Os textos que publiquei esta semana

Semana fraca de textos essa, que ninguém vai ficar lendo nada no carnaval mesmo.

Então saíram aqui nesta página apenas os seguintes textos:

Charles Dickens: 200 anos (um vídeo de um documentário sobre o escritor e mais uns links interessantes)

John Steinbeck: A pérola (minha resenha do livro, que li nas férias)

Mais um texto que publiquei no blog do portal da Gazeta do Povo:

Bem-vindos à quaresma (o caso das salsichas)

Este texto aí conta uma história bem curiosa sobre como uns trabalhadores de uma gráfica de Zurique comeram umas salsichas no primeiro domingo da quaresma de 1522, e acabaram por desencadear a chamada Reforma Religiosa nos cantões suíços. Tem gente que chama essas coisas de Reforma, por achar que as questões eram meramente teológicas. Eu prefiro chamar de Revolução, porque no tempo em que toda a vida era permeada de significado religioso, definir quem governa a igreja e como, se as pessoas podem ou não comer salsichas na Quaresma, se sacerdotes podem ou não se casar, e etc, não eram meras banalidades. As pessoas da época lutaram em guerras por causa desses motivos, digamos hoje – “fúteis”.

E como ninguém é de ferro, sigo publicando no meu blog sobre o Coritiba:

Coritiba 4×1 Operário: 9ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Atlético PR 0×0 Coritiba: 10ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Os craques do Coritiba em 2011: (3) Leandro Donizeti

Além disso, publiquei o tradicional resumo das leituras mais importantes que fiz na internet:

Leituras da semana

Veja todas as listas desta série na tag publicações da semana.

P.S.: a página de publicações minhas foi um pouco atualizada também.

Leituras da semana

No Escreva, Lola, escreva um texto fundamental a respeito da questão do julgamento do assassino de Eloá. A autora chama nossa atenção para o fato de que o assassinato não foi um caso isolado, nem individual. Homens assassinando as mulheres que eles dizem amar é um crime cotidiano, e revela o profundo machismo que grassa ainda em pleno século XXI.

O CASO ELOÁ E OS FEMINICÍDIOS DA SEMANA

No Amálgama, Alejandro Tarre escreve sobre as vicissitudes de se tentar construir uma oposição democrática a Hugo Chavez. Não é moleza:

Venezuela: Há um caminho

Na Gazeta do Povo, uma reportagem revela que o governo planeja uma das tais “portas de saída” do Bolsa Família: o empreendedorismo.

Governo quer que beneficiários do Bolsa Família virem empresários

Falando em planos do governo, o economista José Paulo Kupfer alerta para uma coisa que devia ser um conhecimento banal e óbvio: a comparação entre o rendimento escolar nos diversos testes existentes demonstra que os países que tem melhores resultados em educação são aqueles em que o professor tem maior valorização social (em salário e em status).

Mais com menos

Falando em coisas que o governo pretende fazer, deve fazer, ou não faz, saiu um ótimo balanço do primeiro ano do governo Dilma. No blog Brasil e Desenvolvimento. A análise é bem aprofundada, mas se eu tivesse que resumir tudo usando uma frase do texto seria essa aqui:

Quando os projetos de esquerda são profundamente associados ao desenvolvimentismo e medidos a partir de parâmetros econômicos, os avanços sociais passam a ser restritos à ampliação do acesso a bens de consumo.

Veja tudo lá:

Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

Aliás, essas questões complementam e explicitam o que eu refleti no meu texto sobre os 32 anos do PT. E tem a ver com uma série de questões que eu comecei a tratar em propostas para um Brasil pós-Lula, uma série que eu não dei continuidade, mas que teve três textos: este, este e este.

Puxando para a política da província. O André Gonçalves, do blog Conexão Brasília faz uma reflexão muito necessária sobre a falta de discussão a respeito do metrô em Curitiba. Um tema que precisará ser muito debatido – e porque não na campanha eleitoral deste ano?

Tem um metrô no meio da eleição

Passando para as amenidades:

Claro que eu já sei que Budapeste, de Chico Buarque, é um grande romance, de um grande escritor, aclamado pela crítica, etc. Mas a primeira resenha que eu leio que me deu vontade de ler o livro foi esta, no Livrada:

Chico Buarque – Budapeste

E no blog Euterpe, uma reflexão profunda sobre a sisudez do ambiente de concertos. Tão profunda que merece um destaque maior aqui, quem sabe num texto específico. Enquanto isso corram ler:

A desumana exigência de civilidade nos concertos – Soluções?

