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Um guia das eleições americanas de 2020

Amanhã, dia 03 de novembro de 2020, ocorrerá uma das mais decisivas disputas eleitorais de nosso tempo. Todos estamos concentrados em acompanhar a disputa entre Trump e Biden para saber quem receberá o próximo mandato de presidente dos Estados Unidos nas eleições americanas de 2020.

Mas acabo de receber uma newsletter do jornal New York Times, redigida por David Leonhardt. O título é “Nosso guia da eleição”, e traz uma lista com os 12 temas mais importantes que serão decididos nas urnas.

No Brasil não somos muito acostumados com a complexidade eleitoral americana. Ela vai muito além de uma eleição presidencial decidia num colégio eleitoral equilibradíssimo. Os eleitores sairão de casa amanhã pra votar, se quiserem. Porque lá o voto não é obrigatório e a eleição ocorre numa terça “dia útil” normal. Nenhum empregado é liberado do expediente para votar. E possivelmente mais da metade dos eleitores já enviaram voto antecipado pelo correio. Eles não têm urnas eletrônicas, então a contagem é mais complicada quem em países mais tecnologicamente desenvolvidos, como o Brasil. E eles não votam só para presidente.

Cada estado tem uma eleição separada, de modo que o país tem 50 eleições diferentes no mesmo dia. Além do presidente, vota-se para senador e deputado. Alguns estados elegem também governador, senador estadual e deputado estadual. O eleitorado é dividido em condados, com voto distrital. Em vários condados os eleitores também votam plebiscitos sobre leis locais (tudo na mesma cédula de papel). E lá também são eleitos juízes de tribunais e procuradores.

A lista:

A presidência

Segundo David Leonhardt esse é o tema mais importantemente óbvio. O país será muito diferente na comparação entre um novo governo Trump ou uma vitória de Biden.

Como a contagem de votos é bem complexa, a eleição pode ser decidida voto a voto nos estados pêndulo (que ora dão vitória a democratas ora a republicanos). Considerando que os votos enviados pelo correio podem chegar depois do dia da eleição, dependendo de quando os eleitores tenham postado as cédulas…

Para o jornalista do NYT, o público deve ficar atento, durante a noite, aos resultados da Florida, Georgia ou Carolina do Norte. Uma vitória em um destes estados deve dar a presidência a Biden. Se Biden perder nestes três, o público acompanhará uma longa contagem por dias ou até uma semana, com a decisão da eleição dependendo da combinação de resultados no Arizona e na Pensilvânia.

Posso acrescentar a informação do site FiveThirtyEight, de Nate Silver, especializado em analisar estatísticas, probabilidades e chances a partir das combinações de resultados de diversas pesquisas.

Lá nos EUA existem muitos institutos de pesquisa, alguns regionais. Os resultados são muito diferentes conforme as metodologias. O FiveThirtyEight não faz pesquisa mas analisa os resultados previstos por muitos institutos. É onde se pode encontrar as previsões mais certeiras.

E o site dá que as chances de Biden vencer são de 90 em 100, com base nas últimas pesquisas.

https://projects.fivethirtyeight.com/2020-election-forecast/

Evolução das chances de vitória de Biden (Democrata, linha azul) e Trump (Republicano, linha vermelha) conforme análises estatísticas do FiveThirtyEight

Controle do senado

Segundo David Leonhardt, no caso de uma vitória de Biden ele teria dificuldade de passar legislações mais importantes se os Democratas não controlarem o Senado. Se o presidente Trump vencer, o Senado determinará a possibilidade de ele indicar novos juízes para a Suprema Corte.

Parece que os Democratas vão perder para os Republicanos o assento que hoje ocupam pelo Alabama. Por isso, precisariam tomar quatro cadeiras ocupadas por Republicanos para ganhar a maioria. As pesquisas indicam favoritismo de candidatos Democratas para tomar assentos hoje republicanos nos estados de Arizona, Colorado, Maine e Carolina do Norte. As pesquisas indicam empate em outros 5 assentos hoje ocupados por republicanos, referentes aos estados de Iowa, Montana, Carolina do Sul e dois assentos na Georgia.

Segundo as previsões do FiveThirtyEight, as chances de os Democratas tomarem o controle do senado são de 76 em 100.

https://projects.fivethirtyeight.com/2020-election-forecast/senate/

Evolução das chances de controle do senado, por Democratas (linha azul) ou Republicanos (linha vermelha), segundo o site FiveThirtyEight.

