2014 ficou para trás

Foi um ano agitado: em 2014 muita coisa ficou para trás. Tudo mudou muito rápido, seja nas coisas que importam para o mundo seja nas que dizem respeito à minha vidinha particular.

No Brasil, eu diria que 2014 foi um ano de refluxo, após a incrível agitação política de 2013. Como costuma acontecer após grandes movimentos populares, a reação conservadora é forte e articulada. Neste sentido, o resultado das eleições parlamentares deixou os setores da política, digamos, “esclarecida”, com um terrível gosto de ressaca. Mas sobre essa questão, por mais que eu explique, nunca diria nada melhor do que o Diego Viana colocou neste texto magistral. (Pra resumir o argumento dele, o crescimento do conservadorismo mais tacanho é bom, em última instância, por expor certos comportamentos políticos que precisam ser combatidos às claras).

De minha parte, posso dizer que fiquei muito perplexo com tudo que aconteceu na política eleitoral em 2014, a ponto de sequer ter escrito textos de análise política. Era uma coisa que eu costumava fazer, tanto em blog pessoal como em colaborações para o Amálgama. Mas vocês podem conferir que agora o cara que escreve as melhores análises lá é o Elton Flaubert, e os meus escritos se tornaram desnecessários, na medida em que quando eu começava a elaborar mentalmente algum raciocínio para um texto, logo estava lá algum texto do Elton, que refletia muito melhor do que eu seria capaz de fazer.

Entre as várias mudanças rápidas que eu observei no mundo em 2014, uma que me surpreendeu bastante foi a existência de um grupo grande e significativo de blogueiros e tuiteiros do mais alto nível articulados em torno da candidatura do PSDB nas eleições. Por outro lado, continuou existindo muita gente esclarecida defendendo o voto no PT, mas em geral, a inteligência da internet não foi pró-PT em 2014: estava na oposição tradicional (PSDB) ou na de esquerda (PV, PSOL, PCB). Desgaste natural por tanto tempo de PT no governo federal? Não acredito. Alckmin provou que governos razoavelmente ruins podem se perpetuar sem grandes dificuldades desde que o candidato represente o eleitor de forma mais ou menos convincente.

Aliás, 2014 foi o ano dos grandes perfis da revista Piauí. Não tenho links aqui, e tô com preguiça de ficar procurando isso, mas quem queria conhecer de forma mais aguda as personalidades políticas relevantes teve que ler os magistrais perfis de Eduardo Campos, Aécio Neves, Dilma Roussef, e as reportagens sobre o retorno de Marina Silva e sobre a longevidade política de Alckmin. Ao longo do ano fui assinante dessa revista, que considero simplesmente indispensável: os perfis citados foram construídos ao longo de trabalhos de reportagem de duração média de 2 anos, conversando com os retratados e com seu círculo próximo (pessoal e político).

Comparar os perfis de Alckmin e Dilma feitos pela Piaiuí, seus modos de lidar com os correligionários e com o eleitor comum, ensina muito sobre porque o PT hoje enfrenta tantas dificuldades para governar e para ganhar eleições. Para resumir brutalmente, Dilma é uma pessoa que tem as decisões todas prontas na cabeça, não ouve ninguém, não consulta ninguém. Alckmin é o católico bonachão que vai tomar café em padaria de bairro, um médico capaz de auscultar a vontade do homem comum em conversas diretas. Só essa diferença já seria suficiente para explicar as dificuldades eleitorais de uma e o sucesso do outro.

Qualquer mudança política foi brincadeira de criança perto do que aconteceu com o futebol brasileiro. O 7×1 foi um negócio tão chocante, que nós vamos levar séculos para assimilar. Aquela seleção que entrava em campo chorando nos primeiros jogos foi capaz de jogar na lama uma reputação construída a duras penas ao longo de todo o século XX. Não existe mais futebol brasileiro.

Eu que já gostei tanto de comentar futebol nos meus blogs, fiquei alheio em 2014, o que acabou se revelando muito prudente. Eu tive tanta dificuldade para entender o futebol em 2014 quanto tive para entender a política.Isso ficou evidente pra mim com a posição vexaminosa que obtive no bolão que participei com o pessoal do futebol de sábado. (Vou comentar mais sobre vida pessoal adiante, mas “futebol de sábado” era uma coisa que eu não usufruía faz décadas, e encontrar uma turma tão legal para dar minhas pixotadas com a redonda compensou qualquer decepção em Copa do Mundo).

Quem fez as melhores análises sobre Copa e Seleção foi o pessoal de blogs como o Juca Kfouri, o Esporte Fino, e alguns outros (vejam links na barra lateral direita desta página). Em linhas gerais, a organização da Copa, estádios, trânsito, aeroporto, tudo deu certo como ninguém imaginava que daria. Vexame mesmo foi nossa Seleção, o que ninguém pensou nem nos piores pesadelos. Aliás, só mesmo em 2014 poderia acontecer a maior tragédia da crônica esportiva de internet: o fim do Impedimento. Só podemos agora esperar que os arquivos continuem no ar, ou no mínimo que virem livro, como o fantástico projeto que resultou das crônicas daquele título do Galo na Libertadores em 2013: À meia-noite no Horto.

Além das brutais transformações que o Brasil viveu neste ano terrível, o mundo não viveu dias muito tranquilos não. A invasão da Ucrânia por milicianos pró-Rússia e a fragmentação do país assistida de forma irresponsável pela comunidade internacional acendeu todos os tipos de luzes vermelhas sobre uma ordem política que, bem ou mal vinha caminhando nas últimas décadas para uma melhoria do ambiente político com viés democrático (política e economicamente). A possibilidade de uma “Grande Rússia” da qual a Europa Ocidental dependa para sua segurança alimentar e energética não é nada promissora, e o mundo está ficando muito perigoso.

