Tributo a Marcelo Oliveira

Semana passada o Coritiba demitiu o técnico Marcelo Oliveira.

Eu deveria ter escrito um texto sobre isso no blog Do alto de tantas glórias, mas acontece que eu tenho que admitir que não consigo atualizar aquele blog, melhor voltar a falar de futebol aqui neste que vai ser mesmo meu único endereço na internet.

Marcelo Oliveira no comando. Foto do sítio do Coritiba

Eu vou ter que pesquisar muito para descobrir se no passado teve algum técnico mais significativo para o Coritiba. Porque desde que me entendo por gente não teve não. Quero dizer: até onde minha memória alcança (desde o início dos anos 1980), Marcelo Oliveira foi o maior técnico da história do Coritiba.

Foi com ele que o time jogou seu melhor futebol. Foi com ele que o time conseguiu suas maiores façanhas.

Todo mundo sabe, mas não custa repetir. Marcelo Oliveira pegou o time quando era o atual campeão paranaense, levou-o a mais dois títulos e fechou o tricampeonato estadual, coisa que o Coritiba não conseguia desde o hexacampeonato estadual entre 1971-76. Marcelo Oliveira fez o Coritiba ser o melhor mandante do campeonato brasileiro de 2011, jogando um futebol de encher os olhos em muitas oportunidades. Marcelo Oliveira classificou o Coritiba para duas finais de Copa do Brasil, e o time nunca tinha passado das semifinais. Ainda aproveitou um longo campeonato paranaense contra times bem fracos e obteve uma sequencia de vitórias que colocou o Coritiba no Guiness Book.

Ao todo, foram 1 ano e 9 meses no comando do Coritiba, 72 jogos em 2011 e 60 em 2012.

Antes de dizer que Marcelo Oliveira é um gênio do futebol, é preciso que se diga que ele teve boas condições para trabalhar. Pegou um time já montado, treinado por Ney Franco durante metade de 2009 e todo 2010. Era amigo do antigo treinador e foi indicado por ele, ou seja, assumiu para dar continuidade a um trabalho que já vinha dando certo.

A diretoria do Coritiba não montou um time dos sonhos, mas fez as melhores contratações que podia com um orçamento de time médio. Entretanto, considero que Marcelo Oliveira fez aquele time jogar muito além do imaginável. Um time sem nenhum grande craque, mas onde todos sabiam o que fazer. Em alguns momentos o time titular era Edson Bastos – Jonas, Pereira, Emerson e Lucas Mendes – Leandro Donizeti, Leo Gago, Davi e Rafinha – Anderson Aquino e Bill, com possíveis variações especialmente com Wiliam no lugar de um dos volantes titulares sem perder a qualidade, ou com Marcos Aurélio voltando de contusão e assumindo a posição de Anderson Aquino. Ou ainda com Jeci, Cleyton, Demerson ou Lucas Claro na zaga. Esse time jogava por música: cada um sabia seu lugar no gramado, a bola ia de pé em pé sem ninguém precisar nem olhar pro outro. Os contra-ataques pareciam uma aula de futebol.

Isso certamente funcionou como nunca no 6×0 sobre o Palmeiras nas quartas de final da Copa do Brasil, ou no 5×0 sobre o Botafogo no início do segundo turno do Brasileirão. Veja os vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=6dnUdQXu61w

http://www.youtube.com/watch?v=DNNAl7BnReE

O problema em 2011 era que a longuíssima temporada resultava em desgaste excessivo dos jogadores. Rafinha teve longo período de contusão. Davi mais ainda. Leo Gago e Marcos Aurélio começaram a perder rendimento. Leonardo ficou mais tempo no Departamento Médico do que jogando. Bill não queria saber de treinar, e ainda foi o jogador que mais cometeu faltas no Brasileirão – deve ter sido a única vez na história que um atacante conquistou essa marca.

Para 2012 seria preciso formar um elenco mais variado e capaz de alternar os jogadores sem perder qualidade. Tudo isso sem dinheiro para comprar jogadores caros. A diretoria optou por vender aqueles não estavam pagando com rendimento em campo o alto preço que valiam no mercado. O único que saiu do Coritiba para ser titular em outro time importante foi Leandro Donizeti, um dos principais jogadores daquele elenco, mas que precisava sair por uma questão de progressão na carreira.

Tinha outro fator: o Coritiba não contava mais com o fator surpresa. Ninguém mais faria o que fez Felipão quando veio ao Couto Pereira pela Copa do Brasil: chegar desprevenido para enfrentar um time pelo qual ninguém dava nada, e sair daqui com um 6 a 0 na cacunda.

A demissão de Marcelo Oliveira foi injusta?

Talvez sim. Os problemas do time em 2012 não eram culpa do treinador. A diretoria desmontou o time de 2011, e os jogadores que vieram no lugar não chegaram a render à altura. Em 2011 o time começou pronto. Em 2012 entrou o segundo turno do Brasileirão ainda buscando reforços.

Pior mesmo é que Marcelo Oliveira tinha contrato até o fim do ano, e recusou 6 propostas de grandes clube que tentaram tirá-lo do Alto da Glória. O Globo Esporte chegou a dá-lo como técnico do Botafogo, e também do Flamengo. Não duvido que agora vá para o Vasco.

Mas, depois de dizer todas as qualidades deste grande homem que colocou seu nome na galeria dos maiores da gloriosa história do Coritiba, é preciso assumir que ele tinha defeitos, e que talvez fosse mesmo a hora de arriscar uma mudança.

Com Marcelo Oliveira o Coritiba nunca jogou bem contra times grandes fora de casa. A exceção foi o 3×2 no Santos na Vila Belmiro no final do Primeiro Turno de 2011. Com Marcelo Oliveira o Coritiba perdeu duas finais históricas contra times mais fracos, jogando o último jogo em casa. Com Marcelo Oliveira o time tinha assumido um pouco o discurso perigoso do “vamos ver se a gente consegue”, coisa temerária para quem está ameaçado de rebaixamento. Com Marcelo Oliveira, especialmente em 2012, o time entrou às vezes com escalações tímidas, e jogadores melhores no banco.

Pesando tudo isso, era mesmo hora de uma mudança dramática.

Entretanto, os problemas que o Coritiba teve sob o comando de Marcelo Oliveira jamais apagarão seus memoráveis feitos. O Coritiba de 2011/2012 já se inscreveu como um dos maiores times da história do clube. Comparável a este, só o time que foi hexacampeão estadual na década de 1970, e que ainda esteve ali entre os quatro primeiros nos campeonatos brasileiros de 1979 e 80. Ou o time que foi campeão brasileiro em 1985 (mas era outro nível de campeonato, e não me lembro de um time que jogava tão bonito assim). Ou o time que beliscou uma vaga de Libertadores em 2003 (de novo: a concorrência era mais fraca).

O nome de Marcelo Oliveira está gravado em letras de fogo na camisa alviverde. Ninguém lhe tira este mérito.