Michel Löwy e Robert Sayre: O romantismo na contramão da modernidade

texto antigo, publicado originalmente em 31/3/2008

Resenha do primeiro capítulo do livro, já esgotado.

LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e melancolia. O romantismo na contramão da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1995.

Os autores propõem um conceito abrangente de romantismo como estrutura mental, forma de ver o mundo, weltanschaung. Nessa concepção, o romantismo teria dimensões não apenas nas artes e na filosofia, mas na economia e no pensamento político, bem como nas ciências humanas. Seria também algo maior do que um movimento temporal do início do século XIX, mas seria uma estrutura de pensamento identificável já a partir de meados do século XVIII e perdurando até os dias atuais.

Esta concepção mais abrangente de romantismo dos autores explica o fenômeno como uma reação à modernidade capitalista. Uma reação interna, portanto operante com a própria visão de mundo gerada pelo capitalismo. Uma reação tradicionalista, que idealiza um passado (imaginado) naquilo que ele tinha de não-capitalista e de pré-capitalista. Para chegar a esta idéia os autores partiram do campo das análises marxistas da sociedade e da cultura, especialmente as teorias literárias de Lucáks e Lucien Goldman, apesar destes autores apresentarem uma visão diferente sobre o romantismo.

Partindo deste campo de análise os autores definem a modernidade capitalista como um complexo sócio-econômico caracterizado pelos seguintes aspectos, aos quais o romantismo surgirá como oposição: industrialização, desenvolvimento científico-tecnológico, hegemonia do mercado, propriedade privada dos meios de produção, oposição capital-trabalho (no sentido de que uns acumulam capital e o potencializam, enquanto outros vivem do trabalho assalariado), divisão intensa do trabalho, tudo isso interligado com os fenômenos de racionalização, burocratização, urbanização, secularização e reificação. (p. 37) Como a análise pressupõe o romantismo como uma reação a essa modernidade, ele será coetâneo dela, espalhando-se pela mesma temporalidade, e tendendo a existir enquanto tais características do capitalismo estejam presentes, ou seja, de fins do século XVIII até os dias atuais.

Como reação à modernidade capitalista, o romantismo é, nos termos dos autores, “uma crítica moderna da modernidade” (p. 40), ou seja, uma autocrítica da modernidade – feita por alguém “de dentro” e não de fora dela. Ou seja, a relação do romantismo com o passado é sempre idealizada, sem pretender abandonar as conquistas da modernidade. O passado que inspira os românticos é mitológico ou legendário. Nos casos que a inspiração era de um passado real, ele era sempre visto de forma idealizada e utópica, como fonte daquilo que a modernidade tinha perdido em seus valores humanos.

A busca deste paraíso perdido deu-se de várias maneiras. No plano do imaginário, pela busca do espiritual, do sobrenatural, do fantástico, do onírico, do sublime. No plano real, pela criação de comunidades utópicas no interior da modernidade capitalista: dandismo, círculos literários, comunidades socialistas (Saint-Simon) ou simplesmente uma entrega às paixões amorosas (sentido ao qual o termo “romantismo” mais se apegou no senso comum). Ou ainda pela saída de dentro desta mesma modernidade, fugindo para o interior ou para países periféricos onde as relações capitalistas não estavam plenamente implantadas. E ainda uma última vertente identificada pelos autores esteve ligada à busca de um novo futuro, a construção de uma “nova Jerusalém” empreendida por homens como Proudhon ou Benjamin. Mas o romantismo não foi, para os autores, apenas negação da modernidade capitalista, tendo importante contribuição a essa modernidade: um hiper-desenvolvimento da subjetividade individual e, no pólo oposto-complementar, da totalidade ou unidade – tanto da comunidade humana como dela com a natureza.

