A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

Peguei o folheto da programação lá esses dias. O concerto de estreia da temporada aconteceu no último fim de semana e eu já perdi. Vou ficar de olho nas próximas: certamente não poderei assistir tudo, tem algumas coisas que me interessam mais, outras menos. Mas prometo que o que eu assistir escrevo uma crítica e depois atualizo aqui com os links.

De todo modo, a temporada merece alguns comentários, depois da lista dos concertos, como segue:

30 e 31 de março

J. S. Bach – Paixão segundo São João

Coro e orquestra

regência Luiz Otávio Santos

20 e 21 de abril

Antonio Vivaldi – dois concertos para violino

Giuseppe Tartini – movimento lento de um concerto para violino

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista não informado

11 e 12 de maio

canções inglesas dos séculos XVI a XVIII e canções dos Beatles

Coro e orquestra

regência Luiz Gustavo Petri

arranjos Marco Aurélio Koentopp

direção cênica Jaqueline Daher

textos Marcelo Sandmann

25 e 26 de maio

Antonio Vivaldi – dois concertos para fagote

Heitor Villa-Lobos – ciranda das 7 notas

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista Fábio Cury

11 a 15 de junho

programação especial com canções infantis

Coro e orquestra

arranjos Marco Aurélio Koentopp

29 e 30 de junho

Camargo Guarnieri – Toada à moda paulista nº 4

Dmitri Shostakovich – Sinfonia de Câmara op. 110

Bela Bartok – Divertimento

Orquestra de Câmara

regência Ricardo Bologna

6 e 7 de julho

Marc Antoine Charpentier – Missa, Stabat Mater e Magnificat

Coro e orquestra

regência Juan Manuel Quintana

10 e 11 de agosto

Mozart – Adágio e fuga KV546 e Concerto para piano e orquestra KV449

Henry Purcell – Suíte do “velho solteiro”

Orquestra de Câmara

regência Maurício Aguiar

solista Guilherme Pozzi

17 e 18 de agosto

música sacra dos séculos XVI e XVII (Morales, Cristo, Victória, Palestrina, Byrd, Giovanni Gabrielli e Monteverdi)

Coro da Camerata

regência Maria Guinand

24 e 25 de agosto

uma mistura de obras bem heterogênea de 1700 a 2000 (Vivaldi, Eben, Hahn, Grieg)

Coro e orquestra

regência Helmut Riebl

14 e 15 de setembro

Schubert – Quarteto “Der Tod und das Mädchen” – transcrição para orquestra de cordas de Gustav Mahler

Orquestra de Câmara

regência Stefan Geiger

28 e 29 de setembro

música coral norte-americana

Coro da Camerata

regência Keith McCutchen

2 a 5 de outubro

programa especial de canções infantis

Coro e orquestra

arranjos Marco Aurélio Koentopp

18 e 19 de outubro

Carl Orff – Carmina Burana

Coro da Camerata, Coro Carmina Mundi (Alemanha) e Canarinho de Campo Largo

regência Harald Nickoll

preparação dos Canarinhos Théo de Petrus

26 e 27 de outubro

Henrique de Curitiba – Cantigas do bem-querer

José Penalva – Provérbios

Jaime Zenamon – Curitiba tecida pelos povos (estreia – obra encomendada)

Coro e orquestra

regência Norton Morozowicz

9 e 10 de novembro

Gustav Holst – St. Paul Suite

Ernani Aguiar – Instantes II

Mateus Freire – Suite Brasilis

Rufo Herrera – Buenos Aires Siglo XX

Orquestra de Câmara

regência Rodrigo Toffolo

solista Rufo Herrera (bandoneon)

30 de novembro e 1º de dezembro

Natal com a família Bach

Coro da Camerata

regência Helma Haller

14 e 15 de dezembro

J. S. Bach – Cantatas BWV 36, 62 e 121

Coro e orquestra

regência Luiz Otávio Santos

Em linhas gerais, é uma programação bem com a cara da Camerata. No sentido de que já sabemos o que esperar da programação.

Por um lado, isso é bom demais num país em que as coisas dificilmente ganham continuidade e chegam a virar tradição. Neste sentido, a existência da Camerata já um feito por si só.

Pelo lado negativo, é um problema quando um grupo vai ficando meio repetitivo em si mesmo, quando programa um ano inteiro de trabalho sem nenhuma grande surpresa. Continuo achando a programação eclética, no mau sentido da palavra. Os convidados e os programas vão ficando muito manjados, e alguns até mesmo parece que se justificam mais por idiossincrasias da direção que por representatividade musical.

Como grupo mantido com verbas públicas (apesar de ser gerido por uma OS e ter participação de patrocinadores privados em sua programação), a Camerata deveria assumir um papel um tanto mais estratégico no fomento da vida musical e da profissionalização em Curitiba. Como contribuinte sigo me sentido com aquele gostinho de que o dinheiro público poderia estar mais bem empregado.

Sendo mais específico: a temporada está bastante pobre de estreias – a única peça é uma encomenda a um compositor que tem uma representatividade bem específica, e é um nome bem estabelecido e esteticamente acomodado.

