Dois mil e treze

Foi um ano assaz aprazível, embora os problemas e vicissitudes da existência e os haveres com a miséria da condição humana com os quais somos obrigados a nos defrontar diariamente.

Dias atrás eu saí do cargo de coordenador do Curso de Bacharelado em Música Popular da antiga FAP, agora UNESPAR. Acho que fiz o que eu podia, embora não foi o que eu deveria nem muito menos o que eu queria. Entretanto, entrei no cargo com a determinação de não fazer mais do que seria razoável, e acho que em alguns momentos eu descambei. Em condições normais de temperatura e pressão coordenar curso já é difícil. Com os problemas básicos de estrutura de curso da FAP foi um pouco pior. Sala para a coordenação de curso? Nem pensar, uma sala para todos os 8 coordenadores, separados por baias. Agente técnico administrativo para fazer a secretaria de curso? Nem pensar, uma funcionária para atender todos os 8 cursos, e isso foi designado algum tempo depois que eu já era coordenador. Nessas condições, coordenador faz tudo menos coordenar: atende aluno, comunica professor, faz edital, faz memorando, faz ata, escreve e-mail, faz relatório, telefona, atende telefone, etc. etc. etc. O negócio era tão sério que depois de algum tempo cheguei à conclusão que trabalhar (fazer alguma coisa que a gente deve fazer, do tipo ir lá, começar e terminar um troço) só se eu não aparecesse na sala das coordenações. O negócio só não foi ruim de verdade porque os colegas, sejam os professores do curso, sejam os alunos, sejam os professores e coordenadores dos outros cursos – esse pessoal realmente fez a vida valer a pena em meio à trama kafkeana que é a administração pública no Brasil, especialmente no Paraná, especialmente na FAP.

Mas, doravante tudo irá melhorar. É que agora somos UNESPAR! Bem, na real, por enquanto será só trabalho para construir do zero esse negócio todo, isso que ainda tem um monte de gente atrapalhando o máximo que pode, tentando surfar politicamente na criação de mais universidade estadual, como se isso pudesse solucionar alguma mazela. Bem, isso me faz voltar à questão da coordenação de curso, e lembrar que de agora em diante não preciso mais ser castigado com tantas reuniões intermináveis que não resolvem nada. Já não vou mais sofrer diretamente as consequências de ter uma direção que faz exatamente ao contrário do que propôs em campanha, cujo lema era o diálogo com a comunidade acadêmica. Para os próximos anos pretendo ter mais tempo para preparar as aulas e fazer pesquisa, além de produzir mais em publicações acadêmicas.

Até porque, se os astros colaborarem, a gente deve finalmente conseguir chegar a um projeto consistente de stricto sensu em música na UNESPAR. É parte das exigências de credenciamento da universidade ter mestrados, e é parte dos objetivos pessoais dos professores que são mais empenhados com aulas e pesquisa em alto nível. Isso não acontece em departamentos que só têm graduação.

Neste sentido, 2013 foi o ano de colher um pouco dos frutos de trabalhos feitos em anos anteriores. A publicação resultante do Congresso de Música, História e Política, evento realizado em 2012, cujos anais saíram em 2013. O artigo sobre músicos brasileiros e norte-americanos na política de Boa Vizinhança, escrito para o dossiê da Baleia na Rede. Tem mais coisa que vai acabar saindo em 2014. Outras parece que estão saindo em 2013 mesmo, mas ainda não tenho link aqui pra provar pra vocês então fica pra depois.

Um parêntese: não vou falar aqui sobre os blogs que li este ano, afinal tenho colocado as coisas aí na lista de links à direita – a parte descrita como “eu leio”, e que até outro dia eu acompanhava pelo Netvibes e que agora passei a assinar pelo Feedly, porque me parece que interage melhor entre desktop e smartphone/tablet. Entretanto, das coisas que aprendi em blogs, sem dúvida a melhor descoberta foi o guia da vida universitária escrito pelo blogueiro/pesquisador Leonardo Monastério.

Andei revendo tudo que já publiquei na internet, organizando arquivos esparsos para, quem sabe alguma coisa ser aglutinada e revisada para virar livro. Nos 6 anos que vão de 2008 a 2013 publiquei 1725 textos em 11 blogs ou páginas (já expurgados os textos curtos e efêmeros dos tempos em que a gente fazia em blog o que hoje faz no facebook). Alguns ainda ativos, na parte “eu escrevo” da barra à direita desta página. Outros já sepultados, alguns agora excluídos definitivamente outros mantidos como arquivos – estão na parte “eu escrevi” da barra à direita. É coisa demais, obviamente a maior parte tudo bobagem. Mas 2013 foi ano de uma diminuição de ritmo. Talvez porque os primeiros resultados comecem a aparecer em livros e publicações acadêmicas em papel e/ou digitais, o que faz com que a gente vá redirecionando um pouco as ganas de escrever para coisas que não desmanchem no ar com tanta facilidade como costumam ser os textos de blog.