Os autores nomeiam exatamente o que da modernidade capitalista o romantismo pretendia combater e como. (1) O desencantamento do mundo, ou sua visão exclusivamente racional/científica. Surge por isso a idéia de reencantamento do mundo, buscada por um renascimento da religião, da magia e do mito. Nem tudo que aconteceu na religião, ou em relação ao mito, nos tempos modernos é relacionado ao romantismo (certos ramos mais racionais do protestantismo, por exemplo, ou a mitologização barata promovida pelos nazistas), mas o recrudescimento destes valores na modernidade pode ser creditado em parte ao programa romântico. (2) A quantificação do mundo, que reduziu tudo a valores quantificáveis, trocáveis por dinheiro. A natureza passou a ser vista meramente como matéria-prima. O romantismo, em contrapartida, exacerbou o qualitativo, as relações humanas não mercantilizadas. Os autores citam como exemplo o anti-tipo ideal do romance Tempos difíceis de Dickens, no personagem Mr. Gradgrind. (3) A mecanização do mundo, que passa a ser dominado pela máquina, pelo artificial, pelo construído. Os autores seguem identificando os anti-tipos na literatura inglesa e alemã: o homem-máquina do trabalho industrial, a política e o Estado concebidos como grandes máquinas. As soluções propostas pelos românticos variaram de uma nostalgia do sistema monárquico até a proposta da livre organização social anarquista. (4) A abstração racionalista, que está na base mesmo da organização da produção capitalista e na própria idéia do dinheiro como medida de valor, à qual o romantismo contrapõe a irracionalidade do amor como ímpeto emotivo e, até mesmo, uma valorização da loucura. (5) A dissolução dos vínculos sociais, demonstrada criticamente em vários personagens literários que lastimam a desumanidade da vida urbana e industrial, onde as pessoas estão próximas fisicamente mas não se relacionam.

Apesar das características do romantismo poderem ser identificadas em tempos muito antigos, o romantismo só se tornou um sistema cultural – segundo os autores, quando a mercantilização passou a ser a forma dominante de organização da vida, no século XVIII. O surgimento desta cultura romântica teria ocorrido no centro da Europa capitalista, simultaneamente na França, Inglaterra e Prússia. Um pouco mais tarde, os autores afirmam, o romantismo surgiu na periferia européia (Itália, Espanha e Leste Europeu) – na década de 1820, com impulso nacionalista no início, reagindo ao domínio de potências estrangeiras e, mesmo sem a existência de uma burguesia local significativa, opondo-se à aristocracia local. Ou seja, mesmo estes países não tendo um desenvolvimento capitalista próprio, o fato deles terem se inserido como periferia no capitalismo mundial provocou o surgimento de seus próprios romantismos.

Música nos primeiros séculos de colonização da América Portuguesa

Isso foi o assunto da primeira aula da disciplina de História da Música Brasileira na FAP. E também é assunto de História da Música II.

Além de tudo que eu já falei na aula, temos alguns textos complementares que escrevi em blogs antigos:

Profusão de Música na América Portuguesa

Este texto aí tem explicações e links, mas não custa colocar de novo alguns aqui:

Trilha sonora para uma festa antropófaga dos Tupinambás na qual um viajante alemão quase serviu de jantar

Um canto para a catequese

Os jesuítas e a música na América Portuguesa

Música dos judeus no Brasil holandês

Devem estar logo na pasta os textos da Anna Maria Kieffer e do Tinhorão que complementam estes assuntos.

Leon Uris: Exodus

Eu acho que o Uris queria escrever um livro de história. Mas ele não é historiador, não faz a mínima ideia de como se processa a pesquisa histórica. Então foi mesmo mais honesto escrever um livro de ficção. Ou seria de propaganda?

Porque eu acho difícil o leitor discernir o que é informação confiável no livro do Uris, até onde vai a História e onde começa a ficção, o que é verdade e o que ele apenas gostaria que fosse.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1958, e parece que até já foi filmado em Holywood. A história que ele conta gira em torno de alguns personagens, envolvidos com uma trama de imigração clandestina para a Palestina, logo após o fim da 2ª Guerra, ainda durante o mandato britânico. Uris acompanha seus personagens até a fundação e estabelecimento do Estado de Israel.

Para estabelecer o pano de fundo dos personagens, Uris fez muita pesquisa, segundo explica na apresentação do livro, em dois anos de entrevistas e viagens. Assim, a parte histórica que me parece razoavelmente verossímil é que versa sobre o drama dos judeus na Europa.

Os personagens do romance de Uris são típicos. Um professor judeu-alemão assimilado, que nunca imaginava que a perseguição nazista poderia chegar até a universidade. E que quando a perseguição chegou ao seu ápice não teve outra escolha senão mandar a filha mais velha para viver com uma família adotiva na Dinamarca. Após a guerra a moça tenta reencontrar a família, sem sucesso, e acaba migrando para a Palestina na esperança de rever o pai – o único cuja morte em campos de concentração não tinha sido confirmada.