Veja todos os textos da série na tag Leituras da Semana.

John Steinbeck: A pérola

Capa da edição LP&M

Foi meu primeiro Steinbeck, que me animou a explorar mais esta obra magistral.

Ideal para começar com a obra do escritor, por que é um livro curto, desses de ler numa sentada. A narrativa assume uma linguagem deveras cinematográfica, e, aliás, não duvido que ele seja o que da literatura mais influenciou o desenvolvimento de roteiros.

A crueza da vida sofredora aparece na obra de Steinbeck como nos acostumamos depois a ver no western ou no Cinema Novo, talvez mesmo na literatura beatnik e até na canção popular (à Dylan).

No caso deste livreto, um pescador de pérolas indígena – julgo que na Califórnia, chamado Kino. Ele se defronta com a tragédia ao encontrar a mais preciosa pérola jamais vista por aquelas paragens.

Em torno da narrativa centrada na família de Kino, e na introspecção psicológica do personagem (vejo nesta saga ecos de Victor Hugo, espremidos numa concisão, e semelhanças com o que foi explorado noutro clássico miniatural – O velho e o mar de Hemingway), Steinbeck aproveita para traçar um panorama da pobreza nos EUA, da exploração do pobre, da opressão secular do indígena. E faz um mergulho profundo na descrição do médico, do padre, dos compradores de pérolas. As personificações da exploração capitalista sobre uma comunidade tradicional e primitiva, que vivia em comunhão com a terra muito antes do explorador chegar.

O fio condutor da trama, a sustentar a atenção do leitor com a respiração suspensa por quase todo o livro, é justamente a expectativa da emancipação, que não chega senão no fim da história.

Um estilo de narrativa que foi meio abandonado na década de 1940, tanto pela necessidade de os EUA produzirem um cinema mais favorável ao país, por exemplo no âmbito da Good Neighbor Policy que foi tão eficaz em conquistar o mercado latino-americano para Hollywood, e que para isso precisou, por exemplo, banir Vinhas da ira (versão cinematográfica de John Ford para o romance de Steinbeck) e investir numa Carmem Miranda. Ou por exemplo, do outro lado da moeda, pelo Realismo Socialista, onde doravante não poderia figurar a desesperança ou o medo (peças centrais na saga de Kino), que passariam a ser sentidos apenas pelos escritores e artistas, enquanto seu público deveria receber uma trama repleta de certeza da vitória dos trabalhadores através do socialismo-que-não-tarda.

É por isso que a literatura modernista norte-americana é tão interessante. E foi tão influente. O livreto de Steinbeck o diz de maneira cabal.

Charles Dickens: 200 anos

Foto do acervo da National Portrait Gallery

Esses dias se comemorou os 200 anos de nascimento de um dos maiores escritores da língua inglesa (alguns falam em maior depois de Shakespeare) e um dos mais importantes da literatura moderna.

O programa Espaço Aberto Literatura da Globo News fez um interessante documentário sobre o escritor, cujo vídeo está aqui.

Na Gazeta do Povo saiu um importante especial, escrito pela professora Liana Leão, do Departamento de Letras da UFPR.

Mas o interessante é que não temos uma coleção decente dos textos do escritor em portugês – precisamos garimpar edições baratas (e ruins) em várias editoras.

Já em inglês, o serviço está feito. Várias edições grátis para Kindle e mais uma edição das obras completas neste formato por apenas U$ 2,99.

Pergunta que não quer calar: quando teremos edições decentes no Brasil?

Há um razoável verbete sobre o escritor na wikipedia em português, certamente não tão bom quanto o da wikipedia em inglês.

Os textos que publiquei esta semana

A semana começou com um texto antigo que eu trouxe pra cá:

Violão com Fábio Zanon

E outro:

Solo música: Fabio Cury e as 16 valsas para fagote solo de Mignone

Este aí foi porque eu queria falar sobre a Série Solo Música em 2012, e linkar para a crítica que eu fiz de um concerto da série em 2011.

Solo Música 2012

Depois veio outro texto antigo:

Roberto de Regina e o cravo virtuose de Scarlatti

Semana pobre de textos novos, porque cheia de trabalho burocrático.

Tem também as leituras da semana, parcas como os textos novos.

No blog sobre o Coritiba, os novos textos foram:

Coritiba 1×1 Rio Branco: 7ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Os craques do Coritiba em 2011: (2) Emerson

Davi: mais um jogador que vai deixar o Coritiba?

