O blog História Cultural será descontinuado

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Como parte de um grande processo de reestruturação do jornal Gazeta do Povo, alguns blogs serão desativados, inclusive o blog História Cultural, que mantive lá com postagens esporádicas entre 2011 e 2015. A reestruturação do jornal já vem acontecendo desde o início do ano, com a troca da direção de redação (saiu a Maria Sandra Gonçalves, que transformou a Gazeta num jornal de verdade em seus anos de trabalho lá, e entrou o Leonardo Mendes Jr, super jornalista esportivo – que Deus o ilumine), com a mudança de formato do jornal impresso e com a reformulação da página na internet.

Entendo perfeitamente as mudanças que o jornal está tendo que fazer. Jornal é uma coisa deficitária faz um tempo. As receitas com publicidade impressa caíram muito, as assinaturas online não engrenaram, a publicidade online não resolveu o problema, as vendas de jornal impresso também caíram. Brasileiro (e curitibano ainda mais) nunca leu jornal, e agora menos ainda, já que se julga bem informado usando o facebook. Por outro lado, quando o jornal decidiu que não deixaria espaço no servidor para tantos blogs, o meu já estava na lista negra, porque meu último post é de outubro de 2015. Eu já tinha recebido um comunicado há algumas semanas, quando escrevi o rascunho deste post. Naquele momento, meu dilema era se eu dizia pra eles que queria continuar com o blog ou se assumia minha impossibilidade de tempo e fechava o boteco. Até então a informação era de que o acervo de posts continuaria disponível. Agora nem isso – no final de abril o blog sai do ar pra valer, nem os posts ficam.

Mas prometo que vou repostar aqui aqueles textos que acho que se sustentam (principalmente resenhas de livros que continuam importantes, e uma ou outra reflexão da qual eu não me arrependa). Fica então aqui um roteiro do que escrevi lá, e dos post que apareceram ano a ano. Para os que eu republicar aqui, vou colocar link no título das postagens (à medida que for republicando). O que estiver sem link é porque ainda vai aparecer, ou porque ficou mesmo pra trás.

(comentário inserido em 16/11/2016: depois entendi que não apagaram os arquivos, apenas cancelaram minha credencial para continuar postando. Então vou inserindo os links abaixo para as postagens no blog mesmo, uma vez que vejo que os posts não aparecem nas pesquisas do google. Caso isso mude, faço o prometido e reposto alguma coisa aqui.)

 

A lista dos posts de 2011 no blog História Cultural:

A História Cultural e o blog

Entre a história, a música e a teologia: o perfil do blogueiro

A importância da música nova

Ateísmo em discussão

História e música: os anos 60 – minha palestra no IFPR

José Miguel Wisnik – Machado maxixe: o caso Pestana

Os 30 anos do Conservatório Villa-Lobos: uma homenagem a Valdomiro e Jane

A longa e agônica decadência do futebol brasileiro – a propósito da derrota do Santos para o Barcelona

 

A lista dos posts de 2012 no blog História Cultural:

O Jesus de Saramago

Curitiba pode ter música popular?

Bem-vindos à quaresma (o caso das salsichas)

Sobre a relevância dos departamentos de música em Curitiba

História e Música – mesa na Semana Acadêmica de História da UFPR

Os 27 anos da Orquestra Sinfônica do Paraná

Um pedido de desculpas e uma geladeira no blog

O maestro Ricardo Bernardes voltou a Curitiba para estrear duas óperas luso-brasileiras do século XVIII

 

A lista dos posts de 2013 no blog História Cultural:

Um balanço da 31ª Oficina de Música

A renúncia do Papa: uma perspectiva histórica

Uma entrevista de Robert Darnton: a importância da história e o futuro do livro na era digital

Musicologia, história e ciências sociais e Políticas públicas: duas mesas no IX Forum de Pesquisa em Artes da EMBAP

Sobre a Comissão da Verdade e um sofisma do historiador Marco Antônio Villa

O futebol da contracapa: uma etnografia da Suburbana em Curitiba

As comemorações dos 10 anos do curso de Bacharelado em Música Popular da FAP

O lugar de Carlos Gomes na História da Música

Agora que o portal da CAPES voltou, mais alguns trabalhos sobre Carlos Gomes

 

A lista dos posts de 2014 no blog História Cultural:

História Cultural: o blog e o blogueiro, versão 2014

Marcos Napolitano e a história do Regime Militar

Lorenzo Mammi: o LP como forma de arte

Xabier Basurko: O canto cristão na tradição primitiva

Os três anos de Osvaldo Ferreira à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná

50 anos do golpe e algumas boas leituras

Lamento e arioso: 40 anos da Camerata – o que lamentar e o que comemorar

O concerto da Filarmônica da UFPR: 100 anos da Primeira Guerra

Chico Buarque 70 anos

1964: a história do golpe por Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes

Stefan Geiger e Orquestra de Câmara de Curitiba: Stravinski, Antheil e Adams

O centenário de Guerra Peixe e a Sinfonia nº 1 com a Filarmônica UFPR

O ciclo de palestras e concertos “Desde a música eletroacústica”

Os posts mais lidos em 2014

 

A lista dos posts de 2015 no blog História Cultural:

Helma Haller e o Collegium Cantorum: Villa-Lobos – Missa de São Sebastião

Reza Aslam: Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré

Literatura e história: Umberto Eco, O cemitério de Praga

Palestra de Marcos Napolitano e lançamento do livro Arte e Política no Brasil

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

Palestra: A história cultural em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda

Cinema e história: Estrada 47

Mesa redonda: o jazz em trânsito na América Latina

Umberto Eco: Número Zero

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

Tim Blanning: O triunfo da música

 

 

Seminário de Iniciação Científica do Grupo de Pesquisa

Pessoal, o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade está realizando seu I Seminário de Iniciação Científica.

Os alunos que estão desenvolvendo as pesquisas no Programa 2015-2016 vão apresentar resultados parciais (as pesquisas são desenvolvidas de agosto a julho), e teremos comentários e debates com professores do Grupo.

Será nos dias 02 e 03 de março, quarta e quinta próximos, no Auditório da FAP.

Programação e maiores detalhes na página do Grupo.

O evento é aberto ao público.

Por que votar em Fabio Poletto para diretor da EMBAP

Cartaz da chapa Movimento Belas

Cartaz da chapa Movimento Belas

Conheço o prof. Fabio Poletto há vários anos e tenho com ele uma experiência não apenas de amizade, mas de parceria de trabalho. Desde os tempos em que éramos estudantes, quando fizemos muita coisa juntos, principalmente na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Até mais recentemente, como professores, eu na FAP e ele na EMBAP, desde 2011 trabalhando juntos no mesmo Grupo de Pesquisa e mais recentemente convivendo em reuniões administrativas (eu como coordenador de curso ou diretor de centro, ele como chefe de divisão de pesquisa). Mais importante de tudo, convivi e trabalhei intensamente com o Poletto na comissão que está propondo o mestrado em música, formada por professores da EMBAP e da FAP.

Devido a esta parceria posso atestar que o Poletto tem grande capacidade de trabalho, não tem medo de cara feia e faz as coisas com grande eficiência. Ele tem pautado seu trabalho pela ética, pela capacidade de colaboração, pela sinceridade em ouvir e sobretudo pela habilidade em fazer tarefas difíceis. Tem a capacidade de cumprir prazos, mesmo fazendo várias coisas importantes ao mesmo tempo.

Acredito que essas qualidades são essenciais e farão dele um ótimo Diretor de Campus. Vocês podem achar que eu sou suspeito para falar dele, e que tudo que escrevi acima é puxa-saquismo. Não é. Mas em todo caso, sigo com algumas questões mais específicas que me levam a considerar que a candidatura dele representa um passo muito importante para o futuro da Belas.

Antes de falar de outras coisas é preciso salientar que o Poletto constiuiu uma ótima chapa com o Eloi. Acompanho o trabalho do Eloi como Conselheiro no CEPE da UNESPAR, do qual também faço parte, e ele tem sido lá uma voz ponderada, um cara que vem com os documentos lidos e com posições bem fundamentadas. Também convivi com o Eloi durante a greve, e pude perceber como alguém com o conhecimento dele faz a diferença em momentos difíceis. Nas oportunidades em que confraternizei com ele em meio a reuniões do CEPE pelo interior do Paraná, ganhei motivos para considerá-lo uma grande pessoa, um bom caráter.

