Solo Música 2012

Cartaz da série Solo Música 2012

O projeto Solo Música é uma das boas coisas que acontece em Curitiba.

Sempre às terças, 20 horas, no aconchegante Teatro da Caixa, próximo ao Guaira e à Capela Santa Maria. É bom comprar ingresso antes, que costuma lotar fácil.

Solo Música é uma ótima idéia concebida e organizada pelo produtor Alvaro Collaço, que tem feito a maioria das boas coisas que acontecem na área da música em Curitiba. Viabilizada com financiamento da Caixa Cultural.

O que tem de tão bom nesse negócio? Só de olhar o flyer aí em cima você já vai ver. Primeiro, a variedade e diversidade de pessoas, instrumentos, gêneros musicais e origens geográficas. Uma saudável interlocução entre o local (a música curitibana representada por Rogério Gulin e Marília Giller), o nacional (Wisnik e Abujamra, por exemplo) e o internacional (músicos da Itália, Índia e Espanha).

Os músicos são, em geral, figuras de notável versatilidade. Conjugam a grande técnica instrumental com uma carreira consolidada de compositores. Transitam, quase sempre, entre o tradicional e o moderno, o erudito e o popular, o rebuscado e o singelo. São músicos e artistas capazes de dizer muito a todos os tipos de platéia.

Em 2011 eu escrevi uma crítica sobre um dos concertos desta série:

Solo música: Fabio Cury e as 16 valsas para fagote solo de Mignone

Queria ter ido em todos, mas não pude. Quem sabe este ano?

Para ter uma pequena mostra do que você poderá ver na série, assista ao vídeo de German Diaz, que encerrará a série em 11 de dezembro. Ele toca a “viola de roda”, um instrumento muito usado no período medieval.

Solo música: Fabio Cury e as 16 valsas para fagote solo de Mignone

Texto antigo, publicado originalmente em 15/06/2011

Fábio Cury – foto de Heloisa Bortz

Fábio Cury veio para um concerto ontem em Curitiba, para a série Solo Música, produzida por Alvaro Collaço e patrocinada pela Caixa Cultural.

Esta série é um negócio genial: sempre às terças à noite, no Teatro da Caixa, com uma programação de artistas solo, mas valorizando os músicos que dificilmente são vistos tocando sem um conjunto.

As 16 valsas para fagote solo de Francisco Mignone são assim um achado. Praticamente não existe repertório para fagote solo – é um instrumento grave de palheta dupla, de difícil escrita, e normalmente não muito ágil. Integra também a formação clássica do Quinteto de Sopros (com flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote), participa em trios, faz até repertório com piano.

Mas solo, solo mesmo, é coisa rara.

A existência desse maravilhoso ciclo de peças do Mignone se deve ao fagotista Noel Devos, radicado há muitos anos no Brasil, professor de gerações de músicos do instrumento e o principal fomentador do repertório. Foi para Devos que Mignone escreveu o ciclo, e o professor já havia gravado a obra para a série Memória Musical da FUNARTE (em vinil), posteriormente relançada em CD pelo Itaú Cultural.

Eu tenho o vinil na minha coleção, tudo coisa que não escuto há anos, que não tenho mais aparelho para tocar. Coragem de me desfazer dos discos não me vem. E eu tinha então uma vaga lembrança dessas peças, que com certeza estiveram entre as boas coisas que ouvi na adolescência, e que me atraíram e me apaixonaram pela música erudita brasileira, a ponto de eu me tornar pesquisador do assunto.

Ver o ciclo ao vivo tanto tempo depois foi uma experiência e tanto. É claro, música de concerto foi feita para se ouvir no teatro de concertos, não nos auto-falantes de uma engenhoca, que só pode trazer uma experiência parcial.

E Fábio Cury tocou com maestria. As peças são muito difíceis, exploram toda a extensão do instrumento. Abusam dos graves, que deveriam ser evitados por soarem pesados, de difícil afinação e articulação. Abusam dos agudos, que soam agressivos e de difícil emissão. Abusam dos arpejos e dos saltos melódicos, que não são a vocação dos instrumentos de sopro. Tudo isso a execução de Fábio Cury contornou com perfeição.

