observando sua discografia. Os primeiros três discos são muito ligados à estética e à temática da Bossa Nova: Bossa Nova (1959), Carlos Lyra (1961) e o coletivo Bossa Nova mesmo (1962).

É com Depois do carnaval: o sambalanço de Carlos Lyra (1963) que a virada se evidencia. Especialmente com a canção Influência do jazz.

Pobre samba meu

volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu

pra não ser um samba com notas demais

não ser um samba torto pra frente e pra trás

vai ter que se viver pra poder se livrar

da influência do jazz

Esse refrão sintetiza em boa parte o que passa a ser o programa estético do que chamamos Canção Engajada. Ele denota a busca das raízes da música brasileira e de uma forte ligação com o povo pobre trabalhador. Ambas estão sintetizadas no slogan “volta lá pro morro”.

A gravadora Elenco

Uma gravadora que iria se destacar no novo cenário que estava sendo construído foi o selo Elenco, de Aloísio de Oliveira. O músico e produtor que criou a gravadora tinha participado do Bando da lua, grupo de Carmen Miranda. Com ela foi para os EUA em 1939 e lá ficou por quase 20 anos. Ao voltar para o Brasil, trouxe essa importante experiência profissional. E marcou sua presença no período da Bossa Nova como diretor artístico da gravadora Odeon, que havia lançado importantes discos.

Foi também a experiência de Aloísio de Oliveira que farejou e lançou nomes fundamentais da Canção Engajada como Edu Lobo e Nara Leão.

Além disso, as capas criadas por Cesar Vilella, juntando uma visualidade muito limpa e usando apenas duas cores (para economizar) acabaram estabelecendo um novo padrão de design de discos. A foto que ilustra esse post, lá em cima, é da capa do disco que lançou Nara Leão.

Baden Powell à vontade – outro disco com capa clássica da gravadora Elenco

Show opinião

Um dos momentos mais emblemáticos do movimento da canção engajada foi o show Opinião. Protagonizado por Nara Leão, Zé Ketti e João do Vale. Esse conjunto era um símbolo muito forte da aliança de classes proposta pela esquerda marxista: a classe média universitária (Nara), o sambista de morro (Zé Ketti) e o migrante nordestino (João do Vale).

O repertório do show foi lançado em um disco de estúdio em 1964. Este disco está disponível em um vídeo (abra no youtube porque tem a minutagem das músicas):

Outros artistas

Na aula ouvimos também outras gravações e outros artistas muito simbólicos do movimento.

Duas canções do disco A música de Edu Lobo – por Edu Lobo e Tamba Trio (1965), lançado pela Elenco: Borandá (faixa 1) e Arrastão (faixa 8). Ambas as canções apontam para a ligação com a herança literária e intelectual do modernismo. As narrativas de ambas as canções poderiam, por exemplo, ter sido tiradas de romances de Jorge Amado ou José Lins do Rego, com personagens da seca nordestina ou pescadores num trabalho coletivo.

O acompanhamento do Tamba Trio, também nos chama a atenção para para os conjuntos instrumentais que marcaram a época. Tamba Trio, de Luiz Eça; Zimbo Trio, de Amilson Godoy; o conjunto de Oscar Castro Neves; e o Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Heraldo do Monte e Teo de Barros). Esse conjuntos investiram numa estética do hot jazz, com muita improvisação. Mas buscavam uma linguagem nacionalizada a partir das referências rítmicas do samba, do baião e de outros gêneros considerados autóctones.

Dois intérpretes que marcaram muito a estética vocal da Canção Engajada foram Elis Regina e Jair Rodrigues. Ouvimos um pot-pourri de canções referentes ao morro, primeira faixa do disco Dois na bossa, gravado ao vivo no show do Teatro Paramount (São Paulo) em 1965.

E falamos também de uma dupla de parceiros que marcou a época: Baden Powell e Vinícius de Moraes. A busca do poeta por uma estética afro brasileira já era conhecida desde pelo menos a peça Orfeu da conceição, cuja trilha foi composta por Tom Jobim e marcou o início daquela pareceria.

Capa do disco Afro sambas de 1966

Com Baden Powell o poetinha compôs as canções do disco Afro sambas (1966). O álbum se tornou um marco da inserção da musicalidade afro no mainstream da música brasileira. Sobre isso, lembramos o quanto as religiões de matriz africana foram e são perseguidas no Brasil. E apontamos que Jorge Amado, quando deputado na constituinte de 1946 foi o autor da primeira lei garantindo tolerância religiosa.