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Crítica de concertos

Alexandre Brasolim e a Orquestra de Câmara de Curitiba: Karayev, Brasolim, Copland e Janácek

Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba. Foto: Luiz Cequinel

Foto de Luis Cequinel (clique para ver no Flickr da Fundação Cultural de Curitiba)

O concerto de ontem foi uma grande descoberta. A descoberta de Alexandre Brasolim como maestro e como compositor. Talvez não devesse ser surpresa para ninguém, afinal já estamos acostumado a vê-lo como violonista da OSP, e seus arranjos já impressionam o público curitibano há vários anos. Aliás, eu diria que, pelas coisas que já vi dele, eu tendo a considerar o Alexandre Brasolim como o melhor arranjador sinfônico do Brasil na atualidade.

Se o cara conhece tão bem a orquestra na hora de escrever arranjos, natural que também fosse um exímio regente e compositor. Depois de vê-lo dirigindo o concerto, fiquei com vontade de ver muito mais vezes o novo maestro no pódio. Tem muitas qualidades, e merece mais oportunidades. Aliás, eu considero que esta temporada 2013 da Camerata está muito melhor que as anteriores. [A Gazeta do Povo fez uma matéria sobre a programação completa, e eu já andei escrevendo sobre a programação dos anos anteriores: 2012, 2011 e 2010.] E um dos motivos para isso é a inteligência em aproveitar a prata da casa. Pode parecer óbvio, mas nos anos anteriores isso não era praticado: se os recursos são escassos, é ainda mais importante aproveitar os músicos locais na programação, e isso por si só já é uma coisa tão importante que não deveria ser praticado só nos momentos de crise. É mais ou menos como um time de futebol sem dinheiro para comprar jogadores famosos, mas que de repente descobre que tem uma mina de talentos nas próprias categorias de base.

A cidade ganhou um maestro. Brasolim foi competentíssimo. A começar pela escolha do repertório, que tinha como tema “A música da terra, descrevendo um país”. Ou seja, era uma escolha entre compositores nacionalistas. O programa tinha como introdução peças curtas de Karayev, compositor do Azerbaijão e do próprio Brasolim. Seguia-se com duas obras de fôlego: o balé Apalachian springs (1944) de Aron Copland e a Suíte para cordas (1877) de Janácek. Todas as obras são muito atrativas, pois a mistura de um discurso rítmico e temático oriundo das tradições camponesas (ou pioneiras no caso de Copland) com a segura técnica harmônica e orquestral ostentada por todos os compositores do programa faziam aumentar muito o interesse das peças.

Pena que o público foi pequeno. E pena também que a programação 2013 da Camerata esteja iniciando uma prática de promover uma palestra sobre as obras antes do concerto. Não acho que seja má ideia, mas o próprio regente ser o comentador pode não ser a melhor solução. Ao menos não foi no caso de Brasolim, cuja palestra foi meio que uma coleção de lugares comuns sobre nacionalismo musical, com direito a um desprezo pela música brasileira “depois da Bossa Nova”, meio ao estilo do discurso que Júlio Medaglia vem repetindo desde o fim do tropicalismo. Talvez seja uma boa ideia no caso do maestro Colarusso, um homem de grande conhecimento e vasta cultura, ao menos sobre a música de Schubert, que irá reger.

Não era o caso de Brasolim. Se a palestra foi abaixo da crítica, o concerto foi maravilhoso, e isso é o que realmente importa. Brasolim relevelou-se um ensaiador competente obtendo sonoridade perfeita, equilíbrio, afinação e, principalmente, aquela pegada capaz de fazer as obras ganharem vida na empolgação dos músicos em tocá-las. Me pareceu especialmente boa a técnica de regência de Brasolim para as irregularidades e mudanças rítmicas da peça de Copland, dando segurança à orquestra em uma peça complexa.