Uma família de judeus do Gueto de Varsóvia, cujos filhos foram heróis da resistência. Mas só um sobrou – o mais novo, que acabou trabalhando como prisioneiro na limpeza dos fornos crematórios de Auschwitz. Depois de libertado também migrou para a Palestina.

Karen e Dov (os nomes da garota e do rapaz) terminam num campo britânico de refugiados na ilha de Chipre, para onde eram mandados os imigrantes capturados, pois os britânicos limitavam a entrada de judeus na Palestina a um número mínimo.

Essa é a outra parte bem substanciada no livro: a hipocrisia da potencias ocidentais em relação à situação dos judeus. Especialmente o Império Britânico, que desde 1917 jogava com promessas de um Estado Palestino capaz de acomodar os judeus sionistas (desejosos de migrar para a Terra Santa como único lugar seguro para escapar ao anti-semitismo europeu).

Neste aspecto alguns atores estão muito mal representados: os franceses são vistos como apoiadores dos judeus, enquanto as pesquisas recentes (mas isso foi depois do livro de Uris) vêm mostrando que Vichy era muito solícito em enviar prisioneiros para campos de extermínio nazistas. Os norte-americanos são pouco mencionados, e de passagem, sempre como apoiadores incontestes da causa sionista. Acontece que os EUA, se não chegaram a ter campos de extermínio, também foram sempre razoavelmente anti-semitas, totalmente omissos à questão do extermínio processado pelos nazistas (com empresas como a IBM colaborando ativamente na tecnologia responsável pelo processo) Havia aquela tese de que bombardear uma via férrea das que levavam judeus aos milhares para fornos crematórios era perda de tempo – era mais importante ganhar a guerra primeiro.

Também o apoio de judeus norte-americanos à causa sionista é sempre apontado no livro. O que é excesso de boa vontade.

Por outro lado, poloneses, e habitantes do Leste Europeu em geral, são apontados como monstros que odiavam os judeus e faziam nada para defendê-los ou mesmo o possível para colaborar com seu extermínio. Isso aí eu gostaria de conferir com algum estudo sério, pois se o Leste Europeu era a terra dos maiores guetos judeus e dos pogroms disseminados, também é fato que eslavos estavam junto a judeus, comunistas, homossexuais, artistas de vanguarda e débeis mentais como alvo no programa de “limpeza”. E os milhões de mortos russos ou poloneses superam o de judeus na guerra.

Mas outra parte da ficção de Uris remete à saga da colonização judaica da Palestina. Uris imagina uma saga de dois irmãos da ydishland russa que emigram a pé para a Palestina, numa inverossímil viagem de quase 4 anos trespassando altas montanhas nevadas, sem contar com nada mais que algum apoio das comunidades ídiches encontradas no caminho.

Yakov e Jossi, que depois adotariam os nomes hebraicos de Akiva e Barak, acabam se tornando peças fundamentais no conhecimento da antiga terra e de seus habitantes (árabes sob domínio primeiro turco e depois britânico, e judeus sefardin) vistos todos como ignorantes, imprestáveis e supersticiosos.

Isso aí é outra coisa curiosa no livro de Uris. Para dizer que a imigração de judeus europeus para a Palestina era necessária, você pode usar dois tipos de argumentos. O primeiro é o de que não havia lugar seguro para os judeus na Europa, com o anti-semitismo tão arraigado em todos os países. Isso me parece uma verdade parcial: a Europa não era lugar seguro para ninguém antes que a social-democracia estabelecesse o que Hobsbawm chama de “era de ouro” no imediato pós-guerra. Judeus tinham vivido como assimilados em boa segurança durante os governos liberais na Bélle Epoque, o perigo surgiu com os fascismos – regime sob o qual praticamente ninguém estava seguro.

Ou seja, o perigo para os judeus na Europa era real, sua situação insustentável. Entretanto, construir regimes democráticos e de respeito aos direitos humanos era uma tarefa menos difícil na Europa do que na Palestina. A questão é que o sionismo ganhava ímpeto junto com os demais nacionalismos europeus, e assumiu especial significado para órfãos de campo de concentração, que tinham crescido sem vínculo com nenhuma pátria, e com apenas uma vaga lembrança da educação religiosa recebida nas sinagogas. Para esses personagens, construir uma pátria na Terra Santa era praticamente a única opção, e isso o Uris retrata muito bem nos seus personagens fictícios.

