Meu discurso de paraninfo para os formandos de Licenciatura em Música 2011 da FAP

Não sei quem está mais feliz e orgulhoso – se vocês aí recebendo o canudo ou se eu aqui discursando como paraninfo.

O orgulho que eu tenho de estar aqui é porque eu considero o trabalho de professor como algo relevante e significativo para mudar o mundo e desenvolver as pessoas. Se vocês me convidaram, é porque de alguma forma consegui fazer isso durante o tempo que vocês passaram pelo curso.

Mas digo isso aqui porque o diploma que vocês recebem é de licenciados, ou seja, professores. Então, reforço aquilo que espero tenha sido o que vocês aprenderam na faculdade – seja comigo seja com os outros professores do curso.

Não falo do conteúdo das matérias, que é tanta coisa que será impossível lembrar de tudo. Falo principalmente da atitude diante do conhecimento. O Brasil se ressente até hoje de uma formação educacional conservadora, centrada na autoridade do professor e na memorização do conteúdo. Essa característica só não nos causou maiores estragos porque a escola brasileira sempre foi para uns poucos.

Agora que a Escola Básica foi universalizada, temos o desafio de construir novos modelos. E espero que vocês estejam engajados nisso, como professores. Então, como eu dizia, espero que o aprendizado de vocês no Curso Superior tenha levado ao desenvolvimento de uma atitude reflexiva e questionadora, que entenda o conhecimento como algo dinâmico. Ninguém nunca sabe as coisas, estamos sempre aprendendo. E o melhor que um professor pode fazer é mostrar o quanto há para se saber, e como se pode aprender. Porque o aprendizado, quem faz é o aluno, e não há quem possa fazer isso por ele.

Conheço razoavelmente cada um de vocês. O suficiente para ter certeza que estamos entregando vocês para a sociedade como um tesouro inestimável. Vocês tem o empenho e a competência para fazer a diferença. Vocês irão para as escolas e para os projetos imbuídos de um novo espírito. Vocês irão fomentar seres humanos melhores, cada vez que colaborarem para despertar um aluno para perceber música com profundidade.

Vocês serão os profissionais mais importantes das escolas onde vão atuar. Serão os menos viciados na estrutura tradicional, serão os mais inovadores, os que irão instigar os alunos a se descobrirem e se desenvolverem plenamente. Serão vocês que irão lembrar que a Escola é muito mais que uma fábrica de sabichões. Serão vocês que não deixarão que a Escola se conforme a meramente formar para o “mercado de trabalho”.

Coloco esta expressão entre aspas porque ela tem sido usada de forma leviana. Normalmente se considera que formar para o mercado de trabalho é entregar um trabalhador capaz de atender os interesses das empresas que os empregam. Mercado de trabalho deve ser muito mais que isso, quando pudermos entender que trabalhar de forma a realizar nossas melhores potencialidades é um direito humano universal sistematicamente negado no Brasil.

E nós professores trabalhamos constantemente para mudar esse estado de coisas. Especialmente todos vocês que estão aqui colando grau nesta noite. Ao trabalhar nas áreas de artes vocês estarão fazendo o exercício cotidiano da resistência, contra a mecanização do mundo e a financeirização da vida. Contra a escravidão dos corpos que marca nossa existência como país. As artes tem um potencial libertário muito grande, acho que vocês percebem isso todos os dias.

Vocês sabem que não estão terminando nada. A formação de vocês não está completa, vocês não vão poder parar de estudar. Vocês estão recebendo um reconhecimento formal pelo cumprimento de uma etapa. Agora começa o mais difícil: a vida profissional. Sei que quase todos vocês já estão nela há tempos, não precisaram de um diploma para encontrar trabalho. O que espero é que o diploma abra portas para vocês alcançarem novos patamares.

Olhem para os colegas que estão do lado de vocês.

Isso não é uma despedida. Vocês conviveram nos bancos da faculdade por anos que pareciam longos, mas que de agora em diante serão lembrados de modo cada vez mais fugaz. Mas vocês vão continuar juntos na vida profissional. Se minha experiência estiver certa, vocês continuarão trabalhando juntos, fazendo projetos, indicando os colegas para trabalhos, trocando materiais, relembrando os bons tempos (a gente acaba achando bons depois que passaram – vocês vão ver). Cultivem isso sempre.

E não se esqueçam da FAP – mesmo quando este nome estiver diluído na UNESPAR, e dos seus professores. Nós estaremos ali, toda vez que vocês quiserem voltar, trocar ideias, aprofundar questões, compartilhar informações, atualizar-se. Doravante não mais como professor e aluno, mas como colegas de profissão.

Parabéns a todos.

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