Sobre esquerda e direita, a propósito dos protestos na Venezuela

Protesto na Venezuela (foto de Davi Gonzáles para o Terra)

Protesto na Venezuela (foto de Davi Gonzáles para o Terra)

Tô escrevendo este post por causa da reação de uns amigos quando compartilhei no facebook este texto do Vargas Llosa sobre os protestos na Venezuela.

São amigos pelos quais tenho profundo respeito como intelectuais, o que significa que vale a pena elaborar melhor algum raciocínio sobre o assunto, porque acho que a discussão pode ser muito interessante.

Você vai ler, ou já leu o texto do link acima, então nem preciso dizer que o Vargas Llosa defende os manifestantes venezuelanos, e considera legítimas suas reivindicações. Na verdade diz muito mais – que os manifestantes estão conseguindo, a duras penas, evitar que a Venezuela se torne mais uma Cuba, e que toda a América Latina mergulhe em regimes ditatoriais.

Que esses regimes ditatoriais sejam considerados “de esquerda”, e que o Vargas Llosa e os manifestantes venezuelanos sejam considerados “de direita” é um pequeno detalhe, mas que tem feito toda a diferença no que as pessoas tem pensado sobre estes casos. O argumento dos meus amigos foi algo como uma surpresa que eu pudesse concordar com um texto escrito por alguém assumidamente de direita.

Temos que fazer algumas diferenças aqui. Em primeiro lugar acho que o Vargas Llosa deve ser definido mais precisamente como um liberal. Reduzir isso a um simples “de direita” é diminuir a complexidade da questão. Se quisermos lembrar o quanto o liberalismo tem de esquerda, temos que ler esta ótima (e curta) explicação histórica do prof. Clóvis Gruner.

Por outro lado, acho que é bem contraproducente pensar em “esquerda” como coisas ligadas a Lênin e Stalin, Fidel e Che, Mao Zedong. Porque se pensamos que esquerda é defender igualdade e justiça social, temos que lembrar que não existe esquerda sem pensar em garantia de direitos e liberdade de expressão. Governos ditatoriais não são de esquerda. São governos ditatoriais. Já passou da hora de sabermos que não é de esquerda ser estatizante, cercear a liberdade de expressão e de imprensa, realizar prisões arbitrárias e estabelecer controles centralizados sobre as decisões econômicas. Se não quisermos pensar que isso é moralmente errado, pelo menos sejamos pragmáticos: está mais que provado que isso não melhora a vida das pessoas.

O bolivarianismo de Chávez e o chavismo de Maduro não são esquerda. O fato de que existe uma elite branca que sempre viveu as benesses da riqueza petrolífera do país, deixando à míngua a maioria de pobres mestiços e índios, não significa que as mudanças políticas provocadas pelos anos de Chavez sejam a priori boas, só porque pretendiam mudar este estado de coisas.

Os governos de Chavez (1998-2013) arruinaram a economia da Venezuela, a tal ponto que hoje a população não consegue produtos básicos como papel higiênico ou mesmo comida. É um caminho que vem seguido de perto pela Argentina dos Kirchner, que vive perseguições à mídia oposicionista (é “burguesa”, mas e daí? Não se cala a oposição por ela ser oposição – convive-se com ela, derrota-se ela politicamente) descontrole inflacionário e falta de insumos por insolvência externa (mesmo com o alto valor das commodities de exportação).

De modo que é imperativo preocupar-se com a situação dos vizinhos próximos e distantes. Até porque há um flerte perigoso dos nossos governos petistas com essa irresponsabilidade toda só porque é “de esquerda”. Vamos lembrar que o PT não é eleito no Brasil porque significaria um impulso na vitória mundial da esquerda. É eleito no Brasil enquanto puder distribuir renda mantendo a inflação sob controle. Vamos lembrar que nossos governos de esquerda tem sido muito tímidos em fazer mudanças mais profundas na estrutura econômica que sustenta nossa desigualdade – nossos pobres continuam tendo que trabalhar muito mais porque não contam com infraestrutura básica, e os governos do PT pouquíssimo avançaram nisso. É difícil mudar, dá muito trabalho. E é fácil fazer besteira quando se é muito afoito ou voluntarista. O episódio da baixa da SELIC por determinação presidencial já está patente que foi desastroso. Apenas estamos em situação mais fácil de consertar, enquanto a Venezuela já chegou ao fundo do poço. Mas as nossas “jornadas de junho” bem nos mostram que as coisas não vão a mil maravilhas por aqui, especialmente porque nossos governos (de todas as matrizes ideológicas) não conseguem fazer transportes públicos decentes.

Não basta classificar os protestos venezuelanos como “financiados por Washington” ou os rebeldes como “de direita”. Se Washington financia instituições pró mercado e pró democracia, isso é bom. Se regimes querem ser anti americanos, anti capitalistas e anti imperialistas, que ótimo também. Basta governarem bem, e construírem um sistema onde tenha papel higiênico para todos no supermercado.

Ou seja, o negócio de esquerda e direita aqui está bem embaralhado. Não basta desprezar o texto do Vargas Llosa por que foi escrito por alguém da direita. É preciso identificar onde estão as ideias erradas no texto dele. Onde estão as virtudes do chavismo, que não enxergamos, e porque alguém que vive na Venezuela não deveria protestar contra o governo.

Por fim, só pra ilustrar, um tuíte do meu deputado Dr. Rosinha.

Ele trai sua posição ali, embora o link remeta para um texto da BBC que fundamenta o que está dizendo, e mostra uma Venezuela com profundas divisões sociais. Elas existem, e a coisa não é simples. Mas o direito de protestar, de exigir mais liberdade é a marca da juventude. E que bom que tem gente protestando, sempre. Nos leva a um mundo melhor, com direita e esquerda disputando posições em eleições democráticas, coisa que a Venezuela não tem faz tempo.