Pensando estrategicamente: o futuro da UNESPAR terá de passar pela melhoria da oferta de trabalho de agentes universitários, nosso ponto fraco. Temos poucos agentes em comparação com as outras universidades e com nosso número de alunos e de professores. Isso significa que o trabalho administrativo fica sempre comprometido, com resultados catastróficos para o funcionamento da UNESPAR. Uma chapa com um professor e um agente universitário parte de um diagnóstico correto da situação: a UNESPAR precisa da participação ativa dos agentes universitários na sua gestão. Temos experiência positiva neste sentido na FAP – elegemos uma Direção de Campus com a professora Pierângela e o agente universitário Marcelo. Já estamos colhendo resultados positivos.

Talvez a principal questão seja pensar qual o diferencial do Poletto em relação aos demais candidatos.

Pouco conheço o Carlos Iansen, e tendo a dizer que a folha de serviços dele na EMBAP e na UNESPAR é pequena ainda para que seja alçado a um posto tão importante. Não sei em que ele traria colaborações.

Conheço bem e me considero amigo do Marco Koentopp, e não há dúvida que ele já demonstrou sua capacidade de trabalho, e sua atuação na EMBAP e na cena musical curitibana tem sido destacada.

Mas aí entra a questão que considero estratégica: Fabio Poletto é hoje o candidato que tem melhor trânsito acadêmico e melhor entende o funcionamento da universidade. Como membro do Conselho Universitário desde sua primeira composição, e como Chefe de Divisão ele é um professor que conhece e transita bem com outros campi, com a Reitoria e com as Pró-Reitorias. Além de conhecer bem os documentos e regulamentos da UNESPAR, pois participou de sua elaboração, discussão e aprovação no COU – segundo testemunhos de outros conselheiros, com uma atuação destacada.

Talvez nos anos recentes a comunidade acadêmica tenha pensado que o problema mais grave da EMBAP seja a falta de uma sede própria, onde possa desenvolver suas atividades com as condições necessárias. Esse é um problema grave, mas não é o pior que a EMBAP enfrentará. Há uma tendência natural da nossa universidade investir em estrutura física, e os vários campi com problemas da mesma ordem pressionam por uma solução conjunta que não poderá ser ignorada pelos futuros governos.

O pior problema da EMBAP, e digo isso como aluno egresso da instituição, onde estudei na década de 1990 e fiz graduação e especialização, é seu pouco envolvimento com o mundo universitário – seja o sistema de universidades brasileiro sejam as instituições internacionais. A incorporação à UNESPAR apresenta não poucas dificuldades e desafios, como a reestruturação dos cursos de graduação, a implantação do mestrado, e, principalmente, a visibilidade que a EMBAP tem dentro da universidade, levando em conta que ela tem um número de professores muito maior que o dos outros campi, com um número bem menor de alunos.

Quem não estiver pensando estrategicamente esses problemas, e não for capaz de conversar e argumentar sobre isso com gente de outras áreas do conhecimento não conseguirá segurar a EMBAP, encaminhar sua brilhante tradição para um futuro também brilhante. A EMBAP precisará desesperadamente de um negociador capaz e enérgico, ou, como definiu o professor Márcio Steuernagel em seu Facebook, “o momento requer um estadista”.

Neste sentido estratégico, considero que o Poletto é o homem certo. Votar nele é estar seguro para navegar nas águas turbulentas que a EMBAP enfrentará no processo de consolidação da UNESPAR.

A programação 2016 do Teatro Municipal de São Paulo

A programação 2016 do Teatro Municipal de São Paulo já foi divulgada. Faço neste post um comentário do ponto de vista de quem mora fora da cidade.

O Municipal de São Paulo, em vista do início do século XX (foto do sítio do Teatro)

O Municipal de São Paulo, em vista do início do século XX (foto do sítio do Teatro)

O Teatro Municipal é certamente um dos palcos mais importantes de uma das cidades mais importantes do mundo. No hemisfério sul do globo, provavelmente São Paulo só é comparável em termos de teatros musicais com cidades australianas, além de Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu, Caracas, Santiago. A cidade poderia ter uma vida musical comparável à de metrópoles da Europa, EUA, Canadá ou Japão, pelo tamanho e riqueza que ostenta. E o Teatro Municipal foi o primeiro palco a colocar São Paulo no caminho da civilização, com bastante atraso em relação às outras metrópoles sulamericanas mencionadas, todas com vida muito dinâmica desde o século XIX.

Construído como um teatro de ópera, o Municipal de São Paulo paga a pena de existir num país onde não existe ópera. Sim: o Brasil passou o século XIX e a maior parte do XX sendo um comprador de espetáculos de companhias italianas, de valor cultural bastante duvidoso, mas servindo com exatidão aos seus principais propósitos: o orgulho besta de classes dominantes retrógradas e o lucro fácil de empresários espertos.

Espera-se mais do nosso país no século XXI. Embora nosso nível de exigência cultural continue baixíssimo e, provavelmente, esteja caindo mais. Particularmente na música de concerto, apesar de muitas iniciativas louváveis e várias orquestras melhorando de nível de maneira impressionante em décadas recentes. Pior ainda na ópera: neste gênero somos um país sem teatros, sem companhias e sem programação, apesar do bom trabalho isolado de ótimos cantores e maestros dedicados.

Neste sentido, a programação 2016 do Teatro Municipal merece ser comemorada e elogiada. O Teatro passa por diversos problemas bem graves de gestão e financiamento, há bastante tempo. As prefeituras das últimas décadas parecem não ter dado muita atenção à programação artística do teatro, e neste sentido a gestão de Haddad se destaca positivamente.

A programação de 2016 confirma o que estou dizendo. Pra quem mora em São Paulo, o Teatro Municipal terá muita coisa boa pra se ver, de música coral, orquestra e de balé. Para mim, que moro em outra capital, e teria que viajar para São Paulo para assistir alguma coisa, pareceu pouco interessante.

Imagine alguém que, como eu, vai gastar passagem e hospedagem para assistir um concerto. Como estou a cerca de 400 km da cidade, não é tão longe que seja impraticável, nem tão perto que deva ir para alguma coisa que não valha MUITO a pena.

Basta dizer que nunca fui a São Paulo para assistir alguma coisa do Municipal, mas estou planejando fazer isso em 2016. Por quê?

Vejam a programação de óperas para a temporada deste ano:

Puccini, La Boheme, 7 récitas entre 30 de abril e 8 de maio.

Shostakovich, Lady Macbeth de Mtsensk, récitas de 12 a 17 de julho.

Richard Strauss, Elektra, 7 récitas entre 9 e 20 de outubro.

Carlos Gomes, Fosca, 7 récitas entre 7 e 17 de dezembro.

Quatro óperas em um ano é uma programação tímida para o tamanho da cidade e a importância do teatro. Mas, consideradas as ressalvas que fiz acima sobre sermos um país sem ópera, e levando em conta os permanentes problemas financeiros que assolam as instituições culturais no país, o TMSP faz bonito, procurando ser relevante na escassez.

O Puccini eu não vou assistir. Não que a obra não valha a pena, é que eu sei que poderei ver outras vezes, provavelmente na minha própria cidade. Talvez não numa montagem tão boa, mas não importa. Mas Lady Macbteh, Elektra e Fosca acho que vale a pena sair daqui de Curitiba para ir assistir.

Acho que nunca foram e provavelmente nunca serão apresentadas na minha cidade. Também não é um acontecimento recorrente em São Paulo, e desconfio que sequer sejam repertório nos principais teatros de ópera do mundo (a do Strauss deve ser das 3 a que mais fica em cartaz).

São duas óperas modernistas de importância inegável e uma ópera brasileira que talvez seja a principal criação do nosso país neste gênero.

As três óperas de Strauss estreadas entre 1905 e 1911 foram um marco na música europeia. Vários críticos já tentaram dizer quando começou a música do século XX, e quais marcos foram mais definidores. Alguns apontam a estreia da Sagração da Primavera em 1913, Paul Griffiths considera o Prelude à l’après-midi d’un faune de Debussy como uma obra seminal. Mas Alex Ross afirma que o século XX é marcado principalmente pela estréia de Salomé, em 1905. A fase mais criativa e mais impactante de Strauss seguiria com Elektra, estreada em 1909 e Der Rosenkavalier em 1911. Elektra é certamente uma das obras mais importantes do século XX, e provavelmente uma das mais importantes obras do repertório alemão. Talvez a maior, pra quem se autodeclarar sem a paciência e a dedicação necessárias para as obras de Wagner, como é o meu caso.