Como valsas, as peças do Mignone são um show de variedade. Confesso que fiquei o concerto inteiro procurando quando o 3/4 das partituras soaria evidente – mas não aconteceu nenhuma vez. Tudo muito fluído, e a execução bastante lírica de Fábio Cury ressaltou este aspecto da obra. São valsas, mas a rítmica é muito livre, o lirismo melódico das valsas seresteiras das quais Mignone foi o maior mestre no Brasil.

Mignone também é reconhecido como o maior orquestrador/instrumentador já existido no Brasil. Coisa que este ciclo de peças confirma de maneira soberba: só conhecendo exatamente tudo do que o instrumento é capaz seria possível escrever um ciclo tão bem acabado, tão musicalmente significativo, tão artisticamente relevante. Mignone foi um mestre, sem dúvida.

E o solista me pareceu talhado para a apresentação solo: a presença de palco, as explicações sobre as obras, a empatia com o público – tudo se somou à qualidade da execução, à profundidade do discurso interpretativo. Estávamos todos diante dum dos gigantes do instrumento, foi o que pudemos perceber.

Veja também a interessante matéria feita antes do concerto pelo Jornal Gazeta do Povo.

 

Violão com Fábio Zanon

Texto antigo, originalmente publicado em 9/2/2008

Descobri com grande atraso uma maravilhosa fonte de conhecimentos e apreciação de música de violão. É o programa do Fábio Zanon na Rádio Cultura FM, em São Paulo. Quem não é de São Paulo, e não pode ouvir diretamente os programas, tem a chance de baixá-los em MP3. Num espaço generosamente criado para esse fim (aqui). Mas eu recomendo que se ouça o programa em ordem, do primeiro em diante, para maior proveito. Explico a seguir.

Fábio Zanon é um dos grandes concertistas de violão que o Brasil já produziu. Não é pouco num país quem tem os irmãos Abreu, Turíbio Santos, Barbosa Lima e os irmãos Assad – para ficar apenas nos mais óbvios de amplo sucesso internacional.

Além de ser exímio violonista, o homem é detentor de rara cultura musical. É doutor em música na Inglaterra e, antes de embrenhar-se pelo mundo dos recitais de violão ainda hesitou em ser maestro. Por isso, as explicações que ele dá no programa são preciosidades. Sabe encontrar a influência que determinada obra sofreu de outra. A riqueza harmônica e formal que faz daquela obra específica uma estrela do repertório. Compositores desconhecidos até do público violonístico. As melhores gravações e os melhores intérpretes (inclusive com o link para comprar os CD’s e as partituras).

Nem precisava de tanto para o programa ser imperdível!

Os primeiros 4 programas da série estão aqui.

O primeiro é a história do ressurgimento do violão como instrumento de concerto na virada do século XX, após mais de 50 anos de ostracismo num mundo repleto de pianistas e violinistas.

O segundo fala dos primeiros compositores não-violonistas a escreverem para o instrumento.

O terceiro continua tratando dos compositores e violonistas espanhóis que levaram o instrumento a merecer o status concertísitco.

O quarto programa fala de três brilhantes compositores injustamente esquecidos e suas maravilhosas sonatas para violão.

Quem já perdeu a transmissão dos programas pelo rádio como eu, não perca a oportunidade de conhecer um pouco melhor o mais sutil e instigante de todos os instrumentos musicais.

Os textos que publiquei esta semana

Foi a primeira semana desta página, e ela começou com as boas-vindas e as explicações:

Meu próprio blog

Escrevi depois um texto sobre a ação da polícia contra o público que estava participando do pré-carnaval do Garibaldis e Sacis no Largo da Ordem:

Em Curitiba, música popular é caso de polícia

Sobre o mesmo assunto, escrevi um texto complementando algumas questões, no blog do portal da Gazeta do Povo:

Curitiba pode ter música popular?