O outro argumento para dizer que a imigração era necessária é demonstrar que os árabes e os sefardim que habitavam a Terra Santa havia séculos eram uns ignorantes imprestáveis, que não eram capazes de produzir nada nem prosperar. Esse tipo de argumento só pode mesmo existir na cabeça de um norte-americano: se um povo não é capaz de enriquecer, só pode ser porque ele não presta. Daí a dizer que eles merecem ser alijados por alguém superior, capaz de produzir mais, vai um passo.

A narrativa de Uris não se cansa de mostrar (é tudo ficção, lembrem-se), que os judeus que emigram são muito produtivos. Drenam pântanos e irrigam desertos – tornando produtivas as terras que os árabes não ocupavam. Mas os árabes, ao invés de amá-los por isso, consideram-nos como ameaça – vejam só que bobocas. Uris se esquece de considerar que a prosperidade dos imigrantes sionistas se baseava no sistema de kibutzin, que ele descreve muito bem. A força da coletividade organizada, que os sionistas adotaram por simples falta de outra opção, e que fez a verdadeira diferença em relação ao sistema semi-feudal aplicado pelos árabes.

Some-se a isso outra visão de mundo que só podia estar na cabeça de um norte-americano evangelical, com aquela velha concepção de “destino manifesto”, que já era muito marcante em 1958, quando o livro foi escrito: porque Deus deu tanto poder aos Estados Unidos? Porque ele era o país capaz de levar a Verdade e o Bem ao mundo. Nesta lógica, os inimigos dos EUA são os inimigos de Deus, grosso modo, os que estão do outro lado na Guerra Fria.

Fica fácil transpor esta lógica para outra, não menos tola: de que os judeus são um povo de Deus, com direito divino àquela terra da qual tinham sido dispersados por dois mil anos. A falsidade histórica deste tipo de afirmação está mais do que demonstrada no livro de Shlomo Sand, nem vou perder tempo com isso neste texto (escrevi sobre este livro aqui e aqui).

A coisa fica ainda mais ridícula porque Uris não tem vergonha de mostrar este viés, traindo-se em frases como “fulano demonstrava que tinha mais comunhão com Deus” ou “fulana podia sentir Deus naquela terra”. Totalmente evangelical também é a concepção de que a narrativa bíblica corresponde a uma verdade histórica literal, coisa que as escavações de arqueólogos norte-americanos e judeus tentaram demonstrar ao longo de décadas, mas que ruiu por terra a partir dos anos 1970, quando alguns pesquisadores pararam de tentar fazer pesquisa para provar hipóteses que já davam como certas, e passaram olhar as evidências. (Essa mudança de paradigma está bem explicada no livro de Sand também).

Deixando de fora estas questões mesquinhas, o livro é uma boa leitura (só por isso mesmo é que pode ser propaganda). Cativante e empolgante, especialmente nas partes que tentam explicar o panorama histórico envolvido em todas as questões. Mas há que se dizer que a prosa e a imaginação ficcional do Uris são bem pobrezinhos. Especialmente se você faz como eu e o coloca em leituras de férias compradas na seção de livros de bolso numa livraria (são os livros cujo preço cabe no bolso) – e o lê logo após Hatoum, Steinbeck e Saramago.

Uris ficaria bem numa comparação com livros do mesmo gênero – propaganda religiosa fundamentalista com mistura de ficção e realidade histórica. No caso dele, fica em vantagem por que sua trama ocorre no passado, e não no presente ou no futuro como sua literatura congênere: Este mundo tenebroso, O profeta, a série Deixados para trás, ou o best-seller A cabana.

Mais um fator favorável a Uris. Difícil alguém no Ocidente não simpatizar com os judeus e seu Estado naquele momento: eles tinham sido as vítimas do nazismo, e não havia compensação suficiente para o extermínio. Outro aspecto não menos importante: o sionistas eram europeus, e foram os primeiros capazes de estabelecer um Estado liberal moderno no Oriente Médio – uma região rica em petróleo e estratégica para o capitalismo e o abastecimento energético dos países industrializados. Parecia claro de que lado estavam o Bem e o Mal no conflito árabe-israelense.