A ópera de Shostakovich que o Municipal vai apresentar marca o fim do momento mais criativo do compositor russo. Depois de ter sido um prodígio da vanguarda musical no momento mais rico da vida cultural soviética, a Lady Macbeth de Shostakovich lhe valeu uma condenação no Pravda, o enquadramento pelo regime de Stálin e seguidas prisões, ameaças de morte e outras amenidades. Além dos diversos outros motivos que tenho para me interessar por esta obra, só esse já vale: condenada pelo stalinismo, só pode ser coisa interessante.

Fosca é considerada por muitos como a obra prima de Carlos Gomes. O único compositor brasileiro a ter se inserido significativamente como compositor de óperas no mercado italiano, e o primeiro caso de reconhecimento da música brasileira na Europa, o compositor de Campinas continua sendo inexplicavelmente ignorado por nós. Exceto o massacre sonoro da Abertura de Il Guarany, de longe a música mais executada de todos os tempos no país (e provavelmente a mais mal executada também), Carlos Gomes continua sendo nunca apreciado no Brasil.

Como eu já disse, somos um país sem ópera, e por isso nosso único compositor relevante do gênero é simplesmente inexistente na nossa programação. Somos tão ruins nisso que nos damos ao luxo de montar ópera italiana do século XIX na maioria das vezes, e deixamos pra trás nosso compositor mais importante. Se a obra não tivesse qualidade musical nenhuma, já bastaria isso pra nos obrigar a assisti-la (quem se interessa por ópera, é claro).

Mas acontece que tem qualidade musical, e muita. Um pouco do porque Carlos Gomes merece ser ouvido está explicado em um texto que escrevi sobre ele. Não preciso repetir aqui.

Então é isso. Se precisar de um motivo para passear em São Paulo, provavelmente você terá, com a programação do Teatro Municipal em 2016, principalmente as óperas. Mas não faça como eu, que já fui uma vez a São Paulo e tentei comprar ingresso na hora – simplesmente não existe. É preciso fazer uma assinatura anual, ou comprar ingressos com muita antecedência. Como o Brasil tem pouquíssimo destas coisas, os lugares esgotam MUITO antes. Hoje está na fase de trocas de assinaturas (a renovação já passou). Assinaturas novas abrem dia 21 de janeiro e ingressos avulsos abrem para venda dia 15 de fevereiro.

 

Perdemos Gilberto Mendes e Pierre Boulez

Morreram Gilberto Mendes e Pierre Boulez. Se aqui no Brasil nós tendemos a achar que 2015 foi um ano catastrófico, 2016 já mostrou a que veio. Com diferença de apenas alguns dias, a primeira semana do ano já levou os dois maiores músicos da segunda metade do século passado – um líder estético no mundo e outro no Brasil. O brasileiro morreu, e, antes que eu pudesse escrever um texto, já chega a notícia da partida do francês.

Esta foi uma das peças que a vida prega no mundo, levar em datas tão próximas músicos de significado tão marcante.

Eu estou em viagem, sem meus livros por perto, o que significa que não poderei escrever com a profundidade que eu gostaria. Mas vamos lá, assim mesmo.

Pierre Boulez foi o líder da geração pós 1945. Uns jovens que perceberam que o nazi fascismo tinha significado a completa ruína cultural da Europa, e que a criação artística não podia seguir o caminho histórico linear que tinha desaguado nessa coisa toda. Era preciso, sobre as ruínas da Guerra, construir uma nova Europa, e isso só seria feito com a superação radical da tradição.

Ou, nas palavras de Boulez, o compositor que não partisse do zero, não fizesse tábula rasa do passado, não tinha entendido seu lugar no mundo que surgia dos escombros.

Essas ideias radicais foram enunciadas pelo jovem compositor em 1951, quando escreveu um necrológio nada elogioso ao mestre da primeira metade do século, Arnold Schoenberg. O texto foi escrito por Boulez para jornal, em 1951, e no Brasil está incluso no volume Apontamentos de aprendiz, onde saiu com o título “Morreu Schoenberg”. O título original francês é “Schoenberg est mort” que eu traduziria como “Schoenberg está morto”, dando um pouco mais relação ao título com o conteúdo do texto.

Porque era isso que Boulez propunha. Em linguagem mais coloquial: “Schoenberg já era”. No texto, Boulez defende que Schoenberg teve uma excelente ideia ao organizar os temas musicais em séries com as 12 notas do total cromático. O dodecafonismo do compositor alemão seria uma grande ideia composicional, mas Schoenberg teria cometido o grave erro de usar a nova técnica para tentar dar vida a velhas fórmulas. Não à toa, a primeira peça dodecafônica de Schoenberg foi uma Suite tributária ao modelo bachiano, com Preludio, Gavotte, Musette, etc.

A resposta composicional de Boulez viria com Structures para dois pianos, trabalhada ao longo de 1951. Nesta peça Boulez lançou o que viria a ser chamado de “serialismo integral”, ou seja, a tomada da ideia dodecafônica com um encaminhamento para o futuro, e não para o passado como Shoenberg tinha feito na década de 1920. Na peça de Boulez a técnica consistiu em criar uma série de alturas com as 12 notas, como Schoennberg já fazia, mas aplicar o número atribuído a cada nota para também produzir séries de durações e de intensidades.

O detalhe é que a música dodecafônica tinha passado praticamente desconhecida das novas gerações, à medida que teve dificuldades de ser publicada e executada nos anos 1920, e passou mesmo a ser proibida na Europa da década de 1930 quando os totalitarismos exerceram estrito controle da vida musical. A geração de Boulez iria descobrir a música dodecafônica nos cursos de férias de Darmstadt, mais especificamente a partir de 1948 quando a música dodecafônica começou a aparecer na programação (em cursos de composição de René Leibowitz e na programação de obras de Schoenberg, mas também em conferências de Koellreutter e na execução de música dodecafônica dos compositores brasileiros como Guerra Peixe, Santoro e Eunice Katunda – pode-se conferir na programação registrada aqui).

A descoberta da aventura dodecafônica de antes da guerra serviu de inspiração aos novos rumos, ainda mais radicais, que um nova vanguarda empreenderia nas décadas de 1950 e 1960. Boulez seria um dos principais compositores desta linha renovadora, acompanhado do trabalho de colegas como Stockhausen, Berio, Nonno, reforçados pelo experimentalismo de norte americanos como Babbitt e Cage. Para esta nova geração, o importante era pensar a composição a partir de técnicas que impedissem “compor com o ouvido”, o que significava, geralmente, estar preso à tradição. A técnica para livrar-se da tradição era compor com regras estritas, que obrigassem os compositores a resultados completamente novos, sem relação com  obra dos mestres clássicos.

Uma música tão apartada da tradição, como a que foi produzida por estes compositores, só pode prosperar num mundo onde chegou-se à conclusão de que o financiamento público ao experimentalismo das vanguardas era um necessário antídoto aos totalitarismos. Se nazismo, fascismo e stalinismo tinham perseguido as vanguardas, a democracia deveria apoiá-las. A música de Boulez e de seus contemporâneos foi uma música de laboratório, tocada por orquestras estatais e difundida por rádios e tevês estatais européias. Assim como os colegas norte-americanos se tornariam compositores de universidade (fenômeno que se observa também no Brasil em período mais recente). Até a CIA apoiou as vanguardas, contrapondo-se à possível influência do realismo socialista no Ocidente, em tempos de Guerra Fria.

As dificuldades em manter-se em uma linha criativa tão ousada, aos poucos levaram Boulez a potencializar seu trabalho como regente. O compositor percebeu que se os ouvintes não tivessem um bom conhecimento dos experimentalismos da primeira metade do século, sua própria obra de compositor talvez fizesse pouco sentido frente à onipresença de sinfonias de beethovens com filarmônicas de vienas regidas por karajans da vida. Para quem já comprou discos em loja, Boulez provavelmente é mais conhecido como regente, sendo atribuídas a ele várias das melhores gravações de Debussy, Stravinski, Bartok, Schoenberg e Webern.

