Domingo da ressurreição

Texto antigo, publicado originalmente em 4 de abril de 2010

A morte de Cristo não foi o fim. Foi o grande recomeço.

Esse é o ponto central de todo o cristianismo.

É isso que significa, em última instância, a noção de ressurreição.

Os discípulos de Jesus tinham ficado perplexos com sua morte. A comunidade de seus seguidores se dispersou. O único relato sobre a comunidade de Jerusalém nos anos seguintes à partida do Messias é o livro de Atos, escrito por um helenista pelo menos uma geração depois, com fontes pouco precisas da tradição oral. Mas, ao que tudo indica, os discípulos continuaram praticando sua fé como judeus piedosos, com toda a probabilidade de serem reabsorvidos pelo judaísmo do qual eram uma dissidência mais ou menos incômoda.

O que fez a diferença foram os helenistas – a comunidade da diáspora.

Judeus que viviam num mundo onde o judaísmo era minoritário. Forçados a serem mais flexíveis. Eles já tinham traduzido as Escrituras para o grego (septuaginta), adoravam nas sinagogas e não tinham ligação com a religião do templo, exceto por caríssimas e esporádicas peregrinações a Jerusalém para alguma festa importante. Eram os mais universalistas, os mais interessados em “traduzir” sua fé essencialmente judaica para o mundo greco-romano. Por isso eram mais perseguidos pelo Sinédrio. Pedro e João estiveram presos. Estêvão foi apedrejado até a morte. Os “hebreus” (comunidade de Jerusalém) davam trabalho, mas podiam ser assimilados. Os “helenistas” (da diáspora) tinham que ser eliminados – significavam o risco de que a fé judaica sucumbisse à ameaça helenizante.

É esta tradução do evangelho para a mente greco-romana, feita principalmente pelo apóstolo Paulo, que criou o cristianismo. Talvez isso só tenha sido possível porque a comunidade de Jerusalém foi destruída ou dispersa no ano 70. Seu poder de coerção, antes disso, tinha chegado a ameaçar a vida de Paulo. Se a comunidade de Jerusalém tivesse prevalecido, o evangelho de Jesus não teria se tornado universal.

Foi para o mundo grego que Paulo concebeu a idéia de Cristo como Deus pré-existente. Um Messias pregando uma comunidade de amor para o “povo da terra” (Am Ha Aretz) continuidade da tradição do profetismo desde os tempos exílicos, não faria sentido para não-judeus. A prova da pré-existência do Cristo homem-deus era sua ressurreição. A fé seria explicada por uma dupla substituição: sua morte era a nossa morte, pois ele morria pelo nosso pecado. Sua ressurreição era nossa ressurreição, pois com ele seríamos levantados para uma nova vida, abandonando o pecado que ele tinha carregado com sua morte substitutiva.

A pregação de Cristo tinha sido por uma comunidade de amor e de paz, da rejeição do conforto e do benefício próprio em prol do reino-de-deus comunitário.

Nas mãos de Paulo tornou-se a doutrina de Deus, tornado homem, sacrificando-se em nosso favor e ressuscitando para nos dar vida. Foi isso que deu vida ao cristianismo para além dos círculos judaicos iniciais, tornando-o uma fé passível de ser universalizada.

Se a ressurreição ocorreu de fato ou é um simbolismo místico, eis o grande mistério. Vale dizer que esta é uma das mais longas discussões internas do cristianismo, paralela à definição da ortodoxia cristológica. Em nome do que muito se matou e morreu. Em nome do que se esqueceu o cerne inicial da boa-nova: a prática do amor ao próximo.

–x–

Veja a série completa sobre a Semana Santa:

Hoje é domingo de ramos

Hoje é sexta-feira santa

Foram os judeus que mataram Jesus?

Hoje é domingo da ressurreição

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5 Comentários em Domingo da ressurreição

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  3. Catatau disse:

    Pois é, André, estou até agora pensando como é que o cristianismo proliferou majoritariamente, como dizem tuas linhas, com Paulo.