Leituras da semana passada

Normalmente publico isso no sábado, mas me atrasei desta vez.

E certa feita o Rio Grande encolheu

No Impedimento, uma análise muito interessante, demonstrando que no Rio Grande do Sul a probabilidade de se dar bem no campeonato estadual está inversamente proporcional à distância da capital. Na região metropolitana e na Serra estão os mais fortes. Não pude deixar de fazer relação com o Paraná, e a decadência dos outrora fortes times do interior. Coisa triste, que empobrece muito o futebol.

Marcelo Neri: A Nova Classe Média

Livro que vai sair por estes dias. Me parece que é uma interessante análise, feita por um economista que tem capitaneado pesquisas por longos anos. Tem lá umas explicações do autor, no blog do Simon Schwartzmann.

Aprovado, enfim

O João Villaverde comemora a aprovação da Previdência Complementar do Servidor Público (apenas na Câmara – ainda vai ao Senado). O tamanho da despesa com a previdência do Servidor Público justifica muito este tipo de medida. Eu diria mais, como Servidor Público que sou – é um importante passo para acabar com essa distorção horrível que faz das carreiras públicas uma coisa muito mais interessante quando o servidor se aposenta. Era para ser ao contrário: estimular a produção com bons salários para a ativa, o que não é real para a maioria das carreiras.

Sucessão Paulistana: Serra está lá, e Daí?

Hugo Albuquerque aponta para o óbvio: desde 1996 os candidatos do PSDB em São Paulo (prefeitura da capital ou governo do estado) são sempre Serra ou Alckmin. Portanto, nenhuma novidade. A falta de renovação de seus quadros explica em grande parte por que o PSDB está acabando.

É claro que é importante eliminar a ameaça nuclear iraniana. Mas primeiro a Síria

Quando o assunto é mundo árabe, sempre importante ouvir as opiniões do Daniel Lopes, do Amálgama. Ele faz questão de por a nu a hipocrisia da política das potências ocidentais na região, e especialmente a posição dúbia do Brasil e de nós brasileiros. O fato é que Assad está matando sua população, e impedi-lo deve ser prioridade.

Pois é isso aí. Semana de poucas leituras, com muita correria. Os demais textos da série estão na tag leituras da semana.

Edital “O som da cidade” do SESC da Esquina

Dias atrás eu tive a satisfação de trabalhar junto com o Cristiano Castilho, jornalista da Gazeta do Povo, na curadoria do Edital “O som da Cidade” do SESC da Esquina.

Eram 20 propostas de espetáculo musical inscritas, das quais foram selecionados os seguintes 5 grupos:

  • Molungo, que entrou meio na categoria “música de raiz” ou “folclórica”
  • Jean Gabriel – com o espetáculo “Café à luz de velas”, que entrou principalmente pelas composições de Gustavo Bonin e Isaac Dias (prestem atenção nestes caras)
  • Uh la la, que se destacou entre as bandas de rock inscritas
  • grupo Siricutico, com o ótimo espetáculo infantil Ziriguidum
  • Música de Ruiz, com a poesia sonora de Estrela Leminski e Téo Ruiz

Houve ainda dois grupos “suplentes”, que entram no caso de alguma desistência:

  • Tiziu, com o show “Ectoplasma”
  • Rosa Flô, com o show de lançamento do CD Rosa Armorial

O nível musical dos concorrentes era altíssimo. O que acabou pesando mais para que os escolhidos fossem esses aí, foi a originalidade das propostas (trabalho autoral foi considerado mais importante que o repertório tradicional), diversidade de estilos que compõem a cena musical da cidade (evitando que os grupos selecionados fossem todos de um único estilo musical).

E gente, se vocês estiverem considerando entrar num edital desses, por favor, prestem atenção no item “contrapartida social”. Precisa apresentar coisa bem planejada e imaginativa. No caso do edital do SESC, isso acabou sendo decisivo para desempatar entre trabalhos de qualidade semelhante.

Veja aqui na página do SESC o resultado deste edital e dos outros de teatro e artes visuais.

O resumo da coisa toda é: caramba! o nível de profissionalização da música popular em Curitiba está bem alto. Muita coisa boa para se prestigiar.

