Milton Hatoum: Dois irmãos

Faz tempo que ando afastado da boa literatura. Fico sempre nas bibliografias técnicas de Música e de Ciências Humanas, e as páginas que alimentam o espírito vão sendo interminavelmente adiadas.

Mas me obrigo a, ao menos nas férias, entrar na livraria e comprar a esmo alguma coisa que possa sorver nos dias modorrentos. Nos meus projetos de ano-novo, vocês verão que eu vou voltar sempre ao objetivo primordial de aumentar o tempo disponível para “desperdiçar” com literatura, concertos e filmes. Coisa sempre difícil de conseguir por em prática.

Desta feita, Dois irmãos, livro do escritor amazonense muito aclamado pela crítica. Dou razão aos elogios, desde as primeiras páginas, e sustento a empolgação até às últimas.

Prosa fluída, envolvente e intrigante. Um dissecar da alma humana, e das relações familiares, capaz de nos provocar ódio e pavor, misturado com lembranças e com os próprios demônios. A mãe semita super-protetora, a rivalidade destrutiva entre os irmãos (que me fez lembrar Os irmãos corsos, de Dumas – leitura juvenil), as figuras humanas da Manaus das décadas de 1940 a 1960. A revelação, que não é nenhuma novidade, de que é nas relações familiares que os humanos somos capazes de sermos mais sórdidos.

Tudo bem tramado e, principalmente, anotado no vai-e-vem entre o tempo real e o das lembranças. Lembranças de um narrador de quem descobrimos o nome só muito no fim da história. Lembranças feitas das lembranças dos outros.

O equilíbrio exato entre o tempo cronológico e o tempo particular das lembranças, se soma ao equilíbrio exato entre o que vai sendo revelado e o que vai sendo encoberto pela trama. Terminamos o livro sabendo algumas coisas, e não podendo senão imaginar outras. Artifício narrativo que mantém a grande qualidade da obra – esse saber-não-saber que envolve o leitor na trama e o deixa pensativo mesmo depois de terminar a leitura.

Sempre bom topar com grande literatura de autor vivo. No colégio a gente cresce acostumado com a idéia de que a grande literatura foi feita por gente que morreu há muito tempo – o que é uma grande besteira.

Dois irmãos é um livro que já nasceu clássico, daqueles que todo mundo devia ter na estante, para ler e reler.

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