Veja o instrutivo vídeo de um jovem Boulez fazendo o papel de anti-maestro regendo Jeux, de Debussy:

No Brasil, a realidade era muito diferente. O país viveu pequenos “engasgos” de vanguarda, que nunca chegaram a se a afirmar. Temos diversos compositores que fizeram criações bastante originais, mas numa terra de poucas orquestras, quase nenhuma editora de música (exceto para partituras de piano), conservatórios atrasados e intérpretes limitados, as experiências mais inovadoras de criação musical não tinham chão para prosperar.

O surto criativo de Villa-Lobos na década de 1920 apoiou-se no mercado de concertos parisiense, e Camargo Guarnieri só se firmou como compositor depois de ter suas obras executadas nos EUA na década de 1940. Entre 1941 e 1948 Koellreutter conseguiu arejar um pouco a cena criativa no Rio de Janeiro, com a atuação do Grupo Música Viva. Por um curto período, as obras de Santoro e Guerra Peixe abraçaram o experimentalismo.

Mas por volta de 1950 ninguém defendia vanguarda na música brasileira. Todo mundo tinha aderido ao populismo nacionalista, baseado em uma escrita neoclássica e em aproximação com o folclore – pensamento que embasava a criação dos principais compositores vivos então (Villa-Lobos, Mignone, Guarnieri, Santoro e Guerra Peixe).

Por esta época, lá em Santos estava o jovem Gilberto Mendes. Tentando estudar música mas com pouca empolgação com o nacionalismo conservador disponível no momento. Apesar da admiração por Guarnieri como compositor, a empolgação era pouca para estudar com uma cara que tinha escrito a Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil para dizer absurdos sobre o processo de criação e sobre a música nova.

Parece que a sorte de Gilberto Mendes foi ter estudado com Santoro, justamente o compositor brasileiro que mais tinha avançado no período de influência de Koellreutter, e o que abraçaria com mais vontade a vanguarda na década de 1960.

Assim, munido de um espírito irriquieto, e embebido por um ecletismo profético Gilberto Mendes começou a aparecer na década de 1960 com uma improvável produção altamente sofisticada e completamente deslocada do chão tradicional da música brasileira.

Não é exagero dizer que ele foi o único brasileiro a estar postado como um compositor na vanguarda mundial. Sua assinatura no Manifesto Música Nova em 1962 e composições como Santos Football Music ou o Moteto em Ré menor (o anti-jingle “Beba Coca-Cola” sobre poema de Décio Pignatari) ajudaram a evidenciar o completo descompasso da música brasileira feita então com a fronteira criativa no Ocidente.

Gilberto Mendes se tornou rapidamente o único compositor brasileiro a apontar rumos ainda não testados, e se tornou o principal expoente de uma geração que rompeu completamente com os grilhões de brasilidade que tinham aprisionado os compositores desde os tempos de Carlos Gomes. Indiretamente, pode-se dizer que ele foi beneficiado por uma transição importante na vida cultural brasileira – em algum momento da década de 1950 a “missão” de representar o Brasil em sons deixou de ser atribuída à música de concerto e passou à canção popular midiatizada. Enquanto movimentos como a Bossa Nova, a Canção Engajada e o Tropicalismo estabeleciam os novos parâmetros do que era a “música brasileira” e acabariam estabelecendo a sigla MPB, Gilberto Mendes estava livre para fazer simplesmente “música”.

Como profeta desta nova geração, Gilberto Mendes sempre foi muito consciencioso de sua responsabilidade, e a exerceu como ninguém. Ao contrário de seus antecessores, que gostavam de divulgar seus processos criativos e defender suas técnicas publicamente, inclusive de maneira bastante belicosa, Gilberto Mendes sempre ridicularizou isso de maneira aberta. Suas falas sempre soam como “anti-manifestos” diluindo, desdizendo, confundindo. Essa era sua “missão”: quando procuravam a pedra filosofal da música de vanguarda, Gilberto Mendes estava lá, para apontar sempre para o lado errado, e confundir os incautos (ver uma coleção de seus ditos nesta ótima matéria de João Luiz Sampaio). No dizer de Carla Delgado de Souza em uma mesa no II Festival de Música Contemporânea Brasileira, Gilberto Mendes foi mais que pós-moderno – ele foi “trans-moderno”.

Gilberto Mendes comentando suas obras num concerto no II FMCB

Gilberto Mendes comentando suas obras num concerto no II FMCB

Eu, que conheço pouco o compositor e sua obra, experimentei isso claramente na única conversa que tive com ele. Foi num jantar logo após a abertura do II FMCB, no qual ele estava como compositor homenageado e eu como conferencista. Num raro momento em que pude conversar um pouquinho com ele, na falta de assunto melhor, perguntei se as composições dele nos anos 1960 tinham sido influenciadas por Penderecki. A resposta dele foi a melhor possível:

Não! Imagina! A música de Penderecki é tão séria, a minha sempre foi uma grande brincadeira.

P.S. O falecimento de Gilberto Mendes aumentou sobremaneira a importância do II FMCB, realizado em março de 2015. Os homenageados eram ele e Edino Krieger, os dois maiores compositores brasileiros vivos. Eu tive o privilégio de estar lá e assistir diversos concertos e comunicações, e escutar o compositor falar da vida, de música e das suas obras. Escrevi alguns textos sobre o evento:

Bate-papo com Edino Krieger e Gilberto Mendes no FMCB

Thiago Kreutz e a obra para violão de Edino Krieger

Victor Hugo Toro e a Sinfônica de Campinas: o concerto de encerramento do FMCB

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

P.S.2 Escrevi um texto estes dias sobre os melhores concertos que assisti e que não assisti em 2015. Agora me lembro que talvez o concerto mais importante que não assisti foi o que estava programado para o II FMCB, com o PIAP (Grupo de Percussão da UNESP) tocando obras de Gilberto Mendes. O concerto foi cancelado, se entendi bem, por problemas de falta de verba, que impediu o deslocamento do grupo com seus instrumentos.

P.S.3 Os Anais do II FMCB com vários trabalhos importantes sobre Gilberto Mendes estão publicados aqui.

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti

Assisti poucos concertos esse ano. Tempo escasso, dedicado principalmente aos compromissos familiares e profissionais.

Entre os principais concertos que perdi, o que mais lamento foi não ter ido a nada da III Bienal Música Hoje. Ocorreu entre 14 e 22 de agosto, com uma programação interessantíssima.

Também não assisti nada da Orquestra Sinfônica do Paraná. Deve ter tido coisa interessante. Mas o meu tempo foi escasso, e a minha empolgação ainda menor. É triste ver um conjunto entrar em decadência logo após atingir seu auge, e tudo por não haver política pública e interesse em manter uma programação digna. Acho que agora a Orquestra vai precisar voltar a convencer seu público, depois de a direção do teatro jogar fora a boa experiência dos anos 2011-2013.

Pelos mesmos motivos pessoais assisti pouco ou nada da Camerata. Mas aqui ocorre o contrário: mesmo sem receber o devido apoio financeiro da prefeitura, a programação vem mantendo o nível ou melhorando, e a qualidade técnica é notavelmente ascendente. Ficou claro isso pra mim no concerto de encerramento, para o qual escrevi uma crítica:

Emmanuelle Baldini e a Camerata Antiqua de Curitiba: O Messias de Haendel

O outro concerto que assisti foi o que fiz palestra. Regido por Rodrigo de Carvalho (que vem fazendo ótimo trabalho sempre que rege aqui), teve Villa-Lobos, Copland e Bártok. Sempre gosto das apresentações da Orquestra de Câmara de Curitiba quando faz música do século XX, esse foi mais um concerto em que eles acertaram bastante. Acabei não escrevendo comentários sobre o concerto nem publicando as anotações da minha palestra (como fiz aqui em 2014).

Que o ano seria fraco de idas a concertos e críticas escritas já ficou evidente desde o início. A sempre boa e diversificada programação da Oficina de Música não acompanhei quase nada. Escrevi crítica sobre o concerto do Collegium Cantorum com a Missa de São Sebastião de Villa-Lobos. Infelizmente acho que o CD não ficou tão bom quanto a apresentação ao vivo. Gravar música de concerto não é nada fácil mesmo.