Meu discurso de paraninfo para os formandos de Licenciatura em Música 2011 da FAP

Não sei quem está mais feliz e orgulhoso – se vocês aí recebendo o canudo ou se eu aqui discursando como paraninfo.

O orgulho que eu tenho de estar aqui é porque eu considero o trabalho de professor como algo relevante e significativo para mudar o mundo e desenvolver as pessoas. Se vocês me convidaram, é porque de alguma forma consegui fazer isso durante o tempo que vocês passaram pelo curso.

Mas digo isso aqui porque o diploma que vocês recebem é de licenciados, ou seja, professores. Então, reforço aquilo que espero tenha sido o que vocês aprenderam na faculdade – seja comigo seja com os outros professores do curso.

Não falo do conteúdo das matérias, que é tanta coisa que será impossível lembrar de tudo. Falo principalmente da atitude diante do conhecimento. O Brasil se ressente até hoje de uma formação educacional conservadora, centrada na autoridade do professor e na memorização do conteúdo. Essa característica só não nos causou maiores estragos porque a escola brasileira sempre foi para uns poucos.

Agora que a Escola Básica foi universalizada, temos o desafio de construir novos modelos. E espero que vocês estejam engajados nisso, como professores. Então, como eu dizia, espero que o aprendizado de vocês no Curso Superior tenha levado ao desenvolvimento de uma atitude reflexiva e questionadora, que entenda o conhecimento como algo dinâmico. Ninguém nunca sabe as coisas, estamos sempre aprendendo. E o melhor que um professor pode fazer é mostrar o quanto há para se saber, e como se pode aprender. Porque o aprendizado, quem faz é o aluno, e não há quem possa fazer isso por ele.

Conheço razoavelmente cada um de vocês. O suficiente para ter certeza que estamos entregando vocês para a sociedade como um tesouro inestimável. Vocês tem o empenho e a competência para fazer a diferença. Vocês irão para as escolas e para os projetos imbuídos de um novo espírito. Vocês irão fomentar seres humanos melhores, cada vez que colaborarem para despertar um aluno para perceber música com profundidade.

Vocês serão os profissionais mais importantes das escolas onde vão atuar. Serão os menos viciados na estrutura tradicional, serão os mais inovadores, os que irão instigar os alunos a se descobrirem e se desenvolverem plenamente. Serão vocês que irão lembrar que a Escola é muito mais que uma fábrica de sabichões. Serão vocês que não deixarão que a Escola se conforme a meramente formar para o “mercado de trabalho”.

Coloco esta expressão entre aspas porque ela tem sido usada de forma leviana. Normalmente se considera que formar para o mercado de trabalho é entregar um trabalhador capaz de atender os interesses das empresas que os empregam. Mercado de trabalho deve ser muito mais que isso, quando pudermos entender que trabalhar de forma a realizar nossas melhores potencialidades é um direito humano universal sistematicamente negado no Brasil.

E nós professores trabalhamos constantemente para mudar esse estado de coisas. Especialmente todos vocês que estão aqui colando grau nesta noite. Ao trabalhar nas áreas de artes vocês estarão fazendo o exercício cotidiano da resistência, contra a mecanização do mundo e a financeirização da vida. Contra a escravidão dos corpos que marca nossa existência como país. As artes tem um potencial libertário muito grande, acho que vocês percebem isso todos os dias.

Vocês sabem que não estão terminando nada. A formação de vocês não está completa, vocês não vão poder parar de estudar. Vocês estão recebendo um reconhecimento formal pelo cumprimento de uma etapa. Agora começa o mais difícil: a vida profissional. Sei que quase todos vocês já estão nela há tempos, não precisaram de um diploma para encontrar trabalho. O que espero é que o diploma abra portas para vocês alcançarem novos patamares.

Olhem para os colegas que estão do lado de vocês.

Isso não é uma despedida. Vocês conviveram nos bancos da faculdade por anos que pareciam longos, mas que de agora em diante serão lembrados de modo cada vez mais fugaz. Mas vocês vão continuar juntos na vida profissional. Se minha experiência estiver certa, vocês continuarão trabalhando juntos, fazendo projetos, indicando os colegas para trabalhos, trocando materiais, relembrando os bons tempos (a gente acaba achando bons depois que passaram – vocês vão ver). Cultivem isso sempre.