Cianorte 1×1 Coritiba: 8ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

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Veja todos os textos desta série na tag publicações da semana.

Leituras da semana

O Catatau fez uma reflexão interessante sobre o problema do hábito de leitura no Brasil e sua associação com as severas limitações do mercado editorial.

Uma entrevista muito interessante com Márcio Pochmann, um dos economistas mais importantes do Brasil (porque está trabalhando na formulação de pesquisas e dados importantíssimos) e presidente do IPEA.

não é pleno emprego o que temos hoje no Brasil: mercado informal grande, pessoas com subocupação e rendimentos médios baixos que não condizem com uma situação de pleno emprego

A afirmação acima é de Maria Parente, técnica do IPEA. Faz parte do comunicado de uma pesquisa do instituto, sobre a qual também saiu uma interessante matéria na Gazeta do Povo.  Para resumir a história, ao contrário do veiculam certas notícias apressadas sobre a taxa de desemprego, o Brasil ainda não vive situação de pleno emprego, especialmente por causa da má qualidade do emprego no Brasil.

O STF decidiu pela validade da Lei da Ficha Limpa, e a boa notícia é que agora o movimento que articulou a aprovação desta lei de iniciativa popular pretende ampliar a ação para outros pontos. É o que demonstra esta matéria da Agência Carta Maior, que afirma que o próximo alvo do movimento anti-corrupção eleitoral é banir as empresas do financiamento de campanha.

Maurício Santoro elucidou como ninguém as disputas políticas envolvidas no afastamento do juiz Baltazar Garzón. A boa notícia, dada por Walter Maierovich é que, apesar de afastado pela justiça espanhola, Garzón segue atuando no tribunal europeu.

Ainda está nas bancas, e vale muito a pena comprar, a edição de fevereiro de Le Monde Diplomatique Brasil.

Tem lá: uma interessantíssima entrevista com a profª. Raquel Rolnik sobre direito à moradia no Brasil; uma seqüência de matérias sobre como a crise européia afeta os direitos dos trabalhadores e o movimento sindical; uma seqüência de matérias sobre os movimentos mundiais de contestação e o papel do ciberativismo; uma seqüência de matérias pagas pelo Banco do Nordeste sobre a atuação da instituição em políticas de desenvolvimento e distribuição de renda no Nordeste.

Acho que é isso. Semana de poucas leituras e, principalmente, de pouco costume ainda de guardar os links para postar aqui.

Veja todos os artigos desta série na tag leituras da semana.

Roberto de Regina e o cravo virtuose de Scarlatti

Texto publicado originalmente em 14/9/2009

Roberto de Regina com seu cravo

Sexta-feira fui assistir ao concerto de Roberto de Regina no Solar do Rosário – evento de lançamento de um DVD dedicado às obras de Domenico Scarlatti. Segundo o próprio Regina, o DVD foi a única homenagem a Scartlatti no Brasil por ocasião dos 250 anos de sua morte (relembrados em 2007).

Impossível exagerar a importância de Scarlatti para a história da música européia. Foi o homem responsável pelas idéias que hoje podemos reconhecer como a transição entre as danças barrocas e a forma-sonata do classicismo. Isso significa muito em termos de emancipação da música instrumental. Scarlatti simboliza, neste aspecto, a mudança muito profunda do sentido social da música: de entretenimento esnobe da nobreza para “obra-de-arte” a circular no espaço público burguês ainda incipiente.

Italiano, filho do principal compositor de música vocal do século XVII, Domenico foi contratado pela coroa portuguesa e depois transferiu-se para a Espanha. Suas obras são muito tocadas, quase sempre em adaptações para piano. Ocorre que o piano é um instrumento de mecânica e sonoridade deveras diferente do cravo, o que significa que pianistas que tocam Scarlatti estão sempre tentando simular uma sonoridade cravística que permita dar sentido musical à execução. Na minha opinião, invariavelmente resulta em fracasso total.

Este foi o grande mérito do concerto de Roberto de Regina. Ele foi o primeiro construtor de cravos do Brasil. Pioneiro da música antiga no Brasil, que já era um movimento fortíssimo na Europa. O movimento consiste basicamente em executar música composta anteriormente ao domínio absoluto do piano e da família dos violinos, coisa do tempo de Mozart pra cá. Sempre em réplicas de instrumentos de época e baseando-se em antigos tratados musicais para chegar a uma execução mais “autêntica”.