Acho que a melhor oportunidade de ouvir concertos que aproveitei este ano foi ter participado no II Festival de Música Contemporânea Brasileira, que foi dedicado a Edino Krieger e Gilberto Mendes, provavelmente os maiores compositores brasileiros vivos. Era muita coisa boa, palestras, debates, comunicações e concertos. Tentei fazer um apanhado geral neste texto:

Um balanço do 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira

E escrevi críticas específicas para 2 concertos:

Thiago Kreutz e a obra para violão de Edino Krieger

Victor Hugo Toro e a Sinfônica de Campinas: o concerto de encerramento do FMCB

Fiquei realmente muito impressionado com o trabalho de Victor Hugo Toro com a orquestra.

Outra impressão muito positiva foi assistir à Opereta Marumby (1928), de Benedito Nicolau dos Santos. Esse compositor foi um importante teórico musical no Brasil, injustamente desconhecido nos nossos dias. Nunca tinha ouvido nada dele, e o resgate dessa peça confirma a importância do trabalho musicológico que quase não se faz no Brasil. Tanta obra boa precisando ser apresentada, o que depende quase sempre de encontrar partituras invariavelmente mal preservadas – quando não totalmente perdidas.

No caso de Marumby, me parece que o trabalho de pesquisa (bem como a produção) foi feito por Gehad Hajar. Destaque também para Renata Bueno no papel de “Rainha da Boina”. Agora, o sucesso indiscutível nesta peça é para a entrada dos “caipiras”, representados em cena pela Orquestra Rabecônica do Mestre Aorélio, que encantou o público com seu fandango.

A apresentação fez parte do I Festivel de Ópera de Curitiba, que teve também uma apresentação de Sidéria de Augusto Stresser, que infelizmente não pude assistir.

Claudio de Biaggi e as crianças do Papo Coral ensaiando

Claudio de Biaggi e as crianças do Papo Coral ensaiando

Com pouca chance de assistir à programação, escolhi apenas coisas que eu tinha certeza que seriam boas. De modo que é difícil eleger o melhor concerto que assisti no ano. Do ponto de vista técnico. Porque emocionalmente pra mim o melhor concerto foi a seleção de cenas de mini-óperas que o Papo Coral apresentou no edital Ópera Ilustrada da Fundação Cultural de Curitiba.

Minhas crianças cantam no coral, por isso sou suspeito. Que é mais do que corujice minha pode ficar confirmado pelas opiniões de outras pessoas que assistiram à apresentação sem ter filhos no coral.

Além do ótimo grupo regido por Cristiane Alexandre, uma boa seleção de trechos (Dueto dos gatos de Rossini, L’enfant et les sortilèges de Ravel, Il maestro di musica de Pergolesi e Der Schulmeister de Tellemann) a fantástica direção de cena de Carlos Harmusch e o ótimo conjunto instrumental dirigido por Clenice Ortigara. Ver crianças participando de uma apresentação em tão alto nível artístico não é coisa comum. Destaque também para a participação de Claudio de Biaggi e para a execução de Clenice Ortigara, que impressionou tanto no piano nas peças de Ravel como no cravo nas peças de Tellemann.

Grupo Fato e os alunos da FAP, no TELAB

Grupo Fato e os alunos da FAP, no TELAB (foto Aline Lobo)

Finalmente, não é bem um concerto, mas também tem valor musical e emocional pra mim. Eu já tinha ido a um coquetel de lançamento do incrível disco Próximo, último lançamento do Grupo Fato, que dispensa apresentações.

E este ano eles foram conversar pra fazer um show na FAP, onde trabalho. Ajudei a organizar algumas partes, principalmente o edital que selecionou alunos para participarem do show. A incrível qualidade descoberta no trabalho dos alunos deu alegria demais para todos nós. Lucas Ribeiro, Josimar Artigas e Rafael Bueno participaram como gente grande, e tiveram suas composições intercaladas com o trabalho do Grupo. A apresentação foi muito bonita, e muito marcante pra quem estava lá. Descobri, no show, que muita gente no Fato foi aluno na FAP.

Um abraço e um agradecimento aos amigos Ulisses Galetto e Grace Torres. O disco dá pra ouvir no Soundcloud, e no Spotify. E a melhor música provavelmente é Indivídua – não deixe de ouvir.

Não foi tudo que assisti, mas espero que tenha lembrado dos mais importantes.

P.S. Veja também os outros textos desta série:

Retrospectiva 2015: livros

Retrospectiva 2015: filmes e séries

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti

Retrospectiva 2015: filmes e séries

2015 começou com um mau agouro terrível. Logo que voltei das férias, descobri que a locadora do meu bairro tinha fechado. Nos 6 anos que tinha morado neste endereço, no bairro Santa Cândida em Curitiba, uma das boas coisas a fazer no bairro era caminhar com as crianças até a locadora e escolher um filme. Conversar com o João, que tinha o melhor atendimento de locadora que já conheci.

Tudo isso acabou de repente. Agora, além de ter que pegar o carro pra comprar jornal, pão e outras coisas, ainda tenho que pegar o carro se quiser alugar um filme. A vontade de mudar desse bairro aumentou bastante depois disso.

Provavelmente eu sou culpado, afinal, ando alugando cada vez menos mídia, assistindo bastante Netflix. De qualquer forma, tem muita coisa que o Netflix não tem, e as locadoras continuam sendo muito necessárias. Agora fico apenas com meu cadastro da Cartoon Video do Cabral, provavelmente a locadora de melhor acervo da cidade, embora também ela esteja visivelmente reduzindo o espaço de exposição e a quantidade de filmes disponíveis. Será que é mesmo um negócio fadado a desaparecer frente ao streaming?

Mas dos filmes e séries que vi em 2015, pouco no cinema, parte na Netflix, parte alugado na Cartoon e parte comprada no acervo da locadora que fechou no meu bairro, os mais relevantes são os que explico abaixo.

O ano começou pra mim com Êxodo: deuses e reis de Ridley Scott. Achei fraco, e explico meus motivos na resenha que fiz pro Amálgama:

A Bíblia no cinema

A resenha faz comparação com Noé de Darren Aronofsky, que achei melhor na categoria “filmes de histórias da Bíblia”.

Do acervo que comprei da locadora, vi e me impressionei bastante com 12 anos de escravidão, e Ela de Spyke Jonze. Este último provavelmente o melhor filme sobre futuros distópicos. Um mundo de adultos inteligentes e bem remunerados, que vivem em cidades inteligentes, mas tem sérias dificuldades com relacionamentos humanos, e acabam envolvidos emocionalmente com sistemas operacionais que operam computador e smartfone de forma coordenada. Descrevendo assim parece bobo, mas não é. Grande atuação de Joaquin Phoenix, que prova que dá pra fazer MUITA COISA só com expressão facial.

Dos que aluguei na Cartoon, muito bom o Menino no espelho, baseado no romance de Fernando Sabino. Ótimo filme sobre infância, com MUITO destaque para a atuação dos atores mirins. O Lino Facioli esteve incrível no papel. Filme pra ver com as crianças ou simplesmente para voltar a ser criança um pouco.

Talvez o melhor filme que vi no ano (e um dos melhores filmes que vi na vida) foi Relatos Selvagens, um conjunto de pequenos filmes relatando diversas situações onde as pessoas simplesmente perdem a paciência. Trabalho magistral de roteiro, e grandes atuações. Parece que é um dos raros casos de sucesso de público e crítica.

Agradeço à minha página de ratings no IMDB, por ter me ajudado a lembrar que filmes assisti!

Dos filmes que assisti no cinema com as crianças, 2015 foi particularmente um ano fraco. Talvez os melhores tenham sido os que não consegui ver ainda – Divertidamente e O pequeno príncipe.

Além das animações e filmes infantis, os únicos que vi no cinema foram Estrada 47, um baita filme brasileiro, e 007 contra Spectre, um filme bom de ver mas que daqui a 10 anos ninguém vai lembrar. O Estrada 47 eu escrevi resenha, e parece que foi o primeiro filme brasileiro sobre a segunda guerra mundial:

Cinema e história: Estrada 47

brasileiros na guerra na Europa: personagens de Estrada 47

brasileiros na guerra na Europa: personagens de Estrada 47

Se o ano começou com péssima notícia do fechamento da locadora do meu bairro, terminou com uma notícia fantástica que confirmou que o Netflix se tornou mesmo indispensável. Até o momento eu tenho muita birra com o catálogo deles. Assisto ali muita coisa que me interessa, mas a marca maior é das ausências. Não está lá a filmografia de muita gente importante, embora haja um bom e crescente acervo de diretores como Woody Allen ou Quentin Tarantino.

