Orquestra Sinfônica do Paraná é uma das 5 melhores do Brasil?

A Revista Concerto de setembro (nº 187) traz uma interessante matéria de Camila Frésca, com o título Brasil sinfônico (p. 24-26).

A matéria trata da sensível melhoria da vida sinfônica brasileira nos anos recentes, e da difusão geográfica das boas orquestras.  Se há 20 anos o Brasil não tinha nenhuma orquestra de alto nível, hoje já conta com um cenário bem melhor na OSESP e na Filarmônica de Minas Gerais (ambas em nível de excelência internacional), além de diversas outras orquestras em ascenção espalhadas pelo território nacional.

A matéria menciona os trabalhos recentes de Guilherme Mannis com a Sinfônica de Sergipe, de Helder Trefzger  com a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo, de Osvaldo Ferreira com a Orquestra Sinfônica do Paraná, de Marcelo de Jesus como adjunto da Amazonas Filarmônica e titular da Orquestra de Câmara do Amazonas, de Carlos Prazeres com a Orquestra Sinfônica da Bahia e de Claudio Cohen com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (em Brasília).

A excelente matéria entrevistou todos os maestros listados acima, trouxe um breve histórico dos trabalhos realizados para dar a estas orquestras estabilidade administrativa e programação artística regular, bem como levantou as principais demandas atuais – que no geral podem ser sanadas com o aumento do efetivo (contratação de músicos) e em maiores recursos para realizar programações mais ousadas.

Ficaram de fora da matéria outras orquestras já tradicionais, que não estão na crista da onda como OSESP e Filarmônica de MG, mas também não precisaram ser reconstruídas quase do zero como as que são mencionadas na reportagem. Me lembro agora, sem procurar muito, da Orquestra Sinfônica Brasileira, da Orquestra Petrobrás Sinfônica (ambas no Rio de Janeiro), da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, da Orquestra Sinfônica da Paraíba, da Orquestra Experimental de Repertório (São Paulo), além de outras orquestras menores em efetivo mas de não menos importância na vida cultural local.

Ou seja, hoje podemos assistir a um círculo virtuoso, onde há competição entre estados e municípios que pretendem ter orquestras de alto nível e obter destaque no cenário nacional. As grandes capitais do Sudeste levam vantagem nos quesitos disponibilidade de recursos públicos e privados, disponibilidade de solistas internacionais, disponibilidade de músicos locais, disponibilidade de público com tradição de frequentar concertos, entre diversos outros fatores.

Mas está provado que as cidades de importância regional também podem (e devem) ter seus brios, e que mesmo com menores recursos, um trabalho sério pode dar ótimos resultados.

Entre as diversas declarações interessantes que Camila Frésca anotou das entrevistas com os maestros, uma me chamou a atenção. Foi quando Osvaldo Ferreira, o maestro português que dirige a Sinfônica do Paraná, afirmou que seu conjunto está entre as cinco melhores orquestras do Brasil.

Bravata ou declaração fundamentada?

Difícil de avaliar o quanto pode ser verdadeira esta afirmação.

Eu diria que não é possível fazer nenuma comparação de qualidade técnica com a Filarmônica de Minas Gerais, que vi tocar aqui em Curitiba ano passado, e está num patamar bem mais elevado. Nunca ouvi a OSESP, mas é óbvio que ela é a melhor do Brasil, talvez ameaçada de perto pela Filarmônica de MG.

A Orquestra Sinfônica Brasileira é outra que não ouvi. Mas a qualidade de sua programação e os comentários gerais que leio me levam a cotá-la para o terceiro lugar neste pódio da vida orquestral brasileira. Ainda acredito que a Amazonas Sinfônica (também pela qualidade da programação) deva ser a maior candidata a ficar com o 4º lugar.

Sobra um honroso quinto lugar a ser disputado pelas muitas outras orquestras mencionadas ali na matéria.

A Orquestra Sinfônica do Paraná tem condições de rivalizar com as demais em qualidade musical e de programação? Acredito que sim. Mas não está claramente acima das demais orquestras citadas como exemplos positivos. O que nos leva a pensar que Osvaldo Ferreira cometeu um certo exagero.

Entretanto, descontando o entusiasmo de nosso maestro, é notável como o trabalho dele em Curitiba vem fazendo a cidade poder voltar a ter orgulho de seu conjunto orquestral. Ou melhor, todo o Paraná, que a OSP voltou a respeitar o contribuinte do interior fazendo viagens e concertos pelo estado. Também acho muito positivo que eu tenha visto uma orquestra européia aqui e não tenha ficado nada impressionado – nossa OSP não deve nada à Orquestra Acadêmica de Madrid.