De qualquer forma, não me arrependi de manter este espaço próprio, principalmente para organizar materiais de aula e escrever uma ou outra reflexão sobre assuntos que são importantes (pra mim, é claro). Não me arrependi de colaborar no Amálgama, só me arrependo mesmo de não ter tempo de escrever mais pra eles. Não me arrependi de manter o blog História Cultural no portal da Gazeta do Povo, também só de ter  tido pouco tempo de escrever lá. Agora eu descobri também que a versão para Android da Gazeta é uma experiência de leitura muito melhor que a de papel, e eu já estou lendo jornal como nunca antes. Até porque este é um dos poucos jornais do Brasil que melhorou bastante seu conteúdo nos anos recentes, deixando de ser o patinho feio em relação à imprensa de outras praças mais importantes, e virando realmente um jornal que a gente escolhe ler entre as várias outras opções possíveis.

Tô falando aí de “barra da direita” mas neste template que estou usando agora (vou mudar logo, não se preocupe) isso só aparece se você estiver na página principal, e não na página de post. Também tô falando aí sobre smartphone e tablet, que para mim estão num aparelho só, e que são coisas que só comecei a usar este ano, e no finalzinho. Teria tanta coisa pra falar sobre esta experiência e os aplicativos que uso e recomendo, que isso vai ficar para um outro post. Só tô tentando me lembrar como é que dava para viver sem isso fazendo o tanto de coisa online que eu já fazia.

Não posso dizer que não me arrependi de tentar escrever no Do alto de tantas glórias. Era para ser um ano único. Pela primeira vez na vida eu me tornei sócio do Coritiba, e acompanhei quase todos os jogos no Couto Pereira. Era para cada um dos jogos ter recebido uma crônica lá, e teve momentos em que eu cheguei a pensar que o Coritiba estava realizando sua temporada mais memorável de todos os tempos. Com a volta de Alex, tetracampeonato, liderança, invencibilidade e tal. A coisa desandou depois, e se eu tiver tempo de escrever o texto que eu imaginei para fazer uma revisão da temporada, ele vai se chamar “2013: um ano para esquecer/um ano para não esquecer”. Sim, porque esses olhos que a terra há de comer viram vitórias épicas com o Alex fazendo miséria, mas eu também estive lá num frio do cão para ver um time irreconhecível perder do Itagüi da Colômbia (confesso que tive que procurar na internet pra lembrar o nome do time agora), estive em noite de chuva para ver o Coritiba perder do Criciúma e entrar na zona de rebaixamento, e levei meus filhos no estádio pela primeira vez, no dia dos pais, para ver a gente perder do Vasco. Bem, torcer é assim, e o futebol não seria tão mágico se fosse mais previsível, ou se o “planejamento” dos cartolas desse sempre certo.

Como ninguém é de ferro, esse ano eu assisti mais filmes e li mais livros sem resenhar no blog. Assisti menos concertos do que gostaria, e fiz menos críticas. Mas também, eu fiquei até setembro na comissão do mecenato da Fundação Cultural, que é uma coisa pra matar qualquer um, como já contei aqui logo depois que acabamos a avaliação dos projetos. Depois disso ainda teve todos os procedimentos insanos de analisar cada solicitação de mudança de músico ou de realocação de verba e de fazer as oitivas dos que furaram em alguma parte da burocracia.

Sobreviver a um time como esse e a cargos administrativos como esses, só mesmo descobrindo o mundo fabuloso das cervejas gourmet, coisa que fiz em 2013 como nunca. Algumas delas eu fotografei, outras não. Talvez algum dia eu escreva sobre estas experiências aqui.  Eu também tentei cozinhar um pouco, fazendo algumas trapalhadas mas me divertindo bastante no final. Fiz cafés melhores em casa. Viajei pouco, afinal a grana tá curta e isso está cada vez mais caro neste país. Mas a gente sempre dá um jeitinho de não ficar mofando nessa cidade de clima inóspito.

