São Paulo não quer José Serra: considerações sobre o Datafolha de 28 de agosto

Gráfico da pesquisa espontânea – clique que amplia

Ainda é cedo para fazer afirmações sobre o resultado das eleições que acontecerão em outubro. Mas as pesquisas já indicam uma tendência bem clara para São Paulo.

O Datafolha disponibiliza relatórios completos de suas pesquisas, com uma montanha de informações segmentadas. Uma análise detalhada desses dados se faz necessária quando se quer entender o cenário, pois a imprensa em geral passa por cima dos detalhes e divulga apenas parte dos dados.

Os relatórios estão aqui, para quem quer consultar: Datafolha de 21 de julho; Datafolha de 20 de agosto; Datafolha de 28 de agosto.

Opto sempre por analisar os dados da pesquisa espontânea: aquela em que o entrevistador pergunda “em quem o sr(a). pretende votar em outubro?” Note que essa pergunta capta a intenção que o eleitor já tem na ponta da língua, enquanto a pesquisa estimulada avalia a indicação do entrevistado a partir da lista de candidatos.

Opto também por fazer gráficos com o percentual de votos válidos, pois é com esse dado que o TSE finaliza o resultado das eleições.

Assim, pode-se fazer análises bem consistentes dos rumos que o elitor vai tomando.

Aqui está um pdf feito por mim com os principais dados planilhados e em gráficos (como o que ilustra o post). São segmentações por gênero, idade, escolaridade e renda.

Chamam à atenção as seguintes tendências:

  • O eleitorado masculino (54% já indicam candidato espontaneamente) já dá empate técnico entre Serra e Haddad em segundo lugar (p. 2 do pdf)
  • Entre os eleitores de 25 a 34 anos (a faixa mais jovem que separei no pdf, p. 4) Serra está empatado com Chalita em terceiro
  • No eleitorado com Ensino Superior, supostamente o mais bem informado, há maior equilíbrio (p. 8 do pdf)
  • Haddad não está crescendo no eleitorado entre 5 e 10 Salários Mínimos (p. 9 do pdf)
  • Haddad ultrapassou Serra no eleitorado com renda de menos de 2 Salários Mínimos (p. 11 do pdf)

E uma coisa que não está nestes gráficos, mas é clara no relatório do Datafolha: Serra é o candidato que tem maior rejeição. No total do eleitorado está em 43%. Mas chega a 50% entre os eleitores com até 34 anos.

Meu palpite é que Serra atraiu para si a rejeição do eleitorado por três fatores principais:

  • pela campanha sórdida que fez na eleição presidencial de 2010, o que ficou agravado depois que o eleitorado percebeu que Dilma não é o demônio que pintaram (está mais bem avaliada que Lula em começo de mandato)
  • pela ligação com Kassab, cujo mandato é uma extensão do de Serra, e que é muito mal avaliado pelo eleitor
  • pelo fato de que da última vez em que se candidatou a prefeito Serra prometeu não abandonar o cargo antes do final do mandato, promessa que descumpriu menos de dois anos depois para disputar o governo estadual em 2006

Recomendo que você veja também as excelentes análises do Elton Flaubert no Razão Crítica.

2 thoughts on “São Paulo não quer José Serra: considerações sobre o Datafolha de 28 de agosto

  1. Hugo Albuquerque

    Pela pesquisa Ibope, aliás, a situação de Serra se complicou mais ainda: no estimulado, estaria 20 x16 de Serra sobre Haddad — o que confirma o boato sobre o tracking do PSDB vazado antes desta pesquisa Datafolha que afirmava, por sua vez, 19 x 17 para Serra sobre Haddad. Existem fatores como os que você bem elencou, André, mas um deles é que o PSDB, em si, é fraco na capital paulista: só levou em 2004, quando Serra nacionalizou a disputa se colocando como o anti-Lula e nunca mais. Mas antes, não custa lembra, o próprio Serra levou ferro em 88 e 96, ficando apenas com o terceiro lugar em ambas as ocasiões. Nesta eleição, com o partido completamente rachado — e com Alckmin apoiando quase abertamente Chalita –, as coisas estão mais difíceis ainda. Mas Russomano é um fenômeno.

     
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