Por causa de um troll que quis fazer um comentário sem se identificar, escrevi uma explicação sobre comentários em blogs:

Como fazer para comentar nesta página

Republiquei um texto antigo, do meu primeiro blog – que agora vou desativar de vez:

O bim bom de Walter Garcia

Publiquei a resenha de uma das minhas leituras de férias:

Milton Hatoum: Dois irmãos

Saiu no Amálgama minha resenha do livro Violão e identidade nacional, de Márcia Taborda:

O violão e o Brasil

No meu blog sobre o Coritiba escrevi o comentário do jogo que encerrou a seqüência recorde de 22 vitórias consecutivas em Campeonatos Paranaenses. Foi um empate contra o Londrina.

Londrina 1×1 Coritiba: 6ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Depois de perder um vôo para uma reunião da UNESPAR em Paranavaí (entre outros motivos por não acertar direito o ônibus pro aeroporto) escrevi uma dica que teria me ajudado, e poderá ajudar outros. No blog com dicas de viagem que eu a Maris vamos finalmente por em prática:

Como ir de ônibus para o aeroporto de Curitiba

Escrevi um texto meio pessimista meio desiludido, sobre os rumos do PT e o modo como ele vai sendo vítima do próprio sucesso:

32 Anos do PT: são para comemorar ou para se preocupar?

Comecei o que pretendo que seja uma série sistemática aqui nesta página (assim como essa lista dos textos publicados) – a série de comentários sobre uma seleção dos textos/notícias lidos durante a semana:

Leituras da semana

Também comecei a carregar meus trabalhos acadêmicos para este sítio, o que será feito aos poucos pela preguiça que me causa esta tarefa. Eles vão aparecer na página Publicações.

Aproveite, e comece acompanhar as atualizações desta página:

Pelo serviço de RSS ou Feed. (Se você clicar no link, aparecerão os serviços do Google – mas eu recomendo que você use o Netvibes.)

Pelo meu twitter.

Pelo meu Facebook.

Leituras da semana

Doravante pretendo publicar sempre isso no blog, aos sábados. Uma lista dos links mais importantes da semana, se possível com comentários.

Vamos ver se sou capaz de bancar a proposta por muito tempo…

Hugo Albuquerque foi lá visitar os acampamentos dos desalojados do Pinheirinho. E a triste constatação é que aquilo ali se parece demais com campos de concentração, e que a política é deliberadamente abandonar esse pessoal para morrer ao relento.

Pinheirinho: Já se Passou uma Semana

Paulo Cândido está descontruindo o discurso do Marco Antônio Villa, um cara cujo dever de contra-argumentar se assemelha a gente como Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. Deve ter um comentário meu lá no post, remetendo a uma resenha que fiz da nova biografia do Jango, basicamente um trabalho caprichado do Jorge Ferreira, feito para salvar a memória do ex-presidente (e da esquerda trabalhista) da lambança que o Villa fez para dourar a pílula do golpe civil-militar de 1964.

Marco Antônio Villa, historiador hiperbólico

As poucas vezes na vida em que escrevi sobre o judiciário brasileiro foi para reclamar de sua morosidade, elitismo e, até mesmo corrupção. Eu dizendo isso não vale absolutamente nada. Mas um especialista como Walter Fanganiello Maierovich clamar por uma reforma do judiciário é coisa que não devemos desprezar:

Reforma judiciária já

Aliás, taí um blog muito bom de se ler sempre, com acompanhamento atento das principais questões de justiça e do judiciário no Brasil.

O pessoal do Movimento Brasil e Desenvolvimento levantou uma lebre que anda meio esquecida, em meio ao triunfalismo que vem dando carta branca para o governo Dilma esquecer que é de esquerda. (O artigo é da jurista Laila Maia Galvão.)

Cadê a redução da jornada?

No Central de Cinema, o Paulo Camargo lenvanta a importante questão da falta de salas para filmes autorais em Curitiba. Pra mim isso é uma tragédia cultural de grandes proporções.