Para aliviar um pouquinho, o ano termina com uma inacreditável aproximação diplomática dos EUA com Cuba, o que faz a gente ter alguma esperança de que o século XXI possa começar um dia.

Tudo isso aí foi acontecendo, e eu espiando o mundo e o Brasil de canto de olho. Gostaria de ter escrito sobre estas coisas, mas, como já expliquei um pouquinho acima, muita gente vem fazendo isso melhor, então eu preciso ficar quieto.

Mas não foi só isso. Em 2014 eu estive envolvido no duro processo de construção da UNESPAR. A Universidade Estadual do Paraná foi implantada de modo provisório por um decreto assinado pelo governador do estado em dezembro de 2013. Ou seja, apesar de o processo de juntar várias faculdades estaduais para formar uma universidade multi-campi já ter começado há vários anos, o primeiro ano de funcionamento efetivo como universidade foi 2014.

E eu não me furtei a participar ativamente do processo: acabei assumindo uma candidatura a Diretor de Centro de Área (uma coisa quase como um departamento). A comunidade me elegeu (principalmente o voto dos alunos) e agora eu estou fazendo uma coisa que não estava nos meus planos: dedicar várias horas semanais a serviço burocrático, reuniões, conselhos, etc. Meu plano quando saí da coordenação de curso no fim de 2013 era dedicar os próximos anos a pesquisa e aulas, escrever livros, aprender francês e fazer um pós-doutorado. Adiei um pouco isso tudo, e principalmente a escrita na internet ficou em segundo plano diante dessa realidade.

Não só de atividades na universidade foi minha agitação em 2014. Minha esposa começou o mestrado na Linha de Educação Musical do PPGMUS do CEART/UDESC. Como moramos em Curitiba, vocês calculam aí o que foi para mim e as crianças viver com a Maris metade da semana em Florianópolis. Garanto que sentimos muita saudade, e fomos solidários com a difícil condição de viajante. Aproveitei o melhor possível os momentos em que as crianças foram a única companhia familiar. Ficar com eles é uma das melhores coisas desse mundo, e sobreviver sem a Maris só foi possível porque meus filhos são grandes companheiros.

Além das energias canalizadas para apoiar a vida acadêmica de uma mulher que sempre se desdobrou para apoiar a minha, tentei continuar produzindo um pouco. Trabalhamos bastante no projeto do Campus Curitiba I de propor um curso de mestrado para a avaliação da CAPES. Reformulamos o Grupo de Pesquisa com vistas a retomar a atividade que foi maior entre 2011 e começo de 2013.

Da parte das publicações, é de se notar que a gente precisa ficar pesquisando e escrevendo coisas sempre, por que os processos editoriais podem ser demoradíssimos. Coisas que fiz anos atrás estão virando livros ou capítulos ou artigos por agora.

Saiu um capítulo meu sobre a crítica de Mário de Andrade, em um maravilhoso livro coletivo espanhol organizado por Teresa Cascudo:

Está na gráfica o Arte e Política no Brasil, organizado por mim, Artur Freitas e Rosane Kaminski – modéstia à parte um baita livro com um texto melhor do que o outro:

E saiu a aprovação da FAPESP para o co-financiar o projeto editorial da publicação da minha tese de doutorado, revisada. Vai fazer parte de uma coleção de Música e História nas Américas, dirigida pela professora Tania da Costa Garcia. E o meu livro vai levar um preciosíssimo prefácio do Marcos Napolitano.

Por essas e outras, o ano passado foi um ano de blogar pouco, de modo que essa espécie de retrospectiva é também um pedido de desculpas (a mim mesmo e aos 1,5 leitores).

Aqui nesta página pessoal foram 26 posts, mais da metade publicados em janeiro, fevereiro e março. No primeiro mês, principalmente comentários de leituras de férias, concertos e um filme. A partir de fevereiro comecei a publicar o que deveria ser o principal assunto desta página: textos de apoio às aulas. Mas logo nem isso mais eu estava conseguindo fazer. Em junho saíram três textos sobre minha candidatura, apresentando propostas e discutindo problemas da UNESPAR – Campus Curitiba II. Depois disso, o silêncio foi se tornando inevitável.

Pelos mesmos motivos, escrevi pouco no blog História Cultural. Em agosto publiquei aqui uma chamada para os textos que postei lá no portal da Gazeta do Povo. Depois de agosto saíram mais alguns poucos textos, mas o blog continua atraindo visitantes para os textos antigos. O último post do ano foi um apanhado dos textos mais lidos em 2014, a maioria deles publicados em anos anteriores.

Para fechar o ano, ressuscitei o blog Do alto de tantas glórias, para escrever minha crônica da despedida de Alex, o maior craque a jamais envergou o manto alvi-verde, e talvez o último representante daquela coisa chamada “futebol brasileiro”, que já estava morta e sepultada em 2014. Escrevi também um balanço da gestão do presidente Vilson Ferreira de Andrade. Boa parte da motivação para escrever de novo neste blog veio do fato de que a página do Facebook veio recebendo novas curtidas no fim do ano, mesmo eu estando há tempos sem escrever lá.

Resoluções de ano novo e expectativas para 2015 deixo para um futuro post.

Que bom que 2014 ficou para trás. Ótimo 2015 a todos.

2 thoughts on “2014 ficou para trás

  1. Elton Flaubert

    Obrigado pelo comentário, caro André. Mas não mereço tanta generosidade 🙂
    Estamos sentido falta das suas análises sobre conjuntura política.

    Abraço,
    Elton.