E não se esqueçam da FAP – mesmo quando este nome estiver diluído na UNESPAR, e dos seus professores. Nós estaremos ali, toda vez que vocês quiserem voltar, trocar ideias, aprofundar questões, compartilhar informações, atualizar-se. Doravante não mais como professor e aluno, mas como colegas de profissão.

Parabéns a todos.

Os textos que publiquei esta semana

Semana fraca de textos essa, que ninguém vai ficar lendo nada no carnaval mesmo.

Então saíram aqui nesta página apenas os seguintes textos:

Charles Dickens: 200 anos (um vídeo de um documentário sobre o escritor e mais uns links interessantes)

John Steinbeck: A pérola (minha resenha do livro, que li nas férias)

Mais um texto que publiquei no blog do portal da Gazeta do Povo:

Bem-vindos à quaresma (o caso das salsichas)

Este texto aí conta uma história bem curiosa sobre como uns trabalhadores de uma gráfica de Zurique comeram umas salsichas no primeiro domingo da quaresma de 1522, e acabaram por desencadear a chamada Reforma Religiosa nos cantões suíços. Tem gente que chama essas coisas de Reforma, por achar que as questões eram meramente teológicas. Eu prefiro chamar de Revolução, porque no tempo em que toda a vida era permeada de significado religioso, definir quem governa a igreja e como, se as pessoas podem ou não comer salsichas na Quaresma, se sacerdotes podem ou não se casar, e etc, não eram meras banalidades. As pessoas da época lutaram em guerras por causa desses motivos, digamos hoje – “fúteis”.

E como ninguém é de ferro, sigo publicando no meu blog sobre o Coritiba:

Coritiba 4×1 Operário: 9ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Atlético PR 0×0 Coritiba: 10ª rodada do Campeonato Paranaense 2012

Os craques do Coritiba em 2011: (3) Leandro Donizeti

Além disso, publiquei o tradicional resumo das leituras mais importantes que fiz na internet:

Leituras da semana

Veja todas as listas desta série na tag publicações da semana.

P.S.: a página de publicações minhas foi um pouco atualizada também.

Leituras da semana

No Escreva, Lola, escreva um texto fundamental a respeito da questão do julgamento do assassino de Eloá. A autora chama nossa atenção para o fato de que o assassinato não foi um caso isolado, nem individual. Homens assassinando as mulheres que eles dizem amar é um crime cotidiano, e revela o profundo machismo que grassa ainda em pleno século XXI.

O CASO ELOÁ E OS FEMINICÍDIOS DA SEMANA

No Amálgama, Alejandro Tarre escreve sobre as vicissitudes de se tentar construir uma oposição democrática a Hugo Chavez. Não é moleza:

Venezuela: Há um caminho

Na Gazeta do Povo, uma reportagem revela que o governo planeja uma das tais “portas de saída” do Bolsa Família: o empreendedorismo.

Governo quer que beneficiários do Bolsa Família virem empresários

Falando em planos do governo, o economista José Paulo Kupfer alerta para uma coisa que devia ser um conhecimento banal e óbvio: a comparação entre o rendimento escolar nos diversos testes existentes demonstra que os países que tem melhores resultados em educação são aqueles em que o professor tem maior valorização social (em salário e em status).

Mais com menos

Falando em coisas que o governo pretende fazer, deve fazer, ou não faz, saiu um ótimo balanço do primeiro ano do governo Dilma. No blog Brasil e Desenvolvimento. A análise é bem aprofundada, mas se eu tivesse que resumir tudo usando uma frase do texto seria essa aqui:

Quando os projetos de esquerda são profundamente associados ao desenvolvimentismo e medidos a partir de parâmetros econômicos, os avanços sociais passam a ser restritos à ampliação do acesso a bens de consumo.

Veja tudo lá:

Brasil, 2011: Os limites do nacional-desenvolvimentismo

Aliás, essas questões complementam e explicitam o que eu refleti no meu texto sobre os 32 anos do PT. E tem a ver com uma série de questões que eu comecei a tratar em propostas para um Brasil pós-Lula, uma série que eu não dei continuidade, mas que teve três textos: este, este e este.

Puxando para a política da província. O André Gonçalves, do blog Conexão Brasília faz uma reflexão muito necessária sobre a falta de discussão a respeito do metrô em Curitiba. Um tema que precisará ser muito debatido – e porque não na campanha eleitoral deste ano?