O pobre circuito exibidor de Curitiba

No Caixa Zero, o Rogério Galindo expôs a disputa interna no PT curitibano sobre a questão do apoio a Fruet nas eleições municipais.

Aliança com Fruet derruba futura presidente do PT

Eu já andei escrevendo sobre isso aqui, aqui, aqui e aqui. Pra resumir, também sou contra a inexistência de uma candidatura de esquerda em Curitiba, e acho mesquinha a estratégia de trocar o posicionamento necessário na política da cidade por um apoio na eleição para governador. É por essas e outras que o PT vem perdendo espaço nas urnas no Paraná. Tornar-se um mero partido de quadros e acordos de cúpula é um erro que está saindo muito caro.

O Ministério Público do Trabalho finalmente pediu intervenção na Universidade Tuiuti. Há mais de uma década que esta universidade desrespeita todos os direitos trabalhistas: não paga férias, 13º, não deposita INSS nem FGTS dos professores. Além disso, está com os salários atrasados. Acredito que se vendessem todo o patrimônio da universidade já não pagariam o que devem aos professores e ex-professores, nem ao fisco. Que ela continue funcionando normalmente é uma afronta aos que cumprimos as leis.

A matéria saiu na Gazeta do Povo:

MPT-PR pede intervenção na UTP

Eu concordo com tudo o que o Simon Schwartzman disse aqui:

O CNE e o pesadelo do ensino médio

Esta aí o pior gargalo da educação brasileira, que o Governo Federal dá passos importantes para resolver com os investimentos que vai fazendo nos Institutos Tecnológicos Federais.

32 Anos do PT: são para comemorar ou para se preocupar?

O vídeo acima insiste nas virtudes do PT, comete o exagero de todo o marketing político de atribuir a si próprio todas as virtudes e afastar todos os defeitos.

Grande parte do que eles dizem ali é bem verdade. Mas só dizem a parte boa dela.

Acho que já passamos da fase das comemorações pelas conquistas sociais protagonizadas pela ação política do PT (não só dele, mas principalmente). Aliás, por falar em “não só dele”, soa no mínimo ridículo apontar o PT como um partido fundado por “um homem”. Homem-símbolo, Lula foi e é sem dúvida. Principal liderança do partido, melhor presidente que o Brasil já teve, etc. Mas não fundou o partido sozinho, não lutou sozinho nenhuma das lutas em que participou.

É preciso dizer umas verdades. O PT passou 23 desses 32 anos pregando uma série de ações políticas que depois não se dispôs a por em prática nos 9 anos em que já esteve na Presidência da República.

Não custa lembrar ao PT do próprio PT, na medida em que o partido já deixou, faz um tempo, de ser a tal mobilização por mudança social apregoada no vídeo acima. O PT é hoje um partido de carreiristas – o peso dos vereadores, secretários municipais, vice-prefeitos, prefeitos, deputados estaduais, secretários estaduais, vice-governadores, governadores, ministros, deputados federais, senadores, assessores de todos estes, diretores e presidentes de estatais, autarquias, fundações, etc, e etc. Esse peso todo aí, já ficou maior do que aquele peso, que já era incômodo, dos sindicalistas sustentados pelo imposto da contribuição sindical compulsória (aliás, lembram que eles prometem sempre mudar a legislação sindical?).

Com tantos interesses a defender na máquina dos cargos públicos, fica fácil entender porque o PT é hoje o partido do conchavo, e não mais o partido da mobilização por mudança social.

É fácil pra mim falar mal do PT, porque eu continuo votando no PT. Menos por suas virtudes e mais porque seus defeitos ainda são bem menores que os da concorrência.

Mas não posso deixar de notar como o PT foi deixando pra trás suas maiores virtudes, à medida que ia crescendo por dentro da máquina política, passando, grãozinho por grãozinho, de oposição minoritária a principal grupo de oposição, depois a governante de instâncias secundárias até chegar ao governo central, e tornar-se disparado o maior partido. Que só não fica maior porque continua achando interessante sustentar os velhos oligarcas em troca de benefícios mesquinhos, esquecendo que seria fácil varrê-los se estivesse disposto a um mínimo de confronto.

