Sobre modernismo musical nos Estados Unidos

Modernismo musical nos Estados Unidos foi o tema da última aula de História da Música IV, que ministro no Campus de Curitiba II da UNESPAR – FAP. Na verdade o tema mais geral foi música de concerto nos EUA na primeira metade do século XX, e envolveu dois pontos principais: modernismo e vanguarda nos EUA (principalmente Nova York, décadas de 1910 e 20) e políticas para música no governo F. D. Roosevelt (décadas de 1930 e 40).

Referências

Para abordar o tema consultamos principalmente os seguintes textos:

Capa do ótimo livro de Alex Ross

Capa do ótimo livro de Alex Ross

Do livro O resto é ruído, de Alex Ross (São Paulo: Cia. das Letras, 2009) – melhor obra de referência em português sobre música do século XX, dois capítulos importantes são sobre o tema:

“Homens invisíveis: compositores americanos, de Ives a Ellington”, p. 135-172

“Música para todos: música nos Estados Unidos de Franklin Roosevelt”, p. 280-325

Principal referência é o livro de Carol Oja

Principal referência é o livro de Carol Oja

Usamos também a principal obra em inglês sobre a vanguarda em Nova York: Making music modern: New York in the 1920’s de Carol J. Oja (New York: Oxford UP, 2000). Felizmente tem em Kindle.

Livro em português sobre Charles Ives

Livro em português sobre Charles Ives

E uma ótima referência em português sobre Charles Ives: o livro de Valerie Albright publicado pela Annablume/FAPESP.

Além dessas referências mais básicas, dois textos de modernistas brasileiros que fizeram contato com a música norte-americana na época:

A conferência “A expressão musical dos Estados Unidos”, que Mário de Andrade proferiu no Instituto Cultura Brasil – Estados Unidos em 1942, e que foi depois publicada no volume Música, doce música para a edição das Obras Completas na década de 1960.

O livro Gato preto em campo de neve no qual Érico Veríssimo faz minucioso relato de sua viagem aos EUA em 1941 como convidado do Departamento de Estado no âmbito da Política de Boa Vizinhança.

Música moderna em Nova York

Começando pelas pistas dadas por Carol Oja, vimos que um pioneiro da música de vanguarda em Nova York foi o pianista e compositor Leo Ornstein. Ele foi reputado como um grande recitalista, num nível performático semelhante ao atingido por Liszt. O magnetismo que esse pianista exercia sobre as plateias foi fundamental para estabelecer uma primeira difusão da vanguarda musical nos EUA.

Interessante que as obras que ele compôs e executava nos programas foram em geral mais ousadas que as peças tocadas na Europa na mesma época, o que mostra que, na verdade Nova York se tornava um dos polos mais avançados de composição musical.

Vejam que interessante este exemplo, uma das peças mais conhecidas de Ornstein – A la chinoise, de 1917.

Outra figura à qual Oja atribui grande protagonismo foi o compositor francês Edgar Varèse. Depois de ter estudado composição na França e na Alemanha, ele julgou as oportunidades muito restritas para compositores na Europa, e mudou-se para os EUA em 1915.

Em solo americano Varèse tornou-se um dos compositores mais ousados e experimentalistas do mundo, embora o fato de não estar na Europa signifique geralmente ser percebido como de menor importância na História da Música (mesmo nas histórias da música escritas nos EUA, um país que padece quase tanto de eurocentrismo quanto o Brasil).

Ouvimos duas obras que ele compôs nos EUA. Começando por um trecho de Amériques (concluída em 1921). Esta obra tem um início até bem semelhante à Sagração da Primavera de Stravinski (pelo solo inicial de instrumento de sopro) mas logo vai mostrando novidades importantes. Varèse está muito mais interessado no timbre como elemento criativo do que na harmonia, no ritmo ou na forma musical como ainda se fazia na Europa. Ele também dá muito mais protagonismo aos instrumentos de percussão.

A orquestração desta peça inclui madeiras a 5 (2 flautins, 2 flautas e flauta em sol; 3 oboés, corne inglês e heckelfone; requinta, 3 clarinetes em Sib e clarone; 3 fagotes e 2 contrafagotes). E um vagalhão sonoro no naipe dos bocais, com 8 trompas em Fá, 6 trompetes em Dó, 3 trombones tenor, um trombone baixo, um trombone contrabaixo, tuba e tuba contrabaixo. E ainda 2 harpas, 2 tímpanos e mais 9 percussionistas tocando um set multifacetado.

