Luis Fernando Veríssimo: Jazz – uma edição Kindle

A capa da edição. Segundo Dapieve, é para funcionar em thumb nail

A capa da edição. Segundo Dapieve, é para funcionar em thumb nail

O livro só tem em Kindle (que eu leio no PC, por enquanto). É parte da coleção Foglio, que a Editora Objetiva planejou para entrar nos domínios do livro eletrônico com um produto mais direcionado. Pelo menos é o que disse o Arthur Dapieve, diretor da coleção, numa entrevista que ouvi na CBN uns dias atrás, e o que confirma a página da coleção no Facebook. Falo mais sobre a coleção e o trabalho da editora no final desta resenha, que primeiro eu quero falar do texto do Veríssimo.

Textos de Luis Fernando Veríssimo sempre são ótimos, e o livreto é bem baratinho (paguei R$ 4,75 – confira aqui na loja Kindle). Ou seja, corri risco praticamente zero com a compra. Porque a tal amostra que eles mandam pra gente conferir não tinha simplesmente nada – anotem aí um ponto negativo para a coleção, que já adianto serão muitos. Amostras Kindle costumam ser trechos inteiros de livros. Só para comparar, este livro mandou uma amostra com o sumário, a introdução, o 1º capítulo inteiro e ainda parte do segundo – isso sim é fazer e-book decente. Isso já ajuda a provar minha tese de que editoras pequenas aproveitam melhor o Kindle do que as editoras já consolidadas, o que vai gerar uma reviravolta no nosso mercado editorial, no médio prazo.

Vocês já perceberam que, mais do que comentar o livro do Veríssimo, eu quero ficar de olho em como as editoras estão usando o Kindle nesta fase inicial no Brasil.

Mas voltando ao livro do Veríssimo (isso é uma resenha do livro, não posso me esquecer): é uma coletânea de textos curtos, o que remete ao tipo de texto que o Veríssimo escreve melhor. Suspeito que foram textos escritos para jornal, mas infelizmente não há nenhuma informação quanto a isso no livro. (Mais um ponto negativo, estão anotando?) Segundo aquela entrevista do Dapieve, que também falou especificamente deste livro, são textos já publicados em jornal e outros inéditos. Mas o livro simplesmente não traz nenhuma informação sobre formato e data de publicação original. Eu, por exemplo, queria saber.

Tudo bem. Voltando ao livro.

São 15 textos curtos. O primeiro texto é sobre o primeiro encontro entre músicos brancos e negros num concerto no Carnigie Hall em 1938 (Benny Goodman e Count Basie). Depois tem um que simula um encontro entre Benny Goodman e Jorge Luis Borges, que morreram pela mesma hora. Segue um depoimento sobre o dia em que Veríssimo adolescente assistiu ao vivo o quinteto de Parker e Gillespie no Birdland em Nova York (o pai dele, Érico Veríssimo, trabalhava na União Panamericana em Washington, e o filho escapava sempre que podia para a capital do jazz ao vivo).

Depois tem uma resenha do filme Bird, dirigido por Clint Eastwood. Como o filme é de 1988, imagino que o texto é daquela época. O que dá uma ideia do possível escopo deste livreto. Seria legal se a editora dissesse, em algum lugar, que estamos lendo textos que podem ser tão antigos quanto 24 anos atrás. Nada contra, eu só queria poder saber disso.

Aliás, a resenha do filme é ótima, como todos os textos do livro – respeitando-se os limites do formato proposto. Segundo o Dapieve, a coleção Foglio propõe livros de até 15 mil palavras, que não seriam viáveis em formato impresso. Como o livro é uma coletânea de textos que não pretendiam ser coletaneados, apenas versam sobre o mesmo assunto, acaba muita coisa sendo repetitiva.

Mas o próximo capítulo é sobre Miles Davis, e nunca vi alguém dizer tudo o que precisa sobre um assunto em tão poucas palavras. Tem muita explicação muito boa sobre tudo que Miles fez, mas Veríssimo resume o gênio em uma frase: “Um homem tem direito a fazer quantas revoluções por vida?”