Depois de muitos anos batendo cabeça, em 2013 eu participei assiduamente de uma pequena igreja evangélica onde temos importantes relações pessoais. Usei os dois ouvidos que tenho (entra por um sai por outro) para a parte dogmática e aproveitei a convivência dos ótimos amigos. Não me membrei, não dei dízimo, não fui em assembleia, não discuti muito. Não me lembro se cheguei a escrever sobre religião este ano, mas lembro que tive que excluir alguns amigos do meu facebook para a amizade poder continuar fora dele. Quem me conhece sabe que esse assunto deu uma folga nas minhas reflexões, mas não vai ser pra sempre. Talvez as próximas coisas eu elabore com mais profundidade em algum livro, afinal, livro não tem caixa de comentários, e embora eu ache que o fundamentalismo deva ser enfrentado, quero me afundar o mínimo possível neste esgoto. Eu só não preciso me preocupar tão seriamente com isso agora por que tem gente fazendo trabalhos imprescindíveis e, mesmo sem romper com a teologia ortodoxa, estão caminhando para longe das práticas eclesiais condenáveis e refletindo sobre este processo – como os amigos Paulo Brabo e Tuco.

O mais importante mesmo é que convivi com as pessoas que são realmente especiais. Nem posso tentar falar aqui de todos, então vou ficar só nos bem mais próximos. As reuniões de conjuntura com o Fabio Poletto e o Artur Freitas foram mais negligenciadas do que gosto de admitir. Prometo corrigir isso em 2014. Também foi muito escassa a participação no grupo de pesquisa em que estamos eu, a Laize Guazina, o Fabio Poletto e o Allan Oliveira como “comissão científica”. Obviamente, a gente se diverte mais do que tudo com o negócio, e vamos esquentar bastante em 2014. Tive o prazer de conviver ainda com alguns outros amigos especiais, mas bem menos do que eu pretendia, sempre premido pelos compromissos de trabalho excessivos. Mas não posso deixar de dizer um pouquinho sobre os que mais importam:

Neste ano vi minha filha mais velha fazer 10 anos, mas antes disso também vi o meu mais novo fazer 7. Isso significa que eu tenho companheiros para nadar, correr, andar de bicicleta, jogar futebol, pintar, desenhar, jogar xadrez e quaisquer outros jogos de tabuleiro, montar quebra-cabeça, assistir filmes, contar piada, fazer adivinhações e charadas, etc. e etc. Também tive que ajudar nas tarefas, dar broncas, levar na escola, em médico, em cursos, etc. e etc. Mas, tudo que é bom tem seu preço – e quanto melhor mais caro costuma ser.

Foi também o último ano das crianças numa escola particular bem cara que é considerada uma das melhores da cidade, na qual eles estudaram por muito tempo porque minha esposa foi professora lá. Posso dizer que alguns momentos foram muito bons, mas nos últimos anos eu estava realmente convencido que a parte substancial da minha renda que foi destinada às mensalidades (eu nunca poderia pagá-las inteiras, foram sempre com bolsas e/ou descontos) não retornou devidamente em ensino de qualidade nem numa formação realmente consistente (imagine quem pagou tudo que eles pedem). Neste exato momento estamos na fila de espera por vaga em algumas escolas municipais e peregrinando por outras particulares mais baratas, das quais não estamos muito convencidos.

A Maris passou no mestrado da UDESC, que é uma coisa que significa o resultado de esforços bastante penosos ao longo dos últimos. Pra resumir, ela ficou grávida da nossa filha mais velha no meio de uma pós lato sensu, e a vida estudantil ficou interrompida por tempo demais, o que veio a se somar à educação básica fraca que tivemos nos anos 1980, à graduação fraca que fizemos nos anos 1990, e voltar a tentar fazer os estudos em alto nível significou muito esforço que agora começa a ser recompensado. Eu termino 2013 muito orgulhoso de estar ao lado dela e de poder contribuir de alguma forma para ela não fazer menos do que ela quer e do que ela pode. Ela merece. Não preciso dizer aqui, mas além da companhia das crianças, conviver com ela foi o melhor que tive em 2013.

Não sei. Talvez eu pudesse falar de mais coisas numa retrospectiva, deve ter acontecido mais um monte de coisa importante num ano inteiro, mas não preciso ficar enchendo ninguém com mais coisa particular. As coisas públicas saíram nos jornais, todo mundo sabe, e sobre esses assuntos eu costumo escrever bastante em condições normais.

Mas as viradas de ano são pra gente fazer reflexões e novos planos. E vocês podem ver que na verdade eu não fiz uma retrospectiva, mas eu organizei algumas lembranças já projetando um futuro que eu vou perseguir em 2014. Espero que todos levem deste ano lembranças boas como as minhas, e tenham projetos novos e instigantes para a próxima volta da terra em torno do sol.