Em Curitiba, música popular é caso de polícia

A gente sempre ouve contar que música popular era caso de polícia no início do século XX, que festas populares podiam ser interrompidas, que o sujeito podia pegar cana por vadiagem se tocasse violão, que cavaquinho foi inventado para se tocar algemado – e outras anedotas pouco verificáveis.

Mas, na Curitiba da segunda década do século XXI estas histórias antigas viram brincadeira de criança, diante de uma “operação policial” que resolveu tocar o horror entre os foliões que curtiam o pré-carnaval do Garibaldis e Sacis no Largo da Ordem último domingo.

Você pode até pensar que a polícia foi defender o sossego dos moradores – não sei se argumentaram com este tipo de sofisma. Mas o fato é que o massacre policial foi impetrado antes das 9 da noite, conforme o depoimento do jornalista Félix Calderaro no Facebook:

Segundo a reportagem da Gazeta do Povo, o comandante da operação afirmou:

Foi muito positiva a atuação técnica da PM, da Polícia Civil e Guarda Municipal, que fizeram o ‘uso progressivo da força’, como deveria ser

Se você clicar no link, e ver as fotos e vídeos da reportagem, vai achar bem estranha a fala do comandante. Mas a reportagem da Gazeta também acompanhou o discurso de alguns policiais no Facebook. Um deles afirma:

Defendo meu estado com unhas e dentes, no meu caso, com borrachada e BOMBAA! (…) Bandido tem que ser tratado como bandido… E aqui no Paraná bandido não se cria

Qualquer olhadela nas estatísticas de criminalidade no estado fará ver que este policial é bom para fazer bravata com foliões – para enfrentar criminosos de verdade faz parte de um órgão incompetente.

Para mim vai muito além da afirmação do cronista político Rogério Galindo, que acha que o problema é a falta de controle do governo sobre a PM.

A questão é que, no Brasil, PM serve para isso mesmo. É só lembrar dos incidentes provocados na USP, na “cracolândia” paulista e na “desocupação” do Pinheirinho em São José dos Campos. Ou agora no motim dos policiais baianos. Os governos estaduais não fazem nada para mudar este tipo de situação por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque reformar a polícia dá muito trabalho – mais fácil deixar como está. Sobre isso, vale a pena acompanhar o racicínio de Luis Eduardo Soares, um especialista sobre segurança pública que não cansa de mostrar que nossas polícias são um grave problema.

O problema maior, a meu ver, é que esse discurso da truculência policial “contra bandido” é bem visto por grande parcela da sociedade. O episódio do Largo da Ordem demonstra que nossa polícia é muito violenta e pouco inteligente. A justificativa para a brutalidade era combater arruaceiros, que segundo relatos dos próprios policiais (isso não vi foto em lugar nenhum) atacaram as viaturas que chegaram ao local. Bem, os policiais foram incapazes de identificar os criminosos, a atuaram indiscriminadamente contra todos que estavam no Largo da Ordem, com cacetetes, gás lacrimogênio e balas de borracha.

Interessante que o Garibaldis e Sacis é hoje um dos melhores pre-carnavais do Brasil, mas nunca sabe se vai poder sair no domingo à tarde, por que é sempre um problema saber se vai haver segurança. Desta vez havia um efetivo de 20 policiais para garantir a paz num Largo da Ordem lotado. Na hora de fazer guerra, havia muito mais policiais disponíveis – não é interessante?

Que o episódio tenha acontecido com um trio elétrico pré-carnavalesco é muito sintomático. Curitiba tem uma longa história com música popular, como vêm demonstrando as pesquisas deste pessoal. Mas curiosamente esta história vem sendo sistematicamente escamoteada. Curitiba gosta de parecer sisuda, tem vergonha da música popular que se faz aqui. Quer parecer erudita, européia, e está disposta a calar a música popular, brasileira, mesmo com polícia.

Não custa lembrar que em 2011 uma ação policial igualmente truculenta calou o Beto Batata, que sempre foi o principal espaço para a música instrumental em Curitiba. Uma música que faz pouco barulho para a vizinhança.

Com a palavra, a sociedade curitibana.

–x–

P.S. complementei um pouco a questão no meu blog na Gazeta do Povo:

Curitiba pode ter música popular?

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