A Sinfônica do Paraná já teve bons momentos de protagonismo, pois quando de sua fundação em meados da década de 1980 as demais orquestras do país estavam em petição de miséria. A boa fase durou até o início do governo Jaime Lerner, em 1995, quando os grupos políticos dominantes no país jogaram os investimentos em cultura e em equipamentos públicos para o último lugar da lista de prioridades. A realidade hoje mudou muito, e a OSP está em ascenção, especialmente fazendo uma ótima temporada em 2012.

Mas a concorrência agora é bem mais dura, e o governo do Paraná não é exatamente dos mais dispostos a investir (nem em cultura nem em nada). A temporada da OSP segue muito boa naquilo que dá pra fazer com o que está à mão, sem gastar dinheiro. Por isso, o curitibano continua sem assistir ópera, e terá apenas uma montagem de balé, além de não haver recursos para encomenda de obras a compositores de destaque.

De qualquer modo, o cenário para a música sinfônica é bastante promissor no Brasil, e a esperança é de que a boa quantidade de orquestras decentes estabilize em trabalhos duradouros, formando público e novos músicos, multiplicando orquestras, fornecendo ambiente para novos compositores. Já passa da hora de o Brasil aproveitar seu imenso potencial humano na área de música sinfônica, e fazer projetos consistentes para se tornar uma verdadeira potência no assunto. O caminho é longo, e estamos dando os primeiros passos na direção correta.

3 thoughts on “Orquestra Sinfônica do Paraná é uma das 5 melhores do Brasil?

  1. Marcelo Oliveira

    Caro André! Ainda conversamos pouco e sei que sua intenção é de que tenhamos um cenário cada vez melhor por aqui. Só gostaria de ressaltar que já estive muitos anos em contato com a Sinfônica Brasileira, também com a de Minas Gerais, o que poderei com certeza dizer que são as 3 melhores do País, mas ainda tem a Petrobras Sinfônica, a de Porto Alegre, enfim, muitas outras antes de relacionar a OSP, infelizmente. Só acho que a Filarmônica Amazonas, que já tive a oportunidade de tocar junto, recentemente, em 2009, não é párea para nossa orquestra, com desigualdades entre naipes bem transparentes e apesar das músicas em sua programação, não quer dizer que realizam ótimas apresentações. Assim como a nossa, que por vezes programa músicas incríveis, mas não quer dizer também que faz suas apresentações impecáveis. Acho que escrever críticas sem ao menos estar presente aos concertos, daqui ou de outros Estados, pode cair em “chutes” no ar… Acho que realmente o Brasil está se virando como pode com os recursos disponibilizados para a educação e cultura, mas com certeza, público é o que não falta. Falta é divulgação e investimentos, interesse de quem administra, Estado, Governo Federal. Enfim, vamos em frente, mas com mais sabedoria em colocar a cizânia pelo meio, que faz com certeza muito mais que as condições que nos são dadas. Ainda não estamos nem mesmo no patamar de lugares como Argentina ou Venezuela, que com certeza desenvolveram ao longo de muitos anos o respeito pelas produções culturais, estrutura e condições de trabalho para os artistas. Torço como você por um cenário melhor, mas comparar a gente com qualquer outra, ou mesmo qualquer orquestra, ainda sem mesmo ter assistido, me parece um tanto absurdo. Acho que precisamos de ajuda sim, mas não de cizânia. Abraços, com muita música sempre!

     
    1. André Egg

      Marcelo,

      você está coberto de razão. Meu comentário sobre a orquestra do Amazonas é puro chute. Nunca vi concerto deles. Só ouço falar, vejo a qualidade da programação das temporadas de ópera, e conheço um pouco o trabalho do Malheiros.

      A competição entre orquestras é uma coisa saudável, não é cinzânia. É como times de futebol. Todo mundo tem que jogar para ser o melhor.

      Abraço, e parabéns pelo trabalho.

       
  2. Cristina Paixão

    Parabéns por tão rica iniciativa. Por tão exaustiva pesquisa, pelo excelente resultado que daí surgirá. Pelo que percebi já houve apresentações,de modo que se retomam é porque tem boas pernas para excelente caminhada! Muito interessante. Mais uma vez, parabéns!