Temos também um único concerto com obras de compositores locais. Nestes dois aspectos já se evidencia a pobreza da programação do ponto de vista da boa aplicação da verba pública: pouco resultado para a vida musical da cidade e pouco pioneirismo no cenário nacional.

Os dois defeitos (falta de estreias e de produção local) seriam menores se o restante da programação fosse coisa altamente recomendável, se cada concerto atraísse a atenção como programação indispensável de clássicos ou de música antiga (que o nome falsamente sugere ser a especialidade do conjunto).

Mas neste sentido eu achei que ficamos aquém. Os únicos programas que eu sinto como imperdíveis são os de 17/18 de agosto (música sacra vocal dos séculos XVI e XVII), o de 6/7 de julho (dedicado a Charpentier, um compositor menos óbvio, e com um regente internacional), e principalmente o de 29/30 de junho (Guarnieri, Shostakovich e Bártok).

Mas, deveríamos considerar interessante, na verdade, um programa que atraísse, por exemplo, alguém viajar para Curitiba para assistir um concerto da Camerata, como me dá vontade de fazer com grande parte da programação que acontece no Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte. Comparativamente, Curitiba decidiu que não quer mais ser um polo de música erudita, parou no tempo e vai se afundando na própria mediocridade.

Outros problemas que apontam para essa nossa vocação para a mediocridade: a programação da Camerata não faz uma coisa que seria óbvia e básica: aproveitar nomes com ligação em Curitiba que poderiam voltar aqui para programas de alto nivel, e seguem solenemente ignorados – como Rodolfo Richter, Fernando Swiech ou Ricardo Bernardes, para ficar apenas nos que consigo me lembrar sem esforço.

E mais, uma cidade que tem compositores ativos como Mauricio Dottori, Harry Crowl, Marcio Steuernagel, Felipe Ribeiro, entre outros que se destacaram na I Bienal Música Hoje, não pode simplesmente ignorá-los em todo um ano de programação.

E ainda: cerca de um terço da programação pode ser considerada “música antiga”, entretanto nenhuma obra sequer foi programada entres as produzidas na América Portuguesa.

Resta a experiência crossover de misturar Beatles e canção inglesa antiga (na verdade eu devia ter incluído isso na parte que considero imperdível, mas esta programação embute um risco considerável).

Os dois programas dedicados a canções infantis em arranjos feitos por um profissional muito competente poderiam ser altamente alvissareiros, não fosse pelo fato de que a Camerata ficou pra trás em relação à iniciativa bem mais interessante que a Orquestra Sinfônica do Paraná pôs a campo este ano.

P.S. – a equipe que montou a programação e vai tocar a temporada:

Roberta Storelli, presidente da FCC; Nilton Cordoni Jr, presidente do ICAC (OS que administra a orquestra com verba pública); Janete Andrade, coordenadora de música erudita da FCC (cargo meio que vitalício); Maurício Aguiar (diretor musical, regente e spalla); Helma Haller (diretora musical e regente do coro). Há ainda um “conselho artístico” formado por Janete Andrade e Milton Cordoni (acúmulo de cargos?) mais os representantes dos músicos – Ivan Moraes (do coro) e Francisco Freitas (da orquestra), e um único membro externo – Luis Otávio Santos.

P.S.2 – dos 18 concertos, 2 não tem indicação de regente (os do cancioneiro infantil). Os 16 restantes tem 11 regentes convidados de fora da cidade. Destes 11, três concertos tem regentes que vêm de Minas Gerais e dois de São Paulo. Restam 6 concertos com regentes convidados de fora do Brasil, ou 1/3 da programação. Não conheço o trabalho destes regentes que vêm da Alemanha, Inglaterra, EUA, Venezuela e Argentina – mas fico com uma pontinha de dúvida se as despesas com viagens internacionais estão provocando algum impacto positivo na via musical local, especialmente no caso dos que vêm do “primeiro mundo”. (Ou talvez seja o caso de as passagens deles estarem sendo custeadas por parcerias e patrocínios.)

P.S.3 – Os concertos com obras do cancioneiro infantil são promovidos em convenio com a Secretaria de Educação, Comunidade Escola e Fundação de Ação Social. Que apontam para um fator primordial a levar em conta na organização destas temporadas: qual o potencial de que a Camerata seja um agente significativo para além do momento do concerto em si? Acho que dá para ousar muito mais com relação a isso em Curitiba.

P.S.4 – A Fundação Cultural tem o trabalho de imprimir a programação, mas não se importa em fazer um sítio na internet para a Camerata (acredite se quiser, mas eles usam o blogspot, e tem uma seçãozinha na página da FCC) . Isso ajuda a entender a pequenês da visão estratégica de quem faz o negócio todo. Compare-se com a OSESP ou a Filarmônica de MG para entender do que estou falando.

Veja também:

A programação 2010 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Camerata Antiqua de Curitiba

A programação 2011 da Orquestra Sinfônica do Paraná

A temporada 2012 da Orquestra Sinfônica do Paraná

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5 Comentários em A programação 2012 da Camerata Antiqua de Curitiba

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  3. Catatau disse:

    Saudades da Camerata: sempre à mão, mas como surpreende nossa negligência para as belas coisas que estão sempre à mão! Perdendo-as, descobrimos depois que eram privilégios.

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