Autenticidade é a palavra chave do movimento da música antiga, apesar de ser um conceito bastante questionável. Todavia, não tenho dúvidas que é uma experiência estética e musical muito mais empolgante ouvir as obras de Scarlatti no tipo de instrumento para o qual foram compostas.

E são raros os concertos de cravo que se pode assistir no Brasil, mais ainda em Curitiba. Muito menos um concerto todo dedicado à obra de um único compositor, o que nos permite uma experiência mais profunda com sua música.

Quem foi, então ao concerto de sexta-feira, viveu esta experiência única. O DVD, que estava à venda, é uma edição independente, sem os rigores do profissionalismo (problemas de captação de som e sincronismo com a imagem). É um documento útil, mas não substitui, de maneira nenhuma a experiência de assistir a execução ao vivo. O que poderá ser feito novamente às 19:30 desta segunda (13/9/09) em nova apresentação no Solar do Rosário.

A ligação de Roberto de Regina com Curitiba é antiga. Em 1974 ele foi convidado pela administração de Jaime Lerner para fundar a Camerata Antiqua de Curitiba, com a qual colaborou, se não me engano, até 2002. E é por iniciativa de algumas personalidades da elite da província que ele volta para o evento.

Para quem não for assistir ao concerto, só pra dar um gostinho, segue um vídeo da cravista brasileira Rosana Lanzelotte tocando uma sonata do compositor:

 

Solo Música 2012

Cartaz da série Solo Música 2012

O projeto Solo Música é uma das boas coisas que acontece em Curitiba.

Sempre às terças, 20 horas, no aconchegante Teatro da Caixa, próximo ao Guaira e à Capela Santa Maria. É bom comprar ingresso antes, que costuma lotar fácil.

Solo Música é uma ótima idéia concebida e organizada pelo produtor Alvaro Collaço, que tem feito a maioria das boas coisas que acontecem na área da música em Curitiba. Viabilizada com financiamento da Caixa Cultural.

O que tem de tão bom nesse negócio? Só de olhar o flyer aí em cima você já vai ver. Primeiro, a variedade e diversidade de pessoas, instrumentos, gêneros musicais e origens geográficas. Uma saudável interlocução entre o local (a música curitibana representada por Rogério Gulin e Marília Giller), o nacional (Wisnik e Abujamra, por exemplo) e o internacional (músicos da Itália, Índia e Espanha).

Os músicos são, em geral, figuras de notável versatilidade. Conjugam a grande técnica instrumental com uma carreira consolidada de compositores. Transitam, quase sempre, entre o tradicional e o moderno, o erudito e o popular, o rebuscado e o singelo. São músicos e artistas capazes de dizer muito a todos os tipos de platéia.

Em 2011 eu escrevi uma crítica sobre um dos concertos desta série:

Solo música: Fabio Cury e as 16 valsas para fagote solo de Mignone

Queria ter ido em todos, mas não pude. Quem sabe este ano?

Para ter uma pequena mostra do que você poderá ver na série, assista ao vídeo de German Diaz, que encerrará a série em 11 de dezembro. Ele toca a “viola de roda”, um instrumento muito usado no período medieval.

Solo música: Fabio Cury e as 16 valsas para fagote solo de Mignone

Texto antigo, publicado originalmente em 15/06/2011

Fábio Cury – foto de Heloisa Bortz

Fábio Cury veio para um concerto ontem em Curitiba, para a série Solo Música, produzida por Alvaro Collaço e patrocinada pela Caixa Cultural.

Esta série é um negócio genial: sempre às terças à noite, no Teatro da Caixa, com uma programação de artistas solo, mas valorizando os músicos que dificilmente são vistos tocando sem um conjunto.

As 16 valsas para fagote solo de Francisco Mignone são assim um achado. Praticamente não existe repertório para fagote solo – é um instrumento grave de palheta dupla, de difícil escrita, e normalmente não muito ágil. Integra também a formação clássica do Quinteto de Sopros (com flauta, oboé, clarinete, trompa e fagote), participa em trios, faz até repertório com piano.

Mas solo, solo mesmo, é coisa rara.

A existência desse maravilhoso ciclo de peças do Mignone se deve ao fagotista Noel Devos, radicado há muitos anos no Brasil, professor de gerações de músicos do instrumento e o principal fomentador do repertório. Foi para Devos que Mignone escreveu o ciclo, e o professor já havia gravado a obra para a série Memória Musical da FUNARTE (em vinil), posteriormente relançada em CD pelo Itaú Cultural.