Para mim, desde já coloco essa execução de Apalachian springs entre os principais eventos musicais do ano – dificilmente a experiência será superada. A Orquestra de Câmara está de parabéns pelo ótimo trabalho, mostrando que é possível melhorar mais o que já era muito bom. O nível técnico da orquestra está realmente impressionante.

Já disse que as peças foram muito bem escolhidas e bem executadas, falta dizer um pouco mais porque considero o repertório tão relevante. Na verdade, existe um injusto desprezo intelectual pelos nacionalismos musicais, como se fossem menores que as vanguardas ditas “universais”. Acontece que os movimentos que trouxeram os sons da periferia do mundo burguês (América do Sul, América do Norte, Leste Europeu e Cáucaso) fertilizaram a música européia no período da crise terminal do tonalismo clássico romântico, predominantemente germânico. Digamos que a única saída não era a que apontava para Schoenberg – uma exacerbação do tonalismo levando ao que chamamos de “atonalismo” mas que o próprio Schoenberg gostava mais de classificar como “pan tonalismo”, ou que poderíamos dizer “hiper-tonalismo”, continuando na senda de Beethoeven e Wagner.

Por isso acho ruim a palestra de Brasolim ter começado o assunto nacionalismo partindo justo de Beethoven e Wagner. Não, os nacionalismos foram movimentos das periferias, que pretendiam se afirmar como centros. O Azerbaijão é o fim do mundo, mesmo dentro da estrutura soviética. A música russa e de outros povos eslavos já tinha ganhado sua versão clássica ao longo dos séculos XIX e XX, mas o Karayev ampliou o negócio trazendo sons de sotaque mais turco para a coisa. O Janácek, como mais antigo dos compositores tocados, mostrou uma incrível capacidade de mostrar que as danças eslavas podiam render ótimas formas clássicas, e o caminho que ele propunha era uma alternativa ao de Wagner, que mergulhava num cromatismo profundo pela mesma época.

A peça do Brasolim foi claramente um tributo à técnica de escrita de Camargo Guarnieri, de quem ele declaradamente seguiu escola, segundo sua fala na palestra. Bom discípulo, revelou a capacidade de construir um tema que soa com aquela brasilidade assentada nas tradições rurais (nenhuma proximidade com a tradição do samba carioca que se modernizou com a Bossa Nova, como talvez pudesse sugerir a fala de Brasolim na palestra), com grande lirismo no trecho de andamento lento, e sábia construção do tecido orquestral.

A peça de Copland é daquelas que um sujeito precisa ouvir antes de dizer que conhece a música do século XX, ou a música norte-americana. Está entre as mais felizes criações do século passado. Ou ao menos pode ser considerada a peça mais importante do compositor mais importante (tá, isso é controverso, eu sei – alguém vai argumentar com Ives e Cage, mas ao menos na música sinfônica acho que dá pra reconhecer a primazia do Copland) do país mais importante do mundo no século XX. E é uma peça comprometida em buscar as raízes de uma cultura que nunca se preocupou muito com esse negócio de raízes, afinal os americanos médios fizeram duas coisas importantes no século XX: emular a cultura clássica européia e criar a música popular moderna. Copland é importante justamente por ter sido o que mais cabalmente demonstrou que os EUA poderiam contribuir com uma música clássica original e autêntica à cultura da tradição clássica na qual se inseriam com tanta competência.

Se o concerto tinha como tema justamente esses caras que batalharam para afirmar culturas periféricas num mundo onde elas não tinham muita importância, nada mais justo que tenha sido uma homenagem ao maestro Alceo Bocchino, falecido há poucos dias. Certamente ele foi o músico mais importante nascido nessa “Terra dos Pinheirais”, deixando obra importantíssima como maestro, pianista, professor e compositor – apesar de sua música ainda ser quase desconhecida, injustamente. Talvez a melhor homenagem tenha sido o choro sincero com que Brasolim lembrou o saudoso maestro no final de sua palestra.