A antiga militância aguerrida envelheceu, desarticulou-se, engordou à sombra dos vários escalões de governo. Os filhos dos petistas históricos já estão nos cargos (eletivos ou não) por aí, e o PT vai se acostumando, se moldando às práticas políticas que tinha prometido superar.

Pra mim, a maior representação disso está no fato de que o PT considera a distribuição de renda como um bem em si mesmo. E não é não. A vida das pessoas melhora quando a renda dos mais pobres aumenta? Melhora quando fica mais fácil arranjar emprego?

Melhora. Grupos sociais que estão há vários séculos e gerações alijados de qualquer possibilidade de progresso econômico percebem as migalhas como um banquete. Grupos sociais que tinham visto as gerações anteriores experimentarem o período de maior crescimento do Brasil estavam há décadas inconformados com a contínua perda de status – esses aí estão divididos entre os que acham bom poder melhorar um pouco de vida e os que não perdoam que os debaixo estejam chegando cada vez mais perto e que os de cima estejam ficando cada vez mais longe.

Só que não é só isso que o Brasil precisa. Não é só isso que é governar.

Além de ganhar um pouco mais de salário, e ter menos medo de perder o emprego, seria muito útil poder morar numa casa decente, ter transporte digno para ir ao trabalho, ter opções de lazer perto de casa, ter atendimento à saúde, ter direito a viver sem ser alvejado por criminosos, estudar numa boa escola. Trabalhar menos horas para poder ficar com os amigos e a família, ler um livro, ir ao teatro ou ao cinema. Participar das decisões políticas da coletividade, Não ser discriminado por ser negro, mulher, homossexual. Não eram bandeiras do PT? Me parece que quando o PT sabia que era oposição, e que não ia ganhar a Presidência da República, se importava mais com essas coisas, administrava prefeituras de forma mais progressista, tinha uma ação mais efetiva no Congresso. Lembram de quanto barulho a bancada do PT fazia quando tinha só 30 deputados?

Pois é. Mas tem mais.

O sujeito não quer só sair da pobreza e entrar pra classe média. Porque um dia ele vai perceber que a classe média no Brasil paga imposto pra cacete, e recebe poucos serviços públicos de qualidade. Conseguir vaga de consulta no SUS é bem mais complicado que na UNIMED (mas os médicos estão todos saindo, porque tem mais gente podendo pagar consulta particular). Poder comprar o primeiro carro é legal – duro é ver que o trânsito não anda, que as estradas são poucas e inseguras, que o combustível é caro, que a manutenção é cara, que o seguro é pior do que um assalto, que o IPVA é caro, que as peças são caras. E o dia que o sujeito aprender a fazer as contas de quanto juro ele pagou na prestação ele vai perceber que tinha sido melhor se aguentasse mais um pouquinho sem carro, que ia progredir mais na vida.

O sujeito não quer só levar o filho pra escola básica. Por que ele vai perceber que quando o filho termina a 8ª série, já não significa nada, porque todo mundo terminou também. Aí ele vai ter que fazer o Ensino Médio, mas não dá, porque não tem escola suficiente. Ou porque ele vai ter que trabalhar que as contas pra pagar não poupam a nova classe média. Se por acaso os jovens tiverem o privilégio de seguir até o fim do Ensino Médio, vão perceber que o Ensino Superior é ainda mais difícil de entrar. Um curso com boa possibilidade de colocação profissional é quase impossível de passar numa universidade pública. Restam as privadas, com preço bem alto e qualidade muito abaixo do aceitável. Nem as universidades públicas não estão chegando perto do aceitável, mas ainda são menos piores.

Aí, se o cara se matar o suficiente, e conseguir terminar o Ensino Superior, ele vai perceber que emprego existe, e de monte. Mas não necessariamente para a formação que ele obteve. Se ele for engenheiro, por exemplo, que dizem que falta no Brasil, terá sido bastante inteligente para conseguir passar em Cálculo, e saberá fazer as contas pra ver que ele ganha muito mais em qualquer área de vendas, gestão ou finanças e vai migrar a carreira para estes setores, que ele odeia, mas que pagam bem melhor.

