Márcio Steuernagel e a Sinfônica do Paraná: Valeria Bonafé, Leonardo Martinelli, Igor Maia e Almeida Prado

O maestro Márcio Steuernagel (Centro Cultural Teatro Guaíra - Divulgação)

O maestro Márcio Steuernagel (Centro Cultural Teatro Guaíra – Divulgação)

Hoje de manhã tivemos o concerto de encerramento da II Bienal Música Hoje, e que também era a final do Concurso de Composição promovido pela Fundação Teatro Guaíra e UFPR.

Compositores foram convidados a inscrever suas peças, das quais um júri escolhia finalistas para serem ensaiadas e apresentadas pela Orquestra Sinfônica do Paraná. Esta foi a segunda vez também que a programação da Bienal incluiu um concurso de composição. Na ocasião anterior, em 2011, foram selecionadas 5 finalistas, desta vez apenas 3. Mas o programa do concerto acrescentou uma obra de compositor já clássico, o recém falecido Almeida Prado.

Dois anos atrás eu fiz um comentário do concerto com as finalistas do concurso de composição. Naquela ocasião o concerto foi na noite de 5ª feira, e a obra vencedora do prêmio foi anunciada no concerto da noite de sábado. Eu acho que ficou mais adequado da maneira como foi feito agora: a OSP encerrou a programação da Bienal no domingo de manhã. Foram tocadas três obras finalistas na primeira parte do concerto – o público, o juri e a orquestra votaram. Depois do intervalo a peça de Almeida Prado possibilitou que a comissão organizadora computasse os votos, e a decisão do prêmio foi anunciada ao final do concerto.

Além dessa melhora na organização da programação, dando mais peso à OSP, como deveria mesmo ser, pois é o corpo orquestral oficial da cidade e do estado, pudemos notar um amadurecimento musical do concurso. O nível geral das obras finalistas foi melhor que o de 2011. E a qualidade da execução da OSP também amadureceu muito. Quase que dá para dizer que a OSP está mais tarimbada para executar obras esteticamente ousadas, e está chegando a resultados mais convincentes.

Os finalistas eram Valéria Bonafé (1984), com a obra A menina que virou chuva, Leonardo Martinelli (1978), com O diálogo entre Vênus, Azael e Ogum e Igor Maia (1988), com De profundis. Os três compositores são atuantes em São Paulo, o que mostrou também uma certa nacionalização do concurso, uma vez que a edição anterior teve vários finalistas radicados no Paraná.

As três obras eram muito parecidas em técnica e estilo, mantendo um continuum sonoro sustentado quase sempre pelas cordas, e pontuado por eventos principalmente nos sopros e na percussão. As peças eram muito maduras em termos de técnica da escrita, e também de orquestração, o que impressiona bastante quando a gente olha a idade dos finalistas. Leonardo Martinelli, o mais velho dos compositores selecionados pelo júri (que analisou as partituras sem indicação de autor), está pelos 35 anos de idade, e já tinha chamado a atenção do público da Bienal por sua bela obra apresentada no concerto de segunda-feira, realizado pelo Platypus Ensamble.

O meu voto foi para a obra do Martinelli, não que eu fosse capaz de notar qualquer desnível de qualidade técnica nas obras, o que tornava o voto muito difícil, mas pela pura simpatia que a obra me provocou. Uma deusa grega (Vênus, representada pelo clarinete), um anjo do apocalipse (Azael, representado pelo trompete) e uma divindade africana (Ogum, representado pela percussão) dialogavam com intervenções realizadas por músicos posicionados da galeria do Teatro Guaíra, o que provocou ótimo efeito. A obra de Igor também se destacou pela variedade de usos da percussão (principalmente a técnica de “raspar” o tan-tan com a madeira da baqueta), e pelas ótimas intervenções da harpa e do piano, muitas vezes em perfeita sincronia evocando um belo efeito uníssono sobre a “cama” tecida pelas cordas.

A decisão era mesmo dura, e ao final seria anunciado o ganhador do prêmio. A comissão anunciou que não houve decisão unânime do júri, sendo o voto da orquestra e do público o que desempatou em favor da obra De profundis, de Igor Maia.

Para finalizar o concerto, a incrível Oré-Jacytatá, nº 8 da série Cartas Celestes, para violino e orquestra, de Almeida Prado. O compositor de Campinas resolveu acrescentar uma nova obra à série que tinha sido concluída em 1983 marcando a parte mais notável de sua produção. Desta vez, a retomada da série se dava em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil.

A obra é muito impactante, de grande força artística. Para ficar nas execuções que vi em anos recentes com a OSP, eu colocaria a peça de Almeida Prado ao lado da Sinfonia Fantástica de Berlioz, ou do Concerto para violino de Tchaikovski, ou da Segunda Sinfonia de Mahler, ou da Sagração da Primavera de Stravinski, ou ainda do Canticum naturale de Edino Krieger. Todas obras de grande força, que causam aquele impacto no ouvinte, que imediatamente se identifica diante de eventos marcantes da força criadora da humanidade, que dão a certeza de estar frente a clássicos perenes. No concerto de hoje isso ficou evidente quando a reação espontânea imediata do público foi de aplaudir de pé ao final da obra.

Aplaudíamos muita coisa: a incrível execução da OSP, o brilhante solo de Alessandro Borgomanero ao violino, o ótimo trabalho de ensaio direcionado por Márcio Steuernagel – e sua regência precisa. Aplaudíamos também o conjunto da programação da manhã – pois é muito difícil que um concerto só com obras recentes possa ser tão agradável ao público. Ao mesmo tempo é muito difícil imaginar qualquer lugar do mundo em que um concerto só com obras novas – e difíceis, seja assim tão bem tocado com tão poucos ensaios. O que faz a gente sair de peito estufado de orgulho da orquestra que gente tem em Curitiba.

E também, claro, estávamos aplaudindo toda a equipe que organizou a II Bienal. Um evento como esse vem surpreendendo a todos – a gente estava acostumado a viver numa cidade tão conservadora e tão sem importância no mundo musical que vai demorar pra cair a ficha que as Bienais Música Hoje estão transformando Curitiba num importante centro de realização de música nova, que estamos entrando no mapa da melhor maneira que se poderia imaginar.

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