Jane Austen: Razão e sentimento

Capa da edição L&PM

 

Este foi o primeiro livro publicado de Jane Austen. Enquanto Razão e sentimento saía impresso – e vendia bem, A abadia de Northanger estava no escritório de um editor que comprara os direitos por 10 Libras mas passados vários anos não tinha publicado. O inesperado sucesso financeiro de seu primeiro livro publicado (rendeu 140 libras a primeira edição), motivou Jane Austen a escrever para o editor que estava com seu primeiro livro, pedindo a devolução dos originais. Eles seriam revisados por ela e o livro publicado postumamente pela família.

O sucesso de vendas era totalmente inesperado pela situação de Jane Austen. De uma família de posses medianas (vivendo das rendas de uma paróquia na qual o pai era pastor, e com muitos irmãos), mas alto nível educacional, Jane Austen participou do início de um vigoroso mercado literário que estava se formando na Inglaterra. Como mostram seus romances, o caminho natural de uma jovem como ela seria esperar ansiosamente por um bom casamento, o que lhe era difícil por falta de um bom dote. Publicando seu livro com a autoria identificada apenas como “Uma senhora”, o trabalho de escritora acabaria se tornando a principal renda para uma moça que morreria solteira aos 42 anos. Na esteira da consolidação deste mercado, logo após sua morte, seus livros assumiriam a posição de obras mais lidas em todos os tempos.

Este Razão e sentimento é realmente uma obra que mereceu a posição assumida no mundo literário. Pode-se dizer que “razão” seja a característica mais marcante de Elinor, personagem principal em cujo interior mergulhamos pela escrita de Austen. Sua irmã Marianne tinha “sentimento” como marca. E Austen parece procurar demonstrar as virtudes da racionalidade de uma dama que não se entrega tão rápido às esperanças de casamento, mas procurar avaliar corretamente os próprios sentimentos e o do jovem por quem está enamorada, bem como todas as questões familiares e patrimoniais envolvidas.

Mergulhando nos sentimentos das suas jovens personagens, Jane Austen mostra o mundo das relações da elite inglesa no período inicial da Revolução Industrial. Como naquelas novelas da Globo que sempre fizeram sucesso no Brasil, os personagens do romance não fazem nada produtivo. Ninguém trabalha. Todos vivem em jantares, passeios no parque, compras, bailes, flertes – seja nas propriedades rurais ou em Londres.

Além de toda a interessante história das relações entre os ótimos personagens construídos por Jane Austen, o livro é um excelente retrato da vida financeira da aristocracia. Há explicações detalhadas de quanto seja uma boa renda, qual o juro pago por um investimento, quanto rende uma propriedade, quanto ganha um empregado, qual o dote apropriado para uma família de classe ceder a mão de um filho, qual a perspectiva de sobrevivência de duas jovens irmãs órfãs no caso de que os casamentos esperados não se consolidassem.

Tudo isso também está bem enfatizado na apresentação do livro, escrita pelo tradutor Rodrigo Breunig. Ele fez, aliás, um ótimo trabalho, mantendo a fluência da narrativa e atualizando a linguagem sem perder a característica fleuma aristocrática inglesa.

A apresentação que Jane Austen faz do caráter e da personalidade dos vários proprietários e damas ingleses não é nada lisonjeira. Afora algumas pessoas de bom coração que destoam no conjunto, ninguém na Inglaterra estava pensando em nada que não fosse dinheiro. Os personagens são fúteis, ignorantes e nada interessados em cultura. Isso tornava o mundo especialmente inabitável para Marianne, jovem romântica que não imaginava se apaixonar por um rapaz que não gostasse dos mesmos livros, das mesmas músicas e das mesmas paisagens. Mais que isso, era necessário que os trechos literários preferidos fossem os mesmos.

Com esse retrato cruel construído pela autora, pode-se dizer que a aristocracia inglesa não fica melhor do que a aristocracia continental satirizada na mesma época por Mozart em suas óperas.

Razão e sentimento fez parte das minhas leituras de férias, aproveitando a ótima promoção que a Amazon fez da caixa de Jane Austen.

Mais obras de Jane Austen comentadas aqui no blog:

A abadia de Northanger

Orgulho e preconceito

Persuasão

One thought on “Jane Austen: Razão e sentimento

  1. Pingback: Jane Austen: A abadia de NorthangerAndré Egg