Afinal, pra que desenvolver produtos por aqui, se podemos comprar baratinho dos chineses? Não vale a pena esquentar a cabeça. Melhor vender soja, café ou minério – tudo coisa produzida por setores oligopolizados, que produzem como resultado uma riqueza altamente concentrada.

Quero dizer: o negócio ficou bom pra muita gente, o suficiente para ninguém querer arriscar uma mudança mais profunda. Os únicos que reclamam são os que querem voltar pra trás, aos tempos piores de antanho. Aí eles põem aqueles candidatos que a gente já sabe, e acabamos tendo que votar no PT outra vez.

Eu acho tudo isso uma bosta. Queria um partido que continuasse com um mínimo de vontade de continuar produzindo mudança social, geração de riqueza e bem-estar para a maioria da população, igualdade de oportunidades e justiça social para todos.

O PT não é mais isso, definitivamente.

O duro é que não acho outro partido que seja.

Para mim, não há nada a comemorar, só a lamentar e a se preocupar.

Milton Hatoum: Dois irmãos

Faz tempo que ando afastado da boa literatura. Fico sempre nas bibliografias técnicas de Música e de Ciências Humanas, e as páginas que alimentam o espírito vão sendo interminavelmente adiadas.

Mas me obrigo a, ao menos nas férias, entrar na livraria e comprar a esmo alguma coisa que possa sorver nos dias modorrentos. Nos meus projetos de ano-novo, vocês verão que eu vou voltar sempre ao objetivo primordial de aumentar o tempo disponível para “desperdiçar” com literatura, concertos e filmes. Coisa sempre difícil de conseguir por em prática.

Desta feita, Dois irmãos, livro do escritor amazonense muito aclamado pela crítica. Dou razão aos elogios, desde as primeiras páginas, e sustento a empolgação até às últimas.

Prosa fluída, envolvente e intrigante. Um dissecar da alma humana, e das relações familiares, capaz de nos provocar ódio e pavor, misturado com lembranças e com os próprios demônios. A mãe semita super-protetora, a rivalidade destrutiva entre os irmãos (que me fez lembrar Os irmãos corsos, de Dumas – leitura juvenil), as figuras humanas da Manaus das décadas de 1940 a 1960. A revelação, que não é nenhuma novidade, de que é nas relações familiares que os humanos somos capazes de sermos mais sórdidos.

Tudo bem tramado e, principalmente, anotado no vai-e-vem entre o tempo real e o das lembranças. Lembranças de um narrador de quem descobrimos o nome só muito no fim da história. Lembranças feitas das lembranças dos outros.

O equilíbrio exato entre o tempo cronológico e o tempo particular das lembranças, se soma ao equilíbrio exato entre o que vai sendo revelado e o que vai sendo encoberto pela trama. Terminamos o livro sabendo algumas coisas, e não podendo senão imaginar outras. Artifício narrativo que mantém a grande qualidade da obra – esse saber-não-saber que envolve o leitor na trama e o deixa pensativo mesmo depois de terminar a leitura.

Sempre bom topar com grande literatura de autor vivo. No colégio a gente cresce acostumado com a idéia de que a grande literatura foi feita por gente que morreu há muito tempo – o que é uma grande besteira.

Dois irmãos é um livro que já nasceu clássico, daqueles que todo mundo devia ter na estante, para ler e reler.

O bim bom de Walter Garcia

Este é um texto antigo, publicado originalmente em 13/09/2007.

