Categorias
Crítica de concertos

Stefan Geiger, a Sinfônica do Paraná e o filme de Lotte Reiniger com música de Wolfgang Zeller

Em primeiro lugar peço desculpas por demorar tanto em vir escrever sobre o concerto de domingo passado. Estes dias foram de correria com a organização de uma Semana Acadêmica e um Congresso de Pesquisa. Mas eu não podia deixar de comentar este concerto, que foi um marco na vida cultural de Curitiba.

Em primeiro lugar, é preciso parabenizar ao Goethe Institut Curitiba, na pessoa de sua diretora Claudia Römmelt. Foi do instituto a iniciativa de trazer Geiger, e de promover o trabalho pioneiro de animação de Reiniger. Claudia fez uma apresentação sobre o filme antes do concerto, e promoveu a apresentação de um documentário (ao final deste post há um vídeo similar) do qual fez a tradução simultânea do alemão.

A ideia de mostrar o filme de 1926, época do cinema mudo, apresentando-o com música executada ao vivo pela Orquestra Sinfônica do Paraná se mostrou interessantíssima. Segundo conversa que tive com o compositor Harry Crowl ao fim do concerto, esta prática já é bastante comum na Europa, mas pra nós aqui foi de absoluta novidade.

Minha primeira experiência em assistir um filme com música feita ao vivo foi durante a I Bienal Música Hoje, no concerto do Ensamble Cross.art – mas era um curta, e a música de Joseph Michels tinha sido encomendada posteriormente ao filme de Yukihiro Taguchi. Já o filme de Lotte Reiniger que assistimos no Teatro Guaíra, tinha 90 minutos de duração (juro que pareceu bem menos), e a música original composta por Wolfgang Zeller foi criada em estrita colaboração com a produção do filme.

O filme é o primeiro produzido em animação em todo o mundo. Se hoje temos um verdadeiro culto à animação por causa do trabalho de Walt Disney, que tranformou o gênero em um sucesso comercial duradouro e em referência cultural para muitas gerações de crianças, por outro lado o interessantíssimo trabalho pioneiro de Reiniger vinha bastante esquecido, merecendo um resgate.

De certo modo, o resgate de um filme mudo de animação condiz com um renovado interesse pelo tema, como se pode no sucesso e nas premiações recebidas por dois filmes recentes que fazem belíssimos tributos à era do cinema mudo: O artista e A invenção de Hugo Cabret. O próprio filme de Reiniger com certeza foi uma referência para o trabalho de Disney. Uma cena de As aventuras do príncipe Achmed recebeu citação em A espada era a lei: a briga do feiticeiro africano com a bruxa, em que ambos se transformam em vários animais, e que Disney homenageia quando faz uma briga semelhante entre o mago Merlin e a bruxa Madame Mim.

Fui ao concerto com minha filha Mariana, de 8 anos, o que só aumentou a importância do evento. Ela normalmente não é muito quieta em concertos, o que me dificulta levá-la. Entretanto, pude ver que As aventuras do príncipe Achmed foi uma experiência estética tão significativa pra ela quanto foi pra mim. Primeiro, obviamente, pelo valor estético do filme, e pelo extremo interesse que desperta a técnica criada por Lotte Reiniger, em que tudo – do cenário aos personagens, é feito com papel recortado.

Mas o fato de o filme ser apresentado no Teatro Guaíra, e não num cinema, aumentava ainda mais o valor da experiência. Segundo o comentário da Mariana, deu muito mais trabalho tocar ao vivo a música do filme. Seria mais fácil usar uma gravação. Mas, ela completa, a orquestra tocando ao vivo é muito mais emocionante.

Concordo com as palavras dela.

E acrescento: belíssima música a de Zeller. Que me faz ficar ainda mais convicto de que parte importantíssima da história da música do século XX está esquecida na produção cinematográfica, equivocadamente considerada um gênero musical de valor estético inferior. A música de Zeller mostrou cabalmente que compor para cinema não significava nada menos importante do que a produção de concerto da década de 1920, e esse é um repertório que precisa ser resgatado e cujo valor ainda precisa do devido reconhecimento.

O trabalho de Stefan Geiger também deve ser destacado. Ensaiar a música de maneira que pudesse ser apresentada em sincronia com o filme é muito mais complexo do que preparar uma apresentação normal em concerto. O maestro revelou uma incrível capacidade neste sentido, o que deve se somar ao pouco tempo de que a orquestra dispôs para se preparar para o concerto.

Geiger já tinha vindo a Curitiba em 2011 (outra vez a convite do Goethe, se não me engano), para reger a Orquestra de Câmara de Curitiba em obras de Benjamin Britten. Infelizmente eu não assisti este concerto. Novamente a ideia seria fazer o filme/concerto com a orquestra municipal, mas a burrice de ter uma OS (o ICAC) administrando uma orquestra pública tem como principal efeito colateral a visão estreita na hora de planejar as verbas. Não havia dinheiro para o projeto de Geiger, que felizmente foi encampado pela orquestra do estado.

Aliás, isso reforça o papel pioneiro que vem sendo assumido pela OSP neste novo momento, e o trabalho seguro de direção artística empreendido por Osvaldo Ferreira. E reforça também o fato de que a prefeitura de Curitiba está perdida no tempo, especialmente na parte de políticas culturais. Está precisando de uma boa sacudida.

Mas isso são picuinhas.

O importante é que o concerto/filme foi um momento memorável, do tipo que espero se tornar mais frequente. A música foi muito bem tocada pela orquestra, e o público era apenas razoável para uma manhã de domingo. Quanto a isso, acredito que parte do problema foi a confusão de se ter anunciado incialmente a programação como destinada às crianças (estes concertos infantis sempre ficam lotadíssimos). Mas eu fui comprar ingresso no sábado e recebi contrariado a informação de que era recomendado para maiores de 7 anos. Meu filho mais novo e minha esposa acabaram ficando em casa por conta disso, e ainda não sei se a restrição de idade foi correta. Teríamos um público mais barulhento, mas certamente as crianças (ainda vi muitas na platéia) teriam tido uma experiência importantíssima. Sendo as crianças de hoje tão acostumadas à linguagem audiovisual (e tão pouco à música tocada ao vivo), o acesso ao filme/concerto terminaria por ser uma importantíssima experiência de aproximação com a música sinfônica.

Em resumo: foi uma programação que só merece elogios, uma iniciativa que deve ser imitada.

Ao final, o vídeo prometido, sobre o trabalho de Lotte Reiniger:

http://www.youtube.com/watch?v=VMp8pBqbi0s