O resultado:

E outra peça clássica deste compositor – Ionisation (1931) para conjunto de instrumentos de percussão. Talvez uma das obras mais inovadoras do século XX, e a que hoje ainda mais serve de referência para a música nova dentre as compostas naquela época.

Uma boa gravação em vídeo:

Charles Ives

Uma coisa curiosa é que por esta época já vivia em Nova York aquele que viria a ser considerado por muitos o compositor mais importante do EUA: Charles Ives. Mas ele não era ativo como compositor. Vivia recluso, trabalhava com venda de seguros, e compunha para a gaveta. Somente mais tarde, provavelmente estimulado pelo desenvolvimento da cena de vanguarda na cidade começa a tentar publicar e executar suas obras.

Sobre Charles Ives escrevi um texto, sintetizando informações do livro de Valerie Albright e colocando duas gravações importantes. Está aqui, num blog antigo.

Instituições

Chama muito à atenção aqui no Brasil (elemento muito destacado por Mário de Andrade no texto que escreveu sobre a música norte-americana) a dinâmica das sociedades promotoras de concerto.

Nova York teve várias exclusivamente dedicadas à música de vanguarda. Especialmente a New Symphony Orchestra fundada por Varèse, a International Composer’s Guild também protagonizada por ele, e League of Composers e a revista Modern Music.

Programas de difusão musical na era Roosevelt

Esse tema já não deu muito tempo de falar na aula, mas o período do governo Roosevelt (1933-45) foi marcado por grandes programas de combate ao desemprego e à crise. O chamado New Deal também teve um grande programa de investimentos em várias áreas, conhecido como WPA.

Símbolo da agência governamental Administração para o Progresso do Trabalho (WPA na sigla em inglês)

Símbolo da agência governamental Administração para o Progresso do Trabalho (WPA na sigla em inglês)

A agência durou de 1935 a 1943 e desenvolveu vários projetos, entre eles um grande programa de bolsas para as áreas de artes. Um programa para escritores, outro para teatro, outro para música.

Na área de música um dos principais programas foi o pagamento de bolsas para copistas fazerem partituras de orquestra, que passaram a fazer parte da Fleischer Music Collection na Filadélfia.

O programa para escritores é bastante bem descrito por Érico Veríssimo no seu livro Gato preto em campo de neve.

Além dos programas governamentais, a marca do New Deal foi a existência de grandes parcerias com empresas privadas. Na área de música as mais ativas foram as grades empresas de radiodifusão: NBC e CBS. A NBC criou uma orquestra regida por Toscanini, que se tornou o maior símbolo cultural da liberdade nos EUA, por ter brigado com Mussolini e fugido da Itália fascista. Sua orquestra transmitia domingos à noite em cadeia nacional (e até para outros países, como o Brasil). Cada disco gravado por Toscanini vendia dezenas de milhões de cópias.

Além disso, Stokowski também dirigiu uma orquestra nacionalmente famosa, sendo convidado para gravar filmes para os estúdios de Walt Disney (a famosa animação Fantasia, de 1940, baseada em obras musicais clássicas). Ambas as orquestras, de Toscanini e de Stokowski excursionaram pela América do Sul causando grande impacto.

Um programa radiofônico muito conhecido também foi o produzido pelo maestro Walter Damrosch, transmitido no horário das aulas para que os professores pudessem ouvir ao vivo com os alunos e causar um grande impacto na difusão educacional de música clássica.

Este programa foi bastante criticado por Adorno, que não considerava legítima a pretensão de massificar a música clássica, por envolver, no seu entender, excessiva simplificação no processo de audição.

Aaron Copland

Certamente o músico mais importante e de maior valor simbólico da era Roosevelt foi Aaron Copland.

Tanto por seu papel como compositor de clássicos populares, deliberadamente representativos do estilo norte-americano, como pela sua grande atividade como compositor para cinema, professor, escritor, organizador de concertos e gestor de instituições musicais.

Copland chegou a trabalhar para o Departamento de Estado, exercendo papel chave na política de aproximação com músicos da América do Sul no âmbito da política de Boa Vizinhança.

Talvez sua obra mais popular seja a Fanfare for the common man. Aqui um trecho numa belíssima gravação de Marin Aslop e a OSESP, em sua participação no festival BBC Proms de 2012:

E abaixo Hoe down, trecho do bailado Rodeo, certamente a obra mais “folclórica” de Copland, que representa bem seu esforço de sintetizar o americano comum e fazer música acessível para um público mais amplo (bem de acordo com as ambições do governo Roosevelt).