    É realmente admirável, visto que aparentemente esse viés helenista, como vc diz, deriva de Paulo e portanto não deriva tanto dos sectos mais próximos dos apóstolos originais.

    É curioso por ex. gente como Nietzsche falar que o Cristo é uma coisa e Paulo representa outra bem mais, digamos, reativa. Daí é muito curioso o cristianismo ter proliferado mais por esse viés e, de repente, esse viés ter se criado nos séculos seguintes o culto à Regula, a ortodoxia, a fixidez radical às escrituras e a parte mais espiritual ter ficado um pouco mais submetida a essa eterna exegese de si comparada com o que diz a ortodoxia da Regula.

    Enfim, jogo as coisas de um jeito meio solto, mas é solto mais por dúvida de não saber como tudo isso se engendra do que por conhecimento. Alguma dica ou consideração?

    Abraço,

  4. André Egg disse:

    Ainda tô tentando entender o que você escreveu, mas uma pista que eu acho interessante a questão das escrituras.

    Se a gente pensar bem, as Escrituras foram surgindo em paralelo com esse negócio que você chama de Régula, e acho que isso também foi em paralelo com o aumento da importância dos bispos.

    Até onde eu sei, não dá para saber direito como foi, mas dizem que os escritos de Paulo (que são os mais antigos do Novo Testamento) mostram um cristianismo igualitário e de liderança plural.

    Lá pelo fim do segundo século já estava estabelecido o bispado monárquico, fundado na noção mítica de “sucessão apostólica” (a mesma que diz hoje que o Papa ocupa o “trono de Pedro”).

    Esse bispo que manda em tudo por que diz que foi discípulo do discípulo do discípulo do Cristo é o mesmo que sustenta a autoridade do livro.

    E teve muita briga entre esses bispos pra dizer que livro podia fazer parte das sagradas escrituras, que doutrina era santa e qual devia ser considerada heresia. A briga era tão importante que Constantino fez uma pacificação patrocinada pelo Império, no primeiro Concílio em 313.

    Essa transformação estava longe de acabada em Paulo – era só o começo. Estava acabada de vez mesmo em Agostinho.

    O que me chama a atenção na ação de Paulo é essa possibilidade de Cristo ser também para o gentio, uma coisa que só podia vir de um judeu helenizado. Os hebreus da Palestina eram exclusivistas, enquanto os helenistas eram proselitistas. Aqueles viam Deus no Templo, estes na sinagoga (onde Paulo transitava com desenvoltura). Aqueles tinham Deus para si, estes o queriam para levar ao mundo todo.

  5. Catatau disse:

    Oi André!

    Obrigado pela resposta! Sim, acho que o que escrevi ficou truncado. Mas basicamente a pergunta é: pq o cristianismo parece ter vingado mais vindo de um Paulo helenizante do que das comunidades “originais”? E quais as consequências disso para o cristianismo paulino que veio a ser chamado enfim de cristianismo?

    Por exemplo, o “universalismo” e “pluralismo” paulinos, à luz de certo helenismo, pareceriam ocasionar em algo diferente do que ocasionaria todo aquele entusiasmo (de repente de todos os relatos pós-ressurreição, até o destino trágico dos apóstolos primeiros) dos apóstolos, que enfim inspiraram também o próprio Paulo. Parece que, desde Paulo, algo mudou…

    A questão é que parece que a partir de Paulo houve certo “crivo” para o desenvolvimento do cristianismo, e, mesmo que esse crivo derive das práticas espirituais originais, ele também teria certo viés “helenizante” que não seria autenticamente ligado àquelas práticas. Daí tudo o que você descreveu em direção à constituição do papado e depois de uma filosofia mais “fechada” (e muito bonita por sinal) no Santo Agostinho.

    Enfim, ponho o que escrevi acima na posição de dúvida, pois é algo que eu gostaria muito de compreender melhor.

    Abraço!

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