A grande notícia é que Paris, Texas de Wim Wenders entrou no catálogo. Os caras estão começando a descobrir o que é cinema, e talvez daqui uns anos as locadores não sejam mesmo necessárias.

Entrando nas coisas que assisti no Netflix: principalmente séries. A experiência de assistir séries em serviço de streaming é realmente MUITO melhor que ficar esperando episódios na grade de programação das TVs por assinatura. Mais do que as locadoras, quem está ameaçado pela Netflix são as empresas de TV a cabo (ou satélite, seja o que for).

Das séries que comecei a assistir atrasado, destaco Downton Abbey, ótima trama entre uma família da aristocracia inglesa vivendo a decadência de sua posição social em um mundo de rápidas transformações no tempo da 1º Guerra Mundial. O modo como a série recria a vida numa propriedade, especialmente as relações entre patrões e criados, é muito fascinante, pelo menos para quem gosta de história.

Das séries atuais, as de conteúdo próprio da Netflix acho imbatíveis. House of cards já tinha impressionado tanto em suas duas primeiras temporadas que a 3ª teve um pouco de dificuldade de manter o nível. Entretanto, minha curiosidade antropológica pelo funcionamento da política americana me manteve ligado na série. Sobretudo, os roteiristas sabem como manter a trama sempre interessante, e terminaram a temporada como deveriam – deixando a gente morto de ansiedade para sair logo a 4ª temporada, que virá no início de 2016.

Outra que não recebeu o merecido destaque, mas que felizmente já tem segunda temporada anunciada, é Marco Polo. Negócio fascinante o retrato histórico e a cultura no Império Mongol e na China. Ainda não consegui conferir o grau de veracidade histórica que os caras deram à série, mas o que me importou até agora é qualidade cinematográfica do negócio todo (fotografia, roteiro, atuações, trilha sonora) – coisa fina.

Outra coisa que o catálogo da Netflix vai melhorando muito são os musicais (shows e documentários). Tenho um monte na lista dos que quero assistir. Destaco três do catálogo que já vi e recomendo bastante: A música segundo Tom Jobim, Djavan Ária e B. B. King Live.

Dos que assisti junto com as crianças, destaco: o ótimo anime Ponyo, O menino do pijama listrado (Mariana disse que o livro é muito melhor que o filme), o ótimo filme mexicano Canela (sobre relações familiares e sobre cozinha).

O que mais me irrita na Netflix é o mau hábito de tirar coisas do catálogo. Não sei qual é a lógica, mas pra mim não tem lógica.

E continuo esperando que um dia a Amazon traga para o Brasil um serviço como o Prime. Aí sim a Netflix teria concorrência. Dá uma olhada no serviço de vídeo que inclui.

P.S. Veja os demais textos desta série Retrospectiva 2015:

Retrospectiva 2015: livros

Retrospectiva 2015: filmes e séries

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti

Retrospectiva 2015: livros

É até meio temerário escrever esse post agora, porque faltam alguns dias pro ano acabar, e pode ser que eu leia ainda alguma coisa, já que as férias são o tempo de leitura por excelência. De qualquer modo, o que vier depois entra na contabilidade de 2016.

Não sei se vou lembrar de tudo que li – é mais provável que não. Também não leio muitos lançamentos, então essa lista aqui não é dos livros lançados em 2015, é só a dos que eu li este ano e não me esqueci que li. Normalmente isso significa aqueles tive tempo de escrever sobre, nem que seja uma avaliaçãozinha na Amazon. Então, os livros e os links para meus comentários.

Pra vocês verem o grau do meu atraso, e porque não fico comentando aqui os lançamentos do ano. Ainda não terminei sequer os livros relevantes do século XVIII, muito menos os de 2015. Em 2015 foi que eu li pela primeira vez a Jane Austen, e entendi porque ela é justamente um dos autores mais lidos de todos os tempos.

A abadia de Northanger

Razão e sentimento

De clássicos antigos para lançamentos um pouco mais recentes (mas também já clássicos):

O Umberto Eco é realmente muito fera. Li, e terminei com vontade de ler de novo várias vezes, O cemitério de Praga – uma história de espionagem no século XIX que parece a ficção mais esdrúxula mas é tudo verdade. No mesmo estilo, o lançamento Número Zero. Resenhei os dois:

Umberto Eco: Número Zero

Literatura e história: Umberto Eco, O cemitério de Praga

Sobre história e religião, assunto muito de meu interesse, tem um baita livro agora em português. Muita coisa importante sai em inglês, a gente fica por fora no nosso mercado editorial. Simplesmente obrigatório esse aí, bom demais para quem já tinha os fundamentos históricos da fé bem abalados (até ajuda a dar uma levantada, mas esse não será o efeito para a maioria, acho):

Reza Aslam: Zelota – a vida e a época de Jesus de Nazaré

Sobre as matérias que dou aula:

Já uso faz um tempo, mas não tinha terminado de ler. Agora fiz uma resenha, e acho que é livro clássico obrigatório nas bibliografias especializadas bem como nas estantes de curiosos:

Tim Blanning: O triunfo da música

Dois livros que tocam a questão do modernismo literário no Brasil, que resenhei pro Amálgama:

De Mário para Drummond (sobre o volume de cartas do paulista editado pelo mineiro relançado pela Cia. das Letras)

Entre a literatura, a crítica e a ação (sobre Cenário com retratos, coletânea de Antonio Arnoni Prado)

Talvez o mais importante de todos eu ainda não li. Só comecei. Mas justo eu que vivia reclamando que não tínhamos uma biografia do Henrique Alves Mesquita. Dos personagens esquecidos, certamente o mais importante. Termino de ler e faço resenha em 2016, sem dúvida:

Capa do livro escrito pelo historiador Antonio José Augusto

Capa do livro escrito pelo historiador Antonio José Augusto

E por falar em livros que não terminei, tem um que li o suficiente para dizer que é essencial, e que junto com os blogs de economia que tem no meu feed, estão me ajudando a repensar totalmente minhas posições. Importante demais buscar informação qualificada, pra não ficar tão por fora no debate político econômico.

Marcos Mendes: porque o Brasil cresce pouco.

(o link é para a edição kindle, outra provável resenha aqui para 2016).

Talvez o mais importante dos últimos tempos, li com muito interesse e pretendo ler mais vezes. A resenha não consegue captar nem 0,5% – obra obrigatória:

O capital no século XXI, de Thomas Piketty

E entre outras coisas agradáveis, que fiz comentário na Amazon e não vou resenhar no blog:

John Steinbeck, Ratos e homens

Amós Oz, Entre amigos

Outra lista, bem mais útil que a minha, é a seleção dos melhores de 2015 pelos colaboradores do Amálgama.

E agradeço ao Drunkeynesian por ter feito uma lista dos livros lidos em 2015, com livros que não foram lançados em 2015. Era o empurrão que eu precisava para publicar este texto. Eu ia fazer, depois não ia mais, e acabei fazendo depois de ler a lista dele.

Ao final, mas não menos importante:

Foi editado em 2014, e saiu com data daquele ano. Mas só em 2015 tivemos em mãos, foi para as livrarias e teve lançamento o Arte e política no Brasil: modernidades, que organizei junto com Artur Freitas e Rosane Kaminski. Sem querer parecer pretensioso, o melhor livro do ano e dos próximos. Compre, compre, compre:

Arte e política no Brasil: modernidades (o livro e seu processo editorial)

Sobrecapa

Sobrecapa

E é também em 2015 que foi editado meu primeiro livro autoral, embora ainda não esteja nas livrarias, nem tenha sido feito o lançamento. (Como a gente perde a paciência com processo editorial depois que acostuma a apertar um botão e ver o texto publicado em blog!)

O livro ainda não saiu, mas já está editado (vai entender)

O livro ainda não saiu, mas já está editado (vai entender)

Espero que em breve também com links para comprar.

Por fim: 2015 foi mais um ano em que comprei muito mais livros do que fui capaz de ler. Agora maior ainda que a lista de livros que comprei e ainda não li, é a lista de livros que QUERO, PRECISO comprar. Parte dela está aqui.