Tem um metrô no meio da eleição

Passando para as amenidades:

Claro que eu já sei que Budapeste, de Chico Buarque, é um grande romance, de um grande escritor, aclamado pela crítica, etc. Mas a primeira resenha que eu leio que me deu vontade de ler o livro foi esta, no Livrada:

Chico Buarque – Budapeste

E no blog Euterpe, uma reflexão profunda sobre a sisudez do ambiente de concertos. Tão profunda que merece um destaque maior aqui, quem sabe num texto específico. Enquanto isso corram ler:

A desumana exigência de civilidade nos concertos – Soluções?

Veja todos os textos da série na tag Leituras da Semana.

John Steinbeck: A pérola

Capa da edição LP&M

Foi meu primeiro Steinbeck, que me animou a explorar mais esta obra magistral.

Ideal para começar com a obra do escritor, por que é um livro curto, desses de ler numa sentada. A narrativa assume uma linguagem deveras cinematográfica, e, aliás, não duvido que ele seja o que da literatura mais influenciou o desenvolvimento de roteiros.

A crueza da vida sofredora aparece na obra de Steinbeck como nos acostumamos depois a ver no western ou no Cinema Novo, talvez mesmo na literatura beatnik e até na canção popular (à Dylan).

No caso deste livreto, um pescador de pérolas indígena – julgo que na Califórnia, chamado Kino. Ele se defronta com a tragédia ao encontrar a mais preciosa pérola jamais vista por aquelas paragens.

Em torno da narrativa centrada na família de Kino, e na introspecção psicológica do personagem (vejo nesta saga ecos de Victor Hugo, espremidos numa concisão, e semelhanças com o que foi explorado noutro clássico miniatural – O velho e o mar de Hemingway), Steinbeck aproveita para traçar um panorama da pobreza nos EUA, da exploração do pobre, da opressão secular do indígena. E faz um mergulho profundo na descrição do médico, do padre, dos compradores de pérolas. As personificações da exploração capitalista sobre uma comunidade tradicional e primitiva, que vivia em comunhão com a terra muito antes do explorador chegar.

O fio condutor da trama, a sustentar a atenção do leitor com a respiração suspensa por quase todo o livro, é justamente a expectativa da emancipação, que não chega senão no fim da história.

Um estilo de narrativa que foi meio abandonado na década de 1940, tanto pela necessidade de os EUA produzirem um cinema mais favorável ao país, por exemplo no âmbito da Good Neighbor Policy que foi tão eficaz em conquistar o mercado latino-americano para Hollywood, e que para isso precisou, por exemplo, banir Vinhas da ira (versão cinematográfica de John Ford para o romance de Steinbeck) e investir numa Carmem Miranda. Ou por exemplo, do outro lado da moeda, pelo Realismo Socialista, onde doravante não poderia figurar a desesperança ou o medo (peças centrais na saga de Kino), que passariam a ser sentidos apenas pelos escritores e artistas, enquanto seu público deveria receber uma trama repleta de certeza da vitória dos trabalhadores através do socialismo-que-não-tarda.

É por isso que a literatura modernista norte-americana é tão interessante. E foi tão influente. O livreto de Steinbeck o diz de maneira cabal.

Charles Dickens: 200 anos

Foto do acervo da National Portrait Gallery

Esses dias se comemorou os 200 anos de nascimento de um dos maiores escritores da língua inglesa (alguns falam em maior depois de Shakespeare) e um dos mais importantes da literatura moderna.

O programa Espaço Aberto Literatura da Globo News fez um interessante documentário sobre o escritor, cujo vídeo está aqui.

Na Gazeta do Povo saiu um importante especial, escrito pela professora Liana Leão, do Departamento de Letras da UFPR.

Mas o interessante é que não temos uma coleção decente dos textos do escritor em portugês – precisamos garimpar edições baratas (e ruins) em várias editoras.

Já em inglês, o serviço está feito. Várias edições grátis para Kindle e mais uma edição das obras completas neste formato por apenas U$ 2,99.

Pergunta que não quer calar: quando teremos edições decentes no Brasil?

Há um razoável verbete sobre o escritor na wikipedia em português, certamente não tão bom quanto o da wikipedia em inglês.