GARCIA, Walter. Bim bom. A contradição sem conflitos de João Gilberto. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

Apesar de ser a publicação resumida de uma dissertação no departamento de Literatura da FFLCH-USP, este livro é um primor de trabalho musicológico. Orientado por José Antonio Pasta Jr e com saudáveis influências de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit, que compuseram a banca na ocasião da defesa. Com tal genealogia não podia dar mau resultado…

GARCIA explica por que João Gilberto deve ser considerado o inventor de um estilo musical reconhecível como Bossa Nova. Tal tese pode ter muitos problemas do ponto de vista histórico. Mas a boa musicologia feita pelo autor desmancha as objeções de leitores que, como eu, não concordam com a tese em que se baseia a obra. Concordando-se ou não com o grau de proeminência que se dá a João Gilberto na história da música brasileira, não há como recusar o papel pioneiro do intérprete: como demonstra GARCIA, o baiano sintetiza em voz e violão toda a linhagem anterior do samba jazzificado dos anos 1930, do samba-canção abolerado da década de 1940 e do samba-canção moderno da década de 1950. Na voz e no violão de João Gilberto estão, como demonstra GARCIA, o canto de Orlando Silva e a harmonização de Radamés Gnatalli, o surdo e o tamborim das batucadas de samba (com modificações de acento), e o piano jazzístico de Johny Alf e João Donato.

O autor privilegia o aspecto rítmico, e demonstra que a grandeza do baiano está na relação entre a marcação do baixo e a flutuação do acorde (a tal contradição sem conflitos) que geram um balanço totalmente novo, não especificamente dançante. E não esquece de analisar a relação entre a voz e o violão, a partir da canção manifesto Bim bom.

Me parece que GARCIA é o primeiro a explicar com propriedade a razão da voz contida de João, seguindo a indicação de Luiz Tatit em seu livro O cancionista. Composição de canções no Brasil. Para Tatit a explicação estaria na relação entre canto e fala, abandonando a estética do bel canto. GARCIA traz esta explicação para o detalhe do ritmo. Somente a emissão que João passa a adotar garante a precisão rítmica necessária para que sua voz contracene satisfatoriamente com a batida de seu violão.

Feitos os elogios, sobra espaço para uma crítica. Ela não se direciona ao autor especificamente, mas é uma crítica coletiva. Os trabalhos acadêmicos que vêm sendo produzidos ainda não conseguem romper com um grave vício de origem: deixam-se pautar pela crítica jornalística e pelos memorialistas na escolha dos objetos e das problemáticas, e não propõem nenhuma ampliação no campo de visão nem acrescentam novas fontes. GARCIA não está isento deste problema. Todas as fontes escritas em que se baseia estão publicadas em trabalhos de jornalistas/memorialistas, tendo sido, portanto, por eles selecionadas. Isso não diminui o trabalho de GARCIA, mas aponta uma necessidade de que os pesquisadores façam o trabalho da academia em relação a temas da história recente: o olhar científico, metodologicamente rigoroso, antropologicamente externo ao objeto de estudo. Para isso é importante ir além das análises pautadas pelo jornalismo cultural, e superar certa fortuna crítica de compositores e obras.

Como fazer para comentar nesta página

Agora há pouco exclui um comentário de um tal de Rafa, aí no texto anterior.

Ele dizia algo como “foi bom a polícia bater nestes foliões vagabundos”, entre outras amenidades.

Quem quiser escrever isto aí nos comentários, fique à vontade. Só que tem que deixar e-mail válido (só eu vejo, ninguém mais) e link válido, se quiser que alguém vá para sua página (blog, twitter, facebook, etc).

O Rafa não deixou nem um nem outro, por isso o comentário foi excluído. No mais, se alguém quiser conferir minha paciência para comentários ofensivos, vá ler este texto no antigo blog.

Ou seja, quer dar uma opinião veemente contra mim? Fique à vontade. Mas não se esconda na anonimidade ou em endereço falso. Eu dou a cara aqui, o mínimo que espero é que quem quiser opinar faça o mesmo. Se não puder assinar o que escreve, não publique.

 

Em Curitiba, música popular é caso de polícia

A gente sempre ouve contar que música popular era caso de polícia no início do século XX, que festas populares podiam ser interrompidas, que o sujeito podia pegar cana por vadiagem se tocasse violão, que cavaquinho foi inventado para se tocar algemado – e outras anedotas pouco verificáveis.

Mas, na Curitiba da segunda década do século XXI estas histórias antigas viram brincadeira de criança, diante de uma “operação policial” que resolveu tocar o horror entre os foliões que curtiam o pré-carnaval do Garibaldis e Sacis no Largo da Ordem último domingo.

Você pode até pensar que a polícia foi defender o sossego dos moradores – não sei se argumentaram com este tipo de sofisma. Mas o fato é que o massacre policial foi impetrado antes das 9 da noite, conforme o depoimento do jornalista Félix Calderaro no Facebook:

bala-de-borracha-da-policia-no-Largo-da-Ordem-fere-Felix-Calderaro

Segundo a reportagem da Gazeta do Povo, o comandante da operação afirmou:

Foi muito positiva a atuação técnica da PM, da Polícia Civil e Guarda Municipal, que fizeram o ‘uso progressivo da força’, como deveria ser

Se você clicar no link, e ver as fotos e vídeos da reportagem, vai achar bem estranha a fala do comandante. Mas a reportagem da Gazeta também acompanhou o discurso de alguns policiais no Facebook. Um deles afirma:

Defendo meu estado com unhas e dentes, no meu caso, com borrachada e BOMBAA! (…) Bandido tem que ser tratado como bandido… E aqui no Paraná bandido não se cria

Qualquer olhadela nas estatísticas de criminalidade no estado fará ver que este policial é bom para fazer bravata com foliões – para enfrentar criminosos de verdade faz parte de um órgão incompetente.

Para mim vai muito além da afirmação do cronista político Rogério Galindo, que acha que o problema é a falta de controle do governo sobre a PM.

A questão é que, no Brasil, PM serve para isso mesmo. É só lembrar dos incidentes provocados na USP, na “cracolândia” paulista e na “desocupação” do Pinheirinho em São José dos Campos. Ou agora no motim dos policiais baianos. Os governos estaduais não fazem nada para mudar este tipo de situação por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque reformar a polícia dá muito trabalho – mais fácil deixar como está. Sobre isso, vale a pena acompanhar o racicínio de Luis Eduardo Soares, um especialista sobre segurança pública que não cansa de mostrar que nossas polícias são um grave problema.

O problema maior, a meu ver, é que esse discurso da truculência policial “contra bandido” é bem visto por grande parcela da sociedade. O episódio do Largo da Ordem demonstra que nossa polícia é muito violenta e pouco inteligente. A justificativa para a brutalidade era combater arruaceiros, que segundo relatos dos próprios policiais (isso não vi foto em lugar nenhum) atacaram as viaturas que chegaram ao local. Bem, os policiais foram incapazes de identificar os criminosos, a atuaram indiscriminadamente contra todos que estavam no Largo da Ordem, com cacetetes, gás lacrimogênio e balas de borracha.

Interessante que o Garibaldis e Sacis é hoje um dos melhores pre-carnavais do Brasil, mas nunca sabe se vai poder sair no domingo à tarde, por que é sempre um problema saber se vai haver segurança. Desta vez havia um efetivo de 20 policiais para garantir a paz num Largo da Ordem lotado. Na hora de fazer guerra, havia muito mais policiais disponíveis – não é interessante?

Que o episódio tenha acontecido com um trio elétrico pré-carnavalesco é muito sintomático. Curitiba tem uma longa história com música popular, como vêm demonstrando as pesquisas deste pessoal. Mas curiosamente esta história vem sendo sistematicamente escamoteada. Curitiba gosta de parecer sisuda, tem vergonha da música popular que se faz aqui. Quer parecer erudita, européia, e está disposta a calar a música popular, brasileira, mesmo com polícia.

Não custa lembrar que em 2011 uma ação policial igualmente truculenta calou o Beto Batata, que sempre foi o principal espaço para a música instrumental em Curitiba. Uma música que faz pouco barulho para a vizinhança.

Com a palavra, a sociedade curitibana.

–x–

P.S. complementei um pouco a questão no meu blog na Gazeta do Povo:

Curitiba pode ter música popular?