P.S. A série completa desta retrospectiva:

Retrospectiva 2015: livros

Retrospectiva 2015: filmes e séries

Retrospectiva 2015: os concertos que assisti e os concertos que não assisti

Emmanuelle Baldini e a Camerata Antiqua de Curitiba: O Messias de Haendel

A Camerata Antiqua de Curitiba fez seu concerto de encerramento de 2015 regida por Emmanuelle Baldini apresentando O Messias de Haendel.

Retrato de Haendel por Thomas Hudson, 1756 - National Portrait Gallery

Retrato de Haendel por Thomas Hudson, 1756 – National Portrait Gallery

O Messias de Haendel

Uma das obras mais famosas da história da música, o Oratório do compositor alemão radicado em Londres estreou em 1741 e desde então vem sendo constante sucesso onde é apresentado. Não é pra menos. Composta para solistas, coro e orquestra, baseia-se em uma seleção de textos bíblicos de Isaías, dos Salmos, dos Evangelhos, outros profetas, epístolas e até do Apocalipse, na bela tradução inglesa. A escolha dos textos bíblicos de maior força poética na língua inglesa, e a notável “tradução musical” feita por Haendel da força espiritual destes textos resulta no que talvez seja a mais bela e mais importante obra musical sacra de todos os tempos. É também uma das maiores obras do que se poderia chamar de música inglesa, uma das maiores da história da música vocal, e tanta coisa que não preciso ficar listando.

Acontece que eu só conhecia de gravações. Minha mãe tinha um disco com os coros, acho que ela ouviu até furar, e eu junto. Tanto que me lembrava de todas as melodias quando vi o concerto. Mas ouvir ao vivo é outra coisa COMPLETAMENTE diferente, como costuma ser com música de concerto. Se você já ouviu os mais belos clássicos nos seus alto-falantes (seja no aparelho da sala, na TV ou nos fones de ouvido) você pode ter certeza de ainda não ouviu os clássicos. Ouviu um arremedo deles.

Bem, é verdade que também muitos dos clássicos que se apresentam ao vivo por aí nos teatros desse brasilzão também costumam ser arremedos, de muito mau gosto. Curitiba não foge à regra. Mas…

Primeira página do programa da Camerata - Haendel, Messias

Primeira página do programa da Camerata – Haendel, Messias

A execução da Camerata

A Camerata Antiqua de Curitiba – coro, orquestra, solistas e músicos convidados, fez uma apresentação magistral e extremamente convincente dando prova de sua maturidade incontestável como grande conjunto. Talvez o que era o principal problema técnico da Camerata fosse o seu conjunto vocal, caracterizado por muito tempo por ser mais um ajuntamento de ótimos cantores do que exatamente um conjunto coeso. No Messias apresentado esse fim de semana não foi o que se viu. O conjunto vocal funcionou com perfeição, demonstrando timbragem e equilíbrio perfeitos, leveza nos agudos, entrosamento. Merece o cargo de Regente Vitalícia do coro a Mara Campos, que fez a preparação da obra. O seu trabalho se destacou, e ficou evidente como ela foi capaz de colocar o coro num patamar mais elevado do que ele talvez jamais esteve. Não é difícil dizer que ela provou ser a maior regente a trabalhar com este coro. Também é notável o ganho de resultado com Denise Sartori na preparação vocal. E certamente os novos integrantes que compõem o conjunto demonstram um outro fator nada desprezível: a nova geração de músicos que estão assumindo a vida profissional no Brasil talvez seja a primeira que possa ser considerada de alto nível internacional.

Some-se a isso o desempenho muito convincente da Orquestra, que já vem dando seguidas mostras de maturidade como conjunto, mas que continua evoluindo sensivelmente, especialmente na execução de música barroca, que talvez não fosse o seu forte até pouco tempo. Ouvimos a orquestra como um conjunto barroco que pouco ficou a dever até mesmo a grupos especializados que se apresentaram com instrumentos de época em Curitiba em anos recentes. Na minha memória, comparo com a apresentação que assisti do Concerto Italiano de Rinaldo Alessandrini na saudosa série Latina 2000 ou o concerto do grupo Palladians na mesma Capela Santa Maria (para este escrevi uma crítica). E comparo também com outras vezes em que a Orquestra de Câmara de Curitiba (chama-se assim o conjunto instrumental que integra a Camerata Antiqua de Curitiba) apresentou obras barrocas, chegando à conclusão de que atualmente o grupo atingiu uma sonoridade convincente, madura, respeitando o período histórico mesmo sem tocar em instrumentos de época. Particularmente acho o ideal, uma vez que os grupos especializados em música antiga muitas vezes produzem um som que atrai apenas os especialistas no assunto. Essa orquestra tocou um Messias capaz de convencer especialistas e emocionar o grande público. Exatamente o objetivo de um conjunto como esse, mantido pela prefeitura de Curitiba.

Destaca-se o trabalho de preparação de Emmanuelle Baldini, que casou perfeitamente coro, solistas e instrumental. Fez uma execução emotiva mas equilibrada com exatidão. Soube ser eloquente e manter a delicadeza da música barroca. Soube trabalhar de modo a valorizar os gigantescos achados composicionais de Haendel, e o que ouvimos foi uma obra que mantém o ouvinte “arrepiado” por quase todo o tempo, em cada novo Coro, Recitativo ou Ária consegue manter o nível de interesse e paixão estética – mesmo sendo difícil de imaginar, a cada cadência, que fosse possível vir algo melhor à frente.

Os solistas

A escolha do pessoal convidado para esta produção foi sensivelmente positiva. Foi notável como a escolha do regente e dos solistas habilidosamente mesclou experiência internacional e atuação no Brasil. Demonstração de competência da equipe que formula a programação da temporada, pois isso permite obter ótimo resultado artístico mesmo com a sabidamente combalida situação financeira do município.

Emmanuelle Baldini foi um regente muito competente, como afirmado acima. E os solistas estavam à altura do desafio, podendo contracenar com um grande grupo em um de seus melhores momentos, além da absoluta empatia obtida do público. Paulo Mestre, contratenor, mostrou leveza vocal e profundidade dramática, cumprindo muito bem a função que Haendel destinou à sua voz. Norbert Steidl, baixo, também provou ser ótima voz para o papel, de deu densidade à trama espiritual sugerida pelo texto. Destaque para sua aparição muito convincente em For, behold, darknessshall cover the earth – só mesmo um baixo poderia retratar com sua voz as trevas cobrindo a terra. Miguel Geraldi, tenor, também esteve muito bem, emprestando emoção às ideias de redenção que Haendel confiou a esta voz.

Mas acho difícil não dizer que o destaque foi Graciela Oddoni, soprano. Nas vezes em que ela cantou, e especialmente na última ária antes do coro final, ela trouxe tanta dramaticidade à obra que quase nos colocava DENTRO da Bíblia. Talvez tenha arrancado lágrimas. Contribuiu muito para esta incrível expressão o pequeno conjunto de violino (Winston Ramalho), Violoncelo (Faisal Hussein), teorba (Guilherme de Camargo) e cravo (Fernando Cordella) que contracenou com ela neste momento sublime.

Isso nos leva também aos elogios aos convidados. O cravista tocou com tamanha energia e entusiasmo que mesmo na última peça – depois de mais de duas horas tocando, ele ainda parecia estar a ponto de ser ejetado do banco de tanta energia. A efetividade rítmica do baixo contínuo é fundamental para a força dramática da obra, especialmente nos coros, e Fernando Cordella fez isso com maestria. Alternando com a agudeza metálica do cravo e sua vivacidade percussiva, Guilherme de Camargo trouxe doçura e profundidade com a teorba. Em muitos momentos era ele que segurava a harmonia, e especialmente nos momentos em que acordes completamente inesperados surgiam depois de pausas súbitas, era sempre ele a mostrar os novos caminhos, fosse com um acorde fosse com um simples bordão.

Também foi profundamente comovente o solo de trompete de Jorge Scheffer em The trumpet shall sound, quando contracena com a ária do baixo, a penúltima antes do coro final. O som cristalino de Sheffer já tinha impressionado quando apareceu no meio da primeira parte em Glory to God in the highest, desta vez junto com o coro.

A força dramática da partitura de Haendel

Toda a excelência da execução que nos foi dada por este maravilhoso conjunto permitiu perceber com clareza o que tem de tão grande nesta obra.