O site detalha ainda mais a análise das pesquisas em cada estado. Entre os estados hoje republicanos, cujos assentos estão em disputa, são grandes as chances democratas em: Maine (58 em 100), Georgia (63 em 100), Carolina do Norte (64 em 100), Arizona (79 em 100), Colorado (84 em 100). O único estado que deve “flipar” de democrata para republicano é o Alabama (com chances de 86 em 100).

Os demais estados devem ficar com o controle como estão. O senado americano tem 100 cadeiras, e hoje os republicanos ocupam 53, os democratas 45 e os independentes (que fazem oposição a Trump) ficam com duas. Nem todas as vagas estão em disputa esse ano, porque os mandatos são de 6 anos, e as disputas são intercaladas com eleições presidenciais e eleições de meio de mandato presidencial.

Legislaturas estaduais

Como explica o jornalista do NYT, o controle da legislatura em anos de censo, como 2020, é muito importante por causa do redesenho dos distritos eleitorais. Quem controla as legislaturas (senados estaduais e assembleias estaduais) tem mais força para definir o redesenho dos condados conforme seu interesse. Atualmente os republicanos controlam 29 legislaturas, democratas 19, e duas são empatadas.

Os democratas esperam nesta eleição tomar o controle completo nos estados de Arizona, Minesota e Carolina do Norte. E o controle parcial (uma das duas casas) em Iowa, Pensilvânia, Michigan e Texas.

A Casa dos Representantes

Esse nome bonitão é como os americanos chamam sua Câmara dos Deputados. Mas segundo a newsletter do NYT, os democratas tem hoje uma vantagem de 35 assentos, e podem ampliá-la.

A estimativa do FiveThirtyEight dá chances de 98 em 100 de os democratas manterem o controle.

https://projects.fivethirtyeight.com/2020-election-forecast/house/

Promotores e tribunais

David Leonhardt explica que várias grandes cidades norte americanas (Los Angeles e Orlando, por exemplo), podem eleger promotores que já se posicionaram contra encarceramento em massa, e que podem ser contra solicitar pena de morte ou prisão por porte de drogas.

Em estados como Michigan e Ohio os democratas esperam assumir o controle das Supremas Cortes estaduais, o que pode redefinir disputas jurídicas em torno do direito de trabalhadores ao voto (cada estado estabelece regras para cadastro e identificação de eleitores, e Republicanos trabalham sempre pra restringir votos de pobres) e de políticas estaduais de enfrentamento da pandemia.

Intervenções econômicas

Vários estados incluíram na cédula medidas econômicas para reduzir desigualdades, conforme descobri na newsletter. Por exemplo, a Florida propôs estabelecer um salário mínimo de 15 dólares por hora. Ilinois propôs imposto de renda mais progressivo. O Arizona propôs impostos mais altos para os ricos. A Califórnia propôs impostos crescentes sobre patrimônio empresarial.

Outras decisões importantes

A newsletter fez uma lista de 12 pontos importantes cuja decisão será tomada pelos eleitores. Eu listei individualmente os 6 primeiros. Os demais são:

(7) Restrições ao aborto na legislação estadual do Colorado; (8) o estatuto político de Porto Rico, que pode se tornar um estado americano a depender de um plebiscito local e futura legislação; (9) democratas radicais, como Ocasio-Cortez podem ganhar eleições em vários condados; (10) regulação de aplicativos de transporte na California, podendo ser exigido direitos trabalhistas para a contratação de motoristas pelo Uber (não nos preocupemos, os EUA não têm quase nenhum); (11) alguns estados e cidades poderão liberar votação em candidatos independentes aos partidos, o que hoje só acontece em um único estado – o Maine; (12) política de drogas – vários estados decidem se liberam a venda de maconha e se diminuem restrições ao consumo de cogumelos.

Sobre o ponto (9), da eleição de democratas mais à esquerda, é muito interessante assistir o documentário Virando a mesa do poder, disponível na Netflix. Ali está uma história da mobilização articulada pela promoção de candidaturas populares e transformadores, e das batalhas para eleição de alguns congressistas, principalmente Ocasio Cortez.

https://www.netflix.com/title/81080637