Segue outro texto comparando as autobiografias de Miles Davis e Chet Baker. O Veríssimo pergunta se a autobiografia do Miles saiu em português: em inglês é de 1989, em português saiu em 1991. Será que este texto foi escrito no intervalo deste meio-tempo? Vai saber. Não foi não – acabo de pesquisar e descobrir que a autobiografia do Chet Baker saiu em 1998. Mas é legal que o Veríssimo cobra dos dois mais informação sobre a música nos seus registros. Eles falam muito de assuntos pessoais que não interessam (a não ser aos que amam uma boa fofoca) e pouco de seus processos criativos, seus discos, etc. (Neste sentido, ainda acho que a autobiografia ideal é Os sonhos não envelhecem, de Márcio Borges, relançada recentemente). Novamente Veríssimo sintetiza tudo numa explicação bem simples, comparando os dois músicos:

Segundo Miles, Chet o copiava. Não é exatamente verdade. Chet tocava sem vibrato, como Miles, mas não dava para confundir os dois. O fraseado era diferente. Chet era um grande improvisador, um dos melhores da história do jazz, mas lhe faltava o que Miles tinha. Pegada, está aí. Musicalmente, não quer dizer nada, mas é a palavra exata.

Musicalmente quer dizer muita coisa sim.

Essa história de que os textos ficam repetitivos (e que a coleção é uma colcha de retalhos mal remendada) fica provada quando a gente passa para o texto seguinte e descobre que é uma resenha da autobiografia do Chet Baker saída em tradução no Brasil. O legal é que Veríssimo foge do assunto: aproveita a deixa de que Gerry Mulligan é o único músico mencionado no livro de Chet Baker, e passa para as anedotas de um encontro seu com o saxofonista em Porto Alegre.

O texto seguinte é a propósito de uma passagem de Dave Brubeck para tocar em Porto Alegre. Veríssimo aproveita para elogiar Paul Desmond (o saxofonista da banda, e compositor do hit Take Five), uma forma elegante de dizer que não gostava do pianista.

Seguem-se algumas crônicas de experiências jazzísticas em Paris: uma apresentação de Archie Shepp assistida na capital francesa (Veríssimo se surpreende pelo vanguardista mais radical do Free Jazz se permitir cantar uma canção francesa banal sem nem rearmonizá-la); uma estátua de Sidney Bechet como desculpa para dizer que Paris amaciou demais o pioneiro do sax soprano – aproveitando para dar corpo à tese de que os jazzistas ficam melhores enfrentando o racismo e o comercialismo in loco nos EUA, e não usufruindo glórias fáceis na cidade luz.

O livro também é cheio de curiosidades anedóticas, e para mim a melhor de todas é a história do saxofonista Bob Fleming, que sempre vendeu muito bem no Brasil, mas do qual ninguém sabia nada. Veríssimo nos revela ter sido um pseudônimo de Moacyr Silva, um baita saxofonista brasileiro completamente desconhecido, e apenas mais um dos muitos músicos brasileiros que precisaram disfarçar nomes em inglês para experimentar um pouco de sucesso. Esse texto a gente descobre que foi escrito em 2002, por ocasião da morte do músico.

www.youtube.com/watch?v=d2m7497RkE0

Tem um textinho bem curto só pra dizer que João Gilberto não foi imitação do jeito de cantar de Chet Baker (eu acho que a prova foi cabal – confiram lá).

Na categoria dos anedóticos tem mais um texto impagável comparando Gershwin e Cole Porter. E outro comentando de forma existencialista o envelhecimento de Frank Sinatra e o fato de que a voz colecionava trens de brinquedo. E o texto final, sobre uma droga de bar que anunciava ser um reduto do BeBop, que certamente não serve para ser o texto final de um livro como esse.

Os textos do Veríssimo são sempre ótimos, o que não quer dizer que se você juntar vários deles sobre o mesmo assunto vira um livro.

Foi o que a Objetiva tentou fazer. Eu, se fosse o autor, proibia. Mas, sei lá, vai que ele não tem controle sobre alguns direitos. Ou não entendeu direito a proposta.

Como deu pra perceber desde o início desta resenha, eu me empolguei com a possibilidade da coleção ao ouvir a entrevista, escolhi o título que me seria mais propício, e comecei a ter decepções demais já com o envio da amostra Kindle. Segui tendo decepções com a leitura, e terminei melhor do que comecei: ficou confirmado que a coleção é ruim, a editora não entendeu nada do que é publicar em Kindle, mas pelo menos o Veríssimo segura a onda. Os textos são ótimos exemplos de crítica musical certeira e muito bem humorada. Aliás, porque o Veríssimo não tem um blog? Ah, sim, porque ele não ia fazer de graça o que já faz muito bem remunerado, escrevendo crônicas deliciosas para jornal.

Algumas estão neste livreto.

P.S. Não sei como eles conseguiram, mas até a letra fica apagada. Nunca tinha visto isso em Kindle. Me pareceu que a editora, na falta de alguém em condições de fazer uma edição eletrônica digna, passou a tarefa pro primeiro estagiário que passou na frente do chefe. Espero que aprendam. Ou melhor, espero que outras editoras, que respeitam melhor o público leitor, usem melhor esta ferramenta tão promissora que é o livro eletrônico.