O Oratório é uma forma musical difícil, por precisar colocar a força dramática toda na música e em sua relação com o texto, uma vez que não há cena como em uma ópera, nem tampouco são aceitáveis os exageros de virtuosidade vocal que os cantores costumavam desempenhar (muitas vezes por exigência de contrato) na composição para teatro lírico.

Haendel beneficiou-se da força poética da tradução inglesa King James, um clássico literário de inegável influência sobre muita coisa, e certamente a mais bem sucedida versão da Bíblia depois do ocaso do Latim como idioma corrente. A riqueza da versão clássica inglesa foi potencialiada pela escolha muito feliz dos textos e sua disposição pela sequência da obra. Era fundamental, para quem queria sentir toda a força de O Messias, ouvir acompanhando o libreto. O fato dele ter sido impresso, em inglês e com tradução bem-feita, soma mais pontos para o pessoal da produção.

Talvez a interessante fórmula encontrada por Haendel tenha sido a de dar os momentos de maior exuberância musical (inclusive com abundância de melismas, contraponto e repetição exaustiva de pequenos trechos de texto) para o coro, e não para os solistas. Os solistas assumem sempre os momentos de maior contrição e de profundidade espiritual, intercalados com intervenções do coro sempre altamente impactantes. Fica até difícil entender porque o Alleluia final da segunda parte é a parte mais famosa da obra, pois há coros significativamente melhores. And He shall purify the sons of Levi, por exemplo, logo no início, ou o Behold the Lamb of God depois do também ótimo Glory to God in the highest. Since by man came death, ou ainda o coro final Worthy is the Lamb that was slain também poderiam ser considerados os pontos altos da obra.

Quem escuta a peça inteira numa execução tão boa sai de queixo caído matutando sobre como é possível uma obra ter tantos “pontos altos”. O Haendel era simplesmente o cara certo no lugar certo na hora certa, porque fica difícil imaginar uma obra tão densamente impactante em outro momento histórico. A orquestra, por exemplo, inventada no início do século XVII como conjunto de acompanhar ópera chegava no seu auge como conjunto baseado nas cordas de arco, da família dos violinos. Por outro lado, o contínuo cairia em desuso nas décadas seguintes, sem ninguém inventar nada melhor em seu lugar para dar a base rítmico harmônica necessária a uma boa música (talvez somente no século XX os conjuntos de música popular tenham recuperado de maneira correta essa força musical incrível). E por fim, com a ascensão da música absoluta no período chamado clássico, quando sonatas, sinfonias e quartetos sobrepujaram totalmente a música com texto no centro da grande arte, talvez a maravilha da relação texto música em obras longas só tenha sido recuperada plenamente quando os modernistas voltaram à literatura para buscar soluções para o colapso da música tonal na virada dos séculos XIX e XX.

Acho que outro acerto da produção foi ter reservado um dia separado para a palestra pré-concerto. As duas récitas foram sexta e sábado, e o maestro Osvaldo Colarusso ficou a cargo da palestra na quinta. Eu não pude assistir, mas tenho certeza que foi ótima – ele é um grande palestrante.

O melhor encerramento de ano

O ano de 2015 não foi fácil pra ninguém. O Brasil, o Paraná, as universidades, a vida musical, vivemos umas cenas aí que sonhamos que não deveriam ter acontecido.

Encerrar a programação musical com essa obra sublime, numa execução tão bonita, deu pra gente um momento de magia. Muito bom terminar o ano assim, dá esperança de que ainda tem coisa boa no mundo, de que a vida ainda reserva boas coisas pra quem tiver paciência e persistência.

Obrigado à Camerata Antiqua de Curitiba.

E um parabéns a nosso principal conjunto municipal, que termina o ano demonstrando maturidade, coragem artística e justificando plenamente as verbas públicas que recebe. Que 2016 venha melhor ainda.

FAP está com atividades acadêmicas paralisadas

Direção da FAP avisa sobre atividades acadêmicas paralisadas

Direção da FAP avisa sobre atividades acadêmicas paralisadas

A FAP está com as atividades acadêmicas paralisadas. Tem tanto assunto bom pra eu escrever aqui e eu não tenho tempo. E acabo tendo que vir falar de uma desgraça dessas. Lamentável.

Desde a última quarta-feira, dia 9 de dezembro, as empresas terceirizadas suspenderam os serviços que prestam ao Campus de Curitiba II da UNESPAR (FAP). Isso inclui serviços de limpeza, segurança e técnicos que operam equipamentos.

Isso ocorreu exatamente no meio das apresentações de TCC e provas públicas. Que no caso dos cursos de Teatro e Dança são feitas por meio de espetáculos para os quais a atuação dos técnicos é fundamental.

Que uma faculdade pública possa ter sua vida acadêmica paralisada dessa forma por empresas terceirizadas diz muito sobre a opção pela precarização adotada por sucessivos governos no estado do Paraná, e no Brasil de um modo geral.

O caso da UNESPAR é muito mais grave, porque as antigas faculdades isoladas estaduais foram reunidas numa universidade multi-campi espalhada por diferentes regiões do estado, sem que tenha sido planejada NENHUMA ação para dotá-la da estrutura necessária para o mínimo funcionamento.

Um comparativo da UNESPAR com outras universidades estaduais mostra o tamanho do enrosco que é fazer funcionar uma universidade COMPLETAMENTE SEM ESTRUTURA. Isso fica visível nos dados do Censo do Ensino Superior disponibilizados no sítio da Secretaria Estadual. Estou fazendo um estudo sobre estes números, e vou colocar aqui no blog para comparação, mas por enquanto posso adiantar alguns números que resumem tudo:

*a UNIOESTE tem 13,2 professores para cada 100 alunos de graduação, a UEL 12,6 e a UNESPAR apenas 7,3.

* mas a maior distorção está no número de agentes universitários – a UEL tem 2,2 agentes para cada professor, a UEM 1,7 e a UNESPAR apenas 0,16. Isso mesmo – 0,16.

* a UEL tem 27,7 agentes universitários para cada 100 alunos de graduação, a UEM 17,7 e a UNESPAR apenas 1,19. Isso mesmo – 1,19.

* a UEL tem 61,7 agentes universitários por curso de graduação, e a UEM 44,2. Se considerarmos os cursos de mestrado e doutorado, a UEL tem 31,6 agentes por curso, a UEM 22,9. A UNESPAR tem apenas 2,01. Isso mesmo – 2,01.

Ou seja, além da estrutura física completamente inadequada, temos uma situação impossível de falta de funcionários do corpo técnico administrativo. Sem isso uma universidade não funciona.

Tendo esses números em mente, dá para entender melhor a carta escrita pelo Conselho de Campus no dia em que decidiu pela suspensão das atividades, documento que está neste link.

Do mesmo modo, pode-se dizer do orçamento de custeio das universidades. É prática dos governos reduzir as despesas de custeio, algo louvável do ponto de vista da administração do orçamento público. Mas é uma medida que não pode ser tomada indiscriminadamente, sem estudo das realidades específicas.

No caso da UNESPAR, o congelamento do custeio se dá num patamar MUITO ABAIXO do praticado nas demais universidades, já consolidadas. O que piora muito com as medidas de ajuste fiscal que o governo do estado tem feito nos últimos dois anos, basicamente consistindo em não pagar fornecedores e glosar verbas de custeio.

No caso da UNESPAR não há saída. Ou o governo tem um plano específico para levantar esta universidade do chão, ou viveremos com os problemas que encontramos. Entre os mais graves: EMBAP (Campus de Curitiba I) funcionando em prédios alugados, sem sede própria há anos. Campus de Paranaguá, funcionando sem o mínimo de condição estrutural, tendo ficado vários meses parado porque a obra nos banheiros não era concluída por falta de pagamento. Campus de União da Vitória funcionando em prédio emprestado por um colégio estadual, e com percentual de 36% de professores temporários. Curso de Cinema (o mais procurado da UNESPAR) funcionando com professores contratados por módulos, por falta de professores efetivos.

A lista de mazelas é interminável. O governo criou a universidade, mas não fez qualquer planejamento estrutural para dar-lhe condições de funcionamento. A UNESPAR é uma vergonha pública. E os professores, agentes universitários e alunos que fazem ela funcionar mesmo com essas condições são verdadeiros heróis.