Eu tenho o vinil na minha coleção, tudo coisa que não escuto há anos, que não tenho mais aparelho para tocar. Coragem de me desfazer dos discos não me vem. E eu tinha então uma vaga lembrança dessas peças, que com certeza estiveram entre as boas coisas que ouvi na adolescência, e que me atraíram e me apaixonaram pela música erudita brasileira, a ponto de eu me tornar pesquisador do assunto.

Ver o ciclo ao vivo tanto tempo depois foi uma experiência e tanto. É claro, música de concerto foi feita para se ouvir no teatro de concertos, não nos auto-falantes de uma engenhoca, que só pode trazer uma experiência parcial.

E Fábio Cury tocou com maestria. As peças são muito difíceis, exploram toda a extensão do instrumento. Abusam dos graves, que deveriam ser evitados por soarem pesados, de difícil afinação e articulação. Abusam dos agudos, que soam agressivos e de difícil emissão. Abusam dos arpejos e dos saltos melódicos, que não são a vocação dos instrumentos de sopro. Tudo isso a execução de Fábio Cury contornou com perfeição.

Como valsas, as peças do Mignone são um show de variedade. Confesso que fiquei o concerto inteiro procurando quando o 3/4 das partituras soaria evidente – mas não aconteceu nenhuma vez. Tudo muito fluído, e a execução bastante lírica de Fábio Cury ressaltou este aspecto da obra. São valsas, mas a rítmica é muito livre, o lirismo melódico das valsas seresteiras das quais Mignone foi o maior mestre no Brasil.

Mignone também é reconhecido como o maior orquestrador/instrumentador já existido no Brasil. Coisa que este ciclo de peças confirma de maneira soberba: só conhecendo exatamente tudo do que o instrumento é capaz seria possível escrever um ciclo tão bem acabado, tão musicalmente significativo, tão artisticamente relevante. Mignone foi um mestre, sem dúvida.

E o solista me pareceu talhado para a apresentação solo: a presença de palco, as explicações sobre as obras, a empatia com o público – tudo se somou à qualidade da execução, à profundidade do discurso interpretativo. Estávamos todos diante dum dos gigantes do instrumento, foi o que pudemos perceber.

Veja também a interessante matéria feita antes do concerto pelo Jornal Gazeta do Povo.

 

Violão com Fábio Zanon

Texto antigo, originalmente publicado em 9/2/2008

Descobri com grande atraso uma maravilhosa fonte de conhecimentos e apreciação de música de violão. É o programa do Fábio Zanon na Rádio Cultura FM, em São Paulo. Quem não é de São Paulo, e não pode ouvir diretamente os programas, tem a chance de baixá-los em MP3. Num espaço generosamente criado para esse fim (aqui). Mas eu recomendo que se ouça o programa em ordem, do primeiro em diante, para maior proveito. Explico a seguir.

Fábio Zanon é um dos grandes concertistas de violão que o Brasil já produziu. Não é pouco num país quem tem os irmãos Abreu, Turíbio Santos, Barbosa Lima e os irmãos Assad – para ficar apenas nos mais óbvios de amplo sucesso internacional.

Além de ser exímio violonista, o homem é detentor de rara cultura musical. É doutor em música na Inglaterra e, antes de embrenhar-se pelo mundo dos recitais de violão ainda hesitou em ser maestro. Por isso, as explicações que ele dá no programa são preciosidades. Sabe encontrar a influência que determinada obra sofreu de outra. A riqueza harmônica e formal que faz daquela obra específica uma estrela do repertório. Compositores desconhecidos até do público violonístico. As melhores gravações e os melhores intérpretes (inclusive com o link para comprar os CD’s e as partituras).

Nem precisava de tanto para o programa ser imperdível!

Os primeiros 4 programas da série estão aqui.

O primeiro é a história do ressurgimento do violão como instrumento de concerto na virada do século XX, após mais de 50 anos de ostracismo num mundo repleto de pianistas e violinistas.

O segundo fala dos primeiros compositores não-violonistas a escreverem para o instrumento.

O terceiro continua tratando dos compositores e violonistas espanhóis que levaram o instrumento a merecer o status concertísitco.

O quarto programa fala de três brilhantes compositores injustamente esquecidos e suas maravilhosas sonatas para violão.

Quem já perdeu a transmissão dos programas pelo rádio como eu, não perca a oportunidade de conhecer um pouco melhor o mais sutil